AI, ANOS 80! ❤️


AI, ANOS 80! ❤️

Caso para dizer: ai, quem me dera ter outra vez 20 anos…

Os anos 80 foram uma década muito marcante na minha vida. Foram anos de juventude, de sonhos, de amizades, de futebol, de trabalho, de descobertas e, também, de algumas perdas que ficaram para sempre na memória.

Acabei o liceu e fui mobilizado para o Serviço Militar Obrigatório. Fiz a recruta em Castelo Branco e, depois de tirar a especialidade de Socorrista, prestei serviço no Hospital Militar Regional 2, em Coimbra.

Vi o Sporting Clube da Covilhã subir por duas vezes à Primeira Divisão. Fiz parte da claque “Leões da Serra” e também da organização dos comboios e da famosa caravana verde, momentos que ainda hoje recordo com enorme emoção. 

Assisti ao nascimento e ao crescimento da Universidade da Beira Interior, que viria a transformar profundamente a nossa cidade.

Vi muito cinema no Teatro Cine e no Cine Centro. 

Bebi muitos cafés e imperiais no Montalto, antes de este encerrar. 

Trabalhei na Etchandy, no antigo pavilhão da FAEC, e também na secção de peças da oficina Auto Sprint, ao Biribau.

E quem se lembra dos tempos em que ainda havia tantos carros a dar voltas à placa, no Pelourinho, à procura de um lugar para estacionar? 

Nem tudo foram rosas nos anos 80. Na segunda metade da década, perdi duas pessoas muito queridas e muito próximas, perdas que abalaram profundamente o meu interior e que o tempo nunca conseguiu apagar.

Mas a vida é mesmo assim: não existem espinhos sem rosas, nem rosas sem espinhos. 

Esta fotografia é dos anos 80, de um passeio que fizemos a Évora. Eu sou o dos óculos. 

Olho para esta fotografia e penso em tudo o que ficou para trás… Pessoas, lugares, momentos e histórias que fazem parte de quem somos.

Ai, anos 80… Se fosse possível voltar atrás no tempo, nem que fosse por um único dia, talvez eu não mudasse nada. Apenas queria voltar a sentir aquilo que era ter 20 anos. 

Bom dia para todos nós.🍀



BOM ANO LETIVO

Caminhos Cruzados chegou ao fim

“Caminhos Cruzados” chegou ao seu final. No início, tinha pensado em escrever 90 episódios, mas, à medida que fui desenvolvendo a história, percebi que iria criar um enredo com demasiadas tramas e labirintos, o que poderia acabar por aborrecer os seguidores e, ao mesmo tempo, criar um grau de dificuldade desnecessário para mim.

Assim, decidi reduzir a história para 15 episódios, mantendo sempre o suspense em torno de Sofia. Penso que o vosso feedback foi positivo e espero que tenham acompanhado esta aventura com o mesmo gosto com que eu a escrevi.

Este ano foram quatro romances: Um Romance na Covilhã, Nunca Digas Nunca, Amar e Viver em Liberdade e Caminhos Cruzados. A estes juntaram-se ainda duas aventuras: Uma Aventura em São Silvestre e Uma Aventura nas Portas do Sol.

A única coisa que me move é o gosto pela escrita. Escrever é, para mim, uma forma de dar vida a histórias, personagens, emoções e lugares que fazem parte do nosso imaginário. Quem quiser ler estes romances poderá encontrá-los aqui no blogue ou, simplesmente, pesquisá-los na minha página do Facebook.

Quanto ao lançamento de um livro, como já disse anteriormente, não é uma prioridade para mim, mas continuo recetivo a quem possa estar interessado nessa possibilidade.

Terça feira começa um novo ano letivo e, como faço parte da comunidade educativa, quero deixar uma palavra especial a todos os alunos, professores, funcionários, pais e restantes elementos desta comunidade: desejo-vos um excelente ano letivo, cheio de sucesso, esperança e muitas conquistas. Que tudo corra pelo melhor!

E, sobretudo, um enorme obrigado a todos os que me acompanham, leem, comentam e incentivam a continuar a escrever. Sem vocês, estas histórias não teriam o mesmo sentido.

Bom dia para todos nós. 🍀


CAMINHOS CRUZADOS Episódio 15 — O caminho da verdade

O carro de António e Beatriz entrou na Covilhã ao início da tarde.
Tinham viajado durante horas, quase sem trocar uma palavra.
Beatriz olhava pela janela.
As ruas da cidade traziam-lhe memórias que julgava enterradas para sempre.
— Chegámos — disse António.
Beatriz respirou fundo.
— Depois de vinte e cinco anos...
Sofia estava à espera de Maria da Luz.
Quando viu o carro aproximar-se, sentiu o coração bater mais depressa.
António saiu primeiro.
Depois Beatriz.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Sofia olhou para eles.
Já não conseguia vê-los apenas como os pais que a tinham criado.
Eram também as pessoas que tinham escondido uma parte essencial da sua vida.
Beatriz aproximou-se.
— Sofia...
— Quero a verdade.
António baixou os olhos.
— Vais tê-la.
Sentaram-se os quatro.
António começou:
— Quando nasceste, a tua mãe chamava-se Rita. Era muito jovem e não tinha condições para te criar.
Sofia ouviu em silêncio.
— O teu pai era Paulo. Ele amava a Rita e queria ficar contigo. Mas houve uma discussão entre os dois. Rita decidiu entregar-te a nós.
— E o meu pai?
António respirou fundo.
— Rita disse-lhe que tinhas morrido pouco depois de nasceres.
Sofia ficou petrificada.
— Ela mentiu-lhe?
— Sim.
Beatriz começou a chorar.
— Nós sabíamos que eras filha deles. Mas prometemos a Rita que te criaríamos como nossa filha e que nunca te faltaria amor.
— E a carta?
António retirou do bolso um envelope.
— Guardei-a todos estes anos.
Entregou-a a Sofia.
— Porque não me deram isto antes?
António respondeu com lágrimas nos olhos:
— Porque tivemos medo. Medo de te perder.
Sofia abriu o envelope.
A carta estava completa.
E, finalmente, conseguiu ler o nome que tinha sido arrancado.
Paulo.
O seu pai.
— Onde está ele? — perguntou Sofia.
António apontou para Francisco.
— Foi ele quem conseguiu encontrá-lo.
Sofia olhou para Francisco, surpresa.
— Ele está em Coimbra — explicou.
— Está vivo?
— Sim.
Sofia levou as mãos ao rosto.
Durante vinte e cinco anos imaginara que nunca conheceria os seus pais biológicos.
Agora sabia que o pai estava vivo.
Mas havia ainda uma última coisa que precisava de saber.
— E a Rita?
Beatriz segurou-lhe a mão.
— A Rita morreu há alguns anos.
Sofia baixou os olhos.
Não podia conhecê-la.
Não podia abraçá-la.
Não podia perguntar-lhe por que razão a entregara.
Mas podia finalmente compreender.
Rita não a abandonara por falta de amor.
Tinha-a entregado porque acreditava que António e Beatriz lhe poderiam dar aquilo que ela não conseguia.
Dois dias depois, Sofia chegou a Coimbra.
À porta da Universidade, parou por alguns segundos.
A cidade estava cheia de estudantes, vozes e movimento.
Mas para Sofia tudo parecia silencioso.
Francisco apontou para um homem que se aproximava lentamente.
Era Paulo.
Parou diante dela.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Sofia?
Ela não conseguiu responder.
Paulo aproximou-se.
— És igual à tua mãe quando sorrias.
Sofia chorou.
— Eu passei a vida a pensar que não tinha pai.
— E eu passei a vida a pensar que tinha perdido uma filha.
Abraçaram-se.
Um abraço de vinte e cinco anos.
Mais tarde, sentados junto ao Mondego, Sofia perguntou:
— Porque nunca procuraste por mim?
Paulo olhou para a água.
— Procurei. Durante anos.
— Então porque desististe?
— Porque me disseram que tinhas morrido.
Sofia segurou-lhe a mão.
— Eu estou aqui.
Paulo sorriu entre lágrimas.
— Agora sei.
De regresso à Covilhã, Sofia subiu até ao Bairro da Biquinha.
A cidade estendia-se diante dos seus olhos.
Pensou em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que chegara de França.
Tinha perdido certezas.
Descobrira mentiras.
Encontrara a verdade.
E, pelo caminho, encontrara também pessoas que passaram a fazer parte da sua vida.
Cláudia aproximou-se.
— Então, acabou?
Sofia sorriu.
— Não.
— Não?
Sofia olhou para a Serra da Estrela.
— A procura acabou. Agora começa outra coisa.
— O quê?
Sofia respirou fundo.
— A minha vida.
Francisco aproximou-se e abraçou-a.
— E vais voltar para França?
Sofia olhou para ele.
— Ainda não sei.
Nesse instante, o telemóvel tocou.
Era Paulo.
Sofia sorriu.
Pela primeira vez, o nome “pai” deixou de ser apenas uma palavra.
Era alguém.
Era uma história.
Era parte dela.
Sofia guardou o telemóvel no bolso e olhou uma última vez para a cidade onde tudo tinha começado.
Durante vinte e cinco anos, Sofia viveu sem saber de onde vinha.
Foi preciso regressar à terra natal para descobrir que, por vezes, os caminhos mais difíceis são precisamente aqueles que nos conduzem até nós próprios.
E assim terminou a história de Sofia.
Não com um ponto final.
Mas com um novo caminho.

CAMINHOS CRUZADOS — FIM 




CAMINHOS CRUZADOS Episódio 14 — O nome escondido

Sofia não conseguia tirar os olhos da carta.
Aquela folha tinha estado escondida durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte mais importante.
O nome do seu pai.
— Quem fez isto? — perguntou.
Francisco não respondeu.
— Tens de saber alguma coisa.
— Só sei que a carta estava numa caixa que pertencia à minha mãe.
Sofia levantou-se.
— Então temos de descobrir quem a colocou em casa do meu pai.
Nesse momento, o telemóvel tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, descobri mais uma coisa.
— O quê?
— Venha ter comigo.
Pouco depois, Sofia e Francisco estavam novamente em casa de Maria da Luz.
A mulher tinha sobre a mesa uma pequena fotografia.
— Encontrei isto esta manhã.
Sofia pegou nela.
Era uma fotografia antiga de Rita.
Ao lado dela estava um homem.
Sofia ficou a olhar.
— Quem é?
Maria da Luz respondeu:
— Paulo.
O nome fez Sofia lembrar-se imediatamente da inicial que aparecia na carta.
P.
— Ele era o pai?
Maria da Luz hesitou.
— Era o homem de quem Rita estava grávida quando tudo aconteceu.
Sofia sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Então o meu pai chama-se Paulo.
— Sim.
Francisco aproximou-se da fotografia.
— Eu conheço este homem.
Sofia virou-se para ele.
— Conheces?
— Vi-o algumas vezes com a minha mãe.
Maria da Luz interrompeu:
— Há mais uma coisa que precisam de saber.
Abriu uma velha agenda.
— Paulo não desapareceu em 2001.
Sofia ficou imóvel.
— Então onde está?
Maria da Luz passou o dedo por uma morada escrita numa página.
— Coimbra.
O coração de Sofia disparou.
— Coimbra?
— Sim.
Francisco olhou para Sofia.
— Tens de ir.
Nessa noite, Sofia ligou para António.
— Pai...
Foi a primeira vez que pronunciou aquela palavra desde que descobrira a verdade.
António ficou em silêncio.
— Já sei o nome dele.
Do outro lado, ouviu-se uma respiração profunda.
— Sofia...
— Chama-se Paulo.
António não respondeu.
— É verdade?
Mais silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
— Porque é que nunca me contaste?
— Porque prometi à Rita.
— Prometeste o quê?
— Que te protegeria.
— De quê?
António começou a chorar.
— Do homem que era teu pai.
Sofia ficou confusa.
— Ele queria fazer-me mal?
— Não.
— Então porquê?
António demorou a responder.
— Porque a história que te contaram sobre ele não era verdadeira.
Sofia sentiu um arrepio.
— O que queres dizer?
— Amanhã, quando chegarmos a Portugal, eu conto-te tudo.
— Não. Quero saber agora.
António respirou fundo.
— Paulo nunca abandonou a Rita.
Sofia ficou sem palavras.
— Foi a Rita que o deixou acreditar que tu tinhas morrido.
O mundo de Sofia pareceu desabar.
— Porquê?
António não respondeu.
— Pai!
A chamada terminou.
No dia seguinte, Sofia preparou uma pequena mala.
Cláudia apareceu em sua casa.
— Vais para Coimbra?
— Vou.
— Sozinha?
Sofia olhou para Francisco.
Ele estava à porta.
— Não.
Cláudia percebeu.
— Encontraste o teu pai?
Sofia segurou a fotografia contra o peito.
— Ainda não.
Respirou fundo.
— Mas sei onde ele está.
Francisco aproximou-se.
— E se não for aquilo que esperas?
Sofia olhou para ele.
— Depois de tudo o que descobri, já não tenho medo da verdade.
Os dois ficaram em silêncio.
Francisco segurou-lhe a mão.
— Então vamos.
Sofia sorriu pela primeira vez em muitos dias.
Mas, antes de saírem, recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
“Sofia, não vás à procura de Paulo. Há uma verdade que António ainda não te contou.”
Ela mostrou a mensagem a Francisco.
— Quem enviou isto?
O telefone voltou a vibrar.
Desta vez havia apenas uma fotografia.
Sofia abriu-a.
Era uma fotografia recente de Paulo.
E, ao lado dele, estava uma mulher que Sofia nunca tinha visto.

Fim do Episódio 14.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 13 — A carta de Rita

Sofia permanecia em silêncio.
A carta tremia-lhe nas mãos.
Agora sabia.
Rita era a mulher que lhe tinha dado a vida.
E António sabia.
Durante vinte e cinco anos.
— Não consigo acreditar... — murmurou.
Francisco aproximou-se.
— Sofia, há mais coisas que precisas de saber.
Ela levantou os olhos.
— Mais?
Francisco assentiu.
— Encontrei outras cartas.
— Quantas?
— Quatro.
Sofia sentiu o coração apertar.
— E nunca as leste?
— Li a primeira. As outras estavam fechadas.
Francisco retirou-as de uma pequena pasta.
— A minha mãe escreveu-as todas no mesmo ano.
Sofia pegou na primeira.
O envelope estava dirigido a António.
Abriu-a.
“António, sei que vais cuidar dela como se fosse tua. É a única coisa que me dá alguma paz.”
Sofia começou a chorar.
Continuou a ler.
Rita explicava que não tinha condições para criar a filha e que tomara uma decisão que lhe partia o coração.
Mas havia uma frase que a fez parar:
“Um dia, quando ela for adulta, tens de lhe contar quem é o verdadeiro pai.”
Sofia levantou os olhos.
— O verdadeiro pai?
Francisco ficou tão surpreendido como ela.
— Então existe outro homem.
Sofia voltou à carta.
Mais abaixo, havia apenas uma inicial.
“P.”
— P...
Francisco pensou durante alguns segundos.
— Pode ser Paulo. Pedro. Ou qualquer outro nome.
Sofia abanou a cabeça.
— Não. A minha mãe conhecia o pai. Só não queria que António lhe dissesse quem ele era.
— Talvez exista uma razão.
Sofia fechou a carta.
— Vou descobrir.
Nessa tarde, Sofia ligou para Beatriz.
Desta vez foi Beatriz quem pediu:
— Não me perguntes mais nada pelo telefone.
— Então diz-me apenas uma coisa.
— O quê?
— O António é o meu pai?
Silêncio.
Sofia fechou os olhos.
A resposta não veio.
Mas o silêncio foi suficiente.
— Eu sabia...
Beatriz começou a chorar.
— Sofia, nós amámos-te como nossa filha desde o primeiro dia.
— Eu sei.
— Nunca quisemos fazer-te mal.
— Mas esconderam-me a minha própria história.
— Porque tínhamos medo de te perder.
Sofia sentiu as lágrimas correrem pelo rosto.
— Já me perderam, mãe.
Beatriz ficou sem palavras.
— Não porque deixei de vos amar — continuou Sofia. — Mas porque já não sei em quem posso confiar.
Desligou.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco junto ao Jardim do Lago.
Ele tinha consigo a última carta.
— Esta é diferente — disse.
— Porquê?
— Não é dirigida ao António.
Sofia pegou nela.
No envelope havia apenas duas palavras:
“Para Sofia.”
Ela ficou imóvel.
— A minha mãe escreveu isto para mim?
Francisco assentiu.
— Mas nunca chegou até ti.
Sofia abriu lentamente o envelope.
Leu a primeira linha.
E o mundo pareceu parar.
“Minha filha, se algum dia leres esta carta, significa que descobriste a verdade.”
Sofia levou a mão à boca.
Continuou a ler.
Mas antes de chegar ao fim, encontrou uma frase que a deixou completamente sem chão:
“O teu pai chama-se...”
A carta terminava ali.
A parte seguinte tinha sido arrancada.
Sofia olhou para Francisco, desesperada.
— Quem arrancou o resto?
Francisco ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— A minha mãe não foi.
Sofia sentiu um arrepio.
— Como sabes?
Francisco apontou para a carta.
— Porque esta carta foi encontrada na casa do teu pai.
Sofia ficou gelada.
António tinha guardado a carta durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte onde estava escrito o nome do seu verdadeiro pai.

Fim do Episódio 13



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 12 — A verdade começa a aparecer

Sofia não conseguiu dormir.
A fotografia estava sobre a mesa.
Ao lado, o documento antigo.
E, na sua cabeça, uma sucessão de perguntas para as quais ninguém parecia querer dar resposta.
Rita.
Francisco.
2001.
António e Beatriz.
Tudo parecia estar ligado.
Mas como?
Na manhã seguinte, Sofia tomou uma decisão.
Ligaria novamente a Beatriz.
Desta vez não iria fazer perguntas.
Iria exigir respostas.
Pegou no telemóvel.
— Mãe, precisamos de conversar.
A voz de Beatriz surgiu do outro lado.
— Eu sei, filha.
— Conheces a Rita?
Silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
Finalmente.
— Desde quando?
— Desde antes de tu nasceres.
Sofia sentiu um arrepio.
— Então a Rita conhecia-me?
Beatriz começou a chorar.
— Conhecia.
Aquela resposta atingiu Sofia como um golpe.
— Quem era ela para mim?
Beatriz não respondeu.
— Mãe!
— Não posso contar-te tudo por telefone.
— Então conta-me quando chegares.
— Vamos regressar amanhã.
Sofia ficou imóvel.
— Amanhã?
— Sim. Eu e o teu pai.
— E depois vais contar-me a verdade?
Beatriz respirou fundo.
— Depois de tantos anos, já não podemos continuar a esconder.
A chamada terminou.
Sofia sentou-se na cama.
Pela primeira vez, sentia que a verdade estava realmente próxima.
Nesse mesmo dia, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Beatriz tinha dito.
Ele ficou pensativo.
— Então a minha mãe conhecia-te antes de eu nascer.
— É o que parece.
Francisco tirou do bolso uma pequena chave.
— Há uma coisa que nunca contei a ninguém.
Sofia olhou para a chave.
— O que é?
— Depois da morte da minha mãe, encontrei uma caixa escondida.
— E nunca a abriste?
— Abri.
Francisco baixou os olhos.
— Dentro havia cartas.
— Cartas de quem?
— Da minha mãe.
— Para quem?
Francisco levantou os olhos para Sofia.
— Para António.
Sofia ficou sem respiração.
— Para o meu pai?
— Sim.
Francisco entregou-lhe uma das cartas.
O envelope estava envelhecido.
Na frente, escrito à mão, estava apenas:
“António — não podes levar a Sofia sem saberes toda a verdade.”
Sofia começou a tremer.
— Sofia...
Ela não conseguia falar.
Virou o envelope.
A carta tinha sido escrita em 2001.
Francisco segurou-lhe o braço.
— Queres mesmo ler?
Sofia olhou para ele.
Tinha lágrimas nos olhos.
— Passei vinte e cinco anos sem saber quem sou.
Abriu o envelope.
Retirou lentamente a folha.
Começou a ler.
A primeira frase fez-lhe faltar o ar:
“António, entrego-te a minha filha porque já não tenho condições para a criar...”
Sofia levou a mão à boca.
A carta caiu-lhe das mãos.
Francisco ficou pálido.
— Sofia...
Ela olhou para ele.
Agora já não havia espaço para dúvidas.
Rita tinha sido a mulher que lhe entregara a filha.
E António sabia de tudo.

Fim do Episódio 12.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 11 — A pessoa que faltava

Sofia passou a noite a pensar na mensagem de António.
“Há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Quem seria?
E por que razão o pai não lhe dizia simplesmente o nome?
Na manhã seguinte, voltou a casa de Maria da Luz.
Encontrou-a sentada junto à janela, com uma chávena de café nas mãos.
— Já estava à sua espera — disse Maria da Luz.
— O meu pai disse-me que a senhora sabe onde posso encontrar uma pessoa.
Maria da Luz levantou os olhos.
— Sei.
— Quem é?
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
— Chama-se Rita.
Sofia sentiu o coração parar.
— Rita?
— Sim.
— Mas o Francisco disse-me que a mãe dele morreu.
Maria da Luz baixou a voz.
— E morreu mesmo.
Sofia ficou confusa.
— Então como posso conhecê-la?
Maria da Luz levantou-se e abriu uma gaveta.
Retirou de lá um pequeno papel.
— Porque existe outra Rita.
Sofia franziu o sobrolho.
— Outra Rita?
— Uma mulher que conheceu a sua mãe... ou melhor, que conheceu a mulher que aparece naquela fotografia.
Sofia sentiu um arrepio.
— E onde está ela?
Maria da Luz entregou-lhe o papel.
Era uma morada.
— Vive fora da Covilhã. Mas ainda mantém contacto com algumas pessoas daqui.
Sofia guardou o papel.
— Sabe o que ela pode contar-me?
— Talvez muito.
— Ou talvez nada.
Maria da Luz olhou-a fixamente.
— Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir do passado.
Sofia respondeu:
— Eu passei a minha vida inteira sem sequer saber que ele existia.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Maria da Luz tinha descoberto.
Ele ficou pensativo.
— Outra Rita...
— Sim.
— Talvez devêssemos ter cuidado.
— Porquê?
Francisco hesitou.
— Porque a minha mãe tinha muito medo de algumas pessoas.
Sofia aproximou-se.
— Que pessoas?
Francisco abanou a cabeça.
— Nunca consegui saber.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Sobre o meu pai... há uma coisa que nunca te contei.
Sofia ficou atenta.
— O quê?
— Encontrei uma carta dele há alguns anos.
— E sabes quem ele é?
Francisco tirou o telemóvel do bolso.
— Não. Mas a carta tinha uma fotografia.
Mostrou-lha.
Sofia ficou imóvel.
O homem da fotografia era desconhecido para ela.
Mas no verso estava escrita uma data.
2001.
Sofia olhou para Francisco.
— Porque é que toda a gente parece ter fotografias de 2001?
Francisco não respondeu.
Nessa noite, em Lyon, António fechava uma mala.
Beatriz entrou no quarto.
— Está tudo pronto?
— Quase.
— António...
Ele parou.
— E se ela perguntar por mim?
— Desta vez não vamos mentir.
Beatriz respirou fundo.
— Prometes?
António aproximou-se dela.
— Prometo.
Beatriz abriu uma gaveta e retirou um pequeno envelope.
— Então leva isto.
António olhou para o envelope.
— Ainda o tens?
— Guardei-o durante vinte e cinco anos.
António ficou em silêncio.
— Está na altura de ela saber — disse Beatriz.
Na Covilhã, Sofia recebeu uma chamada.
Era Maria da Luz.
— Sofia?
— Sim?
— Acabei de me lembrar de uma coisa.
— O quê?
— Quando vi a fotografia pela primeira vez, não reparei num pormenor.
— Que pormenor?
A voz de Maria da Luz baixou.
— A mulher que segurava o bebé tinha uma aliança.
Sofia ficou pensativa.
— E então?
— Rita não era casada.
Silêncio.
Sofia sentiu um arrepio.
— Tem a certeza?
— Absoluta.
Sofia desligou lentamente.
Olhou para a fotografia.
Depois para o documento.
E finalmente para o nome que estava escrito no papel.
Rita.
Talvez aquela mulher não fosse a mãe.
Talvez fosse apenas alguém que sabia onde estava a verdadeira mãe de Sofia.
E, pela primeira vez, surgiu-lhe uma pergunta ainda mais assustadora:
Quem era o homem que tinha colocado aquela aliança no dedo de Rita?

Fim do Episódio 11.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 10 — O silêncio de Beatriz

— Mãe, conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada, Beatriz não respondeu.
Sofia esperou.
— Mãe?
Finalmente ouviu um suspiro.
— Sofia… onde ouviste esse nome?
A pergunta confirmou aquilo que ela já começava a suspeitar.
— Portanto, conheces.
— É complicado, filha.
— Complicado porquê?
— Há coisas do passado que não vale a pena mexer.
Sofia sentiu uma mistura de tristeza e revolta.
— Para ti talvez não valha a pena. Para mim vale.
Beatriz ficou em silêncio.
— Encontrei uma fotografia, mãe. Uma fotografia de uma mulher com um bebé.
A respiração de Beatriz tornou-se mais pesada.
— Sofia, por favor...
— E encontrei um documento onde aparece o nome Rita.
Beatriz não conseguiu responder.
— Quero saber quem ela é.
— Não podes continuar por esse caminho.
— Porquê?
A voz de Sofia tremeu.
— Porque tenho direito a saber quem sou!
Do outro lado, Beatriz começou a chorar.
Sofia fechou os olhos.
Nunca tinha ouvido a mãe chorar daquela maneira.
— Mãe...
— Desculpa.
— Desculpa pelo quê?
Outra pausa.
— Por tudo o que fizemos por ti.
Sofia ficou gelada.
“Fizemos?”
— O que queres dizer com isso?
Beatriz desligou a chamada.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Em Lyon, Beatriz entrou na sala.
António percebeu imediatamente o que tinha acontecido.
— Ela perguntou por Rita?
Beatriz assentiu.
— E agora?
— Já não conseguimos esconder mais.
António aproximou-se.
— Talvez esteja na altura de lhe contar.
Beatriz limpou as lágrimas.
— Não. Ainda não.
— Beatriz...
— Ela precisa de saber a verdade, mas não desta maneira.
António ficou pensativo.
— Então o que vamos fazer?
Beatriz olhou para uma velha fotografia que guardava numa gaveta.
Era uma fotografia de Sofia bebé.
— Temos de voltar à Covilhã.
Enquanto isso, Sofia encontrou-se com Cláudia.
Contou-lhe tudo.
— A tua mãe sabe — disse Cláudia.
— Sabe.
— E os teus pais também?
Sofia ficou alguns segundos calada.
— Acho que sim.
Cláudia apertou-lhe a mão.
— Então estamos mais perto da verdade do que pensávamos.
Sofia olhou para a fotografia de Rita.
— Só quero saber uma coisa.
— O quê?
— Porque é que me esconderam isto durante toda a minha vida?
Nesse instante, o telemóvel de Sofia vibrou.
Era uma mensagem de António.
“Filha, precisamos de falar. Vamos regressar a Portugal.”
Sofia sentiu o coração disparar.
Logo depois chegou outra mensagem.
“Mas antes de nos encontrarmos, há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Sofia olhou para Cláudia.
— Quem?
A resposta chegou alguns segundos depois.
“Maria da Luz sabe onde podes encontrar essa pessoa.”
Sofia ficou sem palavras.
O passado estava finalmente a começar a abrir as suas portas.
Mas quem seria a pessoa que António queria que ela conhecesse?

Fim do Episódio 10.



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...