Dezembro de 1973
🌼Os domingos na cidade da Covilhã eram de perfeita acalmia. Os Homens saíam para beber o seu café da manhã num dos muitos cafés da terra, compravam na sua maioria o jornal "O Século" no quiosque do Leal, enquanto as Senhoras se preparavam para assistir à Santa Missa na igreja da sua Paróquia. Nesta época os Covilhanenses aos domingos vestiam a sua melhor roupa, não fossem eles da capital dos têxteis, existia sempre uma ponta de vaidade e ainda hoje se utiliza o termo "Vestiste a roupa dos domingos".
A cidade continuava a ser o principal centro da indústria de lanifícios em Portugal. Contudo, o setor vivia os últimos anos do seu modelo tradicional, enfrentando a necessidade de uma reconversão violenta que alteraria a estrutura social da região, a vida na Covilhã era definida por uma forte cultura operária. Milhares de trabalhadores, incluindo famílias inteiras, dependiam das grandes fábricas de lanifícios.
Em 1973, Portugal vivia o último ano completo da ditadura do Estado Novo, sob a liderança de Marcello Caetano. O país enfrentava um cenário de profunda tensão, onde o desgaste da guerra e a crise económica internacional aceleravam a queda do regime.
Depois da missa dominical, muitos covilhanenses iam buscar o arroz à Valenciana ao Pintado que depois levavam para casa onde almoçavam em família. Era aos domingos que havia mais tempo para conversar e procurarem saber da vida dos filhos e de tudo o que dissesse respeito às lides da casa.
A seguir ao almoço os Homens dirigiam-se novamente para os cafés onde se entretinham a jogar damas, ao 21, a ler o jornal, conversar ou ouvir os relatos de futebol.
No café Danúbio, propriedade de meus pais, eu era presença assídua. Com meus 11 anitos misturava-me com os clientes e ao pé deles me sentava a ver televisão, aos domingos dava sempre a "Tarde de Cinema" e estávamos com os olhos na TV e os ouvidos na rádio.
Nesse domingo, 16 de Dezembro, um dos relatos era o F.C. Porto -Vitória de Setúbal, ao minuto 13 foi relatado que o jogador Pavão do F.C. Porto saia do campo inanimado. Só de noite nas noticias desportivas da televisão foi anunciado que o jogador tinha falecido. Foi o primeiro caso mediático de morte súbita no futebol em Portugal.
Naquela noite e nos meus onze anos fiquei triste porque um jogador de futebol tinha morrido a jogar à bola e na cama muitas perguntas me assolaram...como? porquê?
Não mais esqueci esse episódio que voltaria a ver repetido com Miklós Fehér a 25 de janeiro de 2004, durante um jogo entre o SL Benfica e o Vitória de Guimarães.