QUANDO HAVIA APENAS DOIS CANAIS… E JÁ ERA UMA AVENTURA!

Por vezes, comento com a minha «Maria»: de que servem tantos canais se, afinal, vemos quase sempre o mesmo? 

Há alguns anos, só tínhamos dois canais portugueses (RTP), e alguns ainda tinham o privilégio de apanhar dois canais espanhóis! Os televisores eram todos a preto e branco e, quando os ligávamos, tínhamos de esperar que as válvulas aquecessem. Com um pouco de sorte, lá aparecia a imagem! 

Esta malta nova não sabe o que era adrenalina! Imaginem ter de subir ao telhado para mexer na antena, enquanto cá em baixo alguém gritava, com toda a autoridade do mundo:

— NÃO MEXAS MAIS! ESTÁ BOM! 

Outras vezes, bastava dar uma pancadinha de lado no televisor e a imagem ficava logo boa! O pior era quando aparecia a famosa mensagem:

«Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos.»

E aqueles momentos eram horas infindáveis! Dava tempo para jantar, lavar a loiça e ainda pensar se valia a pena continuar à espera! 

Uma coisa boa é que os telejornais duravam pouco mais de meia hora e conseguiam dar as notícias nacionais e internacionais, além da previsão do tempo pelo nosso querido meteorologista Anthímio de Azevedo. E não precisávamos de passar por vinte canais para descobrir que ia chover! 

Mas o que mais vos queria recordar hoje é a primeira grande novela brasileira exibida em Portugal: «Gabriela, Cravo e Canela», que estreou no distante dia 16 de maio de 1977.

No princípio, quase ninguém entendia as personagens. Não estávamos habituados ao sotaque brasileiro e, por vezes, parecia que precisávamos de legendas!  Mas, pouco a pouco, fomos-nos habituando e, quando a novela começava, já ninguém desviava os olhos do televisor!

Nessa altura, muita gente ainda não tinha televisão. Por isso, à hora da novela, ou se ia para casa dos vizinhos ou para os cafés mais próximos. Era uma espécie de televisão comunitária, com a vantagem de que, se alguém falasse demasiado alto, levava logo um pedido de silêncio! 

A novela, baseada na obra de Jorge Amado, tinha um elenco de luxo, com Sónia Braga e Armando Bógus, nos inesquecíveis papéis de Gabriela e do senhor Nacib.

Também gostava muito de uma canção da novela. Vejam lá se ainda se lembram destes versos:

 «O meu coração ateu quase acreditou
Na tua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou…» 

O resto da letra, procurem na Internet! 

A novela teve tanto sucesso que, segundo se conta, até conseguiu parar a Assembleia da República no último episódio! Imaginem o poder de uma Gabriela! 

E há outra diferença que vale a pena recordar: a novela dava em horário nobre, em episódios com pouco mais de meia hora. Hoje, são logo três episódios de seguida, em horários que nem sempre permitem a quem trabalha acompanhar a história. Antigamente, esperávamos pelo próximo episódio; hoje, precisamos quase de tirar férias para ver a novela toda! 

E pronto, Companheiros, já chega por hoje! Espero que tenham gostado deste pedacinho de nostalgia.



VOCÊS SÃO DEMAIS!

Ontem escrevi umas pérolas em forma de quadras e, pelos vistos, a inspiração pegou-se! Logo apareceram outros companheiros a acrescentar mais algumas. 

Perante tanto talento junto, prometo que, no próximo fim de semana, vou fazer uma publicação com todas essas quadras, que são ainda melhores do que as do António Aleixo ou do Bocage! 

A este ritmo, qualquer dia ainda temos de publicar um livro de poesia popular… e, quem sabe, concorrer ao Nobel da Literatura! 

Entretanto, parece que finalmente entrámos no tempo outonal, nada agradável para quem sai de casa às 06h50 e leva com um ventinho de frente, vindo diretamente da Serra da Estrela! 

Na Vila do Teixoso, temos muito calor no verão, mas, quando chega o inverno, é um gelo daqueles! Daqueles que nos fazem pensar duas vezes antes de pôr um pé fora de casa… e que nos levam a perguntar se não seria melhor ficar mais cinco minutinhos debaixo dos cobertores! 

Por hoje, fico por aqui. Desejo um bom dia para todos nós, com saúde, boa disposição e motivos para sorrir! 🍀



CHUVA DE AMOR

 Um tema dos CALEMA para uma noite tranquila. 

 Boa noite para todos nós 🌙




É TÃO FÁCIL OLHAR PARA O LADO…

 

É tão fácil olhar para o lado e fingir que não vemos aquilo que está mesmo à nossa frente!


Quando temos um problema, devemos procurar resolvê-lo, em vez de ficarmos à espera que alguém o faça por nós. É precisamente por esperarmos tantas vezes que sejam os outros a resolver os nossos problemas que nunca conseguimos sair da cepa torta, como tão bem diz o nosso povo.

Se não formos parte da solução, pelo menos não agravemos o problema!

Agir com inteligência perante um conflito não é lançar mais lenha para a fogueira, mas sim procurar acalmar os ânimos, aproximar posições e ajudar a resolver as divergências. Porque, muitas vezes, a maior demonstração de inteligência não está em ter razão, mas em saber como a defender sem destruir tudo à nossa volta.

Infelizmente, existem pessoas que parecem ser especialistas em lançar a confusão e aumentar as tensões, só para depois se vangloriarem ou fazerem-se de vítimas, conforme a contenda lhes corra de feição.

Mas será que alguém já viu alguma guerra ser travada ao som de mísseis e granadas e, no final, todos saírem verdadeiramente vencedores?

A guerra pode destruir vidas, famílias e nações, mas nunca será a violência a construir uma paz duradoura.

Lutar pela paz é necessário! Defender aquilo em que acreditamos também! Mas devemos fazê-lo através do diálogo, do respeito e de ações pacíficas, nunca recorrendo à força ou à intolerância.

Devemos lutar sempre por aquilo que consideramos justo e melhor, mas sem esquecer que as nossas convicções não nos dão o direito de desrespeitar as dos outros.

Afinal, como nos ensinou António Aleixo, a razão não deixa de ser razão só porque foi vencida.

Porque nem sempre vence quem tem razão, nem quem grita mais alto. Mas a verdade, quando é defendida com dignidade, nunca perde o seu valor.

Que saibamos ser parte da solução e não mais um problema. Que tenhamos a coragem de enfrentar o que precisa de ser resolvido, a inteligência de evitar conflitos desnecessários e a humildade de reconhecer que nem sempre temos razão.

Afinal, o mundo não precisa de mais pessoas a alimentar guerras. Precisa de mais pessoas dispostas a construir a paz!

Bom dia para todos nós! 🍀





NOVEMBRO, DIA DE TODOS OS SANTOS


Chega novembro, um mês de memórias, de saudade e de reflexão.

Um mês em que recordamos os nossos entes queridos, todos aqueles que partiram antes de nós, mas que continuam vivos na nossa memória e no nosso coração. Pessoas que fizeram parte da nossa caminhada e que, por certo, ocupam agora um lugar especial junto do Senhor.

É também o mês em que o frio começa a fazer-se sentir com maior intensidade e a chuva regressa, tantas vezes indesejada, mas absolutamente necessária. Porque, gostemos ou não, a natureza precisa dela e a nossa sobrevivência também.

É o mês de São Martinho, que nos deixou uma lição extraordinária de generosidade, humildade e solidariedade, quando não hesitou em dividir a sua capa com um mendigo que sentia frio. Um gesto simples, mas de uma grandeza imensa. Quantos de nós, nos dias de hoje, teríamos a mesma coragem de partilhar aquilo que temos com quem mais precisa?

E gostava tanto que novembro, agora que o ano se aproxima do fim, pudesse ser também o mês da Paz, da Justiça e da Solidariedade entre os povos. Um mês em que as armas se calassem, as guerras terminassem e o respeito pela vida humana voltasse a estar acima de todos os interesses.

Mas não nos esqueçamos de uma coisa: a paz no mundo começa dentro de cada um de nós. Começa na forma como tratamos os outros, na capacidade de perdoar, de compreender, de ajudar e de estender a mão a quem precisa. Façamos, pois, a nossa parte!

Hoje e amanhã, lembremos com carinho os familiares e amigos que já partiram para a casa do Senhor. Recordemos os momentos felizes que partilhámos com eles, os sorrisos, os abraços, as conversas e tantas pequenas coisas que hoje ganham um valor imenso.

Mas lembremo-nos também daqueles que continuam ao nosso lado. Daqueles que ainda podemos abraçar, visitar, ouvir, acarinhar e fazer felizes. Porque, enquanto estamos nesta caminhada terrena, nunca devemos adiar um gesto de carinho, uma palavra amiga ou um abraço sentido.

Afinal, a vida é feita de partidas que nos deixam saudade, de presenças que nos dão força e de gestos de amor que nunca deveriam ficar por fazer.

Que novembro nos traga mais humanidade, mais compreensão, mais solidariedade e, acima de tudo, mais paz.

Um grande e feliz domingo para todos nós! 🍀



EVOLUÍMOS, MAS SERÁ QUE VIVEMOS MELHOR?


Hoje é dia de conversar convosco, se estiverem dispostos a ler, pois claro! 😀

Felizmente, os tempos mudaram e a sociedade evoluiu. Vivemos com muito mais qualidade de vida do que nos meus tempos de criança. Mas há uma coisa que importa distinguir: qualidade de vida não é necessariamente sinónimo de sossego, paz, tranquilidade ou felicidade.

Vivemos melhor, sem dúvida! Temos mais conforto, mais comodidades e acesso a coisas que, há algumas décadas, nem sequer imaginávamos. Mas será que, no meio de tanta evolução, não fomos perdendo algumas das coisas mais bonitas da vida?

Quando não existe algo, também não sentimos necessidade de o desejar ou invejar. Lembram-se de quando não havia as tecnologias de hoje? Saíamos mais à noite, brincávamos na rua, conversávamos nas soleiras das portas ou sentados nos recantos dos nossos becos. Quantas vezes ficávamos a apreciar as estrelas no céu? Quantas histórias ouvimos contar aos nossos avós, que nos prendiam a atenção do princípio ao fim?

Eram outros tempos, outras vivências, outras formas de estar na vida!

Hoje, as cidades cresceram, temos mais cinemas, grandes centros comerciais e prédios modernos e vistosos. Mas será que conhecemos os nossos vizinhos ou apenas os vemos quando nos cruzamos nos elevadores?

Temos as redes sociais, os videojogos, a Netflix e tantas outras formas de entretenimento. Mas já não chegamos a casa com a roupa suja de lama, depois de uma tarde inteira de brincadeiras na rua. Já não se ouvem com tanta frequência aquelas gargalhadas espontâneas, que enchiam as tardes de sol e davam vida aos nossos bairros.

As relações humanas passaram, em grande parte, a estar confiadas a um ecrã de telemóvel ou de computador, com todos os perigos e ameaças que isso também acarreta. Estamos mais ligados tecnologicamente, mas será que estamos verdadeiramente mais próximos uns dos outros?

Antigamente, havia ricos e pobres. Os ricos eram mesmo ricos e os pobres eram praticamente todos os outros. Hoje, temos os muito ricos, os pobres e uma enorme faixa de pessoas que vive permanentemente a fazer contas para chegar ao fim do mês.

Um casal que trabalhe, receba dois ordenados mínimos ou pouco mais, tenha um ou dois filhos e procure cumprir todas as suas obrigações, pode encontrar-se numa situação financeira extremamente difícil. Muitas vezes, não reúne condições para receber determinados apoios, mas tem de suportar impostos, contribuições e todas as despesas de uma família.

Trabalhar uma vida inteira e, mesmo assim, sentir dificuldades para viver com dignidade é algo que merece a nossa reflexão.

É verdade que hoje temos mais qualidade de vida, mas os salários continuam a não chegar para tudo. E, atenção, no tempo dos nossos pais também não chegava! A diferença estava, muitas vezes, na maneira de pensar e de encarar a vida. Só tinham televisão quando podiam comprar, só iam de férias quando conseguiam juntar algum dinheiro e não viviam tão condicionados pela necessidade de acompanhar aquilo que os outros tinham.

Não se trata de criticar ninguém. São apenas realidades diferentes, maneiras diferentes de viver e de encarar as prioridades.

Hoje, vivemos demasiado das aparências e, por vezes, da inveja. Porque aquele tem, eu também tenho de ter! E, numa sociedade em que o crédito está tão acessível, é muito fácil cair no endividamento. Depois, entre as prestações, as despesas e os compromissos assumidos, o caminho até ao abismo pode ser muito curto.

Também as reuniões familiares de antigamente parecem estar a desaparecer. Antes, juntava-se a família, conversava-se, contavam-se histórias e partilhavam-se momentos. Hoje, muitas vezes, estamos todos na mesma sala, mas cada um no seu canto, agarrado ao seu próprio ecrã.

Estamos juntos fisicamente, mas tantas vezes ausentes uns dos outros!

Sinceramente, não tenho nenhum partido político em que me reveja verdadeiramente. Assisto a demasiadas discussões, gritaria e acusações, enquanto os problemas concretos das pessoas continuam à espera de respostas. Fala-se muito, promete-se muito, mas as dificuldades de tantas famílias continuam presentes e, para algumas, até aumentam.

E os jovens?

Os jovens são uma das grandes esperanças da humanidade. Há jovens extraordinários, inteligentes, responsáveis, com valores e vontade de construir um futuro melhor. Acredito neles! Mas também sei que lhes estamos a deixar uma sociedade cheia de desafios, contradições e problemas por resolver.

O tempo dirá se as novas gerações conseguirão mudar o rumo das coisas.

E termino com uma reflexão que gostaria que todos levássemos connosco:

Não sou contra a evolução, muito pelo contrário. Quero progresso, tecnologia, conforto, melhores salários, melhores condições de vida e oportunidades para todos. Mas não podemos permitir que, na corrida para termos cada vez mais, nos esqueçamos de ser cada vez mais humanos.

Podemos ter a casa mais bonita, o carro mais moderno, o telemóvel mais sofisticado e passar férias nos lugares mais deslumbrantes do mundo. Mas, se nos faltar tempo para a família, disponibilidade para os amigos, respeito pelos outros e vontade de olhar para quem está ao nosso lado, talvez tenhamos conquistado muita coisa, mas perdido aquilo que verdadeiramente importa.

Afinal, de que nos serve uma sociedade cada vez mais evoluída, se as pessoas se sentem cada vez mais sozinhas?

Porque a verdadeira evolução não se mede apenas naquilo que conseguimos comprar, construir ou inventar. Mede-se também na nossa capacidade de respeitar, partilhar, ajudar, conviver e amar.

Não quero voltar ao passado. Quero é que não percamos aquilo que o passado tinha de melhor!

Um grande abraço para todos e uma boa reflexão. 



UMA AVENTURA NA ESTAÇÃO - O MISTÉRIO CHEGA AO FIM

 

Uma aventura na Estação


Episódio 5 — O mistério chega ao fim

A manhã de sexta-feira nasceu cinzenta na Covilhã. Paulo mal tinha dormido. A frase escrita no último bilhete não lhe saía da cabeça:

«As joias estão debaixo do chão do barracão. Mas cuidado: o homem que tem a chave não é quem vocês pensam.»

Às dez horas, os seis amigos reuniram-se na sala de Paulo. Desta vez, não havia lugar para brincadeiras. Sobre a mesa estavam a fotografia do barracão, a pequena chave de ferro e todos os bilhetes recebidos durante aqueles dias.

— Hoje temos de saber a verdade — afirmou Natércia.

— Mas não vamos meter-nos em aventuras perigosas — acrescentou Fátima. — A polícia já está ao corrente. Agora, são eles que têm de agir.

Paulo concordou. O pai já tinha falado com o agente que acompanhava o caso, e as autoridades estavam a preparar uma operação para impedir que as joias desaparecessem da Covilhã.

Foi então que Quim teve uma ideia.

— E se o homem que nos deixou as pistas for alguém que trabalha na Estação? Ele conhece aquele terreno e pode ter visto os ladrões a esconder as joias!

A hipótese parecia fazer sentido. Afinal, alguém tinha deixado a fotografia, a chave e os bilhetes, sempre nos momentos certos.
A armadilha

Pouco depois do meio-dia, Paulo recebeu uma mensagem transmitida por telefone fixo: a polícia tinha confirmado movimentos suspeitos junto do barracão. Um dos homens preparava-se para retirar de lá uma caixa.

Os seis amigos ficaram em casa, como lhes tinha sido recomendado. Não iriam arriscar tudo na última hora.

Através do pai de Paulo, foram mantendo contacto com as autoridades. A tensão aumentava a cada minuto.

Perto das duas da tarde, chegou a notícia: dois homens tinham sido detidos junto do barracão. No interior, escondida debaixo de algumas tábuas do chão, a polícia encontrara uma caixa de madeira.

Dentro dela estavam as joias roubadas da Ourivesaria Pacheco!

— Conseguiram! — exclamou Francisco, dando um salto da cadeira. — E eu que já estava convencido de que íamos acabar esta aventura sem descobrir nada!

Todos se riram, aliviados. Mas ainda faltava esclarecer o mais intrigante dos mistérios.
Quem era o homem do boné escuro?

Ao fim da tarde, Paulo e os amigos receberam autorização para acompanhar o pai de Paulo até à esquadra, onde um agente lhes explicou o que tinha acontecido.

O homem de boné escuro chamava-se Alfredo Martins. Trabalhava ocasionalmente em transportes de mercadorias e tinha ajudado a esconder as joias no barracão. A chave de ferro que os seis tinham encontrado pertencia-lhe.

Mas Alfredo não era o cérebro do roubo.

O verdadeiro responsável era Ernesto Vale, um antigo empregado que conhecia bem a Ourivesaria Pacheco e os seus hábitos. Tinha planeado o assalto e convencido Alfredo a ajudá-lo a esconder o produto do roubo até poderem retirá-lo da cidade.

— E o telefonema para minha casa? — perguntou Paulo, sem conseguir esconder a ansiedade. — Quem foi que me ameaçou?

O agente pousou as mãos sobre a secretária.

— Foi Ernesto. Na manhã em que o viste a sair do Hotel Solneve, reparou que estavas a observá-lo. Conseguiu descobrir quem eras e, nessa noite, telefonou para tua casa para te assustar e impedir que falasses com alguém.

Paulo sentiu um arrepio. A ameaça tinha sido real. O ladrão sabia que os seis estavam cada vez mais perto da verdade.

— Portanto, ele queria que desistíssemos desde o princípio… — murmurou João.

— Exatamente — confirmou o agente. — Mas vocês fizeram bem em contar o que sabiam e, sobretudo, em deixar a investigação nas mãos da polícia.
O homem que deixou as pistas

Ainda faltava descobrir quem tinha colocado a fotografia, os bilhetes e a chave no caminho dos seis.

A resposta chegou através do próprio agente.

Chamava-se Manuel Ribeiro e era um trabalhador da Estação. Tinha visto os dois homens a transportar uma caixa para o barracão e começara a desconfiar. Com medo de ser descoberto pelos ladrões, decidiu ajudar anonimamente, deixando pistas que pudessem levar a polícia até às joias.

Foi também Manuel quem, na tarde anterior, tinha ido a casa de Paulo para lhes dar uma indicação decisiva. Não sabia toda a história, mas percebera que o tempo estava a esgotar-se.

— Então, afinal, havia alguém a tentar ajudar-nos! — disse Natércia.

— Sim — respondeu Paulo. — E sem ele talvez as joias já tivessem desaparecido.

O agente sorriu.

— A coragem nem sempre significa enfrentar o perigo de frente. Às vezes, significa fazer a coisa certa e procurar quem pode ajudar.
Uma aventura inesquecível

No sábado de manhã, a notícia do roubo resolvido já corria pela Covilhã. As joias seriam devolvidas à Ourivesaria Pacheco, e os dois homens teriam de responder perante a justiça.

Na sala de Paulo, os seis amigos voltaram a juntar-se, desta vez sem medo nem segredos. Sobre a mesa havia sumo e um pacote de bolachas Maria, compradas na mercearia do Sr. Raul Paiva.

Francisco pegou numa bolacha e declarou solenemente:

— Proponho que a próxima aventura seja muito mais tranquila. Qualquer coisa como descobrir quem comeu a última bolacha!

— Isso não precisa de investigação nenhuma — respondeu Quim. — Foste tu!

As gargalhadas encheram a sala.

Paulo olhou para os amigos. Tinham começado aquela aventura com uma conversa ouvida por acaso e terminado com um mistério resolvido, uma amizade mais forte e uma grande lição: a curiosidade pode abrir portas, mas a coragem também exige prudência.

Lá fora, a Covilhã seguia a sua vida, entre as ruas inclinadas, os cafés e o movimento da Estação dos Caminhos de Ferro.

Os seis levantaram-se para se despedirem. Antes de saírem, Paulo olhou para cada um deles.

— Seja qual for a próxima aventura, uma coisa é certa: o Clube dos Seis continua unido!

E os cinco amigos responderam em coro:

— Sempre!

FIM



UMA AVENTURA NA ESTAÇÃO - A CHAVE DO SEGREDO

CLUBE DOS SEIS

Uma aventura na Estação

Episódio 4 de 5 — A chave do segredo

Na manhã seguinte, Paulo acordou com a imagem da pequena chave de ferro ainda bem presente na memória.

Quem a teria deixado à porta de sua casa? E o que significava aquela mensagem sobre as joias, o chão do barracão e o nome Pacheco?

Uma coisa era certa: a aventura estava a chegar a um ponto em que já não podiam continuar a agir sozinhos.

Depois do pequeno-almoço, Paulo falou com os pais e pediu autorização para receber os amigos na sala durante a tarde. Queria que todos discutissem os últimos acontecimentos com calma, sem voltar a andar pela cidade a horas impróprias.

Os pais concordaram, mas fizeram-lhe uma recomendação:

— Paulo, podes receber os teus amigos, mas não quero ninguém na rua até altas horas. Vocês têm de ter juízo. Uma coisa é brincar aos detetives, outra é meterem-se em sarilhos a sério.

— Tens razão, mãe. Prometo que vamos ter cuidado.

Pouco depois das três da tarde, o Clube dos Seis estava reunido.

Em cima da mesa encontravam-se a fotografia do barracão, o envelope castanho e a misteriosa chave.

Francisco olhou para aqueles objetos e suspirou.

— Antigamente, quando nos reuníamos, o maior problema era decidir quem comia a última bolacha Maria. Agora temos chaves misteriosas, ladrões e ameaças. Confesso que tenho saudades das bolachas!

— Não te preocupes — respondeu João. — Se resolvermos o caso, talvez o Paulo te dê duas!

— Duas? Depois de tudo o que temos passado, acho isso uma ofensa!

As gargalhadas duraram apenas alguns segundos. A preocupação voltou quando Paulo pegou na chave.

— Meus amigos, temos de tomar uma decisão. Ontem à noite, alguém nos deixou isto à porta. Fomos observados junto ao barracão e sabemos que os homens podem estar prestes a retirar de lá alguma coisa.

— E se forem mesmo as joias? — perguntou Natércia.

— É precisamente por isso que acho que devemos contactar a polícia — respondeu Paulo. — Já não se trata apenas de uma curiosidade nossa. Houve um assalto à Ourivesaria Pacheco e podemos estar perante um crime em andamento.

Fátima concordou imediatamente.

— Finalmente! Temos informações que podem ser úteis, mas não sabemos com quem estamos a lidar. A polícia tem meios para investigar sem nos pôr em perigo.

Quim, que até então estivera calado, levantou a mão.

— Há outra coisa. Se o homem de boné nos anda a vigiar, talvez já saiba que temos a chave.

— Então, mais uma razão para não perdermos tempo — disse João.

Paulo decidiu que iria falar com os pais e pedir-lhes que o acompanhassem à esquadra. Levaria a fotografia, o bilhete e a chave, explicando tudo o que o grupo tinha observado.

— E nós? — perguntou Francisco.

— Nós vamos ajudar contando tudo o que sabemos, mas sem inventar nada e sem esconder pormenores. A partir daqui, a investigação tem de ficar nas mãos das autoridades.

— Estou de acordo — afirmou Natércia. — Mas ainda gostava de saber o que está escondido naquele barracão.

Paulo guardou cuidadosamente os objetos.

— Talvez não tenhamos de esperar muito para descobrir.


Pouco depois, Paulo saiu acompanhado pelo pai. Na esquadra, explicou ao agente de serviço os acontecimentos dos últimos dias: a conversa ouvida por Quim junto ao Café Central, os dois homens vistos à saída do Hotel Solneve, as movimentações suspeitas no descampado e a mensagem deixada à porta de casa.

O pai de Paulo confirmou que o filho lhe tinha contado tudo e que considerava a situação suficientemente séria para justificar uma denúncia.

O agente ouviu-os com atenção e examinou os objetos.

— Fizeram bem em vir cá — disse. — Não devem voltar a aproximar-se daqueles homens nem tentar entrar no barracão. Vamos averiguar o que nos contaram.

Paulo sentiu algum alívio.

Pela primeira vez desde o início da aventura, percebeu que não tinham de resolver tudo sozinhos.

Antes de sair, ainda fez uma pergunta:

— Senhor agente, acha que as joias podem estar naquele barracão?

O homem pousou a fotografia sobre a secretária.

— Não posso tirar conclusões sem investigar. Mas uma coisa vos digo: uma pista pode ser importante, mesmo quando parece insignificante. E, por vezes, aquilo que alguém tenta esconder acaba por revelar muito mais do que pretendia.

Paulo regressou a casa com a sensação de que as coisas estavam finalmente a avançar.

Mas a maior surpresa ainda estava para chegar.


Nessa mesma tarde, os seis voltaram a reunir-se na sala de Paulo, desta vez com autorização dos pais e com a certeza de que tinham feito o que deviam.

— E agora? — perguntou Quim.

— Agora esperamos que a polícia investigue — respondeu Paulo. — Não vamos fazer nenhuma visita noturna ao barracão, nem andar a atravessar linhas de comboio. Já arriscámos o suficiente.

Francisco levantou o dedo.

— Proponho que, enquanto esperamos, se faça uma pausa para o lanche. A investigação também exige energia!

A mãe de Paulo apareceu nesse momento com um tabuleiro de sumo e um prato de bolachas Maria.

— Aqui têm. E não se esqueçam de que os vossos pais vos querem em casa a horas decentes.

— Pode ficar descansada — respondeu Fátima. — Hoje não haverá aventuras depois do jantar.

Francisco pegou numa bolacha.

— Ouviram? Hoje a nossa maior missão é chegar a casa antes de anoitecer!

Enquanto os amigos riam, João voltou a observar a fotografia do barracão.

— Esperem um pouco. Há aqui uma coisa que ainda não analisámos devidamente.

Todos se aproximaram.

João apontou para a pequena abertura na parede.

— Se olharmos para a fotografia, a abertura parece estar quase ao nível do chão. Mas, na imagem, vê-se uma sombra que não coincide com a posição do sol.

Fátima pegou na fotografia.

— Talvez tenha sido tirada ao fim da tarde.

— Talvez — respondeu João. — Mas reparem também nisto: a parede parece ter uma parte mais escura, como se tivesse sido construída ou reparada de maneira diferente.

Quim arregalou os olhos.

— Queres dizer que pode haver um espaço escondido atrás da parede?

— É uma hipótese — respondeu João. — E a mensagem dizia para procurarmos onde a luz nunca chega.

Paulo ficou pensativo.

— Se houver um compartimento secreto, a polícia poderá descobri-lo sem precisarmos de lá ir.

Natércia sorriu.

— Afinal, a nossa investigação também serviu para alguma coisa!

O grupo estava mais tranquilo. Tinham comunicado as suspeitas às autoridades, tinham entregue as pistas e já não precisavam de se colocar em perigo.

Mas, quando Paulo começou a guardar os objetos, ouviu-se bater à porta.

Desta vez, era o pai.

— Paulo, está aqui um senhor que diz que precisa de falar contigo. Afirma que tem informações sobre o assalto à ourivesaria.

Os seis entreolharam-se.

— Quem é ele? — perguntou Paulo.

— Não disse o nome. Está à espera no patamar.

O coração de Quim começou a bater mais depressa.

— Será o homem de boné?

Paulo dirigiu-se à entrada acompanhado pelo pai. Os restantes ficaram na sala, mas conseguiram ouvir a conversa.

— O senhor é o Paulo? — perguntou uma voz masculina.

— Sou. Quem é o senhor?

Houve uma breve pausa.

— Não posso ficar muito tempo. Sei quem roubou as joias da Ourivesaria Pacheco. E sei onde estão escondidas.

Paulo ficou sem palavras.

— Então tem de falar com a polícia — respondeu finalmente.

— Já tentei. Mas os homens descobriram que eu sei de tudo. Tenho medo de que me aconteça alguma coisa.

O pai de Paulo interveio imediatamente:

— Se tem informações sobre um crime, não deve tratar disso sozinho. Vamos contactar as autoridades.

O desconhecido hesitou. Depois, retirou do bolso um pequeno papel dobrado e entregou-o a Paulo.

— Entregue isto ao agente que está a investigar o caso. E não confie no homem que anda de boné escuro.

Dito isto, afastou-se rapidamente pelo corredor.

Paulo fechou a porta e regressou à sala com o papel na mão.

— O que aconteceu? — perguntou Natércia.

Paulo abriu o papel.

Lá dentro havia apenas uma frase, escrita à mão:

«As joias estão debaixo do chão do barracão. Mas cuidado: o homem que tem a chave não é quem vocês pensam.»

O silêncio foi absoluto.

Quim olhou para a pequena chave de ferro que continuava em cima da mesa.

— Espera lá! Então quem é que tem a chave verdadeira?

João voltou a observar a fotografia.

— E se esta chave que nos deixaram for uma cópia? Ou se abrir uma porta diferente daquela que imaginamos?

Fátima levantou-se.

— Não vamos tirar conclusões precipitadas. Temos de entregar imediatamente este bilhete à polícia.

Paulo concordou. O pai acompanhá-lo-ia novamente, enquanto os restantes ficariam em casa, respeitando os horários combinados.

Quando Paulo saiu, ainda não sabia que aquela mensagem iria mudar tudo.

Porque, nesse mesmo momento, na esquadra da Covilhã, um agente acabava de receber uma informação que confirmava parte da denúncia do grupo.

O barracão estava sob investigação.

E havia um pormenor que ninguém conhecia: o nome do proprietário do terreno aparecia ligado a uma pessoa que já estava a ser procurada pela polícia.

Quem seria esse homem?

E será que as joias ainda estariam escondidas debaixo do chão quando as autoridades chegassem ao barracão?

Paulo apressou o passo ao lado do pai, sem imaginar que a resposta estava prestes a desencadear o último e mais surpreendente capítulo desta aventura.

CONTINUA NO QUINTO E ÚLTIMO EPISÓDIO…



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