O Acidente
Mas numa tarde cinzenta chegou uma carta diferente. Não era a letra dela.
Era de um conhecido da família em França. As palavras vinham cuidadosas, quase com medo: tinham sofrido um acidente de automóvel numa estrada molhada perto de Lyon. O carro despistara-se numa curva.
O pai da Flor estava hospitalizado. A mãe também. A Flor ficara gravemente ferida.
Pedro leu a carta várias vezes no quarto onde vivia, perto do jardim. As paredes pareciam apertar-se à sua volta. Durante horas não disse nada a ninguém. Depois falou com o patrão e este concordou em antecipar uns dias de férias.
Na manhã seguinte foi até à Estação da Covilhã. Comprou um bilhete com o pouco dinheiro que tinha. Não sabia quanto tempo demoraria a chegar, nem como se orientaria num país estranho. Sabia apenas que tinha de ir.
Antes de partir, passou pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Acendeu uma vela, como tantas vezes tinha visto a Flor fazer.
O comboio começou a mover-se devagar, deixando a serra para trás. Pedro olhava pela janela enquanto o país desaparecia.
Pela primeira vez desde a revolução, sentia que a vida não era feita de grandes mudanças políticas ou discursos nas praças — era feita de pequenos gestos de coragem.
E aquele, talvez, fosse o mais importante de todos: atravessar metade da Europa para não deixar alguém enfrentar a dor sozinho.
A viagem foi longa. Comboio atrás de comboio, estações que Pedro mal conseguia pronunciar, paisagens que passavam depressa pela janela. Levava apenas uma mala pequena e o endereço do hospital dobrado no bolso do casaco.
Dias depois chegou a Lyon. A cidade parecia enorme, cheia de ruídos e luzes que nada tinham a ver com a serenidade da serra. Com esforço e alguma ajuda de estranhos, encontrou finalmente o hospital.
O coração batia-lhe com força quando entrou no corredor branco onde lhe disseram que a Flor estava.
Ela estava deitada, pálida, com um braço engessado e o rosto marcado por cortes. Quando abriu os olhos e o viu à porta, demorou um segundo a acreditar.
— Pedro…? — sussurrou.
Ele aproximou-se devagar, como se temesse que o momento se quebrasse.
— Vim — disse apenas.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. O pai e a mãe recuperavam noutro piso do hospital, ainda frágeis, mas fora de perigo. - Ainda requer muitos cuidados, disseram os médicos.
Nos dias seguintes, Pedro ficou por ali, ajudando no que podia. Aprendeu algumas palavras de francês, trouxe-lhe jornais, leu-lhe cartas antigas da Covilhã. Às vezes falavam da cidade: do Pelourinho, do café onde se sentavam, da serra coberta de neve.
E cada vez que falavam da Covilhã, a Flor sorria um pouco mais.
Uma tarde, olhando pela janela do hospital para o céu cinzento de França, ela disse:
— Quando eu melhorar… quero voltar para casa.
Pedro segurou-lhe a mão com cuidado.
Desta vez, nenhum dos dois duvidava do que significava “casa”.
