ATÉ UM DIA, FRANCISCO 🌹

Hoje recebi uma notícia muito triste.

Morreu o meu melhor amigo de infância, companheiro de tantas aventuras, brincadeiras e risos. Estou desolado. Partiu alguém que era muito mais do que um amigo; era como um irmão.

É, por isso, também uma pequena homenagem e uma forma de guardar na memória uma pessoa boa, que deixou a sua marca tanto na vida profissional, como enfermeiro em Castelo Branco, como na sua vida pessoal, enquanto amigo e ser humano.

Estas palavras ganham agora um significado ainda mais especial.



Até um dia, Francisco. 🌹



🌅 FIM DE VERÃO DE 1978

Há Verões que acabam no calendário… mas ficam para sempre dentro de nós.

Era o fim do Verão de 1978. Eu, o Francisco e o restante grupinho, toalha debaixo do braço, lá íamos nós a caminho dos últimos banhos na piscina dos Penedos Altos.

Sabíamos que setembro estava a chegar ao fim e que a piscina, como era habitual, encerraria portas no último dia do mês ou, por vezes, já nos primeiros dias de outubro. Por isso, cada banho, cada mergulho e cada momento passado entre amigos tinha um sabor especial.

O caminho era quase sempre o mesmo.

Saíamos pelo Jardim Público, descíamos as Escadas da Trapa, atravessávamos a Rua Marquês D’Ávila e Bolama, descíamos as Escadas da Ponte dos Costas e, finalmente, chegávamos àquela porta de pedra que dava acesso ao recinto da piscina.

E lá dentro… já cheirava a “maresia”! 

Primeiro, uma passagem rápida pela esplanada, só para espreitar quem estava lá em baixo. Depois, lá apresentávamos, com orgulho, o nosso cartão de sócio do CDC.

Entrávamos nos balneários, colocávamos a roupa no cabide e entregávamo-lo ao funcionário, recebendo em troca uma pequena chapa com um número. Aquela chapa era guardada religiosamente, porque, no final, era com ela que recuperávamos o nosso cabide e a nossa roupa.

Depois… era aproveitar!

Na relva, encontrávamo-nos com outro grupo de raparigas e rapazes do Bairro da Estação. Conversas, risos, brincadeiras, mergulhos… e as horas passavam sem darmos por elas.

E havia sempre aquele momento que nos fazia rir: os chuveiros de água fria! 

Uns encolhiam-se todos para conseguir passar, outros atravessavam aquilo a correr e ainda havia os mais espertos, que simplesmente saltavam a vedação!

Éramos jovens. Não precisávamos de muito para sermos felizes.

Uma toalha, uns amigos, uma piscina, algumas brincadeiras e tempo… muito tempo para viver.

Quando o sol começava a esconder-se por detrás das montanhas da Serra, abandonávamos a piscina e fazíamos juntos o caminho de regresso.

Ao chegarmos ao cruzamento da Rua do Rodrigo, chegava a hora das despedidas.

Um “até logo” aos amigos, porque naquele tempo quase nunca era um verdadeiro adeus.

 Depois do jantar, começava outra parte da noite.

Íamos ter com as namoradas — ou com as pretendentes a namoradas — para a esplanada do Café Primor.

Entre umas Pepsi-Colas, uns amendoins e muitas gargalhadas, falávamos sobre o Verão que estava a terminar e sobre aquilo que imaginávamos para o futuro.

As aulas estavam quase a começar e, naquela idade, o futuro parecia estar tão longe… e ao mesmo tempo tão perto.

Mais tarde, acabávamos sentados na relva, em frente às casas do Bairro.

Entre conversas, risos e uns beijos inocentes de namorados, próprios daquela adolescência, íamos vivendo os nossos pequenos grandes momentos.

Não tínhamos telemóveis.
Não tínhamos redes sociais.
Não tínhamos internet.

Mas tínhamos tempo, amigos e vontade de viver.

E talvez por isso aquelas memórias tenham ficado tão profundamente gravadas em nós.

No final da noite, elas ficavam por ali e eu e o Francisco subíamos a Avenida, de regresso às nossas casas.

 Nesse fim de Verão, o céu parecia mais estrelado do que nunca.

Uma brisa suave descia da Serra e a Covilhã adormecia lentamente, envolta num silêncio que anunciava a chegada dos dias mais curtos e das noites mais frias.

Nós ainda não sabíamos…

Mas estávamos a viver momentos que, décadas mais tarde, haveríamos de recordar com um sorriso no rosto e uma lágrima escondida no canto do olho.

Porque há coisas que o tempo leva…

Mas há memórias que o tempo nunca consegue apagar. 

E talvez seja essa a verdadeira magia da juventude: só percebemos o quanto fomos felizes quando já não podemos voltar atrás.

Quem viveu aqueles tempos sabe do que estou a falar.

Quem se lembra dos últimos banhos na piscina dos Penedos Altos? 

Bom dia para todos nós. 🍀



🍂 A PASSAGEM DO VERÃO PARA O OUTONO 🍂

A passagem do Verão para o Outono causa sempre uma certa nostalgia. As crianças regressam à escola, os dias ficam mais pequenos, as aves emigram e o tempo cinzento volta a fazer parte dos nossos dias. Valha-nos, ao menos, a beleza das cores do Outono, que conseguem embelezar a paisagem e dar-lhe um encanto muito próprio. 

Por entre as vidraças, vejo a chuva cair lá fora. É um daqueles momentos que nos levam para outros pensamentos e nos fazem viajar no tempo.

Quando era criança, também ficava longos minutos com a cara encostada ao vidro da janela, a ver a chuva cair e as pessoas apressadas no passeio, tentando desviar-se das poças de água. Era como se o mundo lá fora tivesse outra vida quando chovia.

Nos dias mais frios, tínhamos a braseira, que acendíamos com álcool e, por cima, colocávamos um estrado para podermos aquecer os pés. Enquanto isso, na televisão, passava a Telescola durante a tarde… uma grande seca para mim naquela altura! 

À tarde, vinha sempre uma fresquinha da Serra da Estrela. Se no Verão agradecíamos aquela aragem fresca, no Outono já era bem menos desejada. E depois havia o som inconfundível do amola-tesouras que, como se dizia na nossa terra, era sinal de que a chuva vinha a caminho.

Mas não era só o amola-tesouras que parecia adivinhar a chuva.

Quando víamos a caravana do circo chegar e começar a montar a tenda na cidade, era chuva pela certa! Três dias de circo no Campo das Festas e, muitas vezes, uma semanada de chuva já ninguém nos tirava. E quando começava a chover, eram dias sem fim… e o Inverno ainda vinha longe.

As aulas começavam por volta do dia 7 de Outubro e ainda hoje se costuma dizer: “Começam as aulas e muda o tempo.” Mas, naquele tempo, parecia que era mesmo assim. Coincidência ou não, começavam as aulas e o tempo mudava mesmo!

E havia ainda os avisos do Almanaque Borda d’Água, que, como se sabe, ainda hoje se vende e continua a fazer parte das nossas tradições. 

Hoje, olhando pela janela e vendo a chuva cair, dou por mim a recordar tudo isto e a pensar como eram diferentes aqueles dias… Não tínhamos tantas coisas como temos hoje, mas talvez tivéssemos mais tempo para olhar pela janela, ouvir a chuva e guardar na memória pequenos momentos que, muitos anos depois, se tornam grandes recordações.

Seja como for, as estações continuam a chegar, ano após ano, cada uma à sua hora. 

E nós só temos de as acompanhar, vivendo cada uma delas da melhor maneira, para não perdermos o comboio da vida. 

Bom dia para todos nós. 🍀



🌿NADA É POR ACASO…

Tudo na vida tem um propósito, uma razão. Nada acontece verdadeiramente por acaso.

Há pessoas que entram na nossa vida para nos ensinar alguma coisa. Há caminhos que se fecham para nos obrigar a procurar outros. Há despedidas que doem, mas que acabam por nos libertar. E há momentos difíceis que, mais tarde, percebemos que foram necessários para nos tornar mais fortes.

Nem sempre entendemos, no momento, porque certas coisas acontecem. Às vezes perguntamos: “Porquê eu?”

Mas o tempo tem uma forma especial de nos mostrar aquilo que, no presente, não conseguimos compreender.

Talvez aquela porta que se fechou tenha sido a oportunidade de encontrarmos uma melhor. Talvez aquela pessoa que partiu tenha deixado uma lição que ficará para sempre. Talvez aquele sonho que não se realizou tenha dado lugar a outro muito maior.

A vida nem sempre acontece como queremos, mas muitas vezes acontece como precisamos.

Por isso, não desistas quando o caminho parecer difícil.

Continua a caminhar, confia no processo e acredita que, mesmo nos dias em que nada parece fazer sentido, há sempre uma razão por detrás de cada capítulo da nossa vida.

Um dia, ao olharmos para trás, talvez percebamos:
“Agora entendo… afinal, nada foi por acaso.”

Boa noite para todos nós 🌜



AI, ANOS 80! ❤️


AI, ANOS 80! ❤️

Caso para dizer: ai, quem me dera ter outra vez 20 anos…

Os anos 80 foram uma década muito marcante na minha vida. Foram anos de juventude, de sonhos, de amizades, de futebol, de trabalho, de descobertas e, também, de algumas perdas que ficaram para sempre na memória.

Acabei o liceu e fui mobilizado para o Serviço Militar Obrigatório. Fiz a recruta em Castelo Branco e, depois de tirar a especialidade de Socorrista, prestei serviço no Hospital Militar Regional 2, em Coimbra.

Vi o Sporting Clube da Covilhã subir por duas vezes à Primeira Divisão. Fiz parte da claque “Leões da Serra” e também da organização dos comboios e da famosa caravana verde, momentos que ainda hoje recordo com enorme emoção. 

Assisti ao nascimento e ao crescimento da Universidade da Beira Interior, que viria a transformar profundamente a nossa cidade.

Vi muito cinema no Teatro Cine e no Cine Centro. 

Bebi muitos cafés e imperiais no Montalto, antes de este encerrar. 

Trabalhei na Etchandy, no antigo pavilhão da FAEC, e também na secção de peças da oficina Auto Sprint, ao Biribau.

E quem se lembra dos tempos em que ainda havia tantos carros a dar voltas à placa, no Pelourinho, à procura de um lugar para estacionar? 

Nem tudo foram rosas nos anos 80. Na segunda metade da década, perdi duas pessoas muito queridas e muito próximas, perdas que abalaram profundamente o meu interior e que o tempo nunca conseguiu apagar.

Mas a vida é mesmo assim: não existem espinhos sem rosas, nem rosas sem espinhos. 

Esta fotografia é dos anos 80, de um passeio que fizemos a Évora. Eu sou o dos óculos. 

Olho para esta fotografia e penso em tudo o que ficou para trás… Pessoas, lugares, momentos e histórias que fazem parte de quem somos.

Ai, anos 80… Se fosse possível voltar atrás no tempo, nem que fosse por um único dia, talvez eu não mudasse nada. Apenas queria voltar a sentir aquilo que era ter 20 anos. 

Bom dia para todos nós.🍀



BOM ANO LETIVO

Caminhos Cruzados chegou ao fim

“Caminhos Cruzados” chegou ao seu final. No início, tinha pensado em escrever 90 episódios, mas, à medida que fui desenvolvendo a história, percebi que iria criar um enredo com demasiadas tramas e labirintos, o que poderia acabar por aborrecer os seguidores e, ao mesmo tempo, criar um grau de dificuldade desnecessário para mim.

Assim, decidi reduzir a história para 15 episódios, mantendo sempre o suspense em torno de Sofia. Penso que o vosso feedback foi positivo e espero que tenham acompanhado esta aventura com o mesmo gosto com que eu a escrevi.

Este ano foram quatro romances: Um Romance na Covilhã, Nunca Digas Nunca, Amar e Viver em Liberdade e Caminhos Cruzados. A estes juntaram-se ainda duas aventuras: Uma Aventura em São Silvestre e Uma Aventura nas Portas do Sol.

A única coisa que me move é o gosto pela escrita. Escrever é, para mim, uma forma de dar vida a histórias, personagens, emoções e lugares que fazem parte do nosso imaginário. Quem quiser ler estes romances poderá encontrá-los aqui no blogue ou, simplesmente, pesquisá-los na minha página do Facebook.

Quanto ao lançamento de um livro, como já disse anteriormente, não é uma prioridade para mim, mas continuo recetivo a quem possa estar interessado nessa possibilidade.

Terça feira começa um novo ano letivo e, como faço parte da comunidade educativa, quero deixar uma palavra especial a todos os alunos, professores, funcionários, pais e restantes elementos desta comunidade: desejo-vos um excelente ano letivo, cheio de sucesso, esperança e muitas conquistas. Que tudo corra pelo melhor!

E, sobretudo, um enorme obrigado a todos os que me acompanham, leem, comentam e incentivam a continuar a escrever. Sem vocês, estas histórias não teriam o mesmo sentido.

Bom dia para todos nós. 🍀


CAMINHOS CRUZADOS Episódio 15 — O caminho da verdade

O carro de António e Beatriz entrou na Covilhã ao início da tarde.
Tinham viajado durante horas, quase sem trocar uma palavra.
Beatriz olhava pela janela.
As ruas da cidade traziam-lhe memórias que julgava enterradas para sempre.
— Chegámos — disse António.
Beatriz respirou fundo.
— Depois de vinte e cinco anos...
Sofia estava à espera de Maria da Luz.
Quando viu o carro aproximar-se, sentiu o coração bater mais depressa.
António saiu primeiro.
Depois Beatriz.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Sofia olhou para eles.
Já não conseguia vê-los apenas como os pais que a tinham criado.
Eram também as pessoas que tinham escondido uma parte essencial da sua vida.
Beatriz aproximou-se.
— Sofia...
— Quero a verdade.
António baixou os olhos.
— Vais tê-la.
Sentaram-se os quatro.
António começou:
— Quando nasceste, a tua mãe chamava-se Rita. Era muito jovem e não tinha condições para te criar.
Sofia ouviu em silêncio.
— O teu pai era Paulo. Ele amava a Rita e queria ficar contigo. Mas houve uma discussão entre os dois. Rita decidiu entregar-te a nós.
— E o meu pai?
António respirou fundo.
— Rita disse-lhe que tinhas morrido pouco depois de nasceres.
Sofia ficou petrificada.
— Ela mentiu-lhe?
— Sim.
Beatriz começou a chorar.
— Nós sabíamos que eras filha deles. Mas prometemos a Rita que te criaríamos como nossa filha e que nunca te faltaria amor.
— E a carta?
António retirou do bolso um envelope.
— Guardei-a todos estes anos.
Entregou-a a Sofia.
— Porque não me deram isto antes?
António respondeu com lágrimas nos olhos:
— Porque tivemos medo. Medo de te perder.
Sofia abriu o envelope.
A carta estava completa.
E, finalmente, conseguiu ler o nome que tinha sido arrancado.
Paulo.
O seu pai.
— Onde está ele? — perguntou Sofia.
António apontou para Francisco.
— Foi ele quem conseguiu encontrá-lo.
Sofia olhou para Francisco, surpresa.
— Ele está em Coimbra — explicou.
— Está vivo?
— Sim.
Sofia levou as mãos ao rosto.
Durante vinte e cinco anos imaginara que nunca conheceria os seus pais biológicos.
Agora sabia que o pai estava vivo.
Mas havia ainda uma última coisa que precisava de saber.
— E a Rita?
Beatriz segurou-lhe a mão.
— A Rita morreu há alguns anos.
Sofia baixou os olhos.
Não podia conhecê-la.
Não podia abraçá-la.
Não podia perguntar-lhe por que razão a entregara.
Mas podia finalmente compreender.
Rita não a abandonara por falta de amor.
Tinha-a entregado porque acreditava que António e Beatriz lhe poderiam dar aquilo que ela não conseguia.
Dois dias depois, Sofia chegou a Coimbra.
À porta da Universidade, parou por alguns segundos.
A cidade estava cheia de estudantes, vozes e movimento.
Mas para Sofia tudo parecia silencioso.
Francisco apontou para um homem que se aproximava lentamente.
Era Paulo.
Parou diante dela.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Sofia?
Ela não conseguiu responder.
Paulo aproximou-se.
— És igual à tua mãe quando sorrias.
Sofia chorou.
— Eu passei a vida a pensar que não tinha pai.
— E eu passei a vida a pensar que tinha perdido uma filha.
Abraçaram-se.
Um abraço de vinte e cinco anos.
Mais tarde, sentados junto ao Mondego, Sofia perguntou:
— Porque nunca procuraste por mim?
Paulo olhou para a água.
— Procurei. Durante anos.
— Então porque desististe?
— Porque me disseram que tinhas morrido.
Sofia segurou-lhe a mão.
— Eu estou aqui.
Paulo sorriu entre lágrimas.
— Agora sei.
De regresso à Covilhã, Sofia subiu até ao Bairro da Biquinha.
A cidade estendia-se diante dos seus olhos.
Pensou em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que chegara de França.
Tinha perdido certezas.
Descobrira mentiras.
Encontrara a verdade.
E, pelo caminho, encontrara também pessoas que passaram a fazer parte da sua vida.
Cláudia aproximou-se.
— Então, acabou?
Sofia sorriu.
— Não.
— Não?
Sofia olhou para a Serra da Estrela.
— A procura acabou. Agora começa outra coisa.
— O quê?
Sofia respirou fundo.
— A minha vida.
Francisco aproximou-se e abraçou-a.
— E vais voltar para França?
Sofia olhou para ele.
— Ainda não sei.
Nesse instante, o telemóvel tocou.
Era Paulo.
Sofia sorriu.
Pela primeira vez, o nome “pai” deixou de ser apenas uma palavra.
Era alguém.
Era uma história.
Era parte dela.
Sofia guardou o telemóvel no bolso e olhou uma última vez para a cidade onde tudo tinha começado.
Durante vinte e cinco anos, Sofia viveu sem saber de onde vinha.
Foi preciso regressar à terra natal para descobrir que, por vezes, os caminhos mais difíceis são precisamente aqueles que nos conduzem até nós próprios.
E assim terminou a história de Sofia.
Não com um ponto final.
Mas com um novo caminho.

CAMINHOS CRUZADOS — FIM 




CAMINHOS CRUZADOS Episódio 14 — O nome escondido

Sofia não conseguia tirar os olhos da carta.
Aquela folha tinha estado escondida durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte mais importante.
O nome do seu pai.
— Quem fez isto? — perguntou.
Francisco não respondeu.
— Tens de saber alguma coisa.
— Só sei que a carta estava numa caixa que pertencia à minha mãe.
Sofia levantou-se.
— Então temos de descobrir quem a colocou em casa do meu pai.
Nesse momento, o telemóvel tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, descobri mais uma coisa.
— O quê?
— Venha ter comigo.
Pouco depois, Sofia e Francisco estavam novamente em casa de Maria da Luz.
A mulher tinha sobre a mesa uma pequena fotografia.
— Encontrei isto esta manhã.
Sofia pegou nela.
Era uma fotografia antiga de Rita.
Ao lado dela estava um homem.
Sofia ficou a olhar.
— Quem é?
Maria da Luz respondeu:
— Paulo.
O nome fez Sofia lembrar-se imediatamente da inicial que aparecia na carta.
P.
— Ele era o pai?
Maria da Luz hesitou.
— Era o homem de quem Rita estava grávida quando tudo aconteceu.
Sofia sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Então o meu pai chama-se Paulo.
— Sim.
Francisco aproximou-se da fotografia.
— Eu conheço este homem.
Sofia virou-se para ele.
— Conheces?
— Vi-o algumas vezes com a minha mãe.
Maria da Luz interrompeu:
— Há mais uma coisa que precisam de saber.
Abriu uma velha agenda.
— Paulo não desapareceu em 2001.
Sofia ficou imóvel.
— Então onde está?
Maria da Luz passou o dedo por uma morada escrita numa página.
— Coimbra.
O coração de Sofia disparou.
— Coimbra?
— Sim.
Francisco olhou para Sofia.
— Tens de ir.
Nessa noite, Sofia ligou para António.
— Pai...
Foi a primeira vez que pronunciou aquela palavra desde que descobrira a verdade.
António ficou em silêncio.
— Já sei o nome dele.
Do outro lado, ouviu-se uma respiração profunda.
— Sofia...
— Chama-se Paulo.
António não respondeu.
— É verdade?
Mais silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
— Porque é que nunca me contaste?
— Porque prometi à Rita.
— Prometeste o quê?
— Que te protegeria.
— De quê?
António começou a chorar.
— Do homem que era teu pai.
Sofia ficou confusa.
— Ele queria fazer-me mal?
— Não.
— Então porquê?
António demorou a responder.
— Porque a história que te contaram sobre ele não era verdadeira.
Sofia sentiu um arrepio.
— O que queres dizer?
— Amanhã, quando chegarmos a Portugal, eu conto-te tudo.
— Não. Quero saber agora.
António respirou fundo.
— Paulo nunca abandonou a Rita.
Sofia ficou sem palavras.
— Foi a Rita que o deixou acreditar que tu tinhas morrido.
O mundo de Sofia pareceu desabar.
— Porquê?
António não respondeu.
— Pai!
A chamada terminou.
No dia seguinte, Sofia preparou uma pequena mala.
Cláudia apareceu em sua casa.
— Vais para Coimbra?
— Vou.
— Sozinha?
Sofia olhou para Francisco.
Ele estava à porta.
— Não.
Cláudia percebeu.
— Encontraste o teu pai?
Sofia segurou a fotografia contra o peito.
— Ainda não.
Respirou fundo.
— Mas sei onde ele está.
Francisco aproximou-se.
— E se não for aquilo que esperas?
Sofia olhou para ele.
— Depois de tudo o que descobri, já não tenho medo da verdade.
Os dois ficaram em silêncio.
Francisco segurou-lhe a mão.
— Então vamos.
Sofia sorriu pela primeira vez em muitos dias.
Mas, antes de saírem, recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
“Sofia, não vás à procura de Paulo. Há uma verdade que António ainda não te contou.”
Ela mostrou a mensagem a Francisco.
— Quem enviou isto?
O telefone voltou a vibrar.
Desta vez havia apenas uma fotografia.
Sofia abriu-a.
Era uma fotografia recente de Paulo.
E, ao lado dele, estava uma mulher que Sofia nunca tinha visto.

Fim do Episódio 14.



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...