CLUBE DOS SEIS
Uma aventura na Estação
Episódio 3 de 5 — O segredo das lanternas
A noite caíra sobre a Covilhã, envolvendo as ruas do centro numa escuridão interrompida apenas pela luz amarelada dos candeeiros públicos.
Na casa de Paulo, seis jovens estavam reunidos em volta da mesa da sala. Em cima dela encontravam-se a fotografia do barracão, o envelope castanho e o pequeno papel com a frase que não lhes saía da cabeça:
«Se querem encontrar as joias, procurem onde a luz nunca chega.»
Paulo voltou a ler as palavras em voz alta.
— Onde a luz nunca chega… Que raio quererá isto dizer?
Francisco, sentado numa cadeira e com uma bolacha Maria entre os dedos, encolheu os ombros.
— Se for um sítio onde nunca chega a luz, só pode ser a minha carteira ao fim do mês!
— Francisco, por uma vez, tenta levar isto a sério! — repreendeu Natércia, embora não conseguisse evitar um sorriso.
— Eu levo! Mas, se vamos entrar num barracão escuro, alguém tem de manter o moral da equipa. E não estou a ver o Quim a contar anedotas!
Quim nem respondeu. Continuava a observar a fotografia.
Fátima aproximou-se da mesa e apontou para o canto inferior da imagem.
— Vejam aqui. Esta abertura na parede parece estar parcialmente escondida por umas tábuas. E, se repararem bem, há uma zona mais escura por baixo do telhado.
João pegou na fotografia e examinou-a junto à luz.
— Tens razão. Pode haver um compartimento escondido. Mas não sabemos se a fotografia foi tirada recentemente.
— Nem sequer sabemos quem a deixou à porta do Paulo — acrescentou Natércia. — Pode ser alguém a tentar ajudar-nos, mas também pode ser uma armadilha.
Paulo levantou-se e foi buscar um pequeno mapa da zona da estação, que tinha desenhado com base no que conhecia.
— Seja como for, não podemos continuar a adivinhar. Temos de perceber o que se passa naquele barracão.
— Estás a pensar irmos lá esta noite? — perguntou Quim.
— Estou. Mas não vamos entrar à força nem andar a mexer em coisas que não nos pertencem. Vamos observar o terreno, perceber se alguém anda por lá e tentar descobrir o significado daquela mensagem. Se houver alguém ou alguma coisa suspeita, recuamos.
Fátima concordou.
— E vamos juntos. Ninguém se afasta dos outros.
João abriu uma gaveta e começou a distribuir algumas lanternas que tinham conseguido arranjar.
— Convém verificar as pilhas. Não quero ninguém às escuras a meio da investigação.
Francisco pegou numa lanterna, carregou no interruptor e apontou-a para o teto.
— Esta funciona. Agora só falta descobrir se também serve para afugentar ladrões!
— Se começares a fazer perguntas sem sentido, talvez os afugentes pelo cansaço! — respondeu João.
O grupo riu-se, mas a preocupação permanecia.
Pouco depois, os seis combinaram a hora da partida. Iriam descer juntos até à estação, mantendo-se atentos e sem chamar a atenção.
A aventura estava prestes a entrar numa nova fase.
Já passava das dez da noite quando deixaram o centro da cidade.
A descida pelo Ramal da Estação parecia diferente àquela hora. Durante o dia, o movimento das pessoas e os ruídos habituais escondiam a inquietação de quem caminhava. Agora, cada passo ecoava na rua quase deserta.
Francisco seguia atrás de João, segurando a lanterna com as duas mãos.
— Nunca pensei que um dia viesse passear para estes lados a estas horas por causa de umas joias!
— Ainda podes voltar para casa — disse Natércia.
— Nem pensar! Depois, se encontrarem um saco cheio de ouro, ainda dizem que eu não quis ajudar a carregar!
— Já estou a imaginar — comentou Quim. — O Francisco a escolher uma joia para cada bolacha Maria que comeu durante a investigação!
— Se continuas com essa conversa, Quim, não te dou nem uma migalha!
As brincadeiras ajudavam a aliviar a tensão, mas o silêncio da noite depressa voltou a impor-se.
Quando chegaram à zona da estação dos Caminhos de Ferro, Paulo fez sinal para que parassem.
Ao longe, ouviam-se os sons próprios de uma estação ferroviária. Um apito distante, o ruído metálico de uma composição e o eco de passos algures na plataforma.
O grupo avançou com cautela por um caminho público, afastado da circulação ferroviária.
— O barracão fica para lá daquela zona — sussurrou Quim, apontando para o descampado situado por detrás da estação.
— Vamos contornar o terreno e observar primeiro — decidiu Paulo.
Seguiram pelo caminho, iluminando o chão com as lanternas. A vegetação estava húmida e, de vez em quando, um ramo estalava sob os pés de alguém.
De repente, Natércia agarrou o braço de Fátima.
— Ouviram?
Todos ficaram imóveis.
Um ruído tinha vindo do lado do barracão.
Parecia uma pancada seca, seguida de um arrastar de qualquer coisa pesada.
Paulo ergueu a mão, pedindo silêncio.
O grupo apagou as lanternas durante alguns segundos.
No escuro, ouviram claramente duas vozes masculinas.
— Tens a certeza de que ninguém nos viu? — perguntou uma delas.
— Já te disse que não. Amanhã isto tem de estar resolvido.
Seguiu-se um silêncio.
Depois, a primeira voz voltou a falar:
— E se os seis voltarem?
Quim sentiu um arrepio.
Os seis?
Estariam aqueles homens a falar deles?
Francisco aproximou-se de João e murmurou-lhe ao ouvido:
— Se sabem que somos seis, espero que não tenham contado com a minha parte do lanche!
João deu-lhe uma cotovelada discreta para que se calasse.
As vozes desapareceram. Pouco depois, uma luz surgiu por detrás do barracão e deslocou-se lentamente até uma abertura na parede.
— Alguém está lá dentro — sussurrou Fátima.
Paulo fez sinal para avançarem apenas até um ponto de onde pudessem observar sem serem vistos. Não tentariam entrar. Se conseguissem perceber o que aqueles homens estavam a fazer, já seria uma vitória.
Foi então que João apontou para o chão.
Havia marcas recentes de pneus junto a uma zona de terra batida.
— Veio aqui um veículo — murmurou.
— E não há muito tempo — acrescentou Fátima.
Paulo olhou para o barracão. A luz interior apagou-se subitamente.
No instante seguinte, ouviu-se o bater violento de uma porta.
— Depressa! — gritou alguém lá dentro.
Os seis baixaram-se instintivamente.
Um homem saiu do barracão e começou a correr na direção oposta à estação. Levava qualquer coisa debaixo do braço.
O segundo apareceu logo atrás, mas, em vez de seguir o companheiro, ficou parado junto à entrada, olhando atentamente para o descampado.
Paulo sentiu que estavam prestes a ser descobertos.
— Não se mexam — sussurrou.
O homem deu alguns passos na direção deles.
A luz da sua lanterna percorreu o terreno, passou por uma pedra e deteve-se junto a um arbusto.
Fátima prendeu a respiração.
Francisco apertou tanto a lanterna que os nós dos dedos ficaram brancos.
O homem avançou mais um pouco.
Foi então que um comboio se fez ouvir ao longe, aproximando-se da estação. O ruído cresceu rapidamente, enchendo a noite e abafando todos os outros sons.
Aproveitando aquele momento, Paulo fez sinal aos amigos para recuarem em silêncio pelo caminho por onde tinham vindo.
Mas Quim, ao dar um passo atrás, pisou um ramo seco.
Crac!
O homem virou-se imediatamente.
— Quem está aí?
A luz da lanterna varreu a escuridão.
— Apareçam! Eu sei que estão aí!
O grupo começou a afastar-se, tentando não fazer barulho. Contudo, quando alcançaram uma zona mais aberta, ouviram passos a correr na sua direção.
— Estão a fugir! — gritou o desconhecido.
Paulo não hesitou.
— Todos juntos! Vamos sair daqui!
Os seis aceleraram o passo, contornando o terreno até alcançarem uma zona mais iluminada e movimentada da estação. O homem não os perseguiu até ali.
Só quando tiveram a certeza de que estavam fora do alcance imediato do desconhecido é que pararam para recuperar o fôlego.
Francisco apoiou as mãos nos joelhos.
— Da próxima vez, proponho uma atividade mais tranquila. Um jogo de cartas, por exemplo. Ou uma visita à mercearia do Sr. Raul!
— Estás bem? — perguntou Natércia.
— Estou. Mas acho que perdi três anos de vida e duas bolachas Maria que ainda tinha no bolso!
Apesar do nervosismo, todos se riram.
Paulo, porém, continuava preocupado.
— Aquele homem sabia que alguém estava a observar o barracão. E ouviu-se falar de nós. Isto já não é uma simples coincidência.
— Também ouvi uma coisa importante — disse Fátima. — Um deles perguntou se os seis voltariam. Isso significa que sabem da nossa existência ou, pelo menos, que alguém lhes falou de nós.
— E o homem que saiu primeiro levava qualquer coisa debaixo do braço — acrescentou João. — Pode ter sido a caixa das joias.
Quim abanou a cabeça.
— Ou pode ter sido outra coisa qualquer. Ainda não temos a certeza de nada.
Paulo concordou.
— Amanhã vamos pensar com calma. Não podemos arriscar mais do que já arriscámos esta noite. Se as joias estão naquele barracão, temos de encontrar uma maneira segura de provar isso.
O grupo iniciou o regresso ao centro da Covilhã. A descida pelo Ramal da Estação fora feita com a esperança de encontrar respostas. A subida fazia-se agora com mais perguntas do que certezas.
Mas a aventura ainda não tinha terminado.
Quando chegaram a casa de Paulo, já a noite ia adiantada.
Os seis entraram na sala, pousaram as lanternas e sentaram-se, exaustos. Paulo preparou um pouco de água para todos, enquanto Natércia voltou a colocar a fotografia do barracão em cima da mesa.
— Há uma coisa que não me sai da cabeça — disse ela. — A mensagem dizia para procurarmos onde a luz nunca chega. E hoje vimos uma luz a sair de uma abertura na parede.
Fátima pegou na fotografia.
— Talvez a pista não se refira à escuridão da noite. Talvez haja um espaço escondido no interior do barracão, atrás daquela parede.
João aproximou-se e examinou novamente a imagem.
— Se existir um compartimento secreto, pode ser ali que as joias estão guardadas.
— Ou pode não haver compartimento nenhum — lembrou Quim. — Não vamos transformar suspeitas em certezas.
Paulo estava prestes a responder quando alguém bateu à porta.
Três pancadas lentas.
Toc. Toc. Toc.
Todos se entreolharam.
Aquela hora, não estavam à espera de visitas.
Paulo levantou-se devagar e aproximou-se da entrada. Antes de abrir, perguntou:
— Quem é?
Ninguém respondeu.
Voltou a ouvir-se uma pancada, desta vez mais forte.
Paulo abriu a porta de repente.
O patamar estava vazio.
No chão, junto à entrada, encontrava-se um pequeno embrulho envolvido em papel pardo.
Paulo olhou para o corredor, mas não viu ninguém. Apanhou o embrulho e fechou a porta.
Os amigos reuniram-se à volta dele.
Com cuidado, Paulo retirou o papel.
Dentro havia uma pequena chave de ferro, escurecida pelo tempo, e um pedaço de papel dobrado.
Fátima abriu-o e leu em voz alta:
«Amanhã será tarde. A caixa vai sair da Covilhã. Se querem salvar as joias, descubram o que está escondido debaixo do chão.»
O silêncio instalou-se na sala.
João olhou para a chave.
— Será a chave do barracão?
Quim ficou pensativo.
— E se a caixa que vimos esta noite não tiver as joias? E se existir outra, escondida debaixo do chão?
Paulo fechou a mão em torno da chave.
— Amanhã temos de agir. Mas, desta vez, vamos procurar ajuda e não vamos correr riscos desnecessários.
Foi então que Francisco, que até ali estivera calado, reparou num pormenor no papel.
— Esperem! Há mais qualquer coisa escrita aqui, quase apagada.
Aproximou o papel da luz.
Por baixo da mensagem, em letras pequenas, lia-se um nome:
PACHECO.
O nome da ourivesaria assaltada.
Paulo empalideceu.
— Isto significa que alguém ligado à ourivesaria nos está a tentar ajudar?
— Ou que alguém quer que pensemos isso — respondeu Fátima.
Antes que pudessem discutir a descoberta, ouviu-se um ruído vindo da rua.
Um motor arrancou bruscamente.
Paulo correu à janela e viu um automóvel escuro afastar-se, desaparecendo na noite.
Não conseguiu distinguir o condutor.
Mas, por breves instantes, teve a certeza de ter visto um rosto conhecido atrás do vidro.
Era o homem do boné escuro.
Paulo voltou-se para os amigos.
— Meus amigos, estamos metidos numa história muito mais complicada do que imaginávamos.
A chave continuava na sua mão.
E algures, por detrás da estação, talvez as joias roubadas estivessem escondidas debaixo do chão de um velho barracão.
Mas quem seria o misterioso informador?
E porque estaria alguém disposto a arriscar tanto para ajudar o Clube dos Seis?
CONTINUA NO EPISÓDIO 4…