E O SPORTING CLUBE DA COVILHÃ VENCEU

Naquele tempo em que as novas tecnologias não passavam da série Espaço 1999 e em que uma bola de plástico comprada na loja do Sr. Raúl Paiva custava apenas dois escudos e cinquenta centavos, jogar à bola ou construir castelos no Jardim Público era felicidade garantida.

Não tínhamos internet.
Não tínhamos telemóveis.
Não tínhamos redes sociais.

Mas tínhamos uma coisa que hoje parece cada vez mais rara: tempo para viver.

 Era domingo. Dia de futebol.
E quando o Sporting da Covilhã jogava em casa, o dia tinha um sabor especial.
Havia quase um ritual.
Almoçava por volta da uma da tarde e vestia a minha melhor roupa. Sim, porque naquele tempo existia a "roupa de domingo". Não importava se éramos ricos ou pobres; ao domingo vestíamo-nos como se fosse um dia de festa.
Depois seguia para a Leitaria Triunfo, onde o Zé Manuel já me esperava.
Por essa hora, a Covilhã estava ao rubro.
Os cafés cheios.
As ruas movimentadas.
Os autocarros chegavam às dezenas, trazendo turistas que vinham conhecer a Serra da Estrela.
A cidade respirava vida.
Depois do café e do inevitável cigarrinho da ordem, pagava ao Sr. Amaral e lá seguíamos em direção ao Santos Pinto.
Pelo Pelourinho, o trânsito era tanto que o sinaleiro mal tinha mãos para o controlar. No Café MONTALTO entravam e saíam pessoas sem parar, como formigas num carreiro.
Pela Rua Ruy Faleiro formavam-se filas intermináveis de automóveis.
Turistas.
Visitantes do Hospital.
Adeptos de futebol.
Toda a cidade parecia caminhar no mesmo sentido.
Lembro-me até de um motorista de ambulância, junto à Papelaria Ferrão, a tentar abrir caminho no meio daquela confusão.
E, curiosamente, ninguém reclamava.
Porque aquela confusão era sinal de uma cidade viva.

Finalmente subíamos a rampa do Hospital.
Ao longe já se ouvia a música que fazia parte da identidade da cidade:
"Covilhã, Cidade Neve…"
Sentávamo-nos na bancada lateral, do lado do Poço Grande, de onde víamos os jogadores aquecer antes do início da partida.
Tinha chovido na véspera, mas o pelado apresentava-se em boas condições.
E que tarde foi aquela!
Vitória serrana por duas bolas a zero frente ao União de Tomar.
A raça do Fazenda foi decisiva, mas também ficaram na memória o Baixa, o Coimbra e as defesas extraordinárias do Guilherme.
No final do jogo regressávamos a casa.
O trânsito já era menor, embora os carros continuassem a descer da Serra. Os candeeiros começavam a iluminar as ruas e anunciavam a chegada da noite.

Despedia-me do Zé Manuel e recolhia a casa.
Não havia saídas noturnas.
Não havia centros comerciais.
Não havia ecrãs a ocupar cada minuto da nossa vida.
Havia o Domingo Desportivo na RTP 1.
Havia os resumos dos jogos.
Havia a escola no dia seguinte.
E havia aquela sensação maravilhosa de quem tinha aproveitado o dia até ao último minuto.

Hoje, quando recordo esses domingos, percebo que a felicidade não estava nas coisas que possuíamos.
Estava nos amigos.
Nas conversas.
Nos cafés cheios.
Nas ruas com gente.
No futebol ao domingo.

E naquela Covilhã que parecia pequena para quem a via de fora, mas enorme para quem a trazia no coração.
Quem viveu aqueles tempos sabe exatamente do que estou a falar.
E talvez seja por isso que certas memórias nunca envelhecem.

Bom domingo para todos nós🍀



QUANDO UM DIA DE SOL BASTAVA PARA SER FELIZ

Houve um tempo em que bastava abrir a janela e ver o sol para saber que o dia ia ser bom.

Não existiam avisos amarelos, laranjas ou vermelhos. Não havia aplicações meteorológicas a dizer-nos se podíamos ou não sair de casa. Existiam apenas dias bons e dias maus. E, quando o sol aparecia, ninguém precisava de mais explicações.

Saíamos para a rua sem relógios nem telemóveis. O Jardim Público era um dos nossos reinos e qualquer pedaço de terreno servia para uma partida de futebol. Fosse no Campo das Festas, no Largo do Calvário ou noutro qualquer canto da cidade, lá estávamos nós, felizes, a correr atrás de uma bola, sem medo de rasgar as calças ou esfolar os joelhos.

Quando chegava o calor, pegávamos numa toalha, metíamo-la debaixo do braço e seguíamos a pé para a piscina dos Penedos Altos. Parecia uma aventura. Muitas vezes levávamos apenas duas sandes feitas em casa, mas sentíamo-nos donos do mundo. Passávamos ali o dia inteiro, entre mergulhos, gargalhadas e amizades que pareciam eternas.

Nas férias de Verão, em grupo, fazíamos o caminho para as Penhas da Saúde pelos atalhos que os mais velhos nos tinham ensinado. Hoje talvez pareça impensável, mas naquela altura a liberdade era o nosso maior património. Caminhávamos quilómetros sem nos queixarmos, porque o destino era sempre uma recompensa.

E depois veio a adolescência.

As tardes passadas na esplanada do Café MONTALTO tinham um encanto especial. Entre conversas, sonhos e uma imperial fresca, observávamos os gestos quase coreografados do polícia sinaleiro a orientar o trânsito à volta da placa. Parecia fazer parte da paisagem da cidade, como se sempre lá tivesse estado.

O Teatro Cine exibia os seus cartazes semanais, despertando curiosidades e conversas, enquanto a Tabacaria Hermínios era paragem obrigatória para quem queria comprar o jornal e saber das novidades.

Hoje temos mais tecnologia, mais informação e mais conforto. Sabemos a temperatura ao minuto, recebemos alertas para tudo e temos o mundo inteiro dentro de um telemóvel.

Mas, às vezes, dou por mim a pensar que éramos mais ricos quando tínhamos menos.

Porque houve um tempo em que um simples dia de sol bastava para nos fazer felizes.

E talvez essa tenha sido a maior riqueza de todas.

Bom dia para todos nós 🍀



DIA DE PORTUGAL E DIA DA MINHA RENOVAÇÃO PESSOAL

 Bom dia caros seguidores: 

 Hoje é dia 10 de Junho, dia de Portugal, dia de Camões e dia das Comunidades Portuguesas, mas o dia 10 também é de extrema importância para mim, por ser o dia do começo da minha Renovação Pessoal. 

 Cada dia 9 recorda-me o dia que parei de fumar, já lá vão 14 anos, 5 meses e 1 dia. Cada dia 10 recorda-me o dia que parei de beber bebidas alcoólicas e já lá vão 2 anos e 4 meses. 

 A partir do dia 10 de Fevereiro de 2024 começou a minha renovação pessoal e o meu próprio rejuvenescimento interior. Sei que muita coisa ainda me espera,  mas  o mais importante será viver um dia de cada vez, sempre na procura do melhor e rodear-me com tudo o que me faz bem. 

 Paz, muita paz interior e tudo o resto virá por acréscimo. 

 Grande abraço. 




OS SINALEIROS DA COVILHÃ – GUARDIÕES DAS NOSSAS MEMÓRIAS

Há profissões que desapareceram das ruas, mas que continuam vivas na memória de quem teve o privilégio de as conhecer. Os sinaleiros são uma delas.

Antes dos semáforos dominarem os cruzamentos e ditarem o ritmo da circulação, eram homens de farda, de braços erguidos e olhar atento, que organizavam o trânsito e garantiam a segurança de todos. Eram figuras respeitadas, quase tão familiares para os covilhanenses como os vizinhos da porta ao lado.

Ainda hoje recordo os sinaleiros que desempenhavam a sua missão em vários pontos da cidade. Na Rua Comendador Campos Melo, em frente à loja do saudoso Sr. Raul Paiva, estava um deles, sempre vigilante no seu pedestal. Outro encontrava-se entre o MONTIEL e a antiga Farmácia Pedroso, coordenando o movimento incessante de veículos e peões. Havia também o sinaleiro em frente ao Café MONTALTO, e aquele que marcava presença no Largo de São João de Malta.

Curiosamente, apenas não cheguei a conhecer o que desempenhava funções no cruzamento entre a Rua Marquês d'Ávila e Bolama e a Rua Visconde da Coriscada. Talvez tenha pertencido a uma época ligeiramente anterior à minha memória.
A foto que ilustra este texto é de um sinaleiro a controlar o trânsito, precisamente nessa rua.

Naqueles tempos, as pessoas respeitavam profundamente os sinaleiros. Bastava um gesto do braço para que automóveis, camionetas e peões obedecessem sem hesitação. E que gestos eram aqueles! Alguns executavam os movimentos com uma elegância quase militar; outros tinham maneiras tão particulares e expressivas que acabavam por se tornar figuras carismáticas da cidade. Havia até quem observasse os seus movimentos com um sorriso, como se assistisse diariamente a uma pequena representação teatral ao ar livre.

Ao final da tarde, quando o movimento diminuía e o dia se aproximava do fim, os sinaleiros abandonavam os seus pedestais. Desciam do palco onde, durante horas, tinham dirigido a vida da cidade, e recolhiam à esquadra na Rua António Augusto de Aguiar. Era o fim de mais um dia de serviço, cumprido com dedicação e sentido de responsabilidade.

Hoje, os semáforos fazem o trabalho que outrora lhes pertencia. São mais modernos, mais eficientes e nunca se cansam. Mas não sorriem, não cumprimentam, não têm histórias para contar nem deixam memórias.

Os sinaleiros desapareceram das ruas da Covilhã, mas permanecem vivos na lembrança daqueles que os viram trabalhar. Porque algumas pessoas não ficam apenas na História de uma cidade; ficam também guardadas no coração de quem a viveu.

A todos os sinaleiros da Covilhã, e de Portugal, deixo a minha sentida homenagem. Homens que, com dedicação, disciplina e um profundo sentido de serviço público, fizeram parte do quotidiano das nossas cidades e das nossas vidas. Muitos já partiram, outros permanecem apenas nas nossas recordações, mas todos merecem ser lembrados pelo importante papel que desempenharam numa época que jamais será esquecida.

Bom feriado para todos nós 🍀



O NOSSO TEMPO

Não existe mais o " no nosso tempo" nem "no meu tempo".

O nosso tempo é todo o caminho que percorremos desde o dia em que nascemos até ao dia em que partimos.

Enquanto respiramos, enquanto sentimos, enquanto amamos, sonhamos e construímos memórias, esse continua a ser o nosso tempo.

Só quando chega o momento da despedida é que o "nosso tempo" deixa de nos pertencer e passa a ser apenas uma recordação na memória daqueles que ficam.

Por isso, talvez não faça sentido viver preso ao passado ou à espera do futuro.

Porque o nosso tempo é agora.

E cada dia que amanhece faz parte dele.

Bom dia para todos nós 🍀



A VIDA NÃO AVISA

Passamos grande parte da vida a fazer planos.

Planeamos o próximo fim de semana, as próximas férias, o próximo Natal, o próximo verão. Dizemos muitas vezes: "Depois telefono", "Depois passo por lá", "Depois combinamos um café".

Mas a verdade é que a vida nem sempre espera pelo nosso "depois".

Num instante, tudo pode mudar.

Hoje estamos a conversar com alguém, amanhã resta apenas a saudade dessa conversa.
Hoje recebemos um abraço, amanhã daríamos tudo para o voltar a sentir.
Hoje ouvimos uma voz familiar, amanhã procuramo-la na memória.

A vida é bela, mas também é frágil.

Não avisa quando vai mudar.
Não marca hora para partir.
Não pede licença para levar quem amamos.
Não nos dá a oportunidade de voltar atrás para dizer aquilo que ficou por dizer.

E talvez seja por isso que devíamos viver de forma diferente.

Abraçar mais.
Perdoar mais.
Agradecer mais.
Visitar mais.
Amar mais.

Porque acumulamos tantas coisas materiais durante uma vida inteira e, no final, aquilo que realmente fica são os momentos, os afetos e as pessoas que tocaram o nosso coração.

Muitas vezes andamos zangados por coisas sem importância, alimentamos orgulhos inúteis e adiamos gestos simples que poderiam fazer toda a diferença.

A vida ensina-nos, quase sempre tarde demais, que o mais valioso nunca foi o dinheiro, os bens ou as aparências.

O mais valioso são as pessoas.

Por isso, se amas alguém, diz-lhe.
Se tens saudades, procura.
Se tens de pedir desculpa, pede.
Se tens de agradecer, agradece.

Não porque o mundo vá acabar amanhã.

Mas porque ninguém sabe se terá a oportunidade de o fazer amanhã.

E há uma pergunta que devia acompanhar-nos todos os dias:

E se este fosse o último abraço?
E se esta fosse a última conversa?
E se amanhã eu já não estivesse aqui... ou tu já não estivesses para me ouvir?

Vive.
Ama.
Perdoa.
Agradece.

Porque a vida é um sopro... e o tempo que temos com quem amamos é o bem mais precioso que alguma vez possuiremos.

Bom dia para todos nós 🍀



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...