NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XI



                                         Dias de Reflexão


Nos dias que se seguiram à leitura da carta, a vida na Covilhã continuou exatamente igual para toda a gente.
Mas para David, tudo parecia diferente.
No Liceu Nacional da Covilhã, os colegas continuavam a conversar animadamente sobre o fim das aulas e os planos para o verão.
Rui tentou aproximar-se dele várias vezes.
— Então? Recebeste a carta? — perguntou num intervalo.
David limitou-se a encolher os ombros.
— Recebi.
— E…?
— Depois falo contigo.
Mas nunca falava.
Começou a evitar os amigos. Nos intervalos ficava sozinho no pátio ou saía da escola mais cedo para caminhar pela cidade.
Passava muitas tardes a andar sem destino pelas ruas inclinadas da Covilhã.
Às vezes descia até ao Jardim Público da Covilhã e sentava-se no mesmo banco onde tinha lido a carta.
Outras vezes caminhava pelas ruas do centro, passando por lugares onde tinha estado com Carol.
Evita até entrar na Confeitaria Lisbonense ou no Café Primor.
Tudo lhe trazia lembranças.
Numa noite, quando os pais já estavam deitados, David foi até à sala.
Ligou o velho gira-discos da casa.
Escolheu um disco que tinha ouvido muitas vezes naquele inverno.
Unchained Melody de The Righteous Brothers começou a tocar lentamente.
A música encheu a sala com aquela melodia melancólica.
David sentou-se no sofá e ficou a ouvir em silêncio.
A letra parecia falar diretamente com ele.
Enquanto a música tocava, as memórias voltavam:
o verão na piscina,
os passeios pela cidade,
o beijo na noite de fim de ano no GIR Rodrigo.
Quando a música terminou, ele não se levantou.
Limitou-se a colocar o disco novamente a tocar.
Na manhã seguinte, a mãe reparou que algo não estava bem.
David estava sentado à mesa do pequeno-almoço, mas quase não tocava na comida.
— Estás doente? — perguntou ela.
— Não.
— Então o que se passa?
David ficou em silêncio durante alguns segundos.
— Nada… só estou cansado.
A mãe olhou para ele com atenção.
As mães percebem certas coisas sem que seja preciso explicar.
— Tem a ver com a Carol, não tem?
David baixou os olhos.
Não respondeu.
A mãe aproximou-se e pousou a mão no ombro dele.
— A vida às vezes faz estas coisas… principalmente quando somos jovens.
David levantou-se da mesa sem dizer muito.
Mas aquelas palavras ficaram-lhe na cabeça.
Dias cinzentos
Os dias seguintes passaram lentamente.
As aulas terminaram no Liceu Nacional da Covilhã e a cidade começou a preparar-se para o verão.
Os amigos voltaram a falar das tardes na Piscina e de passeios pela Serra da Estrela.
Mas David quase não participava nessas conversas.
Continuava a caminhar sozinho pelas ruas da cidade, como se estivesse à procura de alguma resposta.
À noite, por vezes, voltava a ligar o gira-discos.
E mais uma vez deixava a sala encher-se com os acordes lentos de Unchained Melody.
A música repetia-se no silêncio da casa.
E, em algum lugar muito longe dali, junto ao mar da Nazaré, alguém continuava a viver uma vida nova… sem saber que aquelas palavras escritas numa carta tinham deixado um rapaz nas montanhas a tentar perceber como seguir em frente. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO X

                                       Um aperto no peito

Durante vários dias, David continuou a perguntar em casa se tinha chegado alguma carta. A resposta era sempre a mesma.
— Ainda não chegou nada.
Naquele final de tarde, depois das aulas no Liceu Nacional da Covilhã, David caminhava lentamente pelas ruas da Covilhã. O céu estava cinzento e um vento frio descia da serra.
Quando entrou em casa, a mãe chamou-o da cozinha.
— David… chegou correio para ti.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Para mim?
— Sim. Está ali em cima da mesa.
Sobre a mesa da sala estava um envelope simples. No canto superior esquerdo estava escrito o remetente: Carol.
E por baixo… Nazaré.
David pegou no envelope com cuidado. Sentiu o coração bater mais depressa. Durante semanas tinha esperado aquele momento.
Mas, por alguma razão, não teve coragem de abrir a carta ali.
Pegou no casaco e saiu novamente de casa.
Caminhou sem destino durante alguns minutos até chegar ao Jardim Público da Covilhã.
O jardim estava quase vazio. Apenas algumas pessoas passavam pelos caminhos e um casal idoso conversava num banco distante.
David sentou-se num banco, debaixo de uma árvore.
Durante alguns segundos ficou apenas a olhar para o envelope.
Era estranho pensar que aquelas poucas folhas de papel tinham viajado desde o mar da Nazaré até às montanhas da Covilhã.
Finalmente abriu o envelope.
Começou a ler.
À medida que os olhos percorriam as linhas da carta, o sorriso que tinha surgido no início desapareceu lentamente.
As frases pareciam cada vez mais pesadas.
"Somos muito novos…"
"Temos muito futuro pela frente…"
"Talvez tenha sido apenas uma paixoneta de verão…"
David parou de ler por um momento.
Respirou fundo.
Depois continuou.
"Talvez eu nem estivesse tão envolvida…"
Sentiu um aperto no peito.
Leu a última frase.
"Agora acho que devemos seguir cada um o seu caminho."
O jardim parecia ter ficado completamente silencioso.
David ficou imóvel com a carta nas mãos.
Durante vários minutos não fez nada.
O vento leve fazia mover as folhas das árvores e uma criança corria ao longe pelo caminho do jardim.
Mas para David parecia que o mundo tinha parado.
Lembrou-se de tudo:
daquele primeiro olhar na Piscina,
dos passeios pela cidade,
do cinema no Teatro Cine da Covilhã,
do baile no GIR Rodrigo,
da promessa de um dia ver o mar juntos.
Agora tudo parecia distante.
Como se tivesse acontecido noutra vida.
David dobrou lentamente a carta e colocou-a novamente dentro do envelope.
Levantou-se do banco e caminhou devagar pelo jardim.
Caminhou pela cidade sem destino e ao passar perto do Monumento de Nossa Senhora da Conceição, parou por um instante.
Olhou para a imagem da santa.
Não disse nada.
Mas naquele momento sentiu que algo tinha terminado.
E, pela primeira vez desde que Carol tinha partido para a Nazaré, David percebeu que talvez aquela história que tinha começado num verão cheio de promessas… pudesse realmente ter chegado ao fim.
Mas, no fundo do coração, uma pequena dúvida ainda permanecia.
Porque às vezes as palavras escritas numa carta… não contam toda a verdade. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO IX

                                  A carta segue o seu destino


Entretanto, na Nazaré, os dias de Carol iam passando a um ritmo diferente daquele a que estava habituada na Covilhã.
De manhã havia sempre movimento nas ruas. O cheiro do mar misturava-se com o das redes de pesca que secavam ao sol e com as vozes dos pescadores que regressavam da faina.
Carol já se tinha habituado à rotina da Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio. Os colegas tinham-na integrado bem no grupo e a amiga Ana estava quase sempre ao seu lado.
Nos intervalos conversavam sobre música, sobre a escola e sobre os planos para o verão.
— Quando vier o calor vamos todos para a praia — dizia Ana.
— Todos os dias? — perguntava Carol, ainda admirada.
— Claro! Aqui o mar faz parte da vida.
Depois das aulas, o grupo costumava passear pela Avenida da República (Marginal da Nazaré).
O som das ondas acompanhava as conversas, enquanto turistas passeavam e crianças brincavam perto da areia.
Muitas vezes terminavam o passeio na Praça Sousa Oliveira, onde os jovens da vila se juntavam ao final da tarde.
Carol ria com os novos amigos, mas havia momentos em que ficava um pouco mais calada.
Ana percebeu isso.
— Ainda pensas na Covilhã, não pensas?
Carol assentiu devagar.
— Às vezes.
Numa noite silenciosa na Nazaré, Carol voltou a abrir o pequeno caderno que David lhe tinha oferecido no Natal. Durante vários minutos ficou a olhar para as páginas, sem saber bem como começar.
O som das ondas da Praia da Nazaré chegava pela janela aberta. Aquela nova vida, os novos amigos e a pressão dos pais tinham-na feito pensar muito nas últimas semanas.
Sabia que David estava à espera de notícias.
Mas também sabia que o que ia escrever poderia magoá-lo.
Respirou fundo, pegou na caneta e começou finalmente a escrever a carta que iria seguir viagem até à Covilhã.

Querido David,
Tenho pensado muito antes de te escrever. Talvez por isso esta carta tenha demorado tanto tempo. Não foi por me esquecer de ti, mas porque não sabia bem como explicar tudo aquilo que sinto neste momento.
A vida aqui na Nazaré é muito diferente da Covilhã. Tudo mudou depressa: a escola nova, os colegas novos, o mar sempre à frente dos olhos. Às vezes parece que estou a viver uma vida completamente diferente daquela que tínhamos aí.
Tenho pensado muito em nós e no que vivemos naquele verão. Foram momentos muito bonitos, disso tenho a certeza. Nunca me vou esquecer das tardes na piscina, das caminhadas pela cidade e de tudo o que partilhámos.
Mas também tenho pensado noutra coisa. Somos ainda muito novos, David. Temos a escola, os estudos, e um futuro enorme pela frente. A distância entre a Covilhã e a Nazaré é grande e cada um de nós está agora a viver uma vida diferente.
Não quero que fiques preso a uma história que talvez tenha sido apenas uma paixoneta de verão. Às vezes penso que talvez tenha sido isso mesmo: um sentimento bonito, mas próprio da nossa idade e daquele momento.
Também sinto que, enquanto estávamos juntos, eu própria nem sempre tive a certeza absoluta do que sentia. Gostava muito de ti, e continuo a gostar, mas talvez não estivesse tão envolvida como tu estavas.
Não escrevo isto para te magoar. Pelo contrário. Escrevo porque te respeito e porque quero que sejas feliz. Quero que continues a estudar, que vivas a tua vida e que aproveites tudo o que ainda tens pela frente.
Quem sabe um dia, mais tarde, as nossas vidas possam voltar a cruzar-se. O mundo é grande e a vida dá muitas voltas.
Mas agora acho que devemos seguir cada um o seu caminho.
Obrigada por tudo o que vivemos naquele verão. Vai ficar sempre na minha memória.
Um abraço com carinho,
Carol

Quando terminou de escrever, Carol ficou alguns minutos a olhar para a folha.
Sabia que aquelas palavras iam mudar muitas coisas.
Dobrou a carta lentamente e colocou-a dentro do envelope.
Na manhã seguinte, deixou-a cair na caixa do correio.
A carta começou então a subir o país, deixando para trás o mar da Nazaré e seguindo em direção às montanhas da Covilhã.
Sem que Carol pudesse imaginar, aquela carta iria cair nas mãos de David e transformar completamente o rumo da história que tinha começado num verão feliz. 

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VIII

            
                                           A Carta que tarda

Naqueles meses de primavera, a vida continuava na Covilhã, mas para David os dias pareciam mais longos e mais silenciosos.
A cidade estava cheia de movimento: estudantes apressados, comerciantes nas portas das lojas e grupos de jovens a conversar nas esquinas. No entanto, para ele, faltava sempre alguém.
No Liceu Nacional da Covilhã aproximavam-se os últimos dias de aulas antes das férias.
Os colegas falavam de planos para o verão, passeios pela Serra da Estrela ou tardes passadas novamente na Piscina dos Penedos Altos.
Mas David raramente participava nas conversas.
Rui percebeu isso rapidamente.
— Ainda estás à espera da carta, não estás? — perguntou-lhe num intervalo.
David assentiu.
— Ela disse que ia escrever quando chegasse à Nazaré.
— Talvez ainda esteja a adaptar-se — respondeu Rui.
David tentou acreditar nisso, mas no fundo começava a sentir um peso estranho.
Depois das aulas, David encontrava-se muitas vezes com Rui no Café Primor.
Sentavam-se na primeira mesa da esplanada, com vista para a rua Heróis Dadrá.
Rui bebia café e falava das pequenas histórias do dia. David ouvia mais do que falava.
— Sabes o que devias fazer? — disse Rui certa tarde.
— O quê?
— Ir à Nazaré visitá-la.
David suspirou.
— Já tentei convencer os meus pais.
— E?
— Disseram que não.
Na noite anterior, David tinha tentado novamente.
— Pai, eu podia ir de autocarro… prometo que tenho cuidado.
O pai abanou a cabeça.
— David, és ainda muito novo para viajar sozinho para tão longe.
— Mas não é assim tão longe…
— Daqui até à Nazaré ainda são muitas horas de viagem — respondeu a mãe. — Quando fores mais velho, sim. Agora não.
David não insistiu mais.
Sabia que não iam mudar de opinião.
Assim, os dias continuaram a passar.
David caminhava pelas ruas da cidade, passava às vezes pelo Jardim Público da Covilhã ou pelo centro onde antes passeava com Carol.
Mas agora havia sempre um pensamento constante.
Todos os dias perguntava em casa:
— Chegou correio para mim?
A resposta era quase sempre a mesma.
— Ainda não.
Uma tarde diferente
Numa tarde quente, já perto do fim das aulas, David estava novamente sentado no Café Primor com Rui.
O Zé (empregado) trouxe dois sumos e pousou-os na mesa.
Rui olhou para o amigo.
— Estás a imaginar coisas… a carta vai chegar.
David tentou sorrir.
— Espero que sim.
Mas lá no fundo, um pensamento começava a crescer lentamente.
E se os pais dela tivessem razão?
E se a distância entre o mar da Nazaré e as montanhas da Covilhã fosse demasiado grande para aquele amor jovem?
Enquanto o sol começava a desaparecer atrás das casas da cidade, David olhou para a rua e ficou a pensar numa única coisa:
a carta que ainda não tinha chegado.

Continua…




NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VII

                                                     

                               Covilhã cada vez mais longe


Os primeiros dias na Nazaré foram intensos para Carol. Tudo era novo: os sons, os cheiros, as pessoas. Aos poucos, começou a sentir que a vila tinha um ritmo próprio, muito diferente da vida entre montanhas na Covilhã.
Na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio, Carol foi sendo integrada no grupo de colegas.
A sua primeira amiga continuava a ser Ana, que rapidamente a apresentou aos outros.
— Pessoal, esta é a Carol… veio da serra! — dizia Ana, a brincar.
— Da serra? Então nunca tinha visto o mar! — respondeu um rapaz chamado Miguel.
Carol riu.
— Não… e ainda fico a olhar para ele como se fosse um espetáculo.
Os colegas começaram a convidá-la para passeios depois das aulas. Caminhavam muitas vezes pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), ouvindo o som das ondas e vendo os pescadores a arrumar as redes.
Ao fim da tarde, juntavam-se frequentemente na Praça Sousa Oliveira, onde jovens conversavam, riam e combinavam novos encontros.
Carol começou lentamente a sentir-se parte daquele grupo.
Mas, mesmo quando ria com os novos amigos, havia momentos em que o pensamento fugia para longe… para as ruas da Covilhã.
Num sábado, Ana convidou Carol para subir ao Ascensor da Nazaré.
— Tens de ver a vista lá de cima — disse ela.
Quando chegaram ao Sítio da Nazaré, Carol ficou novamente impressionada com o horizonte aberto sobre o oceano.
Caminharam até ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Algumas pessoas entravam para rezar, outras apenas visitavam o local histórico.
— Este lugar é muito importante para a Nazaré — explicou Ana.
Carol entrou por alguns minutos.
Aquele silêncio fez-lhe lembrar os momentos tranquilos que tinha vivido na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
E, inevitavelmente, voltou a pensar em David.
Com o passar das semanas, Carol começou a falar menos de David em casa.
Os pais percebiam que ela ainda pensava muito nele.
Numa noite, durante o jantar, a mãe abordou o assunto.
— Carol… sabes que agora a nossa vida é aqui.
— Eu sei.
— A distância é grande… a Covilhã fica muito longe.
O pai acrescentou calmamente:
— Vais conhecer novas pessoas, fazer novos amigos… tens de seguir em frente.
Carol ficou em silêncio.
Não respondeu logo.
Sabia que os pais não diziam aquilo por mal. Apenas queriam que ela se adaptasse à nova vida.
Mas esquecer David não era algo simples.
Nos dias seguintes, Carol continuou a sair com Ana e os colegas. Caminhavam pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), conversavam na Praça Sousa Oliveira e às vezes sentavam-se na areia da Praia a ver o pôr do sol.
Tudo parecia normal.
Mas dentro dela havia uma luta silenciosa.
De um lado estava a nova vida: amigos, escola, o mar, a vila cheia de movimento.
Do outro lado estava a memória de um verão na piscina, das caminhadas pelas ruas da Covilhã… e do rapaz que ainda ocupava os seus pensamentos.
Numa tarde, sentada na areia a olhar o horizonte, Carol abriu o pequeno caderno que David lhe tinha oferecido.
Durante alguns minutos ficou apenas a olhar para a página em branco.
Depois escreveu devagar:
"Será que a distância consegue mesmo apagar o que sentimos?"
O vento da Nazaré soprou forte naquele momento, levantando um pouco da areia.
Carol fechou o caderno.
No fundo do coração, ainda não sabia qual seria a resposta.

Continua…



NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VI

      

                                    David sente-se inseguro



Os dias continuavam a passar na Covilhã, mas para David tudo parecia diferente desde que Carol tinha partido para a Nazaré.
As ruas eram as mesmas, os cafés continuavam cheios ao fim da tarde, e os colegas seguiam com a rotina das aulas no Liceu Nacional da Covilhã. Mas havia sempre uma sensação estranha, como se algo importante tivesse ficado vazio na cidade.
Muitas vezes, depois das aulas, David caminhava sozinho até ao Jardim Público da Covilhã.
Ali, entre as árvores e os bancos de madeira, ficava sentado a observar as pessoas que passavam. Alguns idosos conversavam calmamente, crianças brincavam perto dos caminhos de terra, e o som da cidade parecia distante.
Num desses dias, caminhou devagar até ao Monumento de Nossa Senhora da Conceição.
Ficou parado a olhar para a imagem da santa durante alguns minutos.
Não era propriamente uma oração. Era mais um momento de silêncio, de pensamentos que não sabia muito bem como organizar.
Pensava em Carol.
Pensava na praia, no mar que ela agora via todos os dias… e pensava na distância que separava a serra daquele litoral distante.
O desabafo
Nessa mesma tarde, Rui — o amigo mais próximo de todo o grupo — apareceu no jardim.
— Andas desaparecido — disse ele ao sentar-se no banco ao lado.
David suspirou.
— Tenho pensado muito.
Rui olhou para ele com atenção.
— Na Carol, não é?
David assentiu.
Durante alguns segundos ficou em silêncio.
— Tenho um pressentimento… — disse finalmente.
— Que pressentimento?
— Que a distância vai fazer tudo desaparecer.
Rui franziu a testa.
— Estás a exagerar.
David abanou a cabeça.
— Lá ela tem uma vida nova… escola nova… amigos novos… o mar… tudo diferente. Aqui é só a mesma cidade de sempre.
Rui encostou-se no banco e olhou para as árvores do jardim.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Quando fomos à Serra da Estrela naquele dia… eu vi a forma como ela olhava para ti.
David ficou em silêncio.
— Aquilo não era uma coisa qualquer — continuou Rui. — Não desaparece assim de um dia para o outro.
David tentou sorrir.
— Espero que tenhas razão.
Rui deu-lhe uma pequena palmada no ombro.
— Em vez de pensares no pior… faz uma coisa.
— O quê?
— Vai visitá-la um dia destes.
David olhou para ele, surpreendido.
— À Nazaré?
— Claro. Nunca disseste que querias ver o mar?
David levantou os olhos para o céu que começava a ficar dourado ao final da tarde.
Talvez Rui tivesse razão.
Talvez aquela história ainda não tivesse chegado ao fim.
E talvez, algures na Praia da Nazaré, houvesse alguém à espera de o ver chegar pela primeira vez… para lhe mostrar o mar.


Continua…




NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO V



                                     Na praia da Nazaré


A viagem desde a Covilhã até à Nazaré pareceu longa para Carol. À medida que a carrinha da família descia das montanhas para as planícies e depois se aproximava do litoral, o ar começava a mudar. Tornava-se mais húmido, mais leve… e trazia um cheiro diferente que Carol nunca tinha sentido antes.
Quando finalmente chegaram, ouviu-se ao longe um som constante.
— O que é isso? — perguntou Carol.
O pai sorriu.
— É o mar.
Carol abriu a janela. O vento trouxe o cheiro do sal e o murmúrio das ondas. Naquele momento percebeu que a sua vida estava mesmo a começar numa nova página.
A nova casa ficava numa rua tranquila da Nazaré, não muito longe da praia. Era simples, mas tinha algo especial: das janelas do andar de cima via-se um pedaço do oceano.
Na primeira noite, Carol ficou alguns minutos à janela.
O som das ondas era diferente de tudo o que conhecia. Na Covilhã, o silêncio vinha das montanhas; ali, o silêncio era preenchido pelo mar.
Pensou em David.
— Um dia ele tem mesmo de ver isto — murmurou para si mesma.
Alguns dias depois começaram as aulas do 3º período na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio.
Carol entrou um pouco nervosa. Tudo era novo: corredores diferentes, vozes desconhecidas, professores que ainda não sabia como eram.
Mas rapidamente percebeu que as pessoas da Nazaré eram acolhedoras.
Na sala de aula, uma rapariga chamada Ana sentou-se ao lado dela.
— És nova aqui, não és?
— Sou… vim da Covilhã.
— Da serra? Então mudaste da neve para o mar!
As duas riram.
Nos dias seguintes, Carol começou a conhecer outros colegas. Muitos eram filhos de pescadores ou de famílias ligadas ao mar.
Falavam das ondas, dos barcos e das histórias da pesca como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Para Carol, era como descobrir um universo novo.
Num domingo, os pais decidiram mostrar-lhe um dos lugares mais emblemáticos da vila: o Sítio da Nazaré.
Subiram até lá e Carol ficou sem palavras.
Do alto da falésia, o mar parecia infinito.
Ali perto ficava o antigo Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, onde muitas pessoas iam rezar e agradecer graças.
Entraram por alguns minutos.
O silêncio da igreja lembrou-lhe a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde tantas vezes tinha estado com David.
Carol fechou os olhos por um instante.
Talvez estivesse a pedir que a distância não mudasse aquilo que sentia.
Mas o momento que mais a marcou aconteceu alguns dias depois.
Carol caminhou até à Praia da Nazaré ao final da tarde.
O céu estava dourado e as ondas quebravam com força na areia.
Ela tirou os sapatos e caminhou devagar.
Quando a água fria tocou os seus pés, Carol riu sozinha.
O mar era poderoso, imenso, quase assustador… mas também fascinante.
Sentou-se na areia e ficou a olhar o horizonte.
Pensou nas ruas inclinadas da Covilhã, nos amigos, na piscina onde tudo tinha começado.
E claro… pensou em David.
Pegou num pequeno caderno que ele lhe tinha dado no Natal.
Escreveu apenas uma frase:
"David, tens mesmo de vir aqui. O mar é ainda mais bonito do que eu imaginava."
O vento levou o som das ondas pela praia.
E, mesmo longe da serra, Carol sentiu que uma parte da sua história ainda estava ligada à cidade onde tinha deixado alguém muito importante.

Continua…



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