O tempo também passou depressa na Covilhã.
O último ano no Liceu Nacional da Covilhã chegou ao fim e muitos colegas de David falavam animadamente sobre universidades, cidades novas e cursos.
Mas David tinha decidido um caminho diferente.
Numa tarde quente de junho, sentado com Rui e os restantes amigos numa esplanada, David explicou a sua decisão.
— Não vou continuar a estudar — disse calmamente.
Rui olhou para ele surpreendido.
— A sério?
— Sim. Vou trabalhar… mas antes tenho de cumprir o serviço militar.
— Onde?
— No Regimento de Infantaria de Castelo Branco.
Os amigos ficaram alguns segundos em silêncio.
Nos finais dos anos 70 aquilo era normal. Muitos jovens seguiam diretamente para o serviço militar obrigatório.
— Então vais ser soldado — disse Nando, meio a brincar.
David sorriu levemente.
— Pelo menos durante algum tempo.
Com o fim das aulas, o grupo começou novamente a reunir-se durante as tardes de verão.
Voltaram a frequentar a Piscina dos Penedos Altos, um dos lugares preferidos da juventude da cidade.
Num desses dias, David ficou sentado na relva a observar a piscina cheia de gente.
Foi ali que, no verão anterior, tinha conhecido Carol.
Rui percebeu imediatamente o que ele estava a pensar.
— Ainda te lembras daquele dia, não é?
David assentiu.
— Foi mesmo ali… junto à água.
Durante alguns minutos ficaram em silêncio.
Mais tarde caminharam até ao Jardim dos Penedos Altos, onde as árvores davam sombra e o ar era mais fresco.
Ali conversavam sobre o futuro, sobre o trabalho, sobre o serviço militar.
Mas havia sempre um pedaço de passado presente nas conversas.
Numa noite de julho, quando David chegou a casa, os pais estavam sentados na sala com um ar estranho.
— Temos uma surpresa para ti — disse a mãe.
David franziu a testa.
— Uma surpresa?
O pai sorriu.
— Pensámos que antes de ires para a tropa precisavas de descansar um pouco.
— E então?
— Reservámos uma semana de férias para ti.
David ficou curioso.
— Onde?
A mãe respondeu com um sorriso:
— Na Nazaré.
Por um instante, o tempo pareceu parar.
David ficou imóvel.
Os pais esperavam entusiasmo.
Mas David apenas ficou calado.
— Não gostas da ideia? — perguntou a mãe.
Ele demorou alguns segundos a responder.
— Não é isso…
— Então?
David suspirou.
— É só… estranho.
Claro que era estranho.
Aquela era a mesma vila onde Carol agora vivia. O mesmo lugar que ele tinha imaginado tantas vezes, quando pensava no mar que nunca tinha visto.
Agora ia finalmente lá.
Mas a razão que um dia tinha sonhado para essa viagem já não existia.
Nessa noite, David saiu de casa e caminhou até ao Jardim Público.
Sentou-se num banco e olhou para as luzes da cidade espalhadas pela encosta.
Pensou no verão anterior, nas tardes na Piscina dos Penedos Altos, no primeiro encontro com Carol.
Agora, quase um ano depois, ia finalmente ver o mar.
Mas não sabia se estava preparado para enfrentar tudo aquilo que aquela viagem poderia trazer de volta.
O vento da serra soprava suavemente naquela noite.
E, algures muito longe dali, as ondas continuavam a bater na praia da Nazaré… sem saber que um rapaz das montanhas estava prestes a chegar pela primeira vez ao mar.