Era uma vez… Não, companheiros, desta vez não foi no reino distante da Lapónia, onde o frio entra pelos ossos e até as barbas dos duendes ficam congeladas. Esta história começa bem mais perto de nós, nas nossas belas Penhas da Saúde, lá no alto da Serra da Estrela!
Cansado de tantos anos a viver na Lapónia, o Pai Natal decidiu que estava na hora de mudar de ares. Depois de consultar o seu GPS, que por sinal andava um bocadinho baralhado com tanta neve, tomou uma decisão histórica:
— Minhas queridas renas, este ano vamos passar o Natal em Portugal! E não é em Lisboa, nem no Algarve. Vamos para as Penhas da Saúde, porque ouvi dizer que por lá há frio a sério, paisagens maravilhosas e uma cidade logo ali ao lado que merece uma visita!
As renas ficaram entusiasmadas. O Rodolfo, com o seu nariz vermelho a brilhar como um semáforo em dia de nevoeiro, até deu um salto de alegria.
— Finalmente, chefe! — exclamou ele. — É que já estava farto de comer cenouras congeladas. Ouvi dizer que na Covilhã há bons restaurantes e um comércio tradicional de fazer crescer água na boca!
E assim começou a aventura.
Na manhã de dezembro, o Pai Natal vestiu o seu fato vermelho, ajeitou o cinto, penteou a barba e preparou o trenó. As renas estavam a postos e os duendes tinham-lhe preparado uma lista de compras tão comprida que quase chegava da Serra da Estrela à estação de caminhos de ferro!
O trenó levantou voo das Penhas da Saúde e começou a descer em direção à Covilhã.
Quando passou sobre a cidade, aconteceu algo extraordinário: a neve começou a cair abundantemente, cobrindo telhados, ruas, jardins e praças com um manto branco que parecia saído de um conto de fadas.
As crianças foram as primeiras a dar o alarme.
— Mãe! Pai! Venham à janela! Está ali o Pai Natal!
E tinham razão! Lá vinha ele, a sobrevoar a cidade, com as renas a abrir caminho entre as nuvens e os sininhos a anunciar a sua chegada.
O trenó passou pelo Bairro da Biquinha, tão perto da Serra que quase parecia que o Pai Natal tinha decidido fazer uma visita aos vizinhos antes de ir às compras.
Do alto, olhou para a cidade e comentou:
— Ho, ho, ho! Que cidade tão bonita! Mas quem foi o arquiteto que se lembrou de construir isto tudo a subir e a descer? Espero que as renas tenham bons travões!
O Rodolfo respondeu-lhe:
— Chefe, não se preocupe! Se o trenó avariar, aqui desce sozinho. O problema vai ser voltar a subi-lo!
E lá seguiram, entre gargalhadas, até ao coração da Covilhã.
O Pai Natal escolheu o centro da cidade para fazer a sua aterragem. O trenó desceu suavemente, levantando uma nuvem de neve, enquanto as renas pousavam as patas no chão como verdadeiras bailarinas.
As pessoas ficaram de boca aberta. Os telemóveis começaram a sair dos bolsos, as crianças saltavam de alegria e os adultos, que até ali diziam que já não acreditavam nessas coisas, começaram a esfregar os olhos.
— Será possível? É mesmo o Pai Natal!
Era, sim senhor! E não vinha de mãos a abanar.
Trazia uma missão muito especial: fazer as compras de Natal no comércio tradicional da Covilhã. Porque, segundo ele, já estava farto de encomendar tudo pela Internet e de receber mensagens a dizer que a encomenda estava atrasada.
— Este ano, compro tudo na cidade! — anunciou. — Quero falar com os comerciantes, conhecer as lojas e levar presentes que tenham um bocadinho da alma da Covilhã!
E foi assim que começou a grande operação natalícia.
🛍️ O Pai Natal nas ruas inclinadas da Covilhã
Primeiro, meteu-se pelas artérias principais da cidade, entrando nas lojas e cumprimentando toda a gente.
Na Rua Comendador Campos Melo, conhecida por tantos como Rua Direita, o Pai Natal começou a perceber que fazer compras na Covilhã também era uma modalidade desportiva.
Subia uma rua, parava para recuperar o fôlego, entrava numa loja, comprava um presente e, quando dava por si, tinha de descer tudo outra vez para ir buscar o trenó.
— Ó meu querido Rodolfo, traz-me lá uma cadeira! — pediu ele. — Na Lapónia, as ruas são planas. Aqui, para comprar um brinquedo, tenho de fazer preparação física para os Jogos Olímpicos!
As renas, essas, divertiam-se à grande. Uma delas chegou mesmo a sugerir que, no próximo ano, o trenó fosse equipado com travões ABS e mudanças automáticas.
O Pai Natal visitou as lojas, escolheu brinquedos para os mais pequenos, roupas quentinhas para combater o frio da serra e presentes para todos os gostos. E, como não podia deixar de ser, também levou produtos tradicionais, porque os presentes são muito bonitos, mas um Pai Natal de barriga vazia não trabalha nas melhores condições!
A certa altura, entrou numa loja e perguntou ao comerciante:
— Diga-me lá uma coisa: qual é o presente que se vende mais nesta época?
— Depende, senhor Pai Natal. Há quem procure brinquedos, há quem procure roupa e há quem procure prendas para a família.
— Pois eu procuro uma coisa muito mais difícil!
— O quê?
— Um presente para aquele cunhado que diz mal de tudo, não gosta de nada e ainda reclama quando lhe oferecem dinheiro!
O comerciante ficou a pensar e respondeu:
— Nesse caso, ofereça-lhe um espelho!
O Pai Natal soltou uma gargalhada tão grande que até o Rodolfo, lá fora, começou a espirrar neve pelo nariz!
E assim, entre compras, conversas e muitas brincadeiras, o comércio tradicional da Covilhã viveu um dia que jamais esqueceria.
Porque há coisas que não se compram nos grandes centros comerciais: o sorriso de quem nos atende, a conversa de quem nos conhece e o carinho de quem mantém viva a nossa cidade.
Mas a aventura ainda estava longe de terminar.
Quando o Pai Natal passou junto à Universidade da Beira Interior, foi recebido por um grupo de estudantes que, ao princípio, julgou estar perante uma campanha publicitária.
Um deles, com os livros debaixo do braço e os exames à porta, aproximou-se e perguntou:
— Senhor Pai Natal, desculpe lá, mas o senhor também oferece prendas aos estudantes universitários?
— Claro que sim, meu rapaz! O que desejas?
O estudante pensou durante uns segundos e respondeu:
— Gostava de ter boas notas, passar a todas as cadeiras e não precisar de estudar durante as férias!
O Pai Natal coçou a barba, olhou para o livro que o jovem levava na mão e respondeu:
— Meu filho, eu distribuo prendas, não faço milagres académicos! Mas posso oferecer-te uma caneta, uns apontamentos e uma boa dose de coragem!
Os estudantes desataram a rir. Juntaram-se à volta do trenó, tiraram fotografias, cantaram músicas de Natal e ajudaram o Pai Natal a distribuir pequenas lembranças.
Durante alguns minutos, ninguém pensou em exames, trabalhos ou frequências. A universidade transformou-se num lugar de pura alegria, onde os estudantes voltaram a sentir-se crianças.
E o Pai Natal, emocionado, confessou:
— Sabem uma coisa? A juventude é a maior fábrica de esperança que existe no mundo. Nunca deixem de sonhar!
Entretanto, a neve continuava a cair. A Covilhã estava vestida de branco, como se a Serra da Estrela tivesse decidido oferecer à cidade o mais belo presente de Natal.
O Pai Natal subiu novamente para o trenó e sobrevoou o Jardim Público. Lá do alto, avistou o miradouro, os jardins cobertos de neve e as pessoas que se juntavam para assistir àquele espetáculo.
Durante uns instantes, ficou em silêncio.
Lembrou-se de todos os Natais que tinha passado na Lapónia, das crianças que esperavam por ele junto à lareira e dos sonhos que transportava no seu saco mágico.
Mas ali, na Covilhã, sentia qualquer coisa diferente.
Talvez fosse a beleza da cidade, abraçada pela Serra da Estrela. Talvez fosse a alegria das crianças. Ou talvez fosse aquele sentimento especial que nasce quando uma comunidade se junta e acredita que, por umas horas, tudo é possível.
— Rodolfo, sabes que mais? — perguntou.
— Diga, chefe!
— Acho que encontrei o meu novo lugar preferido para passar o Natal.
— Então e a Lapónia?
— A Lapónia que me desculpe, mas aqui tenho serra, neve, gente acolhedora e ruas que me mantêm em forma!
O Rodolfo abanou a cabeça.
— Está bem, chefe. Mas para o ano quero férias no Algarve!
— No Algarve?! — exclamou o Pai Natal. — Só se as renas aprenderem a nadar!
E os dois continuaram a rir, enquanto o trenó desaparecia entre os flocos de neve.
Chegou finalmente a véspera de Natal.
Nas casas da cidade, as famílias preparavam a ceia, as crianças espreitavam pelas janelas e os mais velhos contavam histórias de outros tempos.
Lá no alto, nas Penhas da Saúde, o Pai Natal preparava a última etapa da sua missão. O trenó estava carregado de presentes comprados na Covilhã, e cada embrulho levava consigo um pouco do carinho dos comerciantes, dos sorrisos das pessoas e da magia que se espalhara pelas ruas.
Antes de partir, olhou uma última vez para a cidade iluminada.
— Obrigado, Covilhã! — murmurou. — Recebeste-me de braços abertos e fizeste-me sentir em casa. Este ano, os presentes que vou distribuir são especiais, porque levam um bocadinho desta terra maravilhosa.
As renas ergueram voo e o trenó desapareceu na noite estrelada, deixando atrás de si um rasto de luzes e pequenos flocos de neve cintilantes.
Naquela noite, muitas crianças adormeceram convencidas de que tinham visto o verdadeiro Pai Natal. E talvez tivessem razão, porque há coisas que não precisam de explicação: basta senti-las no coração.
Na manhã seguinte, encontraram os seus presentes junto à árvore. E, entre os embrulhos, havia um pequeno cartão com uma mensagem:
«Este ano, os presentes vieram da Covilhã, uma cidade onde a Serra abraça o céu, a neve dança nas ruas e a magia vive no coração das pessoas. Nunca deixem de acreditar nos vossos sonhos.
Com amizade,
O vosso Pai Natal, residente temporário nas Penhas da Saúde.»
E dizem que, desde esse Natal, sempre que a neve começa a cair sobre a Covilhã, há quem olhe para o céu à procura de um trenó e de um nariz vermelho a brilhar.
Porque a Covilhã nunca mais se esqueceu do Natal em que a magia andou no ar, as renas desceram a serra e o Pai Natal escolheu a nossa cidade para fazer as suas compras.
E quem sabe se, lá no alto das Penhas da Saúde, ele não estará já a preparar o regresso?
Ho, ho, ho! Covilhã!






