SÊ A VOZ DA MUDANÇA

O mundo continua igual… quem paga sempre são os mais frágeis, os esquecidos, os que ninguém defende.

Fala-se muito… mas faz-se pouco.

E mesmo assim, não podemos calar-nos.

Porque uma gota pode perder-se no oceano…
mas milhares de gotas transformam-se em força, em voz, em mudança.

Nunca deixes de ser uma delas.

Bom dia para todos nós🍀



NÃO TOLERO, PONTO.

Há coisas que já não tolero.

Não tolero falsidades —
palavras bonitas que não são sentidas,
elogios vazios ditos só para agradar.

Não tolero quem fala de todos…
mas nunca tem coragem de falar para alguém.

Não tolero quem se põe em bicos dos pés,
nem quem esquece de onde veio
só para parecer maior do que é.

A vida ensinou-me a reconhecer o que é verdadeiro…
e a afastar-me do que é apenas aparência.

Prefiro a verdade, mesmo que doa,
à mentira bonita que só engana.

Porque no fim…
ser é sempre mais importante do que parecer.

Não tolero, ponto.



SPORTING TRICAMPEÃO DE ANDEBOL











 

MÃE QUE PARTISTE...


🌹Mãe que partiste cedo demais,
ficou o silêncio onde antes havia o teu colo.

Ficaram as memórias, os gestos,
o amor que nunca se apaga.

Hoje, no Dia da Mãe,
não te posso abraçar…
mas sinto-te em tudo o que sou.

Porque uma mãe nunca parte de verdade —
vive para sempre no coração de um filho. 

Para todas as Mães do meu pequeno mundo,
um feliz dia da mãe🌹



AS DORES QUE NINGUÉM VÊ

 🌼Há amigos a viver sós.

 🍂Há amigos a lutar em silêncio.

 🍂Há amigos com dores que ninguém vê.

Nem tudo é um mar de rosas…
mas também nenhuma tempestade dura para sempre.

Acredita.
Todos os dias são uma nova oportunidade para recomeçar.

Bom dia para todos nós 🍀



SERÁS SEMPRE A MINHA RUA

RUA COMENDADOR CAMPOS MELO, MAIS CONHECIDA POR RUA DIREITA, COVILHÃ, ANOS 70'

Quem vem do Jardim Público, do lado direito da rua, encontra a mercearia do Sr. Raul Paiva, carinhosamente tratado por “Menino” pelas suas clientes. Era o tempo das mercearias tradicionais, onde quase tudo se vendia a granel e se levavam as encomendas mais pesadas a casa. Era também a época em que a maioria das pessoas pagava quando recebia o salário.

Mesmo ali, no exterior da loja, estava o polícia sinaleiro, pois a rua tinha dois sentidos e era preciso controlar o trânsito que vinha do lado sul, da Aldeia do Carvalho, e do outro lado, do Pelourinho.

A alfaiataria do Sr. Mendes, um exímio alfaiate. Seguindo por esse lado, encontrávamos dois cafés seguidos: o Montanha (na altura propriedade do Sr. Laranjo) e o Danúbio, cujo proprietário era o meu saudoso pai, conhecido por todos como “Caninhas”. Quem conheceu sabe que qualquer um dos dois cafés tinha uma cave onde se podia jogar bilhar ou matraquilhos.

Em frente ao Danúbio ficava o edifício do Orfeão da Covilhã e, no piso superior, o Clube Nacional de Montanhismo. No rés do chão funcionava o Banco Lisboa e Açores. Mais à frente ficava a primeira loja do Sr. Diniz, que viria a abrir, em frente, uma das melhores lojas de comércio da cidade. Um pouco ao lado existia a loja do Sr. Zeca — lembro-me de que o Sr. Zeca da Pinheira oferecia prémios nos jogos do Sporting da Covilhã; entre esses prémios estavam camisas de marca para quem marcasse o golo da vitória. Outros tempos!

Continuando em direção ao Pelourinho, encontrávamos a Livraria Nacional do Sr. Santos, uma das melhores da cidade. Quero realçar que todos estes senhores eram de uma simpatia extrema: tratavam sempre muito bem os clientes, com um sorriso nos lábios.

Antes das escadas do Quebra-Costas estava o comércio do Sr. Pombo (Electro Selfe) e, em frente, a Casa Fael. Já com o centro da cidade à vista, não podemos esquecer a amabilidade do Sr. Esteves; a loja do Sr. Cardona, onde encontrávamos todo o tipo de ferramentas e acessórios; a sapataria do Sr. Gabinete; a Casa BRINCARTE, com os brinquedos e jogos da época; a Casa Sousa; a Farmácia Mendes; a Ourivesaria Pacheco, que antes estava instalada em São Silvestre; a Ourivesaria Patrão; Ourivesaria Tavares, Perfumaria Mário, Seguros Tranquilidade, Sr. Sardinha, Camolino, e o Café Leitão (o do café em saco). Perdoem-me todos aqueles de quem já não me recordo.

Logo de manhã, a rua era ocupada pelos operários que iam e vinham das fábricas, pelo primeiro autocarro que chegava da Aldeia, pela motorizada do padeiro, e pelas senhoras que iam cedo ao mercado (praça).

Era uma das ruas mais movimentadas da cidade, com o comércio a funcionar em pleno.

Saudades da neve a cair, das brincadeiras de Carnaval (quando se colocava uma moeda presa no passeio e as pessoas se baixavam para a apanhar sem conseguir), saudades de toda aquela gente boa que referi e que já não está entre nós… saudades do Jardim, saudades de ir pedir uma vela ao Sr. Paraíso, da agência funerária, quando faltava a luz, saudades do Natal em que as famílias se reuniam à mesa…

Seja como for, a rua continua lá — diferente, é certo, mas sempre linda. Será sempre a “minha” rua.

Bom dia para todos nós 🍀





DEPENDÊNCIAS E DEPRESSÕES

Nem sempre quem está mal mostra.
Às vezes… sorri.

Vivemos rodeados de sinais que ignoramos.
Dependências são mais visíveis — álcool, drogas, jogo.
Mas até aí, quem sofre… nega.

Já a depressão é silenciosa.
Cumprimenta-te, ri contigo…
e por dentro pode estar a desabar.

 Fica atento a sinais:
• Isolamento constante
• Mudanças bruscas de peso
• Olhar vazio
• Marcas no corpo
• Comportamentos estranhos

Pode não ser nada…
mas pode ser tudo.

Fala. Pergunta. Ouve.
Às vezes, uma conversa pode salvar uma vida.

As doenças mentais matam.
Estar atento… é ser amigo. 

Bom dia para todos nós🍀



REGRAS QUE SÃO SAUDADES

Hoje lembrei-me das frases dos meus pais…

Simples. Diretas. Mas cheias de tudo.

"Agasalha-te, que está frio."
"Quero-te em casa às 11."
"O jantar está pronto, vem já!"
"Já fizeste os deveres?"
"Não fales com estranhos."
"Não te demores… e traz o troco."
"Vai dormir, amanhã há escola."

E aquele olhar do meu pai… que dizia mais do que mil palavras.

Na altura eram regras.
Hoje são saudades.

E, sem percebermos, foram elas que nos fizeram quem somos.

Onde quer que estejam…
Obrigado, Pai.
Obrigado, Mãe.💗

Boa noite para todos nós🌙



DOMINGO CASEIRO

 Olá seguidores e amigo/as:

 Domingo caseiro, dia de fazer um balanço da situação atual. 

 O Fábio está em casa a recuperar depois de ter sido intervencionado à perna. Felizmente e até ao momento, o restabelecimento está a correr bem. 

 A Ana está em tratamentos e exames para no fim do mês, principio do outro, ser reavaliada pelo médico. Esperamos que seja desta que as coisas possam evoluir positivamente. 

 Quanto à minha RP (Renovação Pessoal), está a fazer o seu percurso com o objetivo de melhorar a cada dia, sempre no foco do amanhã ser melhor que hoje. 2 anos, 2 meses, 16 dias, o caminho faz-se caminhando sempre pela luz. 

 No desporto o Sporting qualificou-se para a final da taça de Portugal ao eliminar o FCPorto, luta pelo segundo lugar no campeonato que lhe dá acesso a entrada direta na liga dos Campeões. 

 O Sporting Clube da Covilhã carimbou ontem a manutenção na Liga 3, numa época bastante difícil e atribulada.

 Como já disse, domingo caseiro, a Ana foi à quinta levar comida aos animais, eu fico por casa dar assistência ao Fábio, ao mesmo tempo que faço uns trabalhos caseiros e coloco a escrita em dia nas redes sociais. Por falar em redes sociais, agradecer a todo/as que fazem crescer as minhas páginas de seguidores, aqui no Blogue, e nas páginas do Facebook, Covilhã és linda terra, Recordar é Viver e claro, a minha página pessoal. 

 Bom domingo

 Abraço 



O 25 DE ABRIL VISTO COM OS MEUS OLHOS

UM DESABAFO DE QUEM VIVEU… E NÃO ESQUECE

Eu não dou muita margem a quem lê e não reage…
e até fico satisfeito — porque, pelo menos, tentam entender os meus rabiscos.
Isto das redes sociais tem muito que se lhe diga…
Eu sou do tempo do Robin dos Bosques, do Dallas, do Marco e da Heidi…
Nesse tempo, éramos felizes com uma simples pirolita no jardim público da Covilhã.
Sou o que sou. Sempre fui.
Não faço diferenças nem indiferenças para ninguém.
Erros? Ui… mais que muitos.
Mas quem nunca errou que atire a primeira pedra.
Também não sou dos que se armam mais que os outros…
porque ninguém é mais do que ninguém.
Mas há coisas que não gosto:

viver na sombra
 fazer-me de “coitadinho”
Prefiro mil vezes dizer verdades…
do que viver de mentiras bonitas.

Sempre defendi um país mais justo.
Porque “coitados” são aqueles que:
 acordam às seis da manhã
 tratam dos filhos
 trabalham o dia inteiro
 e só regressam a casa ao anoitecer
Desses, sim… pouco se fala.

Sou do tempo do OMO lavado à mão (passo a publicidade),
da televisão a preto e branco com quatro canais,
onde o comando… era o dedo indicador.
 Rádio para ouvir notícias, relatos de futebol e radionovelas.
Sou do tempo das fábricas,
das mães com os filhos,
dos avós presentes até ao fim.
 Jogos de futebol às 15h
 relatos na rádio
 brincadeiras na rua — fizesse sol ou chuva — sem dar conta do tempo

Sou do tempo de ir a Fuentes de Oñoro comprar caramelos espanhóis…
e apresentar passaporte na fronteira.
 Escola com respeito e disciplina
 rios, estações e províncias decoradas
 catecismo e a primeira comunhão
livros com histórias que ainda hoje vivem na memória
Saudades desse tempo?
Algumas.
Fui feliz como criança.
Da miséria ninguém tem saudades.

Mas também não tenho orgulho no país em que Portugal se está a transformar…
Isto é apenas um desabafo.
Que o futuro seja melhor.
Mais justo.
Mais risonho.
 
MEMÓRIAS DE UM TEMPO QUE MUDOU TUDO

Andava eu no Ciclo preparatório da Covilhã…
debaixo do braço levava o “Je Commence”, da Nicole, Robert e Patapouf 

Mas o mundo… estava longe de ser inocente.
A guerra no Ultramar continuava a fazer vítimas.
 O país sentia o peso de a manter.

Enquanto isso…
 lá fora, a Europa mudava.
Paris lançava modas — minissaias, biquínis… liberdade.

E em 1969… o mundo parou para ouvir música.
 Festival de Woodstock
Três dias que marcaram uma geração.
Paz, amor, liberdade.
Nomes como Janis Joplin e Jimi Hendrix tornaram-se eternos.
Mas por cá…
 
Portugal continuava fechado.
 Não havia eleições livres.
 A PIDE perseguia quem ousasse discordar.

Mesmo assim, a vida seguia:
“Crónica Feminina” nas mãos das mulheres
 Héctor Yazalde era o meu ídolo
 Sinaleiros a comandar o trânsito
Café a 1$50
 Pão a 10 tostões
 Cinema a 15$00
Casas a 200 escudos a renda
Jornal a 1$00
SG Gigante 4$00

E depois…
25 de Abril de 1974

Nesse dia, a aula de educação física foi no jardim público.
Equipamentos branquinhos… tudo normal.
Ou talvez não.
Na província, pouco ou nada se sabia.
Sem internet. Sem notícias imediatas.
A rádio falava… mas a conta-gotas.
À tarde?
 Futebol com os amigos de São Francisco, no campo das festas.
A revolução estava na rua…
mas a mais de 300 km de distância.
 À noite, em casa… algo era diferente.
Olhos colados ao pequeno ecrã.
Sorrisos. Emoção.

E de repente…
“Viva a Liberdade!”
 “Somos Livres!”
 “Povo MFA!”
As ruas encheram-se.
O povo despertou.

O 1.º de Maio de 1974 foi um mar de gente.
Uma alegria impossível de esquecer.
Eu?
Um miúdo de 12 anos…
mas a sentir que algo enorme tinha acontecido.
Feliz por ver o meu irmão regressar do Ultramar (Angola).
Feliz por ver um povo inteiro a sorrir.
Sim…
vieram erros depois. Muitos.
Mas uma coisa é certa:
 Hoje vivemos melhor
Temos mais conforto
 Mais liberdade
Mais voz

Mesmo com defeitos.
Mesmo com excessos.
 Somos livres.
E disso…
não abrimos mão.

Bom dia para todos nós🌹



25 DE ABRIL SEMPRE!

 GRÂNDOLA VILA MORENA 🌹




UM INCÊNDIO NO CORAÇÃO DA CIDADE

Lisboa teve o Chiado…
mas antes disso, a Covilhã viveu o seu próprio drama.
 
Dezembro de 1976.
O fogo não consumiu apenas edifícios…
consumiu histórias, vidas, memórias.
Houve um tempo em que a Rua Capitão Alves Roçadas era uma das mais vivas da cidade.
Cheia de gente. Cheia de comércio. Cheia de vida.
Do centro até São Silvestre…
portas abertas, vozes na rua, encontros marcados.
Hoje?
Silêncio.
CTT, alguns escritórios… e pouco mais.
Mas quem lá passou… nunca esquece.
Lembram-se do polícia sinaleiro?
Do caminho até ao Largo de São Silvestre?
Da primeira máquina de flippers no Café Central?
Pequenos momentos…
que hoje valem tudo.
 Esta era a nossa rua.
O nosso “Chiado”.
Uma rua feita de nomes, rostos e histórias:
mercearias, alfaiates, barbearias, tabernas…
gente que fazia da Covilhã aquilo que ela é.
E depois… o incêndio.
 Levou paredes…
mas não levou a memória.
Porque ela continua viva — em cada recordação, em cada conversa, em cada saudade.
 Para todos os que viveram, trabalharam e passaram por ali…
esta é a minha homenagem.
A cidade muda.
Mas a memória… essa nunca arde.

Bom dia para todos nós🍀



AGRADECIMENTO

Agradeço a todo/as os que leram, reagiram e comentaram ao conto/romance "Nunca digas Nunca".

Quando o mar e a serra decidem viver juntos lindas coisas acontecem, a vida raramente segue linha direitas mas depois de tantas curvas tudo é possível.

Nazaré minha praia preferida, Covilhã a minha linda cidade, o mar e a serra uniram-se para celebrar o amor.

Às vezes escrevem-se histórias tão improváveis… que parecem impossíveis.

Mas não são.

Nas nossas vidas existe sempre uma história que fica em suspenso, por isso… NUNCA DIGAS NUNCA.
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Dia 25 de Abril vou colocar este romance em compacto para que todos os amigo/as e seguidores possam guardá-lo e partilhá-lo, se assim o entenderem.

Bom dia para todos nós🍀



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULOS XVIII E XIX

                             A conversa que ficou por dizer                    

O jantar decorreu com uma estranha mistura de alegria e silêncio.
À mesa, Henrique e Beatriz falavam animadamente, Cláudia e Paulo trocavam impressões sobre a viagem, a cidade, a universidade. Tudo parecia normal… demasiado normal.
Mas, por baixo daquela normalidade, havia uma história antiga que tinha regressado sem aviso.
David e Carol quase não falaram diretamente um com o outro durante o jantar.
Limitavam-se a pequenos olhares, discretos, como quem tenta confirmar que aquilo tudo era real.
Vinte anos depois.
Um momento a sós
Depois da sobremesa, Cláudia sugeriu:
— Vamos até à varanda, está uma noite agradável.
Paulo e os jovens acompanharam-na.
David ficou na sala por alguns segundos.
Carol também.
O silêncio instalou-se.
Finalmente, David falou:
— Queres… dar uma volta?
Carol assentiu.
— Sim.
Saíram de casa e começaram a caminhar pelas ruas da Covilhã.
A noite estava calma. As luzes da cidade espalhavam-se pela encosta e o ar fresco da serra trazia uma sensação quase familiar.
Durante alguns minutos caminharam em silêncio.
Até que Carol disse:
— Nunca pensei voltar aqui… assim.
David sorriu levemente.
— Nem eu pensei voltar a ver-te.
Pararam por um instante junto a um miradouro improvisado.
— Estás diferente — disse ele.
— Tu também… — respondeu Carol.
Houve uma pausa.
Não era desconfortável.
Era apenas… carregada de tudo o que ficou por dizer.
David acabou por tocar no assunto.
— Recebi a tua carta.
Carol baixou ligeiramente o olhar.
— Eu sei…
— Demorei muito tempo à espera dela.
— Eu também demorei muito tempo a escrevê-la.
David respirou fundo.
— Foi… dura.
Carol assentiu.
— Eu sei que foi.
Ficaram em silêncio por alguns segundos.
Carol olhou para ele com sinceridade.
— Nem tudo o que escrevi era exatamente o que sentia.
David franziu ligeiramente a testa.
— Então porquê?
Carol respirou fundo.
— Quando cheguei à Nazaré, tudo mudou muito rápido… a escola, os amigos, o mar… a minha vida virou do avesso.
Fez uma pausa.
— E em casa… os meus pais começaram a pressionar-me.
— Pressionar?
— Sim. Diziam que eu tinha de seguir em frente… que a distância era grande… que aquilo era coisa de jovens… uma paixoneta.
David ficou em silêncio, a ouvir.
— Diziam que eu não podia ficar presa a alguém que estava longe… que tinha de me concentrar nos estudos, na nova vida.
— E tu?
Carol olhou para o chão por um momento.
— Eu estava confusa… tinha saudades tuas, mas também estava a tentar adaptar-me. E acabei por acreditar que talvez fosse mais fácil cortar tudo de uma vez.
David assentiu lentamente.
— Por isso escreveste aquilo.
— Sim… tentei convencer-te… e convencer-me a mim também.
David soltou um pequeno sorriso triste.
— Resultou.
Carol olhou para ele.
— Magoei-te muito?
David demorou a responder.
— Na altura… sim.
O silêncio voltou.
Mas desta vez era mais leve.
Continuaram a caminhar até perto do Jardim.
— Sabes uma coisa? — disse David.
— O quê?
— Durante muito tempo pensei que para ti aquilo não tinha significado.
Carol parou.
— Teve… mais do que imaginas.
Olharam um para o outro.
Agora sem pressa.
Sem expectativas.
Apenas com a verdade que o tempo tinha deixado amadurecer.
— Mas a vida seguiu — disse Carol suavemente.
— Sim… seguiu.
— Tens uma família bonita.
— Tu também.
Sorriram.
Não havia arrependimento.
Apenas compreensão.
Quando voltaram para casa, encontraram os outros ainda na varanda, a rir e a conversar.
Henrique e Beatriz estavam sentados lado a lado.
Jovens, apaixonados, no início de tudo.
David e Carol trocaram um último olhar.
Desta vez diferente.
Sem peso.
Sem dúvida.
Apenas com a certeza de que, apesar de tudo o que aconteceu, aquela história tinha tido o seu tempo… e o seu lugar.
E talvez fosse isso que a tornava tão especial.

                                     
Capítulo XIX
                                 Nunca digas Nunca



Os anos voltaram a passar.
A vida seguiu o seu curso natural, como sempre tinha feito entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré.
Henrique e Beatriz terminaram o curso na Universidade da Beira Interior, começaram a trabalhar, cresceram juntos.
O amor que tinha começado de forma simples, numa sala de aula, tornou-se sólido, verdadeiro, maduro.
E um dia, sem surpresa para ninguém, decidiram dar o passo seguinte.
O casamento
O casamento foi marcado para um dia luminoso de verão.
A cerimónia realizou-se na Nazaré, perto do mar que tinha mudado a vida de Carol muitos anos antes.
A Praia da Nazaré estendia-se ao fundo, azul e infinita, como testemunha silenciosa de duas histórias que agora se cruzavam definitivamente.
Familiares e amigos juntaram-se. Risos, abraços, emoções partilhadas.
David e Cláudia chegaram cedo.
Carol e Paulo recebiam os convidados com um sorriso tranquilo.
Quando os olhares de David e Carol se cruzaram, houve um instante breve — quase impercetível — em que o passado voltou.
Mas já não havia dor.
Apenas uma memória bonita.
Henrique, de fato elegante, esperava junto ao altar improvisado.
Beatriz aproximava-se lentamente, acompanhada pelo pai.
O vento leve da Nazaré fazia mover suavemente o vestido.
Quando os olhos dos dois se encontraram, tudo o resto desapareceu.
Tal como tinha acontecido, muitos anos antes… com outras duas pessoas.
Durante a cerimónia, o celebrante falou de caminhos, de encontros e de como a vida tem formas inesperadas de unir pessoas.
— Há histórias que parecem terminar — disse ele — mas que, na verdade, apenas ficam à espera do momento certo para recomeçar de outra forma.
David olhou discretamente para Carol.
Ela sorriu.
Como se ambos soubessem exatamente o que aquelas palavras significavam.
Mais tarde, já durante a festa, Henrique levantou o copo para falar.
— Quero agradecer aos nossos pais… por tudo.
Olhou para David e Cláudia.
Depois para Carol e Paulo.
— E há uma coisa que aprendi com esta história toda… mesmo sem saber.
Fez uma pequena pausa.
— Nunca digas nunca.
Houve um silêncio breve.
Depois, aplausos.
David baixou ligeiramente a cabeça, sorrindo.
Carol limpou discretamente uma lágrima.
A noite caiu sobre a Nazaré.
As luzes acenderam-se, a música começou, e a festa continuou junto ao som das ondas.
David aproximou-se de Carol.
— Parece que afinal o mar ganhou à serra — disse ele, com um sorriso leve.
Carol respondeu:
— Ou talvez tenham aprendido a viver juntos.
Ficaram ali por um momento, a olhar para Henrique e Beatriz a dançar.
Duas vidas que começavam.
Duas histórias que se tinham cruzado sem saber… e que agora se uniam para sempre.
Epílogo
Anos antes, tudo tinha começado com um olhar numa piscina de verão.
Passou por cartas, despedidas, silêncios e reencontros.
E terminou — ou talvez recomeçou — com um casamento junto ao mar.
Porque a vida raramente segue linhas direitas.
Faz curvas, desvios, voltas inesperadas.
E, às vezes, escreve histórias tão improváveis… que parecem impossíveis.
Mas não são.
Porque, no fundo, há uma verdade simples que atravessa o tempo:
Nunca digas nunca.

                                            🌿F  I  M🌿



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XVII


                                      O destino escreve de novo


O ano de 1999 trouxe mais mudanças do que qualquer um poderia imaginar.

Na Covilhã, a Universidade da Beira Interior estava cada vez mais dinâmica, cheia de jovens vindos de várias partes do país.

Entre eles estavam dois que não faziam ideia da história que os unia.

Henrique e Beatriz

Henrique, filho de David e Cláudia, tinha decidido estudar Gestão. Era curioso, comunicativo e com vontade de fazer algo diferente do percurso do pai.

Beatriz, filha de Carol e Paulo, tinha escolhido o mesmo curso. Viera da Nazaré com sonhos próprios, mas também com uma curiosidade natural pelo mundo.

Conheceram-se numa aula.

— Posso sentar-me aqui? — perguntou Henrique.

— Claro — respondeu Beatriz.

O início foi simples. Trabalhos de grupo, conversas nos intervalos, cafés depois das aulas.

Mas rapidamente se tornou mais do que isso.

Havia uma ligação fácil, natural, quase inexplicável.

Como se se conhecessem há muito tempo.


Com o passar dos meses, começaram a passar cada vez mais tempo juntos.

Passeavam pela cidade, estudavam juntos e, por vezes, iam ao cinema Cine-Centro, ao Jardim público ou ao quiosque "Verdinho".

— Sabes — disse Beatriz numa tarde — esta cidade tem qualquer coisa especial.

Henrique sorriu.

— Tem… eu cresci aqui.

— Eu não… mas sinto-me bem aqui.

Olharam um para o outro.

E sem grandes palavras, perceberam o que estava a acontecer.

Apaixonaram-se.

Alguns meses depois, Henrique decidiu falar com os pais.

Numa noite tranquila, à mesa, disse:

— Há alguém que gostava que conhecessem.

Cláudia sorriu imediatamente.

— Finalmente!

David levantou os olhos.

— Então?

— Chama-se Beatriz… é da Nazaré.

Por um instante, David ficou em silêncio.

— Da Nazaré? — perguntou, quase automaticamente.

— Sim… veio estudar para aqui.

David assentiu lentamente.

— Então temos de a conhecer.

Henrique sorriu.

— Ela também quer conhecer-vos.

A viagem inesperada

Quase ao mesmo tempo, na Nazaré, Beatriz teve uma conversa semelhante com os pais.

— Vou apresentar-vos alguém — disse ela.

Carol trocou um olhar com Paulo.

— Então?

— Chama-se Henrique… é da Covilhã.

Carol sentiu algo estranho, um pequeno arrepio que não soube explicar.

— Da Covilhã?

— Sim… os pais vivem lá.

Paulo sorriu.

— Então fazemos uma coisa… vamos lá passar um fim de semana.

E assim ficou combinado.

No sábado seguinte, os pais de Beatriz viajaram até à Covilhã.

A cidade recebia-os com o ar fresco da serra e o movimento típico de um fim de semana.

Henrique combinou um almoço em casa.

David ajudava Cláudia a preparar a mesa, sem imaginar o que estava prestes a acontecer.

— Estão quase a chegar — disse Henrique.

David acenou.

— Ótimo.

O som do carro a parar lá fora ecoou na rua.

Henrique abriu a porta.

Beatriz entrou primeiro, sorridente.

— Pai, mãe… este é o Henrique.

David aproximou-se lentamente da sala.

E então viu.

Carol.

Durante um segundo, o tempo parou.

Vinte anos desapareceram naquele instante.

Carol também ficou imóvel.

Os olhos encontraram-se.

Nenhum dos dois disse nada de imediato.

Mas ambos reconheceram aquele olhar.

O mesmo de um verão distante.

O silêncio cheio de história

Cláudia e Paulo trocaram olhares, sem perceber completamente o que estava a acontecer.

Henrique e Beatriz olhavam, confusos.

— Vocês… conhecem-se? — perguntou Henrique.

David respirou fundo.

Carol esboçou um sorriso leve.

— Conhecemo-nos… há muitos anos.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável.

Era cheio de história.

De memórias.

De tudo o que tinha sido vivido… e deixado para trás.

Naquele momento, ninguém precisava de explicar tudo.

Bastava olhar para Henrique e Beatriz.

Dois jovens, apaixonados, exatamente como tinham sido um dia.

Mas com uma diferença.

Talvez agora o destino estivesse a dar uma segunda oportunidade… não a eles, mas à história que tinham começado sem saber.

E, entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré, duas gerações cruzavam-se num mesmo ponto.

Como se o tempo tivesse dado a volta completa.

Como se nada tivesse sido em vão. 


Continua…





NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XVI


                                        Vinte anos depois



1999

O tempo passou como passam as estações na serra e as marés no oceano.
Vinte anos depois daquele verão que tinha começado na Covilhã, tudo parecia diferente — e ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
A nova Covilhã
A cidade já não era a mesma.
Cresceu para sul, ganhou novas avenidas largas, edifícios modernos e um movimento que antes não existia. Onde havia terrenos vazios, agora havia bairros novos e comércio.
A antiga Piscina dos Penedos Altos continuava lá, mas agora coberta, transformada num espaço mais moderno, protegido do frio rigoroso da serra.
E mais abaixo, uma nova Piscina-Praia da Covilhã tinha sido criada, trazendo de volta, de outra forma, o espírito dos verões de antigamente.
David também já não era o rapaz calado que caminhava sozinho pelas ruas.
Agora era homem feito.
Casado com Cláudia, uma mulher tranquila e prática, com quem construiu uma vida estável, tinha um filho — Henrique, com 18 anos.
Henrique estava naquela fase da vida em que tudo parecia possível. Falava de estudos, de sair da cidade, de conhecer o mundo.
David via-se um pouco nele… mas também via aquilo que nunca chegou a fazer.
Era proprietário de um pequeno supermercado na cidade. Não era grande, mas era suficiente. Conhecia os clientes pelo nome, cumprimentava-os com um aceno e mantinha uma rotina que lhe dava segurança.
Às vezes, ao fechar a loja ao final do dia, ficava alguns minutos à porta a olhar para a cidade que crescia.
E, sem saber bem porquê, lembrava-se de um verão distante.
Entretanto, na Nazaré, a transformação também era evidente.
A vila tinha crescido, tornara-se mais turística, mais movimentada. No verão, as ruas enchiam-se de gente de todo o país e até do estrangeiro.
A Praia da Nazaré continuava imponente, mas agora rodeada por mais hotéis, restaurantes e vida.
A marginal estava mais moderna, a Praça Sousa Oliveira mais movimentada do que nunca.
Carol também seguiu o seu caminho.
Depois de terminar o curso na Universidade de Coimbra, ficou ligada à Nazaré, onde abriu o seu próprio consultório de advocacia.
Casou com Paulo, colega de profissão, também advogado. A relação tinha crescido com base no trabalho, na compreensão e numa vida partilhada com objetivos comuns.
Tinham uma filha, Beatriz, agora com 17 anos.
Beatriz herdara algo da mãe — a forma de observar o mundo com atenção — mas também tinha uma personalidade própria, mais inquieta, mais curiosa.
Muitas vezes fazia perguntas sobre o passado.
— Mãe, como era a tua vida antes da Nazaré?
Carol sorria.
— Diferente… muito diferente.
Mas raramente contava tudo.
De vez em quando, em momentos inesperados, o passado surgia.
Para David, podia ser quando passava pela antiga piscina ou quando via jovens reunidos na nova Piscina-Praia da Covilhã.
Para Carol, podia ser ao ver o pôr do sol na Praia da Nazaré ou ao ouvir uma música antiga na rádio.
Nenhum deles falava disso.
Mas ambos sabiam que aquela história existiu.
Duas vidas completas
David tinha uma vida simples, mas sólida.
Carol tinha uma vida mais agitada, mas realizada.
Nenhum deles era infeliz.
Mas também nenhum deles tinha esquecido completamente.
Porque há histórias que não ficam por resolver… apenas ficam guardadas.
Em 1999, o mundo era diferente.
As cidades cresciam, as pessoas mudavam, os filhos preparavam-se para sair de casa e começar as suas próprias histórias.
E, sem saberem, Henrique e Beatriz estavam exatamente na idade em que, anos antes, David e Carol se tinham encontrado pela primeira vez.
Talvez o destino tivesse ainda algumas páginas por escrever.
Talvez não.
Mas uma coisa era certa:
Entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré, havia uma história antiga… que o tempo nunca conseguiu apagar completamente.

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XV


                                Dois caminhos, duas vidas

Os anos passaram com a mesma inevitabilidade com que o tempo muda as estações.
Na Nazaré, Carol terminou o secundário com bons resultados e, como tinha decidido, seguiu para estudar Direito na Universidade de Coimbra.
A chegada a Coimbra foi, para Carol, mais uma mudança — talvez a mais marcante de todas.
A cidade universitária, com as suas ruas antigas, estudantes de capa e batina e o ambiente académico, parecia-lhe ao mesmo tempo exigente e fascinante.
Nos primeiros dias, sentiu-se novamente deslocada, como quando chegou à Nazaré. Mas rapidamente encontrou o seu lugar.
Fez novos amigos, integrou-se nas aulas e começou a viver a vida universitária com intensidade.
Entre livros de Direito, noites de estudo e conversas intermináveis, Carol começou a deixar para trás, pouco a pouco, as memórias da adolescência.
Foi também em Coimbra que conheceu alguém especial.
Um colega do curso, atento e inteligente, com quem começou a estudar… e depois a partilhar mais do que apontamentos.
Sem dar por isso, Carol voltou a apaixonar-se.
Desta vez de forma mais madura, mais consciente.
Enquanto isso, na Covilhã, David seguiu um caminho bem diferente.
Cumpriu o serviço militar obrigatório no Regimento de Infantaria de Castelo Branco.
Foram meses duros.
A disciplina, o cansaço, as rotinas exigentes e a distância de casa marcaram-no profundamente.
Mas também o fizeram crescer.
David saiu do serviço militar mais reservado, mais adulto… e com uma nova forma de olhar para a vida.
Quando regressou à Covilhã, decidiu começar a trabalhar.
Arranjou emprego numa pequena empresa de peças de automóveis da região. O trabalho era exigente, mas dava-lhe estabilidade e um rumo.
Os dias passaram a ser ocupados por horários, responsabilidades e rotinas que pouco tinham a ver com o jovem despreocupado que passava tardes na piscina.
O tempo muda os lugares
A cidade também mudava.
A antiga Piscina dos Penedos Altos, onde tudo tinha começado naquele verão distante, foi entretanto coberta.
Já não era o mesmo espaço aberto, cheio de sol e gargalhadas. Tornou-se um lugar diferente, mais moderno… mas sem aquela magia dos dias quentes de juventude.
Sempre que passava por lá, David não conseguia evitar uma pequena pausa.
As memórias continuavam lá.
Mas já não doíam como antes.
Com o tempo, também David começou a abrir espaço para novas pessoas na sua vida.
Conheceu uma rapariga da cidade — simples, alegre, com quem começou a sair sem grandes expectativas.
Ao início, tudo parecia leve.
Sem promessas.
Sem grandes planos.
Mas, pouco a pouco, a relação foi crescendo.
Não era como tinha sido com Carol.
Era diferente.
Mais calma, mais realista.
Talvez mais próxima da vida que agora levava.
Enquanto Carol vivia a intensidade da vida universitária em Coimbra, entre estudos, amizades e um novo amor, David construía uma vida estável na Covilhã, marcada pelo trabalho, pelas rotinas e por uma relação que crescia devagar.
Dois caminhos distintos.
Duas vidas que tinham partido do mesmo ponto — um verão na piscina — e que agora seguiam direções completamente diferentes.
Memórias que ficam
De vez em quando, sem razão aparente, surgiam lembranças.
Para Carol, podia ser um cheiro, uma música, ou uma tarde mais silenciosa em Coimbra.
Para David, bastava passar pelos Jardim dos Penedos Altos ou ouvir uma música antiga num rádio.
E por breves segundos, ambos voltavam àquele verão.
Mas já não com dor.
Apenas com uma nostalgia suave.
Como quem recorda algo bonito… que pertenceu a outro tempo.
Porque, no fundo, algumas histórias não precisam de continuar para terem sido importantes.
Basta terem acontecido.

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XIV

                                     O mar que guarda memórias


A viagem começou cedo numa manhã luminosa de verão.
Na rua ainda meio silenciosa da Covilhã, o pequeno Fiat 600 azul do pai de David estava carregado com malas e sacos de viagem.
O carro parecia pequeno demais para tudo aquilo, mas para a família era suficiente. Sempre fora.
— Vamos ver o mar — disse a mãe, com um sorriso.
David limitou-se a acenar com a cabeça.
Durante a viagem, o carro serpenteou pelas estradas da serra e depois desceu lentamente para as terras mais planas. A paisagem foi mudando: as montanhas ficaram para trás, os campos tornaram-se mais verdes, e o ar parecia cada vez mais leve.
Horas depois, quando finalmente chegaram à Nazaré, David viu o mar pela primeira vez.
Ficou em silêncio.
O oceano estendia-se até ao horizonte, enorme, vivo, diferente de tudo o que conhecia nas montanhas.
Os pais tinham arrendado uma pequena casa numa rua perto da Praia da Nazaré.
Da janela conseguia ouvir-se o som constante das ondas.
A mãe abriu as janelas para entrar o ar do mar.
— Cheira a férias — disse ela.
O pai riu-se.
— E a peixe também.
David pousou a mala no quarto e ficou algum tempo à janela, a observar a praia cheia de gente.
Sabia que algures naquela vila Carol vivia agora a sua nova vida.
Mas não fazia ideia se algum dia a voltaria a ver.
Nessa mesma tarde, David decidiu caminhar sozinho pela marginal.
As ruas estavam cheias de turistas, crianças com gelados, vendedores ambulantes e pescadores que regressavam da faina.
Enquanto passava por uma esplanada cheia de jovens a rir e conversar, ouviu uma gargalhada que lhe pareceu estranhamente familiar.
O coração acelerou.
Virou ligeiramente a cabeça.
E viu-a.
Carol estava sentada numa mesa com um grupo de amigos.
Conversava animadamente, gesticulava, ria com uma alegria natural.
Entre eles estava também uma rapariga que David nunca tinha visto — provavelmente a amiga Ana de quem Carol falara na carta.
Durante alguns segundos, David ficou parado do outro lado da rua.
Carol parecia feliz.
Muito feliz.
Uma felicidade simples, leve, como se o passado tivesse ficado muito longe.
David pensou em atravessar a rua.
Pensou em chamar o nome dela.
Pensou em aproximar-se e dizer apenas:
— Olá, Carol.
Mas as palavras nunca saíram.
Em vez disso, continuou a caminhar lentamente, como se tivesse medo de quebrar aquela imagem.
Talvez fosse melhor assim.
Talvez aquela história tivesse mesmo ficado no verão anterior.
Ao final da tarde, David caminhou até à areia da Praia da Nazaré.
O sol começava a descer no horizonte e o céu estava pintado de tons laranja e dourado.
Sentou-se perto da água.
As ondas vinham e iam, repetidamente, como se o mar respirasse.
Durante algum tempo ficou apenas a olhar para o horizonte.
Pensou em tudo o que tinha acontecido.
Pensou no verão na Covilhã.
Pensou na carta.
Pensou naquele momento na esplanada.
E, pela última vez, as lágrimas vieram-lhe aos olhos.
Não eram lágrimas de raiva.
Eram lágrimas de despedida.
As últimas lágrimas de David por Carol.
Quando regressou à pequena casa, já era noite.
A mãe percebeu imediatamente que algo não estava bem.
— Foste ver o mar?
David assentiu.
— Sim.
O pai olhou para ele durante alguns segundos.
— E encontraste aquilo que foste procurar?
David pensou por um momento antes de responder.
— Acho que sim.
Sentaram-se os três na pequena varanda da casa, ouvindo ao longe o som das ondas.
A mãe pousou a mão no ombro dele.
— Sabes… a vida ainda te vai trazer muitas coisas bonitas.
O pai acrescentou:
— E o mundo é muito maior do que aquilo que imaginamos quando somos novos.
David olhou novamente para o mar escuro ao longe.
Pela primeira vez desde que recebera a carta, sentiu algo diferente dentro de si.
Não era alegria.
Mas também já não era apenas tristeza.
Era simplesmente a sensação de que um capítulo da sua vida tinha terminado.
E que, algures mais à frente, outros ainda estavam por escrever.

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XIII


                                               Surpresa


O tempo também passou depressa na Covilhã.
O último ano no Liceu Nacional da Covilhã chegou ao fim e muitos colegas de David falavam animadamente sobre universidades, cidades novas e cursos.
Mas David tinha decidido um caminho diferente.
Numa tarde quente de junho, sentado com Rui e os restantes amigos numa esplanada, David explicou a sua decisão.
— Não vou continuar a estudar — disse calmamente.
Rui olhou para ele surpreendido.
— A sério?
— Sim. Vou trabalhar… mas antes tenho de cumprir o serviço militar.
— Onde?
— No Regimento de Infantaria de Castelo Branco.
Os amigos ficaram alguns segundos em silêncio.
Nos finais dos anos 70 aquilo era normal. Muitos jovens seguiam diretamente para o serviço militar obrigatório.
— Então vais ser soldado — disse Nando, meio a brincar.
David sorriu levemente.
— Pelo menos durante algum tempo.
Com o fim das aulas, o grupo começou novamente a reunir-se durante as tardes de verão.
Voltaram a frequentar a Piscina dos Penedos Altos, um dos lugares preferidos da juventude da cidade.
Num desses dias, David ficou sentado na relva a observar a piscina cheia de gente.
Foi ali que, no verão anterior, tinha conhecido Carol.
Rui percebeu imediatamente o que ele estava a pensar.
— Ainda te lembras daquele dia, não é?
David assentiu.
— Foi mesmo ali… junto à água.
Durante alguns minutos ficaram em silêncio.
Mais tarde caminharam até ao Jardim dos Penedos Altos, onde as árvores davam sombra e o ar era mais fresco.
Ali conversavam sobre o futuro, sobre o trabalho, sobre o serviço militar.
Mas havia sempre um pedaço de passado presente nas conversas.
Numa noite de julho, quando David chegou a casa, os pais estavam sentados na sala com um ar estranho.
— Temos uma surpresa para ti — disse a mãe.
David franziu a testa.
— Uma surpresa?
O pai sorriu.
— Pensámos que antes de ires para a tropa precisavas de descansar um pouco.
— E então?
— Reservámos uma semana de férias para ti.
David ficou curioso.
— Onde?
A mãe respondeu com um sorriso:
— Na Nazaré.
Por um instante, o tempo pareceu parar.
David ficou imóvel.
Os pais esperavam entusiasmo.
Mas David apenas ficou calado.
— Não gostas da ideia? — perguntou a mãe.
Ele demorou alguns segundos a responder.
— Não é isso…
— Então?
David suspirou.
— É só… estranho.
Claro que era estranho.
Aquela era a mesma vila onde Carol agora vivia. O mesmo lugar que ele tinha imaginado tantas vezes, quando pensava no mar que nunca tinha visto.
Agora ia finalmente lá.
Mas a razão que um dia tinha sonhado para essa viagem já não existia.
Nessa noite, David saiu de casa e caminhou até ao Jardim Público.
Sentou-se num banco e olhou para as luzes da cidade espalhadas pela encosta.
Pensou no verão anterior, nas tardes na Piscina dos Penedos Altos, no primeiro encontro com Carol.
Agora, quase um ano depois, ia finalmente ver o mar.
Mas não sabia se estava preparado para enfrentar tudo aquilo que aquela viagem poderia trazer de volta.
O vento da serra soprava suavemente naquela noite.
E, algures muito longe dali, as ondas continuavam a bater na praia da Nazaré… sem saber que um rapaz das montanhas estava prestes a chegar pela primeira vez ao mar. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XII

                                               A confidente


Os meses passaram depressa na Nazaré. O verão tinha chegado em força e a vila estava cheia de vida. Turistas caminhavam pela marginal, os pescadores arrumavam as redes junto ao mar e as conversas enchiam as esplanadas.
Carol também tinha mudado muito desde que ali chegara.
Na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio aproximava-se o final do secundário.
Os colegas falavam constantemente do futuro: cursos, cidades, universidades.
Numa manhã, durante um intervalo, Ana perguntou-lhe:
— Então, já decidiste o que vais fazer?
Carol pensou por um instante antes de responder.
— Acho que vou escolher Direito.
— Direito? A sério?
— Sim… sempre gostei de discutir ideias, perceber as leis, ajudar as pessoas.
Ana sorriu.
— E já pensaste onde?
Carol respirou fundo.
— Talvez na Universidade de Coimbra.
Ana arregalou os olhos.
— Coimbra! Isso é mesmo longe daqui.
Carol riu-se.
— Depois da Covilhã e da Nazaré… já me habituei às mudanças.
Mas no fundo aquela frase trouxe-lhe uma memória inesperada.
David.
Naquela tarde, Carol caminhou sozinha até à Praia.
O sol começava a descer lentamente no horizonte. O céu ficava tingido de laranja e dourado enquanto as ondas quebravam na areia.
Carol sentou-se perto da água e ficou a observar o pôr do sol da Nazaré.
Havia momentos em que o passado voltava de forma inesperada.
E naquele dia pensou novamente na carta.
Perguntou-se como David teria reagido quando a leu.
Se teria ficado zangado.
Se teria ficado triste.
Se talvez tivesse simplesmente seguido em frente.
A dúvida nunca a abandonara completamente.
No dia seguinte, Carol encontrou Ana perto do Mercado Municipal da Nazaré.
O mercado estava cheio de movimento: vendedores de peixe, bancas de fruta e o cheiro intenso do mar misturado com o das especiarias.
Sentaram-se num pequeno banco ali perto.
Ana reparou que Carol estava mais pensativa.
— O que se passa?
Carol hesitou por um momento.
— Lembras-te de eu te falar do rapaz da Covilhã?
— O David?
— Sim.
Ana assentiu.
— O que aconteceu com ele?
Carol respirou fundo.
— Eu escrevi-lhe uma carta… a dizer que devíamos seguir caminhos diferentes.
Ana ficou em silêncio, esperando que ela continuasse.
— Disse-lhe que éramos muito novos… que talvez tivesse sido apenas uma paixoneta de verão… que ele devia pensar nos estudos e no futuro.
— E era isso que sentias?
Carol olhou para o movimento do mercado durante alguns segundos.
— Na altura achei que era o melhor.
— E agora?
Carol demorou a responder.
— Às vezes penso em como ele se terá sentido ao ler aquilo.
Ana colocou a mão no braço dela.
— Talvez ele tenha ficado triste… mas também faz parte de crescer.
Carol assentiu devagar.
Mas enquanto olhava para o movimento do mercado, percebeu que algumas histórias da juventude nunca desaparecem completamente.
Apenas ficam guardadas num lugar silencioso da memória.
E, naquele momento, enquanto o vento vindo do mar atravessava as ruas da Nazaré, Carol perguntou-se pela primeira vez em muito tempo:
O que teria sido da vida de David nas montanhas da Covilhã?

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XI



                                         Dias de Reflexão


Nos dias que se seguiram à leitura da carta, a vida na Covilhã continuou exatamente igual para toda a gente.
Mas para David, tudo parecia diferente.
No Liceu Nacional da Covilhã, os colegas continuavam a conversar animadamente sobre o fim das aulas e os planos para o verão.
Rui tentou aproximar-se dele várias vezes.
— Então? Recebeste a carta? — perguntou num intervalo.
David limitou-se a encolher os ombros.
— Recebi.
— E…?
— Depois falo contigo.
Mas nunca falava.
Começou a evitar os amigos. Nos intervalos ficava sozinho no pátio ou saía da escola mais cedo para caminhar pela cidade.
Passava muitas tardes a andar sem destino pelas ruas inclinadas da Covilhã.
Às vezes descia até ao Jardim Público da Covilhã e sentava-se no mesmo banco onde tinha lido a carta.
Outras vezes caminhava pelas ruas do centro, passando por lugares onde tinha estado com Carol.
Evita até entrar na Confeitaria Lisbonense ou no Café Primor.
Tudo lhe trazia lembranças.
Numa noite, quando os pais já estavam deitados, David foi até à sala.
Ligou o velho gira-discos da casa.
Escolheu um disco que tinha ouvido muitas vezes naquele inverno.
Unchained Melody de The Righteous Brothers começou a tocar lentamente.
A música encheu a sala com aquela melodia melancólica.
David sentou-se no sofá e ficou a ouvir em silêncio.
A letra parecia falar diretamente com ele.
Enquanto a música tocava, as memórias voltavam:
o verão na piscina,
os passeios pela cidade,
o beijo na noite de fim de ano no GIR Rodrigo.
Quando a música terminou, ele não se levantou.
Limitou-se a colocar o disco novamente a tocar.
Na manhã seguinte, a mãe reparou que algo não estava bem.
David estava sentado à mesa do pequeno-almoço, mas quase não tocava na comida.
— Estás doente? — perguntou ela.
— Não.
— Então o que se passa?
David ficou em silêncio durante alguns segundos.
— Nada… só estou cansado.
A mãe olhou para ele com atenção.
As mães percebem certas coisas sem que seja preciso explicar.
— Tem a ver com a Carol, não tem?
David baixou os olhos.
Não respondeu.
A mãe aproximou-se e pousou a mão no ombro dele.
— A vida às vezes faz estas coisas… principalmente quando somos jovens.
David levantou-se da mesa sem dizer muito.
Mas aquelas palavras ficaram-lhe na cabeça.
Dias cinzentos
Os dias seguintes passaram lentamente.
As aulas terminaram no Liceu Nacional da Covilhã e a cidade começou a preparar-se para o verão.
Os amigos voltaram a falar das tardes na Piscina e de passeios pela Serra da Estrela.
Mas David quase não participava nessas conversas.
Continuava a caminhar sozinho pelas ruas da cidade, como se estivesse à procura de alguma resposta.
À noite, por vezes, voltava a ligar o gira-discos.
E mais uma vez deixava a sala encher-se com os acordes lentos de Unchained Melody.
A música repetia-se no silêncio da casa.
E, em algum lugar muito longe dali, junto ao mar da Nazaré, alguém continuava a viver uma vida nova… sem saber que aquelas palavras escritas numa carta tinham deixado um rapaz nas montanhas a tentar perceber como seguir em frente. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO X

                                       Um aperto no peito

Durante vários dias, David continuou a perguntar em casa se tinha chegado alguma carta. A resposta era sempre a mesma.
— Ainda não chegou nada.
Naquele final de tarde, depois das aulas no Liceu Nacional da Covilhã, David caminhava lentamente pelas ruas da Covilhã. O céu estava cinzento e um vento frio descia da serra.
Quando entrou em casa, a mãe chamou-o da cozinha.
— David… chegou correio para ti.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Para mim?
— Sim. Está ali em cima da mesa.
Sobre a mesa da sala estava um envelope simples. No canto superior esquerdo estava escrito o remetente: Carol.
E por baixo… Nazaré.
David pegou no envelope com cuidado. Sentiu o coração bater mais depressa. Durante semanas tinha esperado aquele momento.
Mas, por alguma razão, não teve coragem de abrir a carta ali.
Pegou no casaco e saiu novamente de casa.
Caminhou sem destino durante alguns minutos até chegar ao Jardim Público da Covilhã.
O jardim estava quase vazio. Apenas algumas pessoas passavam pelos caminhos e um casal idoso conversava num banco distante.
David sentou-se num banco, debaixo de uma árvore.
Durante alguns segundos ficou apenas a olhar para o envelope.
Era estranho pensar que aquelas poucas folhas de papel tinham viajado desde o mar da Nazaré até às montanhas da Covilhã.
Finalmente abriu o envelope.
Começou a ler.
À medida que os olhos percorriam as linhas da carta, o sorriso que tinha surgido no início desapareceu lentamente.
As frases pareciam cada vez mais pesadas.
"Somos muito novos…"
"Temos muito futuro pela frente…"
"Talvez tenha sido apenas uma paixoneta de verão…"
David parou de ler por um momento.
Respirou fundo.
Depois continuou.
"Talvez eu nem estivesse tão envolvida…"
Sentiu um aperto no peito.
Leu a última frase.
"Agora acho que devemos seguir cada um o seu caminho."
O jardim parecia ter ficado completamente silencioso.
David ficou imóvel com a carta nas mãos.
Durante vários minutos não fez nada.
O vento leve fazia mover as folhas das árvores e uma criança corria ao longe pelo caminho do jardim.
Mas para David parecia que o mundo tinha parado.
Lembrou-se de tudo:
daquele primeiro olhar na Piscina,
dos passeios pela cidade,
do cinema no Teatro Cine da Covilhã,
do baile no GIR Rodrigo,
da promessa de um dia ver o mar juntos.
Agora tudo parecia distante.
Como se tivesse acontecido noutra vida.
David dobrou lentamente a carta e colocou-a novamente dentro do envelope.
Levantou-se do banco e caminhou devagar pelo jardim.
Caminhou pela cidade sem destino e ao passar perto do Monumento de Nossa Senhora da Conceição, parou por um instante.
Olhou para a imagem da santa.
Não disse nada.
Mas naquele momento sentiu que algo tinha terminado.
E, pela primeira vez desde que Carol tinha partido para a Nazaré, David percebeu que talvez aquela história que tinha começado num verão cheio de promessas… pudesse realmente ter chegado ao fim.
Mas, no fundo do coração, uma pequena dúvida ainda permanecia.
Porque às vezes as palavras escritas numa carta… não contam toda a verdade. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO IX

                                  A carta segue o seu destino


Entretanto, na Nazaré, os dias de Carol iam passando a um ritmo diferente daquele a que estava habituada na Covilhã.
De manhã havia sempre movimento nas ruas. O cheiro do mar misturava-se com o das redes de pesca que secavam ao sol e com as vozes dos pescadores que regressavam da faina.
Carol já se tinha habituado à rotina da Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio. Os colegas tinham-na integrado bem no grupo e a amiga Ana estava quase sempre ao seu lado.
Nos intervalos conversavam sobre música, sobre a escola e sobre os planos para o verão.
— Quando vier o calor vamos todos para a praia — dizia Ana.
— Todos os dias? — perguntava Carol, ainda admirada.
— Claro! Aqui o mar faz parte da vida.
Depois das aulas, o grupo costumava passear pela Avenida da República (Marginal da Nazaré).
O som das ondas acompanhava as conversas, enquanto turistas passeavam e crianças brincavam perto da areia.
Muitas vezes terminavam o passeio na Praça Sousa Oliveira, onde os jovens da vila se juntavam ao final da tarde.
Carol ria com os novos amigos, mas havia momentos em que ficava um pouco mais calada.
Ana percebeu isso.
— Ainda pensas na Covilhã, não pensas?
Carol assentiu devagar.
— Às vezes.
Numa noite silenciosa na Nazaré, Carol voltou a abrir o pequeno caderno que David lhe tinha oferecido no Natal. Durante vários minutos ficou a olhar para as páginas, sem saber bem como começar.
O som das ondas da Praia da Nazaré chegava pela janela aberta. Aquela nova vida, os novos amigos e a pressão dos pais tinham-na feito pensar muito nas últimas semanas.
Sabia que David estava à espera de notícias.
Mas também sabia que o que ia escrever poderia magoá-lo.
Respirou fundo, pegou na caneta e começou finalmente a escrever a carta que iria seguir viagem até à Covilhã.

Querido David,
Tenho pensado muito antes de te escrever. Talvez por isso esta carta tenha demorado tanto tempo. Não foi por me esquecer de ti, mas porque não sabia bem como explicar tudo aquilo que sinto neste momento.
A vida aqui na Nazaré é muito diferente da Covilhã. Tudo mudou depressa: a escola nova, os colegas novos, o mar sempre à frente dos olhos. Às vezes parece que estou a viver uma vida completamente diferente daquela que tínhamos aí.
Tenho pensado muito em nós e no que vivemos naquele verão. Foram momentos muito bonitos, disso tenho a certeza. Nunca me vou esquecer das tardes na piscina, das caminhadas pela cidade e de tudo o que partilhámos.
Mas também tenho pensado noutra coisa. Somos ainda muito novos, David. Temos a escola, os estudos, e um futuro enorme pela frente. A distância entre a Covilhã e a Nazaré é grande e cada um de nós está agora a viver uma vida diferente.
Não quero que fiques preso a uma história que talvez tenha sido apenas uma paixoneta de verão. Às vezes penso que talvez tenha sido isso mesmo: um sentimento bonito, mas próprio da nossa idade e daquele momento.
Também sinto que, enquanto estávamos juntos, eu própria nem sempre tive a certeza absoluta do que sentia. Gostava muito de ti, e continuo a gostar, mas talvez não estivesse tão envolvida como tu estavas.
Não escrevo isto para te magoar. Pelo contrário. Escrevo porque te respeito e porque quero que sejas feliz. Quero que continues a estudar, que vivas a tua vida e que aproveites tudo o que ainda tens pela frente.
Quem sabe um dia, mais tarde, as nossas vidas possam voltar a cruzar-se. O mundo é grande e a vida dá muitas voltas.
Mas agora acho que devemos seguir cada um o seu caminho.
Obrigada por tudo o que vivemos naquele verão. Vai ficar sempre na minha memória.
Um abraço com carinho,
Carol

Quando terminou de escrever, Carol ficou alguns minutos a olhar para a folha.
Sabia que aquelas palavras iam mudar muitas coisas.
Dobrou a carta lentamente e colocou-a dentro do envelope.
Na manhã seguinte, deixou-a cair na caixa do correio.
A carta começou então a subir o país, deixando para trás o mar da Nazaré e seguindo em direção às montanhas da Covilhã.
Sem que Carol pudesse imaginar, aquela carta iria cair nas mãos de David e transformar completamente o rumo da história que tinha começado num verão feliz. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VIII

            
                                           A Carta que tarda

Naqueles meses de primavera, a vida continuava na Covilhã, mas para David os dias pareciam mais longos e mais silenciosos.
A cidade estava cheia de movimento: estudantes apressados, comerciantes nas portas das lojas e grupos de jovens a conversar nas esquinas. No entanto, para ele, faltava sempre alguém.
No Liceu Nacional da Covilhã aproximavam-se os últimos dias de aulas antes das férias.
Os colegas falavam de planos para o verão, passeios pela Serra da Estrela ou tardes passadas novamente na Piscina dos Penedos Altos.
Mas David raramente participava nas conversas.
Rui percebeu isso rapidamente.
— Ainda estás à espera da carta, não estás? — perguntou-lhe num intervalo.
David assentiu.
— Ela disse que ia escrever quando chegasse à Nazaré.
— Talvez ainda esteja a adaptar-se — respondeu Rui.
David tentou acreditar nisso, mas no fundo começava a sentir um peso estranho.
Depois das aulas, David encontrava-se muitas vezes com Rui no Café Primor.
Sentavam-se na primeira mesa da esplanada, com vista para a rua Heróis Dadrá.
Rui bebia café e falava das pequenas histórias do dia. David ouvia mais do que falava.
— Sabes o que devias fazer? — disse Rui certa tarde.
— O quê?
— Ir à Nazaré visitá-la.
David suspirou.
— Já tentei convencer os meus pais.
— E?
— Disseram que não.
Na noite anterior, David tinha tentado novamente.
— Pai, eu podia ir de autocarro… prometo que tenho cuidado.
O pai abanou a cabeça.
— David, és ainda muito novo para viajar sozinho para tão longe.
— Mas não é assim tão longe…
— Daqui até à Nazaré ainda são muitas horas de viagem — respondeu a mãe. — Quando fores mais velho, sim. Agora não.
David não insistiu mais.
Sabia que não iam mudar de opinião.
Assim, os dias continuaram a passar.
David caminhava pelas ruas da cidade, passava às vezes pelo Jardim Público da Covilhã ou pelo centro onde antes passeava com Carol.
Mas agora havia sempre um pensamento constante.
Todos os dias perguntava em casa:
— Chegou correio para mim?
A resposta era quase sempre a mesma.
— Ainda não.
Uma tarde diferente
Numa tarde quente, já perto do fim das aulas, David estava novamente sentado no Café Primor com Rui.
O Zé (empregado) trouxe dois sumos e pousou-os na mesa.
Rui olhou para o amigo.
— Estás a imaginar coisas… a carta vai chegar.
David tentou sorrir.
— Espero que sim.
Mas lá no fundo, um pensamento começava a crescer lentamente.
E se os pais dela tivessem razão?
E se a distância entre o mar da Nazaré e as montanhas da Covilhã fosse demasiado grande para aquele amor jovem?
Enquanto o sol começava a desaparecer atrás das casas da cidade, David olhou para a rua e ficou a pensar numa única coisa:
a carta que ainda não tinha chegado.

Continua…




NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VII

                                                     

                               Covilhã cada vez mais longe


Os primeiros dias na Nazaré foram intensos para Carol. Tudo era novo: os sons, os cheiros, as pessoas. Aos poucos, começou a sentir que a vila tinha um ritmo próprio, muito diferente da vida entre montanhas na Covilhã.
Na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio, Carol foi sendo integrada no grupo de colegas.
A sua primeira amiga continuava a ser Ana, que rapidamente a apresentou aos outros.
— Pessoal, esta é a Carol… veio da serra! — dizia Ana, a brincar.
— Da serra? Então nunca tinha visto o mar! — respondeu um rapaz chamado Miguel.
Carol riu.
— Não… e ainda fico a olhar para ele como se fosse um espetáculo.
Os colegas começaram a convidá-la para passeios depois das aulas. Caminhavam muitas vezes pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), ouvindo o som das ondas e vendo os pescadores a arrumar as redes.
Ao fim da tarde, juntavam-se frequentemente na Praça Sousa Oliveira, onde jovens conversavam, riam e combinavam novos encontros.
Carol começou lentamente a sentir-se parte daquele grupo.
Mas, mesmo quando ria com os novos amigos, havia momentos em que o pensamento fugia para longe… para as ruas da Covilhã.
Num sábado, Ana convidou Carol para subir ao Ascensor da Nazaré.
— Tens de ver a vista lá de cima — disse ela.
Quando chegaram ao Sítio da Nazaré, Carol ficou novamente impressionada com o horizonte aberto sobre o oceano.
Caminharam até ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Algumas pessoas entravam para rezar, outras apenas visitavam o local histórico.
— Este lugar é muito importante para a Nazaré — explicou Ana.
Carol entrou por alguns minutos.
Aquele silêncio fez-lhe lembrar os momentos tranquilos que tinha vivido na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
E, inevitavelmente, voltou a pensar em David.
Com o passar das semanas, Carol começou a falar menos de David em casa.
Os pais percebiam que ela ainda pensava muito nele.
Numa noite, durante o jantar, a mãe abordou o assunto.
— Carol… sabes que agora a nossa vida é aqui.
— Eu sei.
— A distância é grande… a Covilhã fica muito longe.
O pai acrescentou calmamente:
— Vais conhecer novas pessoas, fazer novos amigos… tens de seguir em frente.
Carol ficou em silêncio.
Não respondeu logo.
Sabia que os pais não diziam aquilo por mal. Apenas queriam que ela se adaptasse à nova vida.
Mas esquecer David não era algo simples.
Nos dias seguintes, Carol continuou a sair com Ana e os colegas. Caminhavam pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), conversavam na Praça Sousa Oliveira e às vezes sentavam-se na areia da Praia a ver o pôr do sol.
Tudo parecia normal.
Mas dentro dela havia uma luta silenciosa.
De um lado estava a nova vida: amigos, escola, o mar, a vila cheia de movimento.
Do outro lado estava a memória de um verão na piscina, das caminhadas pelas ruas da Covilhã… e do rapaz que ainda ocupava os seus pensamentos.
Numa tarde, sentada na areia a olhar o horizonte, Carol abriu o pequeno caderno que David lhe tinha oferecido.
Durante alguns minutos ficou apenas a olhar para a página em branco.
Depois escreveu devagar:
"Será que a distância consegue mesmo apagar o que sentimos?"
O vento da Nazaré soprou forte naquele momento, levantando um pouco da areia.
Carol fechou o caderno.
No fundo do coração, ainda não sabia qual seria a resposta.

Continua…



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