A confidente
Os meses passaram depressa na Nazaré. O verão tinha chegado em força e a vila estava cheia de vida. Turistas caminhavam pela marginal, os pescadores arrumavam as redes junto ao mar e as conversas enchiam as esplanadas.
Carol também tinha mudado muito desde que ali chegara.
Na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio aproximava-se o final do secundário.
Os colegas falavam constantemente do futuro: cursos, cidades, universidades.
Numa manhã, durante um intervalo, Ana perguntou-lhe:
— Então, já decidiste o que vais fazer?
Carol pensou por um instante antes de responder.
— Acho que vou escolher Direito.
— Direito? A sério?
— Sim… sempre gostei de discutir ideias, perceber as leis, ajudar as pessoas.
Ana sorriu.
— E já pensaste onde?
Carol respirou fundo.
— Talvez na Universidade de Coimbra.
Ana arregalou os olhos.
— Coimbra! Isso é mesmo longe daqui.
Carol riu-se.
— Depois da Covilhã e da Nazaré… já me habituei às mudanças.
Mas no fundo aquela frase trouxe-lhe uma memória inesperada.
David.
Naquela tarde, Carol caminhou sozinha até à Praia.
O sol começava a descer lentamente no horizonte. O céu ficava tingido de laranja e dourado enquanto as ondas quebravam na areia.
Carol sentou-se perto da água e ficou a observar o pôr do sol da Nazaré.
Havia momentos em que o passado voltava de forma inesperada.
E naquele dia pensou novamente na carta.
Perguntou-se como David teria reagido quando a leu.
Se teria ficado zangado.
Se teria ficado triste.
Se talvez tivesse simplesmente seguido em frente.
A dúvida nunca a abandonara completamente.
No dia seguinte, Carol encontrou Ana perto do Mercado Municipal da Nazaré.
O mercado estava cheio de movimento: vendedores de peixe, bancas de fruta e o cheiro intenso do mar misturado com o das especiarias.
Sentaram-se num pequeno banco ali perto.
Ana reparou que Carol estava mais pensativa.
— O que se passa?
Carol hesitou por um momento.
— Lembras-te de eu te falar do rapaz da Covilhã?
— O David?
— Sim.
Ana assentiu.
— O que aconteceu com ele?
Carol respirou fundo.
— Eu escrevi-lhe uma carta… a dizer que devíamos seguir caminhos diferentes.
Ana ficou em silêncio, esperando que ela continuasse.
— Disse-lhe que éramos muito novos… que talvez tivesse sido apenas uma paixoneta de verão… que ele devia pensar nos estudos e no futuro.
— E era isso que sentias?
Carol olhou para o movimento do mercado durante alguns segundos.
— Na altura achei que era o melhor.
— E agora?
Carol demorou a responder.
— Às vezes penso em como ele se terá sentido ao ler aquilo.
Ana colocou a mão no braço dela.
— Talvez ele tenha ficado triste… mas também faz parte de crescer.
Carol assentiu devagar.
Mas enquanto olhava para o movimento do mercado, percebeu que algumas histórias da juventude nunca desaparecem completamente.
Apenas ficam guardadas num lugar silencioso da memória.
E, naquele momento, enquanto o vento vindo do mar atravessava as ruas da Nazaré, Carol perguntou-se pela primeira vez em muito tempo:
O que teria sido da vida de David nas montanhas da Covilhã?
Continua…