AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO V

                                               Capítulo V
                                         O Acidente


O inverno chegou cedo nesse ano. Na Covilhã, Pedro continuava o seu trabalho na fábrica de lanifícios, repetindo o ritmo das máquinas enquanto pensava no verão em que a Flor prometera voltar.
Mas numa tarde cinzenta chegou uma carta diferente. Não era a letra dela.
Era de um conhecido da família em França. As palavras vinham cuidadosas, quase com medo: tinham sofrido um acidente de automóvel numa estrada molhada perto de Lyon. O carro despistara-se numa curva.
O pai da Flor estava hospitalizado. A mãe também. A Flor ficara gravemente ferida.
Pedro leu a carta várias vezes no quarto onde vivia, perto do jardim. As paredes pareciam apertar-se à sua volta. Durante horas não disse nada a ninguém. Depois falou com o patrão e este concordou em antecipar uns dias de férias.
Na manhã seguinte foi até à Estação da Covilhã. Comprou um bilhete com o pouco dinheiro que tinha. Não sabia quanto tempo demoraria a chegar, nem como se orientaria num país estranho. Sabia apenas que tinha de ir.
Antes de partir, passou pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Acendeu uma vela, como tantas vezes tinha visto a Flor fazer.
O comboio começou a mover-se devagar, deixando a serra para trás. Pedro olhava pela janela enquanto o país desaparecia.
Pela primeira vez desde a revolução, sentia que a vida não era feita de grandes mudanças políticas ou discursos nas praças — era feita de pequenos gestos de coragem.
E aquele, talvez, fosse o mais importante de todos: atravessar metade da Europa para não deixar alguém enfrentar a dor sozinho.
A viagem foi longa. Comboio atrás de comboio, estações que Pedro mal conseguia pronunciar, paisagens que passavam depressa pela janela. Levava apenas uma mala pequena e o endereço do hospital dobrado no bolso do casaco.
Dias depois chegou a Lyon. A cidade parecia enorme, cheia de ruídos e luzes que nada tinham a ver com a serenidade da serra. Com esforço e alguma ajuda de estranhos, encontrou finalmente o hospital.
O coração batia-lhe com força quando entrou no corredor branco onde lhe disseram que a Flor estava.
Ela estava deitada, pálida, com um braço engessado e o rosto marcado por cortes. Quando abriu os olhos e o viu à porta, demorou um segundo a acreditar.
— Pedro…? — sussurrou.
Ele aproximou-se devagar, como se temesse que o momento se quebrasse.
— Vim — disse apenas.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. O pai e a mãe recuperavam noutro piso do hospital, ainda frágeis, mas fora de perigo. - Ainda requer muitos cuidados, disseram os médicos.
Nos dias seguintes, Pedro ficou por ali, ajudando no que podia. Aprendeu algumas palavras de francês, trouxe-lhe jornais, leu-lhe cartas antigas da Covilhã. Às vezes falavam da cidade: do Pelourinho, do café onde se sentavam, da serra coberta de neve.
E cada vez que falavam da Covilhã, a Flor sorria um pouco mais.
Uma tarde, olhando pela janela do hospital para o céu cinzento de França, ela disse:
— Quando eu melhorar… quero voltar para casa.
Pedro segurou-lhe a mão com cuidado.
Desta vez, nenhum dos dois duvidava do que significava “casa”.

Continua…
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Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO IV

                            Capítulo IV- Partida para França

A notícia caiu numa tarde silenciosa.
A Flor esperou pelo Pedro no jardim, como tantas vezes antes. Quando ele chegou, percebeu logo no olhar dela que algo tinha mudado.
— Vamos para França — disse, sem rodeios. — O meu pai conseguiu trabalho numa fábrica perto de Lyon. Partimos no fim do verão.
O Pedro ficou imóvel. A revolução trouxera liberdade ao país, mas não resolvera tudo. Havia ainda salários curtos, incertezas longas, sonhos adiados.
Nos dias que se seguiram, caminharam mais do que falavam. Passaram pelo mercado, pelas arcadas da câmara, pelo café onde já sabiam de cor o pedido um do outro. Cada esquina parecia guardar uma despedida.
Na véspera da partida, sentaram-se num banco com vista para a serra. Não prometeram eternidades — prometeram cartas, visitas, resistência.
— A cidade não é só ruas — disse o Pedro. — É quem fica nela.
Na manhã da viagem, a mala da Flor era pequena para tanta saudade. Abraçaram-se demoradamente, como quem tenta decorar o peso do outro.
Quando o carro arrancou em direção à fronteira, a Covilhã ficou para trás. Mas entre França e Portugal, entre fábricas e montanhas, levavam ambos a mesma certeza: algumas histórias não acabam com a distância — transformam-se.
Os primeiros meses em França foram duros para a Flor. A língua tropeçava-lhe na boca, o frio era húmido e estranho, e as ruas não tinham o eco das pedras da Covilhã. A fábrica onde o pai trabalhava cheirava a metal e óleo — nada a ver com a lã quente das fábricas da serra.
Escrevia ao Pedro todas as semanas. Contava-lhe dos prédios altos, das padarias com nomes difíceis, da saudade que aparecia sem avisar. Dizia-lhe que, às vezes, fechava os olhos e ouvia os teares como se ainda estivesse em casa.
Pedro respondia à noite, depois do turno. A fábrica de lanifícios continuava exigente, mas agora havia reuniões, conversas sobre direitos, esperança em voz alta. A revolução não ficara só nas rádios — estava também nas mãos calejadas dos operários.
Passaram-se estações. A distância deixou de ser ferida aberta e tornou-se ponte frágil, sustentada por cartas, fotografias e promessas sussurradas em papel fino.
Um dia, a Flor escreveu diferente: “Quero voltar no verão. Nem que seja só para sentir a serra.”
Quando o comboio dela parou na estação da Covilhã, anos depois, Pedro estava à espera. Já não eram adolescentes. Havia mais mundo nos olhos de ambos.
Mas quando se abraçaram, perceberam algo simples e inteiro: o tempo pode mudar a vida — não muda aquilo que foi verdadeiro.
E, entre partidas e regressos, a história deles continuava a ser tecida, fio a fio, como a própria cidade.
Continua…
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Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO III

                               Capítulo III - O Reencontro

O reencontro aconteceu numa tarde tranquila de primavera.
Pedro caminhava sem destino certo quando a viu, junto ao Pelourinho da Covilhã. A Flor estava diferente — o cabelo mais comprido, o olhar mais firme — mas era ela. Sempre fora ela.
Ficaram imóveis por um segundo que pareceu um ano inteiro.
— Voltaste — disse ela, num sopro.
— Voltei — respondeu ele, com a voz ainda rouca das coisas que nunca contaria.
Caminharam lado a lado pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, como se retomassem um passo interrompido. Na Confeitaria Lisbonense, pediram dois cafés. As mãos quase se tocaram sobre a mesa de mármore.
Não falaram da guerra. Nem da distância. Falaram da cidade, das mudanças depois de abril, dos sonhos que tinham ficado suspensos no tempo.
Ao sair, passaram pelo monumento de Nossa Senhora da Conceição. A Flor entrou para acender uma vela. Pedro ficou junto às grades, olhando o céu sobre a serra.
Quando ela voltou, já não havia dúvida no silêncio entre eles. Havia escolha.
E, ali mesmo, entre pedras antigas e promessas novas, perceberam que há reencontros que não pedem explicações — apenas coragem para recomeçar.
Os dias seguintes à revolução trouxeram um entusiasmo inquieto à Covilhã. Falava-se de liberdade nas ruas, nas filas do pão, nas mesas de café. Pedro sentia que o país tinha mudado — e que ele também precisava de mudar.
Numa manhã fria, atravessou o centro e subiu em direção às fábricas de lanifícios que faziam da cidade um coração de lã e fumo. O som dos teares ecoava como um pulso constante. Ali não havia tiros nem ordens gritadas — havia trabalho.
Apresentou-se ao encarregado da "LANOFABRIL" com a mesma postura firme que trouxera da tropa. Dias depois, começou na secção de acabamento. As mãos, habituadas ao peso da arma, aprenderam o ritmo dos tecidos, a aspereza da lã crua, o orgulho de ver um rolo perfeito sair da máquina.
Ao fim da tarde, encontrava-se com a Flor no jardim. Contava-lhe do cheiro a vapor, das conversas dos operários sobre sindicatos e direitos novos. Ela ouvia com atenção e sorria — havia esperança naquele cansaço.
A cidade transformava-se devagar. E Pedro, entre fios entrelaçados e sonhos reconstruídos, começava finalmente a tecer o seu próprio futuro.
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO II

                              Capítulo II - A Revolução dos cravos

Os meses foram passando, marcados pelas cartas que chegavam com selo e cheiro a viagem. O Pedro escrevia sobre fábricas, saudades e o frio que não era o da serra. A Flor respondia contando-lhe as novidades da cidade — o movimento no mercado, os filmes novos no cinema, as conversas intermináveis no café.
Até que chegou o dia 25 de abril de 1974.
Nessa manhã, a Covilhã acordou diferente. A rádio falava baixo, mas com urgência. Na praça, junto ao Pelourinho, as pessoas juntavam-se em pequenos grupos. Corria a palavra: revolução.
A Flor ouviu na telefonia a canção que parecia senha e promessa — Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso — e sentiu um arrepio. Diziam que, em Lisboa, os militares tinham saído para a rua. Que o regime estava a cair. Que o país podia, finalmente, respirar.
Na Covilhã, os rostos estavam entre o medo e a esperança. Alguns choravam. Outros sorriam sem saber bem porquê. A Flor correu até às arcadas da câmara, onde alguém agitava um cravo vermelho.
Nessa noite, escreveu ao Pedro uma carta diferente de todas as outras:
“Hoje o país mudou. Talvez quando voltares, encontres uma Covilhã mais livre. Talvez nós também sejamos mais livres.”
Sem saber quando ele leria aquelas palavras, a Flor percebeu que a distância já não era só ausência — era também caminho. Tal como o país, eles estavam a aprender o que significava começar de novo.
E, pela primeira vez desde a partida na estação, a esperança parecia maior do que a saudade.
Pedro estava de serviço na Escola Prática de Santarém, o ponto de partida da coluna militar comandada pelo Capitão Salgueiro Maia que derrubou a ditadura no dia 25 de abril de 1974, sem que Flor soubesse, Pedro era um herói de Abril…
Chamava-se Pedro, mas na tropa passaram a tratá-lo apenas por “Soldado”. Voltou à Covilhã numa manhã clara, com a farda ainda marcada pelo pó distante e um silêncio que trazia dentro.
Desceu na Estação da Covilhã com uma mala leve e memórias pesadas. A cidade parecia igual — a serra ao fundo, o ar frio a cortar — mas ele sentia tudo diferente.
Caminhou devagar até ao centro. No Pelourinho da Covilhã, parou como quem precisa de confirmar que o chão é firme. As arcadas da Câmara Municipal da Covilhã devolviam-lhe o eco dos passos, agora mais seguros.
Entrou no Café MONTALTO. O burburinho calou-se por um instante. Alguém lhe bateu no ombro. “Já chega de guerra, rapaz”, disse um homem ao balcão. Pedro sorriu pela primeira vez.
Mais tarde, passou pela Igreja da Misericórdia da Covilhã. Não pediu nada; agradeceu apenas por estar ali.
Ao fim da tarde, viu a cidade tingir-se de laranja. Não sabia ainda que futuro o esperava, mas sabia isto: regressar é um ato de coragem. E naquela Covilhã que respirava novos tempos, Pedro deixava de ser só soldado — voltava a ser filho, amigo, vizinho. Voltava para sua casa…
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO I

                                 Capítulo I - A despedida

Na Covilhã dos anos 70, o Pedro e a Flor encontravam-se quase todos os dias junto ao Pelourinho. Diziam que era só coincidência, mas os dois sabiam de cor as horas um do outro. Das arcadas da Câmara Municipal viam o movimento da praça e inventavam histórias sobre quem passava.
Ao sábado, percorriam o Mercado Municipal, partilhando uma maçã comprada às escondidas. Depois fugiam para o Café MONTALTO, onde o cheiro a bica e a conversa dos adultos os fazia sentir ainda mais crescidos.
À saída do Teatro Cine da Covilhã, comentavam o filme como se fossem críticos famosos. Cumprimentavam o polícia sinaleiro, sempre firme no cruzamento, e espreitavam as manchetes no Leal dos Jornais antes de seguirem para a Igreja da Misericórdia, onde a Flor acendia uma vela em silêncio.
Entre ruas de pedra e promessas sussurradas, a cidade era deles — inteira e infinita.
Numa tarde de outono, Pedro apareceu mais cedo no Pelourinho da Covilhã. Trazia um ar sério, diferente. A Flor percebeu logo que havia novidade.
— Fui alistado para o serviço militar — disse ele, olhando para as pedras antigas como se procurasse resposta nelas.
Caminharam em silêncio pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, onde o eco dos passos parecia maior do que o costume. No Mercado Municipal da Covilhã, as peixeiras gritavam preços como sempre, mas tudo soava distante.
Refugiaram-se no Café MONTALTO. O dono piscou-lhes o olho; já sabia que aqueles dois eram inseparáveis. A Flor pousou a mão sobre a dele.
— Mesmo que vás, voltas, a Covilhã não desaparece.
Nessa noite, foram ao Teatro Cine da Covilhã. O filme falava de partidas e regressos. À saída, o polícia sinaleiro levantou a mão para travar o trânsito e sorriu-lhes, como se abençoasse o momento.
Passaram ainda pelo Leal dos Jornais, onde as manchetes falavam de mudanças no país. Mudanças — a palavra parecia persegui-los.
Antes de se despedirem, entraram na Igreja da Misericórdia. A Flor acendeu outra vela. Pedro não pediu nada em voz alta, mas prometeu regressar.
E, pela primeira vez, perceberam que crescer era isto: amar uma cidade, amar alguém… e aprender que nem tudo fica parado no mesmo lugar.
Os dias passaram depressa demais. Quando chegou dezembro, o frio descia da serra e entrava pelas ruas como um aviso.
Na manhã da partida, encontraram-se pela última vez junto à Estação da Covilhã. O comboio ainda não tinha chegado, mas o fumo já se adivinhava ao longe. Havia malas gastas, lenços a acenar, silêncios pesados.
— Eu volto — disse o Pedro, tentando soar mais velho do que era.
Flor fingiu acreditar sem medo. Entregou-lhe um envelope com folhas arrancadas do caderno onde escrevia às escondidas. “Para não te esqueceres”, murmurou.
Na véspera, tinham passado pelo Café Primor. Sentados lado a lado, beberam dois galões devagar, como se o tempo pudesse ser esticado à força de pequenos goles. Falaram da escola, dos filmes no cinema, das tardes no Pelourinho — mas evitaram a palavra adeus.
O apito ecoou pela estação. O comboio começou a mover-se com um estremecimento de ferro e esperança. Pedro encostou-se à janela. Flor correu ao lado da carruagem até perder o fôlego.
Quando tudo ficou em silêncio outra vez, a Covilhã parecia maior — e mais vazia. Mas a Flor sabia que, algures entre carris e montanhas, começava outra parte da história deles…
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



E TUDO SE RENOVA...

 Bom dia caros seguidores!

 Último dia de Fevereiro deste ano, o que tudo indica vamos entrar num mês que a meu ver trás mais otimismo a todos os níveis. Março por si só, e mais não fosse, é o mês que entra a Primavera, o mês que tudo se renova, os dias são maiores e os passarinho cantam alegres. 

 Há mais de dois anos que recomecei a minha renovação pessoal, continuo a acertar agulhas, muito tenho ainda para fazer, mas uma coisa eu consegui, maior auto estima e decisões mais acertadas. Tento a cada dia ser melhor e por sequência ao ser melhor para mim estou a ser melhor para os outros.

 Gosto da escrita desde sempre e começei a lançar uns contos nas redes sociais, um  pouco das minhas vivências misturadas com alguma ficção. Não quero ser conhecido nem ganhar dinheiro com isso, apenas que os seguidores os leiam porque muitas das histórias estão também relacionadas com eles.

 Último dia de Fevereiro, que seja de paz e harmonia entre os povos, num dia em que começa outra guerra entre Estados Unidos/Israel contra o Irão. Não é com guerras que se constrói um mundo mais justo e saudável, não é à custa de civis inocentes que se proclama justiça. O ódio só fomenta mais ódio.

Sejam felizes e tentem andar em paz com vocês mesmos.

Um abraço.



UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE - (COMPACTO)

UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE
                                               
                                                    I Parte
                                           O TESOURO

 
Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.
Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Francisco, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.
— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.
— Ninguém sabe — respondeu o Francisco, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.
Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.
A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .
A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.
Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Quim encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.
Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.
— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.
— E sobre a amizade — completou o João.
Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.
E, de certa forma, tinham.
Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

                                                II Parte
                                  O SEGREDO DO SINO


 Depois da descoberta da caixa na capela, o grupo não falou de outra coisa durante dias. As cartas antigas tinham mexido com todos. Quem seriam aqueles jovens? Teriam ficado amigos para sempre? Teriam voltado a São Silvestre?
Numa tarde quente de agosto, voltaram a reunir-se no Largo de São Silvestre. O Francisco trazia um ar sério.
— O meu pai contou-me uma coisa — disse ele. — Antigamente, o sino da capela tocava sozinho em certas noites. Diziam que era sinal de promessa por cumprir.
O Quim arregalou os olhos.
— Sozinho? Isso é impossível.
— Impossível é não irmos ver — respondeu a Natércia.
Combinaram encontrar-se ao anoitecer, com a velha lanterna do quintal da casa do Francisco. O largo ficava diferente à noite: menos vozes, sombras mais longas, janelas iluminadas aqui e ali.
Aproximaram-se da capela em bicos de pés, como se o silêncio fosse frágil. O Paulo empurrou devagar a porta de madeira — que, para surpresa de todos, não estava trancada.
Lá dentro, o ar era fresco e cheirava a pedra antiga. A lanterna iluminava o altar simples e as paredes gastas pelo tempo. O coração do João batia tão alto que ele jurava que dava eco.
De repente…
Dong.
O sino soou uma vez.
Os quatro ficaram imóveis.
— Foi o vento — sussurrou a Natércia, sem muita convicção.
O Francisco apontou a luz para cima. A corda do sino balançava levemente.
Subiram as escadas estreitas até à pequena torre. Quando lá chegaram, perceberam o mistério: uma das janelas estava aberta e o vento da serra entrava com força, empurrando a corda.
O João soltou uma gargalhada de alívio.
— Afinal o fantasma era o vento!
Mas o Helder, que observava o chão, encontrou algo preso entre as tábuas: um papel dobrado, muito antigo. Abriram com cuidado.
Era apenas uma frase, escrita à mão:
"Prometemos voltar aqui todos os verões, enquanto formos amigos."
Os sete olharam uns para os outros em silêncio. Não era medo — era entendimento.
Sem combinar, deram as mãos em círculo.
— Então fazemos a mesma promessa — disse a Natércia.
E ali, na pequena torre da capela, fizeram o seu pacto: todos os verões, independentemente do que mudasse, voltariam a São Silvestre para uma nova aventura.
Ao sair, o sino tocou outra vez com o vento, mas agora soava diferente.
Soava a tradição a começar.
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Bom dia para todos nós🍀





UM ROMANCE NA COVILHÃ - (3º CAPÍTULO)

Capítulo 3 — Vinte anos depois

Vinte anos passaram.

A Cidade da Covilhã já não era exatamente a mesma — havia cafés novos, lojas diferentes, ruas e avenidas mais movimentadas. Mas as pedras continuavam lá. E o ar fresco da serra continuava a descer ao fim da tarde como se o tempo nunca tivesse aprendido a correr.
Xavi já não era o rapaz que sonhava com grandes histórias. Era um homem feito, com marcas de escolhas, perdas, conquistas. Fez o serviço militar, saído da cidade, começou a trabalhar. Mas naquele verão o passado ressuscitou.
Não por nostalgia.
Ou talvez um pouco.
Caminhou pelo centro da cidade com passos mais lentos. Passou pela antiga escola, olhou as vitrines renovadas, reconheceu cheiros familiares. Quando chegou ao jardim, o coração acelerou sem pedir autorização.
O banco ainda estava lá, mas o jardim estava renovado, os arbustos e os canteiros com flores já não existiam.
Sentou-se.
Abriu a mochila e tirou um livro antigo, gasto nas bordas. O mesmo. O que ela lhe tinha dado vinte anos antes.
Folheou até encontrar o bilhete que ainda guardava entre as páginas.
"Última corrida na piscina. Hoje."
Sorriu sozinho.
— Ainda guardas isso?
A voz veio atrás dele.
Xavi congelou por um segundo antes de se virar.
Era ela.
O tempo tinha desenhado maturidade no rosto dela, mas os olhos eram exatamente os mesmos. Aqueles olhos que riam antes da boca.
— Pensei que tinhas ido embora para sempre — disse ele, quase num sussurro.
— Fui. Mas algumas partes minhas ficaram aqui.
Sentaram-se lado a lado, como antes. Não houve pressa em falar. O silêncio já não era tímido; era confortável.
Ela contou que tinha vivido noutras cidades, trabalhado, amado, perdido, crescido. Ele contou o mesmo. Riram das versões jovens de si próprios.
— Sabes o que mais me marcou? — perguntou ela.
— A corrida?
— Não. O que disseste naquele miradouro. Que eu fazia parte da tua história.
Xavi respirou fundo.
— E fazes.
Ela olhou para as árvores do jardim.
— Eu voltei há alguns meses. Trouxe a minha filha para viver aqui. Queria que ela crescesse num sítio onde as histórias começam em bancos de jardim.
O coração dele bateu diferente.
— Então ainda acreditas nisso?
— Mais do que nunca.
O sol começava a descer, pintando o céu com tons dourados — quase iguais aos daquele verão distante. Como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa.
— Há uma piscina nova, na parte baixa da cidade - tem ondas - disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu.
— Ainda sabes perder corridas?
— Nunca foi sobre ganhar.
Ficaram ali mais um pouco. Vinte anos tinham passado, mas o que era verdadeiro não tinha desaparecido — apenas amadurecido.
Desta vez, quando as mãos se encontraram, não foi por acaso nem por despedida.
Foi escolha.
E Xavi percebeu, finalmente, que algumas histórias não acabam.
Elas esperam.
O relógio da torre de São Francisco dava as horas no mesmo instante que os lábios se uniam e a história se escrevia de vez…

FIM

Bom dia para todos nós🍀



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...