Não tínhamos telemóveis.
Não tínhamos redes sociais.
E quando o Sporting da Covilhã jogava em casa, o dia tinha um sabor especial.
Havia quase um ritual.
Almoçava por volta da uma da tarde e vestia a minha melhor roupa. Sim, porque naquele tempo existia a "roupa de domingo". Não importava se éramos ricos ou pobres; ao domingo vestíamo-nos como se fosse um dia de festa.
Depois seguia para a Leitaria Triunfo, onde o Zé Manuel já me esperava.
Por essa hora, a Covilhã estava ao rubro.
Os cafés cheios.
As ruas movimentadas.
Os autocarros chegavam às dezenas, trazendo turistas que vinham conhecer a Serra da Estrela.
A cidade respirava vida.
Depois do café e do inevitável cigarrinho da ordem, pagava ao Sr. Amaral e lá seguíamos em direção ao Santos Pinto.
Pelo Pelourinho, o trânsito era tanto que o sinaleiro mal tinha mãos para o controlar. No Café MONTALTO entravam e saíam pessoas sem parar, como formigas num carreiro.
Pela Rua Ruy Faleiro formavam-se filas intermináveis de automóveis.
Turistas.
Visitantes do Hospital.
Adeptos de futebol.
Toda a cidade parecia caminhar no mesmo sentido.
Lembro-me até de um motorista de ambulância, junto à Papelaria Ferrão, a tentar abrir caminho no meio daquela confusão.
E, curiosamente, ninguém reclamava.
Porque aquela confusão era sinal de uma cidade viva.
Ao longe já se ouvia a música que fazia parte da identidade da cidade:
"Covilhã, Cidade Neve…"
Sentávamo-nos na bancada lateral, do lado do Poço Grande, de onde víamos os jogadores aquecer antes do início da partida.
Tinha chovido na véspera, mas o pelado apresentava-se em boas condições.
E que tarde foi aquela!
Vitória serrana por duas bolas a zero frente ao União de Tomar.
A raça do Fazenda foi decisiva, mas também ficaram na memória o Baixa, o Coimbra e as defesas extraordinárias do Guilherme.
No final do jogo regressávamos a casa.
O trânsito já era menor, embora os carros continuassem a descer da Serra. Os candeeiros começavam a iluminar as ruas e anunciavam a chegada da noite.
Não havia saídas noturnas.
Não havia centros comerciais.
Não havia ecrãs a ocupar cada minuto da nossa vida.
Havia o Domingo Desportivo na RTP 1.
Havia os resumos dos jogos.
Havia a escola no dia seguinte.
E havia aquela sensação maravilhosa de quem tinha aproveitado o dia até ao último minuto.
Estava nos amigos.
Nas conversas.
Nos cafés cheios.
Nas ruas com gente.
No futebol ao domingo.
Quem viveu aqueles tempos sabe exatamente do que estou a falar.
E talvez seja por isso que certas memórias nunca envelhecem.
