Hoje é dia de conversar convosco, se estiverem dispostos a ler, pois claro! 😀
Felizmente, os tempos mudaram e a sociedade evoluiu. Vivemos com muito mais qualidade de vida do que nos meus tempos de criança. Mas há uma coisa que importa distinguir: qualidade de vida não é necessariamente sinónimo de sossego, paz, tranquilidade ou felicidade.
Vivemos melhor, sem dúvida! Temos mais conforto, mais comodidades e acesso a coisas que, há algumas décadas, nem sequer imaginávamos. Mas será que, no meio de tanta evolução, não fomos perdendo algumas das coisas mais bonitas da vida?
Quando não existe algo, também não sentimos necessidade de o desejar ou invejar. Lembram-se de quando não havia as tecnologias de hoje? Saíamos mais à noite, brincávamos na rua, conversávamos nas soleiras das portas ou sentados nos recantos dos nossos becos. Quantas vezes ficávamos a apreciar as estrelas no céu? Quantas histórias ouvimos contar aos nossos avós, que nos prendiam a atenção do princípio ao fim?
Eram outros tempos, outras vivências, outras formas de estar na vida!
Hoje, as cidades cresceram, temos mais cinemas, grandes centros comerciais e prédios modernos e vistosos. Mas será que conhecemos os nossos vizinhos ou apenas os vemos quando nos cruzamos nos elevadores?
Temos as redes sociais, os videojogos, a Netflix e tantas outras formas de entretenimento. Mas já não chegamos a casa com a roupa suja de lama, depois de uma tarde inteira de brincadeiras na rua. Já não se ouvem com tanta frequência aquelas gargalhadas espontâneas, que enchiam as tardes de sol e davam vida aos nossos bairros.
As relações humanas passaram, em grande parte, a estar confiadas a um ecrã de telemóvel ou de computador, com todos os perigos e ameaças que isso também acarreta. Estamos mais ligados tecnologicamente, mas será que estamos verdadeiramente mais próximos uns dos outros?
Antigamente, havia ricos e pobres. Os ricos eram mesmo ricos e os pobres eram praticamente todos os outros. Hoje, temos os muito ricos, os pobres e uma enorme faixa de pessoas que vive permanentemente a fazer contas para chegar ao fim do mês.
Um casal que trabalhe, receba dois ordenados mínimos ou pouco mais, tenha um ou dois filhos e procure cumprir todas as suas obrigações, pode encontrar-se numa situação financeira extremamente difícil. Muitas vezes, não reúne condições para receber determinados apoios, mas tem de suportar impostos, contribuições e todas as despesas de uma família.
Trabalhar uma vida inteira e, mesmo assim, sentir dificuldades para viver com dignidade é algo que merece a nossa reflexão.
É verdade que hoje temos mais qualidade de vida, mas os salários continuam a não chegar para tudo. E, atenção, no tempo dos nossos pais também não chegava! A diferença estava, muitas vezes, na maneira de pensar e de encarar a vida. Só tinham televisão quando podiam comprar, só iam de férias quando conseguiam juntar algum dinheiro e não viviam tão condicionados pela necessidade de acompanhar aquilo que os outros tinham.
Não se trata de criticar ninguém. São apenas realidades diferentes, maneiras diferentes de viver e de encarar as prioridades.
Hoje, vivemos demasiado das aparências e, por vezes, da inveja. Porque aquele tem, eu também tenho de ter! E, numa sociedade em que o crédito está tão acessível, é muito fácil cair no endividamento. Depois, entre as prestações, as despesas e os compromissos assumidos, o caminho até ao abismo pode ser muito curto.
Também as reuniões familiares de antigamente parecem estar a desaparecer. Antes, juntava-se a família, conversava-se, contavam-se histórias e partilhavam-se momentos. Hoje, muitas vezes, estamos todos na mesma sala, mas cada um no seu canto, agarrado ao seu próprio ecrã.
Estamos juntos fisicamente, mas tantas vezes ausentes uns dos outros!
Sinceramente, não tenho nenhum partido político em que me reveja verdadeiramente. Assisto a demasiadas discussões, gritaria e acusações, enquanto os problemas concretos das pessoas continuam à espera de respostas. Fala-se muito, promete-se muito, mas as dificuldades de tantas famílias continuam presentes e, para algumas, até aumentam.
E os jovens?
Os jovens são uma das grandes esperanças da humanidade. Há jovens extraordinários, inteligentes, responsáveis, com valores e vontade de construir um futuro melhor. Acredito neles! Mas também sei que lhes estamos a deixar uma sociedade cheia de desafios, contradições e problemas por resolver.
O tempo dirá se as novas gerações conseguirão mudar o rumo das coisas.
E termino com uma reflexão que gostaria que todos levássemos connosco:
Não sou contra a evolução, muito pelo contrário. Quero progresso, tecnologia, conforto, melhores salários, melhores condições de vida e oportunidades para todos. Mas não podemos permitir que, na corrida para termos cada vez mais, nos esqueçamos de ser cada vez mais humanos.
Podemos ter a casa mais bonita, o carro mais moderno, o telemóvel mais sofisticado e passar férias nos lugares mais deslumbrantes do mundo. Mas, se nos faltar tempo para a família, disponibilidade para os amigos, respeito pelos outros e vontade de olhar para quem está ao nosso lado, talvez tenhamos conquistado muita coisa, mas perdido aquilo que verdadeiramente importa.
Afinal, de que nos serve uma sociedade cada vez mais evoluída, se as pessoas se sentem cada vez mais sozinhas?
Porque a verdadeira evolução não se mede apenas naquilo que conseguimos comprar, construir ou inventar. Mede-se também na nossa capacidade de respeitar, partilhar, ajudar, conviver e amar.
Não quero voltar ao passado. Quero é que não percamos aquilo que o passado tinha de melhor!
Um grande abraço para todos e uma boa reflexão.






