UM DIA DE ESCOLA EM 1978

Acordava pelas 7h45.

Lá fora já se ouvia o barulho dos carros e dos autocarros que transportavam estudantes e operários para mais um dia de trabalho. Sem telemóveis, sem internet e sem distrações digitais, a vida começava cedo e a pé.

Saía de casa pela Rua Direita, descia as escadas do Quebra-Costas e passava por São João de Malta, onde os autocarros chegavam cheios de gente vinda das aldeias do concelho.

Era uma Covilhã diferente.
Mais lenta.
Mais simples.
Mais humana.

Ao chegar ao Liceu encontrava os colegas no átrio. Falávamos de futebol, das raparigas e dos testes que se aproximavam. Eu já sabia que Matemática e Física me iam dar dores de cabeça, mas naquela idade as preocupações duravam pouco.

Depois tocava a campainha.

O silêncio instalava-se na sala e apenas os pássaros lá fora pareciam ter autorização para falar.

 No intervalo corríamos para o refeitório, que também servia de bar. Por vezes íamos à padaria junto ao Café Primor comprar os famosos "nevões".

Quem se lembra deles sabe do que falo…

Era impossível comê-los sem ficar com a roupa cheia de açúcar e farinha. 

 As aulas sucediam-se.

Português, Matemática, Biologia…

Os professores eram exigentes, mas respeitados.

E nós, mesmo sem percebermos na altura, estávamos a aprender muito mais do que as matérias dos livros.

Aprendíamos respeito.
Aprendíamos amizade.
Aprendíamos a crescer.

 No intervalo maior, o pátio enchia-se de vida.

Ali contavam-se anedotas, trocavam-se segredos, faziam-se amizades para a vida inteira.

O Rui Paulo Fonseca já mostrava o talento que mais tarde o levaria ao teatro, à televisão e às dobragens da Disney.

Naquele recreio ninguém imaginava o futuro que cada um teria pela frente.

 A última aula parecia sempre a mais longa.

As carteiras verdes alinhadas, o quadro de ardósia, o giz branco, os funcionários atentos no corredor…

Tudo fazia parte daquele pequeno universo que era a nossa escola.

E quando finalmente tocava para a saída, arrumávamos os livros à velocidade da luz e corríamos para casa.

Esperava-nos o almoço.
Esperava-nos a família.
Esperava-nos mais uma tarde de brincadeiras.

Hoje os tempos são outros.

As escolas mudaram.
A tecnologia transformou o mundo.
Mas há algo que nunca mudou:

A saudade daqueles dias.

Dos amigos.
Dos professores.
Dos corredores.
Dos sonhos.

Porque quem viveu a escola nos anos 70 e 80 não guarda apenas recordações.

Guarda pedaços de felicidade que o tempo nunca conseguiu apagar.

Porque, no fim de contas, podemos perder os anos, os lugares e até as pessoas, mas nunca perdemos verdadeiramente os momentos que nos fizeram felizes.

Bom feriado para todos nós🍀



AOS MAIS JOVENS...

Não tenham tanta pressa de crescer.
A vida passa num instante.

Hoje querem ser adultos…
amanhã vão sentir saudades do tempo em que a maior preocupação era brincar, rir e chegar a casa antes de anoitecer.

Escutem os vossos pais, mesmo quando parece que não vos entendem.
Os “cotas” podem não saber tudo sobre o mundo moderno…
mas sabem amar-vos como ninguém.

E quando a vida apertar, falem.
Desabafar não é sinal de fraqueza — é sinal de coragem.
Guardar dores em silêncio pode destruir por dentro até o sorriso mais bonito.

Não são os copos, os charros, as noites loucas ou as aparências que vos tornam mais importantes.
O verdadeiro valor de uma pessoa está no caráter, na humildade e na forma como trata os outros.
Nunca mudem a vossa essência para serem aceites por um grupo.
Quem gostar realmente de vocês ficará pelo coração… não pela máscara.

E nunca se esqueçam desta verdade:
Pode existir muita gente que goste de vocês,
mas ninguém neste mundo terá um amor tão puro e infinito como os vossos pais.

Aproveitem a vida.
Sonhem muito.
Errem, aprendam e levantem-se sempre.

Porque o tempo voa…
e um dia vão perceber que as coisas mais valiosas da vida nunca foram as materiais, mas sim os momentos, os abraços e as pessoas que caminharam ao vosso lado.

Boa tarde para todos nós 🍀



ATITUDES

Chega uma altura da vida em que percebemos que agradar a toda a gente é impossível.
Por mais correto que sejas, haverá sempre alguém para criticar a tua maneira de pensar, agir ou sentir.

Durante muito tempo preocupamo-nos demasiado com a opinião dos outros.
Calamo-nos para evitar conflitos.
Sorrimos quando estamos magoados.
Concordamos apenas para sermos aceites.

Mas viver assim é deixar de ser nós próprios.

Hoje prefiro perder aplausos do que perder a minha essência.
Prefiro ser verdadeiro e incomodar, do que ser falso apenas para agradar.

Não tenho de pensar igual aos outros para os respeitar.
Cada pessoa tem o direito de defender aquilo em que acredita, desde que o faça com dignidade e consciência.

A verdadeira liberdade começa quando deixamos de viver para a aprovação alheia.

Porque no final do dia, quando o barulho do mundo se cala, existe apenas uma pergunta realmente importante:

“Consigo dormir de consciência tranquila?”

Se a resposta for sim, então já vencemos uma das maiores batalhas da vida.

Bom dia para todos nós 🍀



O FUTURO QUE IMAGINÁMOS… E O MUNDO QUE ENCONTRÁMOS

Quando, em 1973, a professora Ivone nos pediu um desenho sobre o ano 2000, a minha imaginação voou mais depressa do que qualquer avião.

Desenhei carros voadores.
Imaginei teletransportes.
Sonhei com cidades futuristas como as das séries e filmes que víamos na televisão.

Mais tarde apareceu Espaço 1999 na RTP e a minha cabeça voltou a viajar para um futuro cheio de tecnologia, máquinas incríveis e descobertas sem limites.

Naquele tempo acreditávamos que o futuro seria quase mágico.

E a verdade é que muita coisa mudou.
Vieram os computadores, os telemóveis, a internet, a inteligência artificial… coisas que em 1973 pareciam impossíveis.

Estamos em 2026.
E apesar de toda a evolução tecnológica, continuo à espera da maior invenção de todas:

Mais humanidade.

Porque o mundo evoluiu muito nas máquinas…
mas, por vezes, parece ter desaprendido o essencial:
o respeito, a empatia, a solidariedade e a capacidade de olhar verdadeiramente pelos outros.

Hoje, se me pedissem novamente um desenho sobre 1973, talvez eu não desenhasse carros voadores.

Desenharia algo muito mais raro nos dias de hoje:
um senhor de fato cinzento e uma criança de calções e sandálias, de mãos dadas num jardim da cidade.

Porque há valores antigos que nunca deveriam sair de moda.
E talvez o verdadeiro futuro não esteja na tecnologia…
mas sim em conseguirmos voltar a ser mais humanos uns para os outros. 

Bom domingo para todos nós 🍀







COMO ERA LINDO O JARDIM (NOVA VERSÃO)

🌼Vivia a menos de 300 metros dele…
e aquele jardim foi a minha segunda casa.

Hoje chamam-lhe apenas “jardim”.
Mas para a minha geração era muito mais do que isso.
Era um mundo inteiro de memórias felizes.

Os canteiros sempre impecáveis, as flores coloridas, os jardineiros que tratavam cada canto com orgulho… parecia que o próprio jardim tinha alma.
🌹 Quem não se lembra do Sr. Napoleão?
Dos arcos, do lago e dos peixes coloridos que nos deixavam encantados?

Em frente à Igreja de São Francisco existia aquele famoso calendário de flores que impressionava todos os turistas.
E ali perto ficavam os “bancos dos namorados”… embora naquele tempo bastasse um abraço mais demorado para aparecer logo o Sr. guarda a dar um raspanete. 

🌹 Das grades do jardim viam-se paisagens maravilhosas.
Ao longe, os Penedos Altos, a piscina municipal e uma Covilhã muito mais tranquila, onde o relógio da torre marcava o tempo devagar… como se a vida tivesse menos pressa.

E nós?
Nós éramos felizes com tão pouco.

Jogávamos futebol com bolas de plástico compradas nas lojas do Sr. Morão ou do Sr. Raul.
Brincávamos às escondidas, ao lencinho, aos castelos… até o sol desaparecer.

As crianças andavam de triciclo ou bicicleta sem medos.
Os mais velhos passeavam calmamente pelos caminhos do jardim.
Toda a gente se conhecia.
Toda a gente se cumprimentava.

Hoje talvez existam jardins maiores e cidades mais modernas…
mas dificilmente haverá um jardim com tantas histórias, tantos risos e tanta infância guardada dentro dele.

Porque certos lugares nunca deixam de existir.
Continuam vivos… dentro do coração de quem lá foi verdadeiramente feliz. 

Bom sábado para todos nós🍀



O CAMINHO DA VIDA

🌿O caminho que percorremos na vida é construído por nós.

Os sinais estão lá.
Sempre estiveram.
Mas muitas vezes seguimos distraídos, ocupados demais, magoados demais ou simplesmente perdidos dentro de nós próprios.

Há decisões que parecem pequenas…
mas mudam completamente o rumo da nossa história.

Por vezes escolhemos o caminho errado.
Confiamos nas pessoas erradas.
Insistimos onde já não existe felicidade.
E continuamos a andar, mesmo sabendo cá dentro que aquela estrada já não nos leva a lugar nenhum.

Mas a vida tem algo de extraordinário:
dá-nos sempre novos cruzamentos.

E enquanto houver um novo amanhecer, haverá também a possibilidade de mudar de direção, recomeçar e seguir um caminho melhor.

Ninguém está condenado aos erros do passado.
Nem às quedas.
Nem às fases difíceis.

O importante não é quantas vezes nos perdemos…
mas quantas vezes tivemos coragem de voltar a encontrar-nos.

Porque às vezes o maior passo da nossa vida começa exatamente no momento em que decidimos mudar de rumo.

Bom dia para todos nós 🍀



SANTOS POPULARES NA CIDADE DA COVILHÃ

Houve um tempo em que os Santos Populares na Covilhã eram muito mais do que festas…
eram união, amizade e ruas cheias de vida.

Qualquer esquina servia de arraial.
Bastavam umas bandeirinhas, uma grafonola, uma fogueira acesa e meia dúzia de vizinhos com vontade de conviver.

Ainda hoje sinto o cheiro da sardinha assada a espalhar-se pelas ruas do Batoréu e da Nogueira dos Frades.
O pão numa mão, a sardinha na outra… e pelo meio os saltos à fogueira e os risos que ecoavam noite dentro. 

Os mais velhos passeavam de bailarico em bailarico, cumprimentavam-se todos pelo nome e ninguém ficava sozinho.
A cidade parecia uma grande família.

Na Avenida Frei Heitor Pinto havia a famosa barraquinha do Sr. Torrão, onde comprávamos bombinhas e pequenas loucuras de miúdos para celebrar o São João.
E quem não se lembra dos grilos e das gaiolas compradas na Casa Carrola ou na Casa Cardona?

Hoje temos marchas bonitas, palcos maiores e festas mais modernas…
mas perdeu-se muito da alma daqueles tempos.

Perdeu-se o espírito bairrista.
A partilha entre vizinhos.
A simplicidade das pessoas.
A felicidade das coisas pequenas.

Naquele tempo havia menos dinheiro…
mas havia mais portas abertas, mais gargalhadas sinceras e mais humanidade.

E eu sinto-me privilegiado por ter vivido esses anos, porque certas memórias não envelhecem — ficam acesas dentro de nós como uma eterna fogueira de São João. 

Humildes, mas felizes.
Era assim a minha Covilhã. 

Bom dia para todos nós 🍀



COVILHÃ E NERJA — TÃO DIFERENTES… E TÃO IGUAIS

Há memórias que nunca envelhecem.
E uma delas é a emoção que eu sentia nos anos 80 quando esperava ansiosamente por mais um episódio da inesquecível série Verão Azul.

Quem viveu essa época lembra-se bem de Chanquete, do seu barco, das amizades, dos amores de verão e daquela sensação de liberdade que parecia infinita.

Recentemente voltei a rever a série completa… e percebi algo curioso:
aquela pequena e pacata Nerja de antigamente fez-me lembrar muito a minha cidade, a Covilhã.

À primeira vista parecem mundos diferentes.
Nerja abraçada pelo mar.
Covilhã abraçada pela Serra da Estrela.

Uma vive do cheiro a maresia.
A outra respira ar puro de montanha.

Mas ambas cresceram lado a lado com o tempo, souberam modernizar-se sem perder a alma, mantendo as ruas antigas, as histórias, as tradições e aquele encanto que não se compra nem se fabrica.

Tal como Nerja, também a Covilhã deixou de ser apenas uma pequena cidade pacata.
Cresceu, evoluiu, ganhou novas avenidas, hotéis, comércio, universidade e vida moderna… mas continua a guardar memórias em cada esquina.

E talvez seja isso que torna certos lugares especiais:
não são apenas bonitos… fazem-nos sentir em casa.

Hoje, quando vejo o Balcón de Europa em Nerja, lembro-me do nosso “balcão” sobre a Cova da Beira.
Duas paisagens diferentes… mas com a mesma magia.

E confesso que gostava de ver, um dia, Covilhã e Nerja oficialmente geminadas como cidades irmãs.
Porque há ligações que não se explicam apenas pela geografia… explicam-se pela alma dos lugares e pelas emoções que despertam em quem os vive.

No fundo, o mesmo céu continua a olhar pelas duas cidades, como se ainda esperasse o regresso de um novo Verão Azul. 💙

Bom dia para todos nós 🍀



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...