Quando o sol nasce na cidade da Covilhã, o espetáculo é simplesmente inesquecível. Há momentos em que o céu se veste de tons avermelhados e parece incendiar o horizonte, enquanto o sol desponta do lado de Espanha. Quantas vezes contemplei esse cenário dos miradouros do Jardim Público! E, se a brisa fresca descesse da Serra, então a natureza oferecia-nos uma verdadeira obra de arte.
A Covilhã sempre foi uma cidade de ruas e escadarias íngremes. Foi nelas que cresci. Foi nelas que corri, caí, me levantei e fui feliz. Não havia atalhos que não conhecêssemos, nem caminhos que nos metessem medo. O sol nascia... e nós saíamos para viver mais um dia. Tínhamos pouco, é verdade, mas possuíamos uma riqueza que hoje parece cada vez mais rara: uma amizade sincera e um coração cheio de sonhos.
Quantas vezes, no verão, subíamos a pé até às Penhas da Saúde! Descobríamos a serra palmo a palmo, saltávamos de rocha em rocha, seguíamos o curso dos riachos e fazíamos da natureza o nosso maior parque de diversões. Horas intermináveis na piscina, jogos que pareciam nunca acabar e serões de brincadeiras que enchiam as ruas de gargalhadas.
Depois chegava o pôr do sol... outro espetáculo inesquecível. O sol escondia-se por detrás da majestosa Serra da Estrela e uma brisa fresca invadia a cidade. Ainda hoje consigo sentir esse arrepio bom a percorrer-me a espinha. As noites pertenciam às pessoas: os adultos conversavam sentados nas soleiras das portas e nós brincávamos até que o sono nos vencesse, desejando apenas que a noite nunca terminasse.
Numa época em que grande parte da cidade vivia da indústria dos lanifícios, ficar na rua até às 23h00 já era uma pequena vitória. Eram tempos de menos consumismo e de muito mais humanidade. Tempos em que um aperto de mão valia mais do que um contrato e em que a palavra dada era um compromisso para a vida.
Hoje temos muito mais... mas, por vezes, sentimos muito menos.
Talvez a verdadeira riqueza nunca tenha estado naquilo que possuíamos, mas na forma como vivíamos.
Bom dia para todos nós.