UM ROMANCE NA COVILHÃ

 Agosto de 1983

 Na Covilhã, entre as ruas de pedra e o ar fresco que desce da serra, vivia um adolescente humilde e um pouco tímido. Ele tinha um sonho de menino que nunca o abandonara, queria sentir que a sua vida dava uma grande história, daquelas que se contam anos depois.

 Numa tarde de verão, depois das matriculas no liceu, subiu até ao centro da cidade. O sol dourava as arcadas dos Paços do Concelho, e o movimento das pessoas fazia-o imaginar para onde iriam, que segredos teriam. Mas o seu lugar era o jardim - um refúgio verde com bancos antigos, o lago com peixes, belos canteiros com flores coloridas e árvores altas que sussurravam ao vento. 

Foi lá que ele a viu pela primeira vez. 

Ela estava sentada nos bancos frente às grades que serviam de miradouro para a serra da estrela, a balançar os pés distraidamente enquanto lia um livro. Tinha ao lado uma mochila com uma toalha de banho a espreitar. Xavi Reconheceu-a; já a tinha visto na piscina municipal, sempre a nadar como se o mundo desaparecesse debaixo de agua. 

Nesse dia algo diferente aconteceu. Uma bola de um grupo de crianças rolou até ao lago do jardim, ficando presa perto da borda escorregadia. Sem pensar, Xavi aproximou-se para ajudar, mas o pé fugiu-lhe - e quase caiu à agua. Antes disso uma mão segurou-lhe o braço. 

-Cuidado - disse a rapariga do livro, rindo. 

-Heróis também escorregam.

Assim começaram a conversar. Descobriram que ambos iam muitas vezes à piscina, que gostavam do mesmo tipo de música e que partilhavam a sensação de querer "algo maior" da vida. Nos dias seguintes passaram a encontrar-se: às vezes nadavam juntos, desafiando-se em corridas, outras vezes passeavam pelo centro da cidade, inventando histórias, e quase sempre terminavam no jardim, onde falavam dos seus sonhos.

Certa tarde, ela confessou que talvez fosse mudar de cidade no ano seguinte. Xavi sentiu um aperto - como se o Verão ficasse mais curto de repente. Então teve uma ideia: no dia seguinte, levou-a até ao seu miradouro favorito,  monumento de Nossa Senhora da Conceição, de onde se via a cidade inteira.

-Eu não posso prender-te aqui - disse ele.

-Mas queria que soubesses que, aconteça o que acontecer , fizeste parte da minha história.

Ela sorriu, com os olhos brilhantes.

- Então escreve uma história bonita - respondeu - e garante que eu apareço nela. 

O primeiro gesto de romance veio tímido; sentaram-se lado a lado, mãos quase a tocar, até que tocaram mesmo. Não foi um grande beijo de cinema, nem promessas eternas. Foi melhor, foi verdadeiro. 

O verão acabou, como todos acabam. Mas Xavi percebeu algo importante - o sonho de menino não era viver uma aventura distante. Era aprender a ver a aventura e romance nos dias simples, na sua própria cidade, nas pessoas que entram na nossa vida quando menos esperamos.

E durante muito tempo, sempre que passava pelo jardim, sorria. Porque sabia, a sua história já tinha começado. 

Bom dia para todos nós 🍀



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