O JARDIM PÚBLICO DA COVILHÃ, A NOSSA SEGUNDA CASA

Tempos houve em que o Jardim Público da Covilhã era a minha segunda casa, o ponto de encontro da malta de «São Xico». Fizesse sol, chovesse a potes ou nevasse, lá estava eu, sempre caidinho! Só faltava levarem-me a cama e o jantar, porque, de resto, passava ali boa parte da minha vida. 😀

Éramos muitos rapazes da freguesia. Outros moravam um pouco mais longe, mas não deixavam de aparecer para marcar o ponto. Naquele tempo, não precisávamos de telemóveis, grupos de WhatsApp ou mensagens a perguntar: «Então, apareces hoje?» Bastava saber que a malta ia para o jardim. E quem faltasse já sabia que, no dia seguinte, tinha de dar explicações!

Ali conversávamos, brincávamos, discutíamos, ríamos e jogávamos. Jogávamos de tudo um pouco, porque a imaginação não nos faltava e, quando não havia brinquedos, inventavam-se brincadeiras. Afinal, éramos miúdos com pouco dinheiro nos bolsos, mas com uma riqueza enorme na cabeça!

Uma das nossas grandes invenções eram os famosos «castelos». Formavam-se duas equipas: uns ficavam encarregados de defender o castelo, enquanto os outros tinham a difícil missão de o conquistar. Ganhava quem conseguisse atravessar a muralha sem ser tocado pelos defensores. Aquilo era uma espécie de guerra medieval, mas sem cavalos, sem armaduras e, felizmente, sem ninguém a cobrar bilhete para assistir! 😀

Também jogávamos à bola, mas ai daquele que mandasse a bola para cima da relva e o guarda desse conta! Estávamos feitos ao bife! A relva era para se ver, não para se pisar, e o senhor guarda não estava ali para brincar. Naquele tempo, um olhar mais sério chegava para nos pôr direitos. Hoje, alguns pais ainda tentam conseguir o mesmo com três avisos e um castigo!

E, quando o jardim já não chegava para as nossas aventuras, lá íamos nós jogar para o adro da igreja. Só havia um pequeno pormenor: tínhamos de andar de olho vivo e fugir do senhor padre, porque a nossa liberdade desportiva nem sempre coincidia com os seus momentos de sossego! Éramos uns artistas, mas também sabíamos quando era hora de desaparecer. 😀

Chegámos mesmo a organizar os «Jogos Olímpicos de São Francisco», uma aventura que já tive oportunidade de contar aqui numa das minhas crónicas. Não tínhamos estádios, medalhas de ouro nem cerimónias de abertura transmitidas pela televisão, mas tínhamos vontade, alegria e uma imaginação que não conhecia limites. E, se houvesse uma medalha para a traquinice, a nossa freguesia trazia certamente algumas para casa!

Mas falar do Jardim Público é, como já disse, falar da minha segunda casa. Era um jardim de uma beleza que poucas cidades se podiam orgulhar de ter.

Recordo os seus canteiros floridos, tão bem tratados, e destaco aquele que funcionava como um verdadeiro calendário. Era uma das atrações mais apreciadas pelos turistas que nos visitavam, sobretudo no inverno. A data estava ali assinalada entre flores, como se o próprio jardim gostasse de nos lembrar que o tempo passava, mesmo quando nós, ainda miúdos, nem dávamos por isso.

A relva apresentava-se sempre impecável, graças ao trabalho dedicado dos jardineiros, chefiados pelo senhor Napoleão. Durante o dia, havia sempre um guarda a vigiar, para que tudo se mantivesse em ordem. Naquele jardim, até uma folha fora do sítio parecia ter de apresentar justificação!

As entradas eram adornadas por uns arcos muito bem cuidados, e o lago, com os seus repuxos e peixinhos dourados, fazia as delícias dos mais pequenos. Ficávamos a olhar para aqueles peixinhos, fascinados, como se estivéssemos diante de um tesouro. E, se calhar, estávamos mesmo: só que, naquela idade, ainda não sabíamos que as coisas mais preciosas da vida não se compram nem se vendem.

Já não sou do tempo do coreto, mas vi fotografias que mostram como também ele dava encanto ao jardim. Imagino as pessoas reunidas à sua volta, as conversas, os passeios domingueiros e aquela vida tranquila de outros tempos, em que sair de casa para dar uma volta podia ser o melhor programa do dia.

E os bancos do passadiço junto à Pensão Avenida? Ah, esses merecem um capítulo à parte!

Eram o refúgio dos casais de namorados, que ali encontravam um cantinho para trocar olhares, palavras doces e algumas carícias. Claro que havia sempre o pequeno inconveniente chamado senhor guarda! Quando os namorados começavam a entusiasmar-se mais do que o regulamento permitia, lá aparecia ele para lhes dar um sermão e, se fosse preciso, missa cantada! 😀

Naquele tempo, namorar também era uma aventura. Não havia mensagens a toda a hora, corações virtuais ou chamadas de vídeo. Havia olhares discretos, mãos que se procuravam e aquele nervoso miudinho quando alguém passava por perto. E, às vezes, um simples encontro no jardim ficava guardado no coração para o resto da vida.

Existia também uma balança, onde muitos aproveitavam para verificar o peso, e bebedouros de água, que davam jeito a quem passeava ou se entretinha por ali. Eram pequenos pormenores que faziam parte do quotidiano e que hoje, quando os recordamos, ganham um significado especial.

E que dizer daquele parque infantil, que mais parecia um verdadeiro parque de diversões? Para nós, era um mundo inteiro! Cada brinquedo era uma aventura, cada corrida uma competição e cada gargalhada uma vitória. Não precisávamos de consolas, tablets ou brinquedos sofisticados. Bastava um espaço para brincar e amigos com quem partilhar a alegria.

Éramos felizes e, muitas vezes, nem sequer sabíamos que o éramos.

Hoje, quando olho para trás, sinto uma saudade imensa daquele jardim que fez parte da minha infância e adolescência. O Jardim Público continua a fazer parte da Covilhã, mas já não é o mesmo jardim que guardo na memória. O tempo passou, as coisas mudaram e aquele cenário que conhecíamos tão bem foi perdendo um pouco da alma que lhe dávamos.

Porque um jardim não é feito apenas de árvores, flores (que hoje não tem), bancos, caminhos ou lagos. É feito das pessoas que por lá passaram, das amizades que nasceram, dos primeiros amores, das brincadeiras que pareciam não ter fim e das vozes que um dia encheram aquele espaço de vida.

Quantos de nós não terão hoje cabelos brancos, filhos, netos e uma vida inteira de histórias para contar? Quantos daqueles rapazes de «São Xico» não estarão espalhados pelo mundo, alguns longe da Covilhã, outros talvez já ausentes para sempre? E quantos não dariam tudo para poder regressar, nem que fosse por uma hora, àquele tempo em que a maior preocupação era saber quem chegava primeiro ao jardim e quem tinha mandado a bola para cima da relva?

Se pudéssemos voltar atrás, talvez não mudássemos nada. Talvez quiséssemos apenas mais cinco minutos de brincadeira, mais uma conversa com aquele amigo, mais uma corrida pelo jardim, mais uma gargalhada que nos fizesse doer a barriga. E, quem sabe, mais uma chamada de atenção do senhor guarda, só para termos a certeza de que estávamos mesmo de volta!

Mas a vida não nos permite regressar ao passado. Permite-nos, isso sim, visitá-lo através das recordações, das fotografias e destas pequenas histórias que vamos partilhando, para que os mais novos conheçam o jardim que os mais velhos guardam no coração.

O nosso Jardim Público já não é o mesmo, mas continuará a ser sempre nosso. Porque há lugares que o tempo transforma, mas não consegue apagar da alma.

E, se um dia voltasse a sentar-me num daqueles bancos, fechasse os olhos e escutasse o silêncio, talvez ainda conseguisse ouvir, ao longe, as gargalhadas da malta de «São Xico», o barulho da bola, os gritos dos jogos dos castelos e alguém a chamar por mim para mais uma brincadeira.

Talvez, por breves instantes, voltasse a ter quinze ou dezasseis anos. Talvez voltasse a correr, sem dores nas pernas, sem preocupações na cabeça e sem saber que aqueles dias simples seriam, um dia, as maiores riquezas da minha vida.

E depois abriria os olhos.

O jardim estaria ali, mas nós já não seríamos aqueles rapazes. Muitos caminhos teriam mudado, muitos bancos guardariam outras histórias e algumas das pessoas que fizeram parte daquele mundo já só viveriam nas nossas lembranças.

E seria nesse instante que perceberia que não era apenas do jardim que tinha saudades. Era de mim, de nós, da nossa juventude e daquele tempo em que a vida parecia não ter pressa de passar.

O Jardim Público foi a nossa segunda casa. E há casas que nunca deixamos de visitar, mesmo quando já só conseguimos entrar nelas através da memória.

Um dia, quando também nós formos apenas uma recordação na vida de alguém, talvez outro rapaz passe por aquele jardim, sem imaginar quantas histórias ali ficaram guardadas. E talvez uma fotografia antiga, uma conversa ou uma crónica lhe mostre que, muito antes dele, houve uma geração de miúdos que fez daquele lugar o seu pequeno paraíso.

Porque as flores murcham, os bancos envelhecem, os jardins mudam e os anos não perdoam. Mas as recordações verdadeiras resistem a tudo isso.

E se hoje me perguntassem onde fui verdadeiramente feliz, talvez respondesse sem hesitar: no Jardim Público da Covilhã, junto à malta de São Xico, quando éramos jovens, tínhamos o mundo inteiro pela frente e ainda não sabíamos que estávamos a viver os dias de que um dia sentiríamos tantas saudades.

Um grande abraço a todos os que partilharam este jardim, esta cidade e este tempo connosco. Onde quer que estejam, espero que ainda guardem um bocadinho daquele jardim dentro do coração.

E, se ao lerem estas palavras sentirem os olhos molhados, não tenham vergonha. Às vezes, não são as lágrimas que nos fazem chorar… é a felicidade de termos vivido algo tão bonito que já não podemos abraçar outra vez.

Bom dia para todos nós 🍀



🍂 HÁ MOMENTOS EM QUE PRECISAMOS DE PARAR PARA VOLTAR A CAMINHAR

Todos temos momentos de angústia, ansiedade ou cansaço. Todos carregamos feridas. Algumas demoram mais tempo a sarar, outras deixam cicatrizes que nos acompanham ao longo da vida. Mas até essas cicatrizes têm algo para nos ensinar: lembram-nos das batalhas que travámos e da força que encontrámos dentro de nós para continuar.

Nesses momentos, precisamos de parar, respirar fundo e fazer uma introspeção. Parar não é desistir, nem significa que somos mais fracos. Às vezes, é apenas uma forma de recuperar forças, recarregar baterias e encontrar a coragem necessária para seguir em frente. E, se for preciso dar um passo atrás, que o façamos sem vergonha, porque nem sempre recuar é perder. Por vezes, é precisamente isso que nos permite dar dois passos em frente.

Há situações na vida em que pouco ou nada podemos fazer. Só o tempo consegue aliviar certas dores, sarar algumas feridas e ajudar-nos a aceitar aquilo que não podemos mudar. Mas há outras situações em que está nas nossas mãos fazer diferente. Talvez seja tempo de olhar para o caminho que estamos a percorrer e perguntar a nós próprios se ele nos conduz à paz, à felicidade e à tranquilidade que tanto desejamos.

Por vezes, basta mudar um hábito, afastarmo-nos daquilo que nos faz mal, aprender a dizer não ou deixar de carregar pesos que nunca deveriam ter sido nossos. Pequenas mudanças podem abrir portas que julgávamos fechadas e trazer uma nova luz aos nossos dias.

Claro que cada caso é um caso. Ninguém calça os sapatos do outro, nem conhece verdadeiramente todas as pedras que existem no caminho de quem caminha ao nosso lado. Por isso, devemos aprender a ser mais compreensivos com os outros, mas também connosco próprios. Precisamos de aprender a ouvir o nosso coração, a respeitar os nossos limites e a interpretar os sinais que a vida nos vai dando.

Acima de tudo, nunca devemos perder a esperança. Por mais difícil que seja a caminhada, há sempre a possibilidade de recomeçar, de mudar de direção e de descobrir novas razões para sorrir. Nem todos os dias serão bons, nem todas as batalhas serão vencidas à primeira, mas isso não significa que os nossos melhores dias tenham ficado para trás.

A vida não nos pede que sejamos fortes a toda a hora. Pede-nos apenas que, mesmo quando as forças parecem faltar, não deixemos de acreditar que amanhã pode ser diferente.

Porque, às vezes, aquilo de que mais precisamos não é de um caminho novo, mas de um novo olhar sobre o caminho que temos pela frente.

Nunca te esqueças: descansa quando precisares, recomeça quando sentires que chegou a hora e caminha ao teu ritmo. O importante não é chegar primeiro, mas não desistir de encontrar a paz e a felicidade que mereces. Enquanto houver esperança no coração, haverá sempre uma razão para dar mais um passo.

Bom dia para todos nós 🍀



🍂 CALOR DE OUTONO…


Este calor de outono talvez seja apenas uma réstia de verão a despedir-se de nós, como quem ainda não quer partir e nos oferece mais uns dias de sol e de tranquilidade.

Mas, aos poucos, as folhas começam a cair, a chuva bate nas pedras da calçada e o vento faz-se sentir, anunciando a chegada dos dias mais frios. Será assim, afinal, como acontece em todos os outonos das nossas vidas.

Há qualquer coisa nesta mudança de estação que nos toca cá dentro. A nostalgia invade-nos a alma, os pensamentos voam e, sem darmos por isso, começamos a viajar no tempo. Recordamos pessoas, lugares, momentos e tantas coisas que ficaram para trás, mas que continuam bem vivas na nossa memória.

Talvez seja isso que o outono tem de tão especial. Ensina-nos que tudo tem o seu tempo, que há partidas que não podemos evitar e que, mesmo quando as folhas caem, a vida continua o seu caminho.

Também nós temos os nossos outonos. Dias em que sentimos saudades, em que o coração fica mais apertado e em que damos por nós a recordar aquilo que o tempo levou, mas que nunca conseguiu apagar.

E enquanto o verão se despede devagarinho, aproveitemos esta réstia de calor, os últimos raios de sol e os pequenos momentos que a vida ainda nos oferece.

Porque, no fundo, não são apenas as estações do ano que passam… somos nós que vamos mudando com elas, levando no coração as memórias de tudo aquilo que vivemos.

E talvez seja essa a beleza da vida: perceber que, mesmo depois de tantos outonos, há sempre uma lembrança que nos aquece a alma e nos faz sorrir, mesmo quando lá fora começa a chover.

Bom dia para todos nós 🍀



🍂 ESTOU EM CONSTRUÇÃO, MAS JÁ ESTIVE EM DEMOLIÇÃO

As noites começam a ser mais longas, e uma ligeira brisa, vinda da serra, desce lentamente sobre a cidade. O tempo muda, as estações sucedem-se e a vida também vai seguindo o seu caminho. Há dias que nos aquecem a alma, outros que nos fazem pensar e outros ainda que nos ensinam a olhar para trás com gratidão e para a frente com esperança.

Hoje, gostava de deixar duas notas a todos aqueles que acompanham e leem as minhas publicações.

Em primeiro lugar, quero agradecer-vos o carinho. Já fui abordado na rua por algumas pessoas que me felicitam pelos textos e que, com toda a naturalidade, me perguntam por que razão não escrevo um livro. Confesso que fico muito sensibilizado com esses gestos. Por isso, se me reconhecerem na rua, falem comigo! Terei todo o gosto em retribuir a vossa simpatia. Afinal, o que de melhor pode acontecer a quem escreve é sentir que as suas palavras chegam ao coração de alguém.

Quanto à possibilidade de escrever um livro, a verdade é que não é uma prioridade na minha vida.

Aliás, nem sequer me considero escritor. Gosto de escrever, de pegar em recordações, pensamentos e pequenas histórias, passar tudo isso para o computador e dar-lhes vida através das palavras. São, como costumo dizer, uns rabiscos que nascem do coração. Mas, para mim, há uma grande distância entre gostar de escrever e considerar-me escritor.

Na minha maneira de ver, um bom escritor é aquele cuja obra desperta o interesse dos leitores, que procuram os seus livros, os leem e os recomendam, independentemente de estarem em qualquer parte do país ou do mundo.

Editar um livro para vender meia dúzia de exemplares e, depois, ter de andar de evento em evento para tentar recuperar o investimento não é, sinceramente, aquilo que procuro. Prefiro continuar a partilhar os meus textos por aqui e no meu blogue, chegando diariamente a quem tem a paciência e a gentileza de me ler.

Se um dia surgir alguém interessado em publicar algum do meu trabalho por acreditar que merece ser partilhado em livro, então, sim, poderemos conversar. Depois, logo se verá!

Para já, tenho aquilo de que preciso: gosto de escrever e sinto prazer em partilhar o que me vai na alma. E, enquanto houver alguém disposto a ler-me, haverá sempre uma boa razão para continuar.

A segunda nota prende-se com algo que também me dizem algumas vezes: que deveria ser mais crítico em relação à nossa cidade.

Meus amigos e minhas amigas, cada pessoa tem a sua maneira de olhar para o mundo e de usar as palavras. Eu gosto de escrever sobre memórias, sobre pessoas, sobre lugares e sobre tudo aquilo que faz parte da nossa identidade. Gosto de recordar uma Covilhã que muitos viveram e que outros apenas conheceram através das histórias dos pais e dos avós.

As críticas à gestão da cidade deixo-as, sobretudo, para quem nos representa nos órgãos autárquicos e para os espaços onde esse debate deve acontecer. Naturalmente, também faço os meus comentários nos grupos da cidade, porque tenho opiniões e não sou indiferente ao que acontece à minha volta. Simplesmente, não é a crítica que me move quando me sento para escrever os meus textos.

Quando era administrador de grupos, mantinha contacto com administradores de outras cidades e depressa percebi que as preocupações eram muito semelhantes. Não pensem, por isso, que as críticas à gestão autárquica acontecem apenas na Covilhã. Elas existem por todo o lado.

E ainda bem que assim é!

Uma sociedade saudável precisa de cidadãos atentos, com liberdade para questionar, discordar e exigir melhores decisões. Mal seria se vivêssemos num mundo em que a crítica fosse censurada e as pessoas tivessem medo de dizer aquilo que pensam. Criticar, quando se faz com respeito e sentido de responsabilidade, também é uma forma de participar e de querer o melhor para a nossa terra.

Mas cada um de nós tem o seu caminho, a sua maneira de pensar e a sua forma de contribuir. Eu escolhi fazê-lo, sobretudo, através das palavras, das memórias e das histórias que gosto de partilhar convosco.

E, por falar em histórias, tenho novidades!

Vou retomar os contos «Uma Aventura», protagonizados pelos seis amigos aventureiros covilhanenses. Amanhã, vou dedicar-me a escrever a aventura completa «Nas Portas do Sol», para depois dar início a uma nova história, intitulada «Uma Aventura na Estação».

Espero que continuem a acompanhar estes seis amigos e que se deixem levar pela imaginação, pela aventura e por aquele gosto especial de descobrir o que vem a seguir. Afinal, também é para isso que escrevo: para recordar, imaginar e, quem sabe, despertar em cada um de vós uma emoção ou um sorriso.

E termino com uma frase de que gosto particularmente, porque encerra uma grande verdade sobre a vida:

«Estou em construção, mas já estive em demolição.»

Gosto desta frase porque nos lembra que ninguém está verdadeiramente acabado. Todos temos partes de nós que ainda precisam de ser reconstruídas, sonhos que ficaram pelo caminho e feridas que o tempo vai ajudando a sarar.

Há momentos em que a vida nos deita abaixo, em que perdemos o rumo e julgamos que já não temos forças para recomeçar. Mas é precisamente nesses momentos que descobrimos do que somos feitos.

Reconstruir leva tempo. Exige coragem, paciência e, acima de tudo, vontade de continuar. Nem sempre voltamos a ser quem éramos, mas podemos tornar-nos pessoas mais fortes, mais conscientes e mais capazes de dar valor ao que realmente importa.

Porque a vida não exige que sejamos perfeitos, nem que tenhamos tudo resolvido. Pede-nos apenas que não desistamos de nós próprios.

E vocês? Também sentem que, ao longo da vida, já tiveram de demolir algumas partes de vós para poderem construir uma versão melhor de quem são hoje?

Um bom dia para todos, com saúde, paz e serenidade. E obrigado, do fundo do coração, por continuarem desse lado! 🍀



🍂 APRENDER A FAZER AS PAZES COM O PASSADO

Não devemos deixar que as situações mal resolvidas do passado continuem a roubar-nos a paz do presente. Há momentos em que precisamos de parar, olhar para dentro de nós, fazer uma introspeção de tudo o que vivemos e tentar compreender aquilo que nos magoou. Depois, chega a hora de aceitar, perdoar e, finalmente, colocar uma pedra sobre o que já não podemos mudar. É como se abríssemos as janelas da nossa alma para deixar entrar ar fresco e permitir que as feridas comecem a sarar.

Quando estamos bem connosco, tudo à nossa volta parece mais bonito. O sol brilha de outra maneira, as pequenas coisas ganham importância e até os dias mais cinzentos parecem ter um pouco de luz. Mas, quando carregamos mágoas, tristezas e pensamentos negativos, o mundo também nos parece cinzento. Por vezes, não é a vida que está mais difícil, somos nós que, por dentro, já não conseguimos encontrar a mesma luz para a olhar.

Se alguma coisa não resultou no passado, talvez a vida nos tenha conduzido por um caminho diferente daquele que imaginávamos. Quem sabe se, ao escolhermos outra estrada, teríamos chegado ao mesmo lugar ou se tudo teria sido completamente diferente? Nunca saberemos. A vida não nos permite voltar atrás para experimentar as escolhas que não fizemos. Permite-nos, isso sim, aprender com as que fizemos e seguir em frente com aquilo que elas nos ensinaram.

E a verdade é que há lições que só compreendemos com o passar dos anos. Algumas chegam devagar, outras deixam marcas profundas e há aquelas que aprendemos da maneira mais dura. Mas, mesmo dessas, podemos retirar alguma coisa que nos ajude a crescer, a conhecer-nos melhor e a não repetir os mesmos erros.

Deixar as mágoas para trás é meio caminho andado para encontrarmos a paz. Não podemos passar a vida a castigar-nos por erros que hoje já não cometeríamos. Na altura, fizemos o que sabíamos, com a experiência, a maturidade e as condições que tínhamos. Hoje somos diferentes, pensamos de outra maneira e vemos as coisas com outros olhos. E isso também é crescer.

Por isso, precisamos de aprender a perdoar os outros, mas também a nós próprios. Há culpas que carregamos durante anos sem percebermos que o tempo não volta atrás e que nenhum sofrimento de hoje consegue mudar o que aconteceu ontem. O que podemos fazer é aceitar, retirar a lição e procurar ficar de bem com a nossa consciência.

Estar em paz connosco próprios é uma das maiores riquezas que podemos alcançar. Porque, quando deixamos de lutar contra o passado, começamos finalmente a viver o presente. E quando o coração deixa de carregar pedras, os nossos passos tornam-se mais leves e o caminho, mesmo com as suas dificuldades, volta a ter beleza.

No fundo, a vida não nos pede que esqueçamos tudo aquilo que nos fez sofrer. Pede-nos que aprendamos a recordar sem voltar a sentir a mesma dor, a olhar para trás sem querer regressar e a compreender que nem tudo o que perdemos era para ficar.

Porque chega um dia em que percebemos que a verdadeira felicidade não está em mudar o que vivemos, mas em aceitar o que passou, valorizar o que temos e continuar a caminhar de coração aberto.

Que nunca nos falte a coragem de fechar as portas que nos magoam, a sabedoria para aceitar aquilo que não podemos mudar e a serenidade para perceber que a vida ainda tem muito de bonito à nossa espera.

Afinal, não podemos escrever de novo as páginas que ficaram para trás, mas podemos escolher, a cada amanhecer, as palavras com que escrevemos as páginas que ainda nos faltam viver.

Bom dia para todos nós! 🍀




🍂 NÃO HÁ SÁBADO SEM SOL, DOMINGO SEM MISSA, NEM SEGUNDA SEM PREGUIÇA!



Esta é a publicação 2.500 desde que iniciei este Blogue.

Obrigado a todos vocês que me leem.


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Este provérbio, nos anos 70 e 80 do século passado, tinha até uma certa verdade. Pelo menos no que respeitava aos domingos!

Eu e quase todos os meus amigos íamos à missa, principalmente quando ainda éramos acompanhados pelos nossos pais. Sozinhos, era outra conversa! Havia sempre uma escapadela para o Jardim Público, sobretudo para quem, como eu, frequentava a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

As missas de domingo, naquela época, tinham sempre casa cheia. Escapar não era tarefa fácil, mas, quando surgia uma oportunidade, era aproveitar! Como se costumava dizer: «Alas, que se faz tarde!» 😆

Aproveito para deixar um abraço ao senhor padre Fernando Brito, que durante largos anos foi sacerdote da paróquia de São Francisco e que certamente estará na memória de muitos covilhanenses.

Mas os domingos da Covilhã eram muito mais do que ir à missa. Havia outra tradição que fazia crescer água na boca: o arroz à valenciana do Pintado!

Era ver o corridinho de pessoas a atravessar a Rua das Flores para ir buscar aquela saborosa refeição, que fazia parte dos domingos de tantas famílias. Hoje, felizmente, são muitos os restaurantes que nos oferecem esta preciosidade da nossa gastronomia. Mas, para quem viveu aqueles tempos, há sabores que nunca mais são os mesmos. Talvez porque, além do arroz, levávamos para casa um bocadinho da felicidade daqueles domingos.

Depois do almoço, e como ainda não tínhamos centros comerciais para nos entreter, havia que aproveitar o que a cidade nos oferecia.

Um cafezinho num dos muitos cafés espalhados pela nossa praça era quase obrigatório. Destaco o MONTALTO, ponto de encontro de muitas famílias nos finais dos anos 70 e princípios dos anos 80. Era ali que se conversava, se encontravam amigos e se punham as novidades em dia. Sem telemóveis, sem mensagens e sem redes sociais. Para saber as novidades, bastava sentar-se à mesa e ouvir a conversa do lado!

Mas as tardes de domingo ainda podiam ter outros destinos.

Se o Sporting Clube da Covilhã jogasse no seu terreno, lá íamos nós apoiar a equipa. Também havia o Teatro Cine, para assistir a um bom filme, ou o Cine-Centro, que tantas tardes e noites ajudou a preencher.

E, se o tempo estivesse bom, havia muito por onde escolher. Naquela época, bom tempo queria dizer uma coisa muito simples: haver sol! Não havia avisos amarelos, laranjas ou vermelhos para nos dizer como estava o dia. Nós próprios fazíamos a previsão meteorológica: chegávamos à janela, espreitávamos o céu e decidíamos o programa!

Podíamos dar um passeio pelo Jardim Público, ver as montras das lojas, ir até ao Sporting ou ao Ginásio jogar uma partida de bilhar ou snooker. E, para os mais dançarinos, ainda havia um pé de dança na boîte A Fonte ou nas coletividades da cidade, que organizavam as suas matinés. O GIR Rodrigo e o GER Campos Melo eram dois bons exemplos.

Naqueles tempos, a diversão não precisava de grandes invenções. Bastava haver amigos, um lugar de encontro e vontade de aproveitar o dia. E, muitas vezes, era precisamente isso que tornava tudo tão especial.

Quando o tempo virava, com chuva e vento, hoje talvez merecedores de um aviso laranja, o programa mudava. Ficávamos por casa, a beber o chá das cinco, a assistir ao Passeio dos Alegres ou a ouvir pela rádio os relatos de futebol.

E que bem sabia, nos dias frios, beber um chazinho acompanhado de umas torradas, aconchegados no lar, com a família por perto! Lá fora, a chuva batia nas vidraças e o vento fazia das suas, mas, dentro de casa, havia calor, conversa e aquela tranquilidade que hoje parece andar tão desaparecida.

À noite, depois do jantar, ainda ficávamos um pouco à mesa. Conversava-se sobre os acontecimentos do dia, comentavam-se as notícias e preparava-se a semana que estava prestes a começar.

Depois, era hora de ir para a cama. No dia seguinte, uns tinham escola, outros trabalho, muitos deles nas fábricas de lanifícios, porque a Covilhã ainda vivia os tempos em que era conhecida como a Manchester Portuguesa.

E assim terminava mais um domingo. Sem grandes luxos, sem centros comerciais, sem internet e sem a pressa que hoje parece mandar em tudo.

Éramos felizes com pouco? Talvez. Ou talvez soubéssemos dar mais valor às pequenas coisas.

Hoje, quando recordamos aqueles domingos, já não ouvimos o sino da igreja da mesma maneira, já não encontramos todos os amigos nos cafés de antigamente e muitas das portas por onde entrávamos estão fechadas para sempre.

Mas basta uma recordação, um cheiro a chá acabado de fazer, o sabor de uma boa refeição ou uma conversa sobre os tempos antigos para, por instantes, voltarmos a ser aqueles rapazes e raparigas que tinham a vida inteira pela frente.

Os domingos passaram, a Covilhã mudou e nós também envelhecemos. Mas há uma coisa que o tempo nunca conseguiu levar: a saudade dos dias em que a felicidade morava nas coisas mais simples.

E, se por acaso, ao ler estas linhas, se lembrou de um amigo, de um café, de uma tarde de futebol ou de um domingo passado com os seus pais, então este texto já cumpriu a sua missão.

Porque há domingos que ficam para trás no calendário, mas nunca saem do coração.

Bom domingo para todos nós! 🍀



A PRAÇA NOS ANOS 70 E 80

Havia de tudo. E, sobretudo, havia vida!

Quem viveu a Covilhã dos anos 70 e 80 dificilmente se esquece dos sábados de manhã. Eram dias de verdadeira azáfama nas artérias centrais da cidade. A nossa Praça, como carinhosamente chamávamos ao Mercado Municipal, na Rua António Augusto de Aguiar, era o destino de muita gente que vinha da cidade, das aldeias e até de lugares bem distantes.

Logo pela madrugada, a Covilhã começava a despertar de uma maneira muito própria.

Eram cinco e meia da manhã e já as carrinhas, os tratores e todo o género de viaturas se encontravam estacionados junto aos passeios. Outros chegavam a pé, carregando sacas durante quilómetros, vindos das aldeias do concelho, trazendo consigo os produtos da terra e a esperança de fazer um bom negócio.

Àquela hora, as tabernas e os cafés das redondezas já tinham as portas abertas. Era preciso servir os vendedores, as quinteiras, as regateiras, os clientes e todos aqueles que, por uma razão ou por outra, faziam da Praça o centro das suas vidas.

O movimento crescia a cada minuto. As vozes cruzavam-se, as conversas multiplicavam-se e os pregões dos vendedores misturavam-se com o ruído dos passos e o vaivém das pessoas. Havia quem regateasse o preço de um molho de couves como se estivesse a negociar um grande negócio, quem procurasse a fruta mais bonita e quem aproveitasse o encontro para pôr a conversa em dia.

Porque a Praça não era apenas um mercado. Era também um lugar de encontros, de notícias e de convivência. Ali se sabia de tudo um pouco, muito antes de existirem as redes sociais!

O edifício tinha três pisos e cada um guardava as suas particularidades.

Lá em cima, no terraço, ficavam as famosas «tendas», onde se vendia roupa e toda a espécie de acessórios para a casa. Era uma espécie de feira dentro do próprio mercado, onde se podia encontrar quase sempre qualquer coisa útil, mesmo quando não se ia à procura de nada em especial.

Nos outros dois pisos, a variedade era enorme. Peixe fresco, carne, legumes, hortaliças e fruta enchiam as bancas de cor e abundância. Os cheiros misturavam-se, os vendedores anunciavam os seus produtos e os clientes percorriam os corredores, escolhendo o melhor que a terra e o mar tinham para oferecer.

E depois havia aquele pormenor que muitos ainda recordarão com um sorriso!

No centro do primeiro piso existia uma abertura redonda, à volta da qual alguns homens se debruçavam, aparentemente muito interessados no movimento do mercado… sobretudo no que se passava no piso inferior.

Estariam a fiscalizar a qualidade dos produtos? A observar o movimento comercial? Ou teriam outros interesses mais particulares?

Não vamos levantar suspeitas, mas que alguns pareciam bastante entretidos, lá isso pareciam! 😆

No piso inferior, num canto voltado para a Rua de Olivença, havia ainda uma zona reservada à venda de galinhas, ovos e outras espécies. Era mais um retrato de um tempo em que muitos produtos chegavam diretamente das mãos de quem os criava ou produzia.

Por todo o mercado circulavam os fiscais, bem uniformizados, de farda e boné a condizer. Percorriam os corredores, atentos ao que se passava, procurando manter a ordem no meio daquela enorme azáfama.

E gente era coisa que não faltava!

Por vezes, o movimento era tanto que os mais novos tinham de dar a mão aos pais ou aos avós, não fosse a multidão separá-los da família. Bastava distrairmo-nos por instantes para perdermos de vista quem nos acompanhava.

Lá fora, os autocarros chegavam carregados de passageiros. O terminal, situado junto às antigas instalações da PSP, era um ponto de passagem de muita gente que vinha fazer as suas compras. Entre os que chegavam, eram particularmente numerosos os provenientes da Aldeia do Carvalho.

Desciam com os seus sacos, cumprimentavam conhecidos e depressa se misturavam na multidão. Para muitos, aquela ida à Covilhã não era apenas uma necessidade: era também uma oportunidade para encontrar amigos, trocar novidades e sentir o pulsar da cidade.

E, à porta da Praça, havia sempre quem tivesse qualquer coisa para vender.

Pensos, pentes, caravelas, pinhões e até o famoso Borda d'Água, o almanaque que tantas famílias consultavam para saber os tempos das sementeiras, as fases da Lua e outras indicações úteis para a vida no campo.

Era uma montra de pequenos negócios, de gente trabalhadora e de uma economia feita de coisas simples, onde cada venda contava e cada moeda tinha o seu valor.

Eram outros tempos, meus amigos!

Não havia telemóveis, compras pela Internet nem mensagens a chegar a toda a hora. As notícias passavam de boca em boca, os encontros aconteciam naturalmente e, muitas vezes, uma ida à Praça demorava muito mais do que o previsto. Não por falta de tempo, mas porque havia sempre alguém para cumprimentar, uma conversa para continuar ou uma novidade para ouvir.

Hoje, quando passamos por aqueles lugares, talvez já não encontremos o mesmo bulício, as mesmas vozes ou aquela multidão que enchia as ruas aos sábados de manhã.

Mas quem viveu esses anos continua a ouvir tudo isso dentro de si.

Ainda conseguimos imaginar os pregões, os passos apressados, os autocarros a chegar, as sacas carregadas e os rostos de quem fazia da Praça uma parte importante da sua vida.

Porque há lugares que não desaparecem quando mudam. Ficam guardados na memória de quem os viveu.

E a nossa Praça era assim: um mercado de gente humilde e trabalhadora, de encontros inesperados, de histórias que começavam junto a uma banca e continuavam à porta de um café.

Talvez hoje já não se compre lá como antigamente. Talvez muita coisa tenha mudado. Mas, para quem guarda a Covilhã daqueles anos no coração, basta fechar os olhos para voltar a ser sábado de manhã.

E lá vamos nós, de mão dada com os nossos pais ou avós, no meio daquela multidão, sem imaginar que um dia sentiríamos tanta saudade de coisas tão simples.

Afinal, não era apenas a Praça que nos fazia falta. Era a Covilhã da nossa juventude. Era a nossa gente. Era uma parte de nós que ficou para sempre naqueles anos.

Bom dia para todos nós!🍀





Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...