Sofia permanecia em silêncio.
A carta tremia-lhe nas mãos.
Agora sabia.
Rita era a mulher que lhe tinha dado a vida.
E António sabia.
Durante vinte e cinco anos.
— Não consigo acreditar... — murmurou.
Francisco aproximou-se.
— Sofia, há mais coisas que precisas de saber.
Ela levantou os olhos.
— Mais?
Francisco assentiu.
— Encontrei outras cartas.
— Quantas?
— Quatro.
Sofia sentiu o coração apertar.
— E nunca as leste?
— Li a primeira. As outras estavam fechadas.
Francisco retirou-as de uma pequena pasta.
— A minha mãe escreveu-as todas no mesmo ano.
Sofia pegou na primeira.
O envelope estava dirigido a António.
Abriu-a.
“António, sei que vais cuidar dela como se fosse tua. É a única coisa que me dá alguma paz.”
Sofia começou a chorar.
Continuou a ler.
Rita explicava que não tinha condições para criar a filha e que tomara uma decisão que lhe partia o coração.
Mas havia uma frase que a fez parar:
“Um dia, quando ela for adulta, tens de lhe contar quem é o verdadeiro pai.”
Sofia levantou os olhos.
— O verdadeiro pai?
Francisco ficou tão surpreendido como ela.
— Então existe outro homem.
Sofia voltou à carta.
Mais abaixo, havia apenas uma inicial.
“P.”
— P...
Francisco pensou durante alguns segundos.
— Pode ser Paulo. Pedro. Ou qualquer outro nome.
Sofia abanou a cabeça.
— Não. A minha mãe conhecia o pai. Só não queria que António lhe dissesse quem ele era.
— Talvez exista uma razão.
Sofia fechou a carta.
— Vou descobrir.
Nessa tarde, Sofia ligou para Beatriz.
Desta vez foi Beatriz quem pediu:
— Não me perguntes mais nada pelo telefone.
— Então diz-me apenas uma coisa.
— O quê?
— O António é o meu pai?
Silêncio.
Sofia fechou os olhos.
A resposta não veio.
Mas o silêncio foi suficiente.
— Eu sabia...
Beatriz começou a chorar.
— Sofia, nós amámos-te como nossa filha desde o primeiro dia.
— Eu sei.
— Nunca quisemos fazer-te mal.
— Mas esconderam-me a minha própria história.
— Porque tínhamos medo de te perder.
Sofia sentiu as lágrimas correrem pelo rosto.
— Já me perderam, mãe.
Beatriz ficou sem palavras.
— Não porque deixei de vos amar — continuou Sofia. — Mas porque já não sei em quem posso confiar.
Desligou.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco junto ao Jardim do Lago.
Ele tinha consigo a última carta.
— Esta é diferente — disse.
— Porquê?
— Não é dirigida ao António.
Sofia pegou nela.
No envelope havia apenas duas palavras:
“Para Sofia.”
Ela ficou imóvel.
— A minha mãe escreveu isto para mim?
Francisco assentiu.
— Mas nunca chegou até ti.
Sofia abriu lentamente o envelope.
Leu a primeira linha.
E o mundo pareceu parar.
“Minha filha, se algum dia leres esta carta, significa que descobriste a verdade.”
Sofia levou a mão à boca.
Continuou a ler.
Mas antes de chegar ao fim, encontrou uma frase que a deixou completamente sem chão:
“O teu pai chama-se...”
A carta terminava ali.
A parte seguinte tinha sido arrancada.
Sofia olhou para Francisco, desesperada.
— Quem arrancou o resto?
Francisco ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— A minha mãe não foi.
Sofia sentiu um arrepio.
— Como sabes?
Francisco apontou para a carta.
— Porque esta carta foi encontrada na casa do teu pai.
Sofia ficou gelada.
António tinha guardado a carta durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte onde estava escrito o nome do seu verdadeiro pai.
Fim do Episódio 13
Sofia não conseguiu dormir.
A fotografia estava sobre a mesa.
Ao lado, o documento antigo.
E, na sua cabeça, uma sucessão de perguntas para as quais ninguém parecia querer dar resposta.
Rita.
Francisco.
2001.
António e Beatriz.
Tudo parecia estar ligado.
Mas como?
Na manhã seguinte, Sofia tomou uma decisão.
Ligaria novamente a Beatriz.
Desta vez não iria fazer perguntas.
Iria exigir respostas.
Pegou no telemóvel.
— Mãe, precisamos de conversar.
A voz de Beatriz surgiu do outro lado.
— Eu sei, filha.
— Conheces a Rita?
Silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
Finalmente.
— Desde quando?
— Desde antes de tu nasceres.
Sofia sentiu um arrepio.
— Então a Rita conhecia-me?
Beatriz começou a chorar.
— Conhecia.
Aquela resposta atingiu Sofia como um golpe.
— Quem era ela para mim?
Beatriz não respondeu.
— Mãe!
— Não posso contar-te tudo por telefone.
— Então conta-me quando chegares.
— Vamos regressar amanhã.
Sofia ficou imóvel.
— Amanhã?
— Sim. Eu e o teu pai.
— E depois vais contar-me a verdade?
Beatriz respirou fundo.
— Depois de tantos anos, já não podemos continuar a esconder.
A chamada terminou.
Sofia sentou-se na cama.
Pela primeira vez, sentia que a verdade estava realmente próxima.
Nesse mesmo dia, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Beatriz tinha dito.
Ele ficou pensativo.
— Então a minha mãe conhecia-te antes de eu nascer.
— É o que parece.
Francisco tirou do bolso uma pequena chave.
— Há uma coisa que nunca contei a ninguém.
Sofia olhou para a chave.
— O que é?
— Depois da morte da minha mãe, encontrei uma caixa escondida.
— E nunca a abriste?
— Abri.
Francisco baixou os olhos.
— Dentro havia cartas.
— Cartas de quem?
— Da minha mãe.
— Para quem?
Francisco levantou os olhos para Sofia.
— Para António.
Sofia ficou sem respiração.
— Para o meu pai?
— Sim.
Francisco entregou-lhe uma das cartas.
O envelope estava envelhecido.
Na frente, escrito à mão, estava apenas:
“António — não podes levar a Sofia sem saberes toda a verdade.”
Sofia começou a tremer.
— Sofia...
Ela não conseguia falar.
Virou o envelope.
A carta tinha sido escrita em 2001.
Francisco segurou-lhe o braço.
— Queres mesmo ler?
Sofia olhou para ele.
Tinha lágrimas nos olhos.
— Passei vinte e cinco anos sem saber quem sou.
Abriu o envelope.
Retirou lentamente a folha.
Começou a ler.
A primeira frase fez-lhe faltar o ar:
“António, entrego-te a minha filha porque já não tenho condições para a criar...”
Sofia levou a mão à boca.
A carta caiu-lhe das mãos.
Francisco ficou pálido.
— Sofia...
Ela olhou para ele.
Agora já não havia espaço para dúvidas.
Rita tinha sido a mulher que lhe entregara a filha.
E António sabia de tudo.
Fim do Episódio 12.
Sofia passou a noite a pensar na mensagem de António.
“Há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Quem seria?
E por que razão o pai não lhe dizia simplesmente o nome?
Na manhã seguinte, voltou a casa de Maria da Luz.
Encontrou-a sentada junto à janela, com uma chávena de café nas mãos.
— Já estava à sua espera — disse Maria da Luz.
— O meu pai disse-me que a senhora sabe onde posso encontrar uma pessoa.
Maria da Luz levantou os olhos.
— Sei.
— Quem é?
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
— Chama-se Rita.
Sofia sentiu o coração parar.
— Rita?
— Sim.
— Mas o Francisco disse-me que a mãe dele morreu.
Maria da Luz baixou a voz.
— E morreu mesmo.
Sofia ficou confusa.
— Então como posso conhecê-la?
Maria da Luz levantou-se e abriu uma gaveta.
Retirou de lá um pequeno papel.
— Porque existe outra Rita.
Sofia franziu o sobrolho.
— Outra Rita?
— Uma mulher que conheceu a sua mãe... ou melhor, que conheceu a mulher que aparece naquela fotografia.
Sofia sentiu um arrepio.
— E onde está ela?
Maria da Luz entregou-lhe o papel.
Era uma morada.
— Vive fora da Covilhã. Mas ainda mantém contacto com algumas pessoas daqui.
Sofia guardou o papel.
— Sabe o que ela pode contar-me?
— Talvez muito.
— Ou talvez nada.
Maria da Luz olhou-a fixamente.
— Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir do passado.
Sofia respondeu:
— Eu passei a minha vida inteira sem sequer saber que ele existia.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Maria da Luz tinha descoberto.
Ele ficou pensativo.
— Outra Rita...
— Sim.
— Talvez devêssemos ter cuidado.
— Porquê?
Francisco hesitou.
— Porque a minha mãe tinha muito medo de algumas pessoas.
Sofia aproximou-se.
— Que pessoas?
Francisco abanou a cabeça.
— Nunca consegui saber.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Sobre o meu pai... há uma coisa que nunca te contei.
Sofia ficou atenta.
— O quê?
— Encontrei uma carta dele há alguns anos.
— E sabes quem ele é?
Francisco tirou o telemóvel do bolso.
— Não. Mas a carta tinha uma fotografia.
Mostrou-lha.
Sofia ficou imóvel.
O homem da fotografia era desconhecido para ela.
Mas no verso estava escrita uma data.
2001.
Sofia olhou para Francisco.
— Porque é que toda a gente parece ter fotografias de 2001?
Francisco não respondeu.
Nessa noite, em Lyon, António fechava uma mala.
Beatriz entrou no quarto.
— Está tudo pronto?
— Quase.
— António...
Ele parou.
— E se ela perguntar por mim?
— Desta vez não vamos mentir.
Beatriz respirou fundo.
— Prometes?
António aproximou-se dela.
— Prometo.
Beatriz abriu uma gaveta e retirou um pequeno envelope.
— Então leva isto.
António olhou para o envelope.
— Ainda o tens?
— Guardei-o durante vinte e cinco anos.
António ficou em silêncio.
— Está na altura de ela saber — disse Beatriz.
Na Covilhã, Sofia recebeu uma chamada.
Era Maria da Luz.
— Sofia?
— Sim?
— Acabei de me lembrar de uma coisa.
— O quê?
— Quando vi a fotografia pela primeira vez, não reparei num pormenor.
— Que pormenor?
A voz de Maria da Luz baixou.
— A mulher que segurava o bebé tinha uma aliança.
Sofia ficou pensativa.
— E então?
— Rita não era casada.
Silêncio.
Sofia sentiu um arrepio.
— Tem a certeza?
— Absoluta.
Sofia desligou lentamente.
Olhou para a fotografia.
Depois para o documento.
E finalmente para o nome que estava escrito no papel.
Rita.
Talvez aquela mulher não fosse a mãe.
Talvez fosse apenas alguém que sabia onde estava a verdadeira mãe de Sofia.
E, pela primeira vez, surgiu-lhe uma pergunta ainda mais assustadora:
Quem era o homem que tinha colocado aquela aliança no dedo de Rita?
Fim do Episódio 11.
— Mãe, conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada, Beatriz não respondeu.
Sofia esperou.
— Mãe?
Finalmente ouviu um suspiro.
— Sofia… onde ouviste esse nome?
A pergunta confirmou aquilo que ela já começava a suspeitar.
— Portanto, conheces.
— É complicado, filha.
— Complicado porquê?
— Há coisas do passado que não vale a pena mexer.
Sofia sentiu uma mistura de tristeza e revolta.
— Para ti talvez não valha a pena. Para mim vale.
Beatriz ficou em silêncio.
— Encontrei uma fotografia, mãe. Uma fotografia de uma mulher com um bebé.
A respiração de Beatriz tornou-se mais pesada.
— Sofia, por favor...
— E encontrei um documento onde aparece o nome Rita.
Beatriz não conseguiu responder.
— Quero saber quem ela é.
— Não podes continuar por esse caminho.
— Porquê?
A voz de Sofia tremeu.
— Porque tenho direito a saber quem sou!
Do outro lado, Beatriz começou a chorar.
Sofia fechou os olhos.
Nunca tinha ouvido a mãe chorar daquela maneira.
— Mãe...
— Desculpa.
— Desculpa pelo quê?
Outra pausa.
— Por tudo o que fizemos por ti.
Sofia ficou gelada.
“Fizemos?”
— O que queres dizer com isso?
Beatriz desligou a chamada.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Em Lyon, Beatriz entrou na sala.
António percebeu imediatamente o que tinha acontecido.
— Ela perguntou por Rita?
Beatriz assentiu.
— E agora?
— Já não conseguimos esconder mais.
António aproximou-se.
— Talvez esteja na altura de lhe contar.
Beatriz limpou as lágrimas.
— Não. Ainda não.
— Beatriz...
— Ela precisa de saber a verdade, mas não desta maneira.
António ficou pensativo.
— Então o que vamos fazer?
Beatriz olhou para uma velha fotografia que guardava numa gaveta.
Era uma fotografia de Sofia bebé.
— Temos de voltar à Covilhã.
Enquanto isso, Sofia encontrou-se com Cláudia.
Contou-lhe tudo.
— A tua mãe sabe — disse Cláudia.
— Sabe.
— E os teus pais também?
Sofia ficou alguns segundos calada.
— Acho que sim.
Cláudia apertou-lhe a mão.
— Então estamos mais perto da verdade do que pensávamos.
Sofia olhou para a fotografia de Rita.
— Só quero saber uma coisa.
— O quê?
— Porque é que me esconderam isto durante toda a minha vida?
Nesse instante, o telemóvel de Sofia vibrou.
Era uma mensagem de António.
“Filha, precisamos de falar. Vamos regressar a Portugal.”
Sofia sentiu o coração disparar.
Logo depois chegou outra mensagem.
“Mas antes de nos encontrarmos, há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Sofia olhou para Cláudia.
— Quem?
A resposta chegou alguns segundos depois.
“Maria da Luz sabe onde podes encontrar essa pessoa.”
Sofia ficou sem palavras.
O passado estava finalmente a começar a abrir as suas portas.
Mas quem seria a pessoa que António queria que ela conhecesse?
Fim do Episódio 10.
O fim da tarde aproximava-se quando Sofia chegou ao Bairro da Biquinha.
Do alto, a cidade estendia-se diante dos seus olhos e, ao longe, a Serra da Estrela começava a ganhar os tons dourados do pôr do sol.
Sofia parou por alguns instantes.
Tinha nas mãos a fotografia e o documento que Maria da Luz lhe entregara.
Tudo aquilo parecia impossível.
Rita.
A mulher da fotografia.
A pessoa que aparecia no documento.
E a mãe de Francisco.
Sofia ouviu passos atrás de si.
— Vieste mesmo.
Era Francisco.
— Disse que vinha.
Ele aproximou-se e ficou a olhar para a cidade.
— A minha mãe gostava deste lugar.
— Porquê?
— Dizia que daqui conseguia pensar melhor.
Sofia respirou fundo.
— Francisco, preciso de te perguntar uma coisa.
— Sobre a minha mãe?
Ela assentiu.
— Conheces esta mulher?
Sofia mostrou-lhe a fotografia.
Francisco pegou nela.
O rosto mudou imediatamente.
— Onde arranjaste isto?
— Foi encontrada numa caixa antiga.
Francisco continuou a olhar para a fotografia.
— É a minha mãe.
Sofia sentiu um nó na garganta.
— Tens a certeza?
— Tenho. Eu tinha fotografias dela. Esta é mais antiga, mas reconheço-a perfeitamente.
Sofia tirou o documento da mala.
— E isto?
Francisco leu.
O silêncio tornou-se pesado.
— Sofia...
— O nome da minha mãe aparece aqui como Rita.
Francisco levantou lentamente os olhos.
— Mas isso é impossível.
— Porquê?
— Porque a minha mãe nunca me falou de nenhuma filha.
Sofia ficou imóvel.
— Filha?
Francisco percebeu o que tinha acabado de dizer.
— Espera... não estou a dizer que...
— O que sabes?
— Sei apenas que a minha mãe teve problemas antes de eu nascer. Nunca quis falar muito sobre essa época.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Nunca conheci o meu pai.
Sofia sentiu um arrepio.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Francisco perguntou:
— Sofia, onde estão os teus pais?
— Em Lyon.
— António e Beatriz?
— Sim.
Francisco voltou a olhar para o documento.
— E eles sabem disto?
Sofia hesitou.
— Não sei.
Francisco entregou-lhe o papel.
— Acho que deves perguntar-lhes.
Sofia guardou o documento.
— Tenho medo da resposta.
Francisco aproximou-se.
— Às vezes, a verdade assusta mais antes de a conhecermos.
Os dois ficaram em silêncio, olhando a cidade.
Pela primeira vez desde que começara aquela procura, Sofia sentiu que não estava completamente sozinha.
Nessa noite, Sofia ligou para Lyon.
Beatriz atendeu.
— Olá, filha.
Sofia não respondeu logo.
— Mãe, preciso de te perguntar uma coisa.
Beatriz percebeu imediatamente que havia algo diferente na voz dela.
— O que aconteceu?
Sofia fechou os olhos.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada fez-se um silêncio absoluto.
Um silêncio que durou apenas alguns segundos.
Mas para Sofia pareceu uma eternidade.
Depois ouviu a voz de Beatriz, trémula:
— Quem te falou desse nome?
Sofia abriu os olhos.
Agora já não tinha dúvidas.
Beatriz conhecia Rita.
Fim do Episódio 9.
Sofia chegou a casa de Maria da Luz pouco depois das dez da manhã.
Cláudia já estava à espera.
Assim que entrou, percebeu pela expressão da amiga que alguma coisa tinha acontecido.
— A minha mãe está lá dentro — disse Cláudia. — Encontrou o documento ontem à noite.
Sofia sentiu o coração acelerar.
Maria da Luz apareceu na sala com uma pequena pasta castanha nas mãos.
— Sente-se, Sofia.
A jovem sentou-se.
— O que encontrou?
Maria da Luz pousou a pasta sobre a mesa.
— Isto estava dentro da mesma caixa onde encontrámos a fotografia.
Abriu-a cuidadosamente.
Havia alguns papéis antigos, amarelados pelo tempo.
Sofia aproximou-se.
— Aqui.
Maria da Luz retirou um documento dobrado.
Sofia olhou para ele.
O seu nome estava escrito numa das linhas.
Sofia.
Ficou sem palavras.
— É o meu nome...
— Sim.
— Mas o que é isto?
Maria da Luz respirou fundo.
— É uma cópia de um documento antigo. Não sei como foi parar àquela caixa, nem porque estava lá.
Sofia pegou nele com as mãos trémulas.
Leu algumas linhas.
Depois parou.
— Aqui diz que eu nasci na Covilhã.
Cláudia aproximou-se.
— E então?
Sofia levantou os olhos.
— Eu sempre pensei que tivesse saído daqui muito pequena, mas... nunca soube exatamente onde tinha nascido.
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Há mais uma coisa — disse finalmente.
Sofia olhou para ela.
— O nome de António e Beatriz aparece no documento?
Maria da Luz abanou a cabeça.
Sofia sentiu um vazio no estômago.
— Então quem aparece?
Maria da Luz apontou para uma linha quase apagada.
Sofia aproximou o rosto.
Leu.
E ficou imóvel.
Rita.
O nome que já tinha ouvido.
O nome da mãe de Francisco.
— Não... — murmurou.
Cláudia segurou-lhe a mão.
— Sofia...
— A Rita aparece aqui?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia levantou-se de repente.
— Então ela era minha mãe?
— Eu não disse isso.
— Mas está aqui o nome dela!
— E isso não significa que tenhamos todas as respostas.
Sofia começou a andar pela sala.
Tudo parecia acontecer depressa demais.
A fotografia.
A mulher.
A viagem para França.
O nome de Rita.
E agora aquele documento.
— Tenho de falar com o Francisco.
Cláudia olhou para ela.
— Tens a certeza?
Sofia respondeu sem hesitar:
— Tenho.
Do outro lado da cidade, Francisco estava junto ao carro quando recebeu uma chamada.
Era um número que não conhecia.
— Estou?
Do outro lado, ninguém respondeu durante alguns segundos.
Depois ouviu uma voz feminina:
— É o Francisco?
— Sim.
— O meu nome é Sofia. Precisamos de falar.
Francisco ficou em silêncio.
— Sobre a minha mãe — acrescentou ela.
O rosto de Francisco mudou.
— Quem lhe falou da minha mãe?
Sofia apertou o documento contra o peito.
— Acho que a sua mãe e eu temos uma história em comum.
Francisco não respondeu.
E, pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Sofia percebeu que ele também parecia ter medo de alguma coisa.
— Onde podemos encontrar-nos? — perguntou.
Francisco olhou para a estrada.
— No lugar onde a minha mãe costumava ir quando queria estar sozinha.
— Onde?
Houve uma pausa.
— No Bairro da Biquinha.
A chamada terminou.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Não sabia o que iria encontrar naquele lugar.
Mas sabia uma coisa:
estava cada vez mais perto da verdade.
Fim do Episódio 8.
Sofia passou a noite quase sem dormir.
A palavra continuava a martelar-lhe a cabeça:
Francisco.
O mesmo nome que, por uma estranha coincidência, pertencia ao homem que conhecera no centro da cidade.
Ou seria mesmo uma coincidência?
Na manhã seguinte, ligou a Cláudia.
— Preciso de falar contigo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Descobri o nome do homem que a tua mãe disse estar ligado àquela mulher.
Do outro lado fez-se silêncio.
— Qual é o nome?
Sofia respirou fundo.
— Francisco.
Cláudia demorou alguns segundos a responder.
— Sofia... é melhor não tirares conclusões precipitadas.
— Eu sei. Mas ontem conheci um Francisco.
— O Francisco que me falaste?
— Sim.
— E sabes alguma coisa sobre ele?
— Não. Foi apenas um encontro casual.
Cláudia ficou pensativa.
— Então temos de descobrir quem ele é.
Nesse mesmo dia, Sofia voltou ao centro da cidade.
Caminhou sem destino definido, tentando organizar os pensamentos.
Passou pelos Correios, percorreu algumas ruas antigas e acabou por parar junto a um café.
Foi então que ouviu uma voz atrás de si.
— Sofia?
Voltou-se.
Era Francisco.
— Outra vez?
Ele sorriu.
— Parece que a Covilhã é pequena.
— Ou talvez seja o destino — respondeu Sofia, quase sem pensar.
Francisco sorriu.
— Talvez.
Sentaram-se para tomar um café.
Desta vez, Sofia observou-o com atenção.
— Posso fazer-te uma pergunta?
— Claro.
— A tua família é da Covilhã?
Francisco pareceu surpreendido.
— É. Os meus pais nasceram cá. Os meus avós também.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— E conheces muita gente antiga da cidade?
— Algumas pessoas. Porquê?
Sofia hesitou.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
O sorriso de Francisco desapareceu.
Durante alguns segundos, ficou completamente imóvel.
— Onde ouviste esse nome?
Sofia percebeu imediatamente que tinha tocado num ponto sensível.
— Foi apenas uma pergunta.
Francisco baixou os olhos.
— Rita era o nome da minha mãe.
Sofia ficou sem palavras.
— Era?
Francisco respirou fundo.
— Morreu há alguns anos.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Lamento muito.
— Obrigado.
Houve um silêncio pesado entre os dois.
— Porque perguntaste por ela? — quis saber Francisco.
Sofia não respondeu.
Ainda não podia.
Não sabia se podia confiar nele.
Mais tarde, encontrou-se com Cláudia.
— Ele conhecia a Rita — disse Sofia.
Cláudia arregalou os olhos.
— A sério?
— Era a mãe dele.
— Então talvez tenhas encontrado uma ligação.
Sofia retirou a fotografia da mala.
— Talvez.
Cláudia olhou para a imagem.
— Sofia...
— O quê?
— Há uma coisa que ainda não reparaste.
Cláudia apontou para o canto inferior da fotografia.
Havia uma pequena marca quase apagada.
Uma letra.
F.
Sofia aproximou a fotografia dos olhos.
— “F” de Francisco?
Cláudia não respondeu.
Sofia sentiu um arrepio.
Se aquela fotografia tinha sido tirada em 2001, se a mulher era Rita e se Francisco estava ligado a ela...
quem era, afinal, o bebé que Rita segurava nos braços?
Naquele momento, o telemóvel de Sofia tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, preciso de falar consigo com urgência.
— Aconteceu alguma coisa?
A voz de Maria da Luz tremia.
— Encontrei outra coisa dentro da velha caixa.
Sofia levantou-se.
— O quê?
Do outro lado ouviu-se apenas uma frase:
— Encontrei um documento com o teu nome.
Sofia permaneceu imóvel diante do telemóvel.
A fotografia ampliada mostrava-a ainda criança, ao colo de Beatriz.
Mas era o fundo que lhe prendia a atenção.
A mulher que aparecia parcialmente atrás delas tinha o rosto voltado para a câmara.
Sofia aproximou a imagem.
O coração acelerou.
Era ela.
Ou, pelo menos, era extraordinariamente parecida com a mulher que aparecia na fotografia antiga.
Pegou na fotografia que Maria da Luz lhe tinha dado e colocou-a ao lado do telemóvel.
Comparou os dois rostos.
Os mesmos olhos.
O mesmo formato do rosto.
Até o cabelo parecia semelhante.
— Não pode ser... — murmurou.
De repente, ouviu o som de uma mensagem.
Era Cláudia.
“Descobriste alguma coisa?”
Sofia respondeu:
“Acho que encontrei a mulher da fotografia.”
A resposta chegou quase imediatamente.
“Quem é?”
Sofia hesitou antes de escrever:
“Não sei. Mas aparece numa fotografia minha de quando era bebé.”
Cláudia demorou alguns segundos.
Depois escreveu:
“Sofia, não mostres isso a ninguém. Principalmente aos teus pais.”
Sofia ficou a olhar para o ecrã.
Aquelas palavras assustaram-na.
“Porquê?”
Cláudia não respondeu.
Em Lyon, Beatriz pousou o telemóvel sobre a mesa.
António percebeu imediatamente que alguma coisa não estava bem.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Beatriz...
Ela levantou-se e caminhou até à janela.
— A Sofia anda estranha.
António ficou calado.
— Achas que ela descobriu alguma coisa? — perguntou finalmente.
Beatriz virou-se.
— Ainda não.
— Ainda?
Ela não respondeu.
António aproximou-se.
— Nós sabíamos que este dia chegaria.
— Eu sei.
— Então temos de estar preparados.
Beatriz levou as mãos ao rosto.
— Eu não consigo perdê-la, António.
— Não vais perdê-la.
— E se ela nunca nos perdoar?
António ficou em silêncio.
Porque, no fundo, essa era também a pergunta que mais o atormentava.
Na Covilhã, Sofia decidiu voltar ao local onde Maria da Luz tinha encontrado a fotografia.
Talvez houvesse mais alguma coisa naquela velha caixa.
Antes de sair, recebeu finalmente uma mensagem de Cláudia.
“A minha mãe lembrou-se de mais uma coisa. Disse que a mulher da fotografia tinha alguém à espera dela.”
Sofia respondeu:
“Quem?”
A resposta demorou.
Quando chegou, Sofia sentiu um arrepio.
“Um homem.”
E logo depois outra mensagem:
“E a minha mãe lembra-se do nome dele.”
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
O nome apareceu no ecrã alguns segundos depois.
Francisco.
Sofia deixou cair o telemóvel sobre a cama.
O homem que tinha conhecido por acaso no centro da cidade podia estar ligado ao segredo que perseguia a sua vida.
Fim do Episódio 6.
Muito obrigado pela vossa visita
Voltem sempre...