Xavi já não era o rapaz que sonhava com grandes histórias. Era um homem feito, com marcas de escolhas, perdas, conquistas. Fez o serviço militar, saído da cidade, começou a trabalhar. Mas naquele verão o passado ressuscitou.
Não por nostalgia.
Ou talvez um pouco.
Caminhou pelo centro da cidade com passos mais lentos. Passou pela antiga escola, olhou as vitrines renovadas, reconheceu cheiros familiares. Quando chegou ao jardim, o coração acelerou sem pedir autorização.
O banco ainda estava lá, mas o jardim estava renovado, os arbustos e os canteiros com flores já não existiam.
Sentou-se.
Abriu a mochila e tirou um livro antigo, gasto nas bordas. O mesmo. O que ela lhe tinha dado vinte anos antes.
Folheou até encontrar o bilhete que ainda guardava entre as páginas.
"Última corrida na piscina. Hoje."
Sorriu sozinho.
— Ainda guardas isso?
A voz veio atrás dele.
Xavi congelou por um segundo antes de se virar.
Era ela.
O tempo tinha desenhado maturidade no rosto dela, mas os olhos eram exatamente os mesmos. Aqueles olhos que riam antes da boca.
— Pensei que tinhas ido embora para sempre — disse ele, quase num sussurro.
— Fui. Mas algumas partes minhas ficaram aqui.
Sentaram-se lado a lado, como antes. Não houve pressa em falar. O silêncio já não era tímido; era confortável.
Ela contou que tinha vivido noutras cidades, trabalhado, amado, perdido, crescido. Ele contou o mesmo. Riram das versões jovens de si próprios.
— Sabes o que mais me marcou? — perguntou ela.
— A corrida?
— Não. O que disseste naquele miradouro. Que eu fazia parte da tua história.
Xavi respirou fundo.
— E fazes.
Ela olhou para as árvores do jardim.
— Eu voltei há alguns meses. Trouxe a minha filha para viver aqui. Queria que ela crescesse num sítio onde as histórias começam em bancos de jardim.
O coração dele bateu diferente.
— Então ainda acreditas nisso?
— Mais do que nunca.
O sol começava a descer, pintando o céu com tons dourados — quase iguais aos daquele verão distante. Como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa.
— Há uma piscina nova, na parte baixa da cidade - tem ondas - disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu.
— Ainda sabes perder corridas?
— Nunca foi sobre ganhar.
Ficaram ali mais um pouco. Vinte anos tinham passado, mas o que era verdadeiro não tinha desaparecido — apenas amadurecido.
Desta vez, quando as mãos se encontraram, não foi por acaso nem por despedida.
Foi escolha.
E Xavi percebeu, finalmente, que algumas histórias não acabam.
Elas esperam.
O relógio da torre de São Francisco dava as horas no mesmo instante que os lábios se uniam e a história se escrevia de vez…
FIM
Bom dia para todos nós🍀
