AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VIII

                                          Capítulo VIII
                                 Flor Branca no Adeus

A madrugada chegou silenciosa.
No quarto do hospital, a luz fraca desenhava sombras nas paredes. A Flor respirava com dificuldade, cada vez mais devagar. Pedro estava sentado ao seu lado, segurando-lhe a mão como tinha feito tantas vezes desde que ela voltara à Covilhã.
Durante alguns minutos não disseram nada.
Depois, com um esforço suave, a Flor abriu os olhos e olhou para a janela onde começava a nascer uma luz pálida sobre a serra.
— Afinal… voltei a casa — murmurou.
Pedro inclinou-se para mais perto.
— Sim. Estás em casa.
Ela apertou-lhe a mão uma última vez.
— Obrigada… por nunca teres ido embora.
Foi um gesto pequeno, quase impercetível, quando os dedos dela perderam lentamente a força. A respiração tornou-se leve… e depois parou.
O silêncio que ficou no quarto parecia maior do que o mundo.
Pedro permaneceu ali muito tempo, sem se mexer, ainda com a mão dela entre as suas. Lá fora, a cidade começava a acordar. As primeiras pessoas iam para o trabalho, os carros passavam nas ruas frias da manhã.
A Covilhã continuava a viver.
Dias depois, no cemitério da cidade, família, amigos, vizinhos e antigos colegas reuniram-se para se despedir. A serra observava tudo em silêncio, como sempre.
Pedro ficou por último.
Colocou sobre a terra uma pequena flor branca.
— A história continua — disse baixinho.
Porque compreendeu algo que a Flor lhe tinha ensinado sem saber: algumas pessoas não desaparecem quando partem.
Ficam nas ruas onde caminharam, nas palavras que disseram, nas memórias que nunca deixam de viver.
E, enquanto a Covilhã respirasse entre montanhas e teares, uma parte da Flor continuaria ali. Sempre.
.../...
Depois do funeral, a vida pareceu parar para Pedro.
Durante semanas caminhou pela cidade quase sem destino. Passava pelo Pelourinho, pelo jardim, pelas ruas de pedra, pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, e cada lugar guardava um pedaço da Flor: uma risada, uma conversa, um silêncio partilhado.
No início, a dor era pesada. Mas, pouco a pouco, começou a transformar-se noutra coisa.
Pedro deixou o trabalho na fábrica de lanifícios e começou um novo num comércio local. Entre os teares e o cheiro da lã quente, percebeu que a vida continuava a ser tecida todos os dias, fio a fio, tal como a história deles tinha sido.
Às vezes, ao fim da tarde, passava pelo jardim da Cidade e sentava-se no mesmo banco onde tinham estado tantas vezes. Já não chorava. Ficava apenas ali, olhando a serra.
Um dia trouxe consigo um pequeno caderno. Nele começou a escrever tudo: as tardes no mercado, os cafés partilhados, as cartas vindas de França, o regresso à Covilhã, a coragem da Flor até ao último momento.
Queria que a história deles não se perdesse.
Anos mais tarde, muitas pessoas da cidade conheceriam aquela história — a de dois jovens que cresceram entre as ruas da Covilhã, atravessaram distância, dor e tempo, e aprenderam que amar alguém é também continuar a viver por aquilo que partilharam.
Numa tarde de primavera, já com os cabelos grisalhos, Pedro subiu a um miradouro da serra. O vento era fresco e o sol iluminava a cidade lá em baixo.
Ele sorriu.
— Vês, Flor? A cidade continua linda.
E naquele instante, entre o silêncio das montanhas e o coração da cidade, parecia quase possível ouvir uma resposta suave no vento.
Porque algumas histórias de amor não acabam.
Ficam para sempre a viver nos lugares onde nasceram. 🌹
                                                                          
                                             🌿 FIM 🌿

Bom dia Internacional da Mulher 🌹



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VII

                                     Capítulo VII
               A transferência para o hospital da Covilhã


A carta seguinte não foi escrita pela Flor, mas pelo médico. O estado dela continuava frágil. Precisava de cuidados prolongados — e a família, já exausta, tomou uma decisão difícil.
A pedido da própria Flor, organizaram a transferência para Portugal.
“Quero ouvir a nossa língua. Quero ver a serra pela janela”, dissera ela.
Dias depois, a notícia chegou a Pedro como um sopro de ar depois de meses de angústia. A ambulância atravessaria a fronteira e seguiria direto para o hospital da Covilhã.
Na manhã da chegada, ele esperava junto ao edifício, o coração a bater descompassado. Quando a viu sair, mais magra, mais pálida, mas ali — em casa — sentiu algo que não cabia nas palavras.
A Flor abriu os olhos devagar quando a maca entrou no quarto. Pela janela via-se, ao longe, a silhueta da serra.
— Cheira a casa — murmurou.
Pedro aproximou-se.
— Estás na Covilhã — disse-lhe, com um sorriso contido.
Nos dias seguintes, a cidade parecia respirar com ela. Vizinhos perguntavam, antigos colegas enviavam flores, alguém deixou cravos vermelhos na mesa de cabeceira, como lembrança de que aquele país tinha aprendido a lutar.
A recuperação seria incerta, lenta. Mas agora, todas as manhãs, quando a luz entrava pela janela do hospital e tocava a montanha, a Flor sabia que, acontecesse o que acontecesse, estava onde sempre quisera estar.
E Pedro, sentado ao seu lado, compreendeu finalmente que às vezes o maior milagre não é curar — é regressar.
A presença da serra parecia dar força à Flor.
Os dias no hospital da Covilhã eram lentos, medidos pelo som distante das ambulâncias e pelo ranger das portas no corredor. Mas havia algo diferente ali: vozes conhecidas, o sotaque da terra, o cheiro do ar frio que entrava pela janela entreaberta.
Pedro ia todos os dias depois do turno na fábrica. Sentava-se ao lado dela e lia-lhe trechos das cartas antigas que tinham trocado. Às vezes falava do movimento na cidade, das reuniões dos operários, das mudanças que ainda estavam a acontecer depois da revolução.
Aos poucos, a Flor começou a recuperar pequenas coisas: primeiro sentou-se sozinha, depois conseguiu dar alguns passos pelo quarto com ajuda. Cada gesto era celebrado como uma vitória silenciosa.
Numa tarde clara, pediram autorização para descer ao jardim do hospital. A Flor caminhava devagar, apoiada no braço de Pedro. Quando sentiram o sol no rosto, ela fechou os olhos.
— Lembras-te de quando achávamos que o mundo acabava na estação? — perguntou ela, sorrindo.
Pedro riu baixo.
— Afinal, o mundo era maior. Mas a nossa cidade também.
A recuperação seria longa, talvez nunca completa. Havia cicatrizes invisíveis que o tempo não apagaria. Mas ali, debaixo do céu da Covilhã, perceberam que sobreviver também é uma forma de coragem.
E enquanto a serra permanecia firme no horizonte, como sempre estivera, a vida — frágil, teimosa e luminosa — continuava.
Mas a vida, por vezes, é feita de avanços curtos e recuos inesperados.
Depois de algumas semanas de esperança, a Flor começou a sentir-se novamente mais fraca. Primeiro foi o cansaço — um peso estranho que não passava com o descanso. Depois vieram as febres silenciosas, a falta de ar, o olhar mais distante.
Os médicos falavam baixo no corredor. Complicações tardias do acidente. O corpo estava a lutar há demasiado tempo.
Pedro percebeu antes de lhe dizerem. Sentia-o na forma como ela apertava a mão dele, com menos força a cada dia.
Numa noite em que a serra estava envolta em nevoeiro, a Flor pediu que abrissem ligeiramente a janela.
— Quero ouvir a cidade — sussurrou.
Lá fora, o som distante de um carro, um cão a ladrar, o vento a passar entre os prédios. Sons simples. Sons de casa.
Pedro sentou-se ao lado dela e falou-lhe do Pelourinho, das arcadas da Câmara, do café Montalto onde ainda guardavam a mesa junto à janela como se eles fossem voltar a ocupá-la a qualquer momento.
Ela sorriu, mas o sorriso era frágil.
— Se eu não conseguir… — começou.
Pedro interrompeu-a, com a voz firme apesar do tremor:
— Consegues. Estamos aqui.
Mas, pela primeira vez, o silêncio entre as palavras parecia mais pesado do que a esperança.
E naquela noite longa na Covilhã, enquanto a serra permanecia imóvel sob o céu escuro, ambos sentiram que a história deles estava a entrar numa das suas páginas mais difíceis.
Continua…
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AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VI


                                                       
Capítulo VI
                               Pedro regressa à Covilhã



Durante algumas semanas, parecia que tudo ia melhorar. A Flor já conseguia sentar-se na cama, falava mais, até sorria quando Pedro lhe contava histórias da Covilhã — do barulho dos teares, das conversas no café, das novidades que chegavam à praça.
Mas, de repente, o estado dela voltou a piorar.
Os médicos começaram a falar em complicações internas do acidente. A Flor cansava-se depressa, a febre aparecia sem aviso, e os dias tornaram-se mais silenciosos.
Pedro passava horas sentado ao lado dela, segurando-lhe a mão. No entanto, o dinheiro começava a faltar. O trabalho na fábrica na Covilhã não podia esperar indefinidamente. Se não regressasse, perderia o lugar.
Foi uma decisão cruel.
Numa tarde cinzenta, contou-lhe.
— Tenho de voltar por uns tempos — disse, com a voz baixa. — Preciso de trabalhar… para depois voltar aqui.
A Flor ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois sorriu com uma serenidade inesperada.
— Eu sei — respondeu. — A vida continua, mesmo quando nós queremos pará-la.
Na manhã da partida, Pedro despediu-se no quarto do hospital. O abraço foi cuidadoso, frágil, como se o tempo pudesse partir-se.
— Escreve-me — disse ela.
— Todas as semanas — prometeu ele.
Dias depois, Pedro voltou a descer na Estação da Covilhã. A serra estava envolta em nevoeiro, e a cidade parecia mais silenciosa do que nunca.
Regressou à fábrica de lanifícios e ao som constante das máquinas. Mas, enquanto trabalhava, havia sempre um pensamento que o acompanhava, persistente como o bater dos teares:
Algures em França, entre paredes brancas de hospital, estava uma parte da sua própria vida à espera de voltar a respirar.
Os dias voltaram ao ritmo antigo na Covilhã, mas para Pedro nada era realmente igual. A fábrica de lanifícios continuava cheia do ruído dos teares, do vapor quente e das conversas dos operários. Ele trabalhava horas seguidas, quase sem levantar a cabeça, como se o cansaço pudesse calar os pensamentos.
À noite, no quarto, escrevia cartas para a Flor. Contava-lhe da cidade: das manhãs frias, das pessoas que falavam ainda da revolução, das tardes em que passava pelo Pelourinho e ficava ali parado, lembrando-se dos dois adolescentes que tinham sido.
Todas as semanas ia até à Estação dos Correios para enviar as cartas e perguntar se havia alguma para ele.
Durante algum tempo não veio resposta.
Até que, numa manhã de primavera, o funcionário dos Correios levantou a cabeça quando o viu entrar.
— Tens carta — disse, entregando-lhe um envelope fino com selo francês.
Pedro reconheceu imediatamente a letra trémula da Flor.
Sentou-se num banco de jardim antes de a abrir. O camião que passava levantou um vento frio enquanto ele lia.
“Pedro, estou mais fraca, mas ainda penso na Covilhã todos os dias. Quando fecho os olhos vejo a serra, o mercado, as ruas de pedra. Se não conseguir voltar… promete-me que continuas a viver também por mim. Promete que não deixas a vida parar.”
Pedro ficou muito tempo sentado, com a carta nas mãos.
Naquele momento percebeu algo que nunca tinha aprendido na guerra nem no trabalho: há amores que não vivem apenas na presença — vivem também na memória, na promessa de continuar.
E naquele banco da estação, entre partidas e chegadas, Pedro sentiu que a história deles ainda não tinha terminado. Apenas tinha mudado de forma.

Continua…

Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO V

                                               Capítulo V
                                         O Acidente


O inverno chegou cedo nesse ano. Na Covilhã, Pedro continuava o seu trabalho na fábrica de lanifícios, repetindo o ritmo das máquinas enquanto pensava no verão em que a Flor prometera voltar.
Mas numa tarde cinzenta chegou uma carta diferente. Não era a letra dela.
Era de um conhecido da família em França. As palavras vinham cuidadosas, quase com medo: tinham sofrido um acidente de automóvel numa estrada molhada perto de Lyon. O carro despistara-se numa curva.
O pai da Flor estava hospitalizado. A mãe também. A Flor ficara gravemente ferida.
Pedro leu a carta várias vezes no quarto onde vivia, perto do jardim. As paredes pareciam apertar-se à sua volta. Durante horas não disse nada a ninguém. Depois falou com o patrão e este concordou em antecipar uns dias de férias.
Na manhã seguinte foi até à Estação da Covilhã. Comprou um bilhete com o pouco dinheiro que tinha. Não sabia quanto tempo demoraria a chegar, nem como se orientaria num país estranho. Sabia apenas que tinha de ir.
Antes de partir, passou pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Acendeu uma vela, como tantas vezes tinha visto a Flor fazer.
O comboio começou a mover-se devagar, deixando a serra para trás. Pedro olhava pela janela enquanto o país desaparecia.
Pela primeira vez desde a revolução, sentia que a vida não era feita de grandes mudanças políticas ou discursos nas praças — era feita de pequenos gestos de coragem.
E aquele, talvez, fosse o mais importante de todos: atravessar metade da Europa para não deixar alguém enfrentar a dor sozinho.
A viagem foi longa. Comboio atrás de comboio, estações que Pedro mal conseguia pronunciar, paisagens que passavam depressa pela janela. Levava apenas uma mala pequena e o endereço do hospital dobrado no bolso do casaco.
Dias depois chegou a Lyon. A cidade parecia enorme, cheia de ruídos e luzes que nada tinham a ver com a serenidade da serra. Com esforço e alguma ajuda de estranhos, encontrou finalmente o hospital.
O coração batia-lhe com força quando entrou no corredor branco onde lhe disseram que a Flor estava.
Ela estava deitada, pálida, com um braço engessado e o rosto marcado por cortes. Quando abriu os olhos e o viu à porta, demorou um segundo a acreditar.
— Pedro…? — sussurrou.
Ele aproximou-se devagar, como se temesse que o momento se quebrasse.
— Vim — disse apenas.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. O pai e a mãe recuperavam noutro piso do hospital, ainda frágeis, mas fora de perigo. - Ainda requer muitos cuidados, disseram os médicos.
Nos dias seguintes, Pedro ficou por ali, ajudando no que podia. Aprendeu algumas palavras de francês, trouxe-lhe jornais, leu-lhe cartas antigas da Covilhã. Às vezes falavam da cidade: do Pelourinho, do café onde se sentavam, da serra coberta de neve.
E cada vez que falavam da Covilhã, a Flor sorria um pouco mais.
Uma tarde, olhando pela janela do hospital para o céu cinzento de França, ela disse:
— Quando eu melhorar… quero voltar para casa.
Pedro segurou-lhe a mão com cuidado.
Desta vez, nenhum dos dois duvidava do que significava “casa”.

Continua…
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AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO IV

                            Capítulo IV- Partida para França

A notícia caiu numa tarde silenciosa.
A Flor esperou pelo Pedro no jardim, como tantas vezes antes. Quando ele chegou, percebeu logo no olhar dela que algo tinha mudado.
— Vamos para França — disse, sem rodeios. — O meu pai conseguiu trabalho numa fábrica perto de Lyon. Partimos no fim do verão.
O Pedro ficou imóvel. A revolução trouxera liberdade ao país, mas não resolvera tudo. Havia ainda salários curtos, incertezas longas, sonhos adiados.
Nos dias que se seguiram, caminharam mais do que falavam. Passaram pelo mercado, pelas arcadas da câmara, pelo café onde já sabiam de cor o pedido um do outro. Cada esquina parecia guardar uma despedida.
Na véspera da partida, sentaram-se num banco com vista para a serra. Não prometeram eternidades — prometeram cartas, visitas, resistência.
— A cidade não é só ruas — disse o Pedro. — É quem fica nela.
Na manhã da viagem, a mala da Flor era pequena para tanta saudade. Abraçaram-se demoradamente, como quem tenta decorar o peso do outro.
Quando o carro arrancou em direção à fronteira, a Covilhã ficou para trás. Mas entre França e Portugal, entre fábricas e montanhas, levavam ambos a mesma certeza: algumas histórias não acabam com a distância — transformam-se.
Os primeiros meses em França foram duros para a Flor. A língua tropeçava-lhe na boca, o frio era húmido e estranho, e as ruas não tinham o eco das pedras da Covilhã. A fábrica onde o pai trabalhava cheirava a metal e óleo — nada a ver com a lã quente das fábricas da serra.
Escrevia ao Pedro todas as semanas. Contava-lhe dos prédios altos, das padarias com nomes difíceis, da saudade que aparecia sem avisar. Dizia-lhe que, às vezes, fechava os olhos e ouvia os teares como se ainda estivesse em casa.
Pedro respondia à noite, depois do turno. A fábrica de lanifícios continuava exigente, mas agora havia reuniões, conversas sobre direitos, esperança em voz alta. A revolução não ficara só nas rádios — estava também nas mãos calejadas dos operários.
Passaram-se estações. A distância deixou de ser ferida aberta e tornou-se ponte frágil, sustentada por cartas, fotografias e promessas sussurradas em papel fino.
Um dia, a Flor escreveu diferente: “Quero voltar no verão. Nem que seja só para sentir a serra.”
Quando o comboio dela parou na estação da Covilhã, anos depois, Pedro estava à espera. Já não eram adolescentes. Havia mais mundo nos olhos de ambos.
Mas quando se abraçaram, perceberam algo simples e inteiro: o tempo pode mudar a vida — não muda aquilo que foi verdadeiro.
E, entre partidas e regressos, a história deles continuava a ser tecida, fio a fio, como a própria cidade.
Continua…
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Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO III

                               Capítulo III - O Reencontro

O reencontro aconteceu numa tarde tranquila de primavera.
Pedro caminhava sem destino certo quando a viu, junto ao Pelourinho da Covilhã. A Flor estava diferente — o cabelo mais comprido, o olhar mais firme — mas era ela. Sempre fora ela.
Ficaram imóveis por um segundo que pareceu um ano inteiro.
— Voltaste — disse ela, num sopro.
— Voltei — respondeu ele, com a voz ainda rouca das coisas que nunca contaria.
Caminharam lado a lado pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, como se retomassem um passo interrompido. Na Confeitaria Lisbonense, pediram dois cafés. As mãos quase se tocaram sobre a mesa de mármore.
Não falaram da guerra. Nem da distância. Falaram da cidade, das mudanças depois de abril, dos sonhos que tinham ficado suspensos no tempo.
Ao sair, passaram pelo monumento de Nossa Senhora da Conceição. A Flor entrou para acender uma vela. Pedro ficou junto às grades, olhando o céu sobre a serra.
Quando ela voltou, já não havia dúvida no silêncio entre eles. Havia escolha.
E, ali mesmo, entre pedras antigas e promessas novas, perceberam que há reencontros que não pedem explicações — apenas coragem para recomeçar.
Os dias seguintes à revolução trouxeram um entusiasmo inquieto à Covilhã. Falava-se de liberdade nas ruas, nas filas do pão, nas mesas de café. Pedro sentia que o país tinha mudado — e que ele também precisava de mudar.
Numa manhã fria, atravessou o centro e subiu em direção às fábricas de lanifícios que faziam da cidade um coração de lã e fumo. O som dos teares ecoava como um pulso constante. Ali não havia tiros nem ordens gritadas — havia trabalho.
Apresentou-se ao encarregado da "LANOFABRIL" com a mesma postura firme que trouxera da tropa. Dias depois, começou na secção de acabamento. As mãos, habituadas ao peso da arma, aprenderam o ritmo dos tecidos, a aspereza da lã crua, o orgulho de ver um rolo perfeito sair da máquina.
Ao fim da tarde, encontrava-se com a Flor no jardim. Contava-lhe do cheiro a vapor, das conversas dos operários sobre sindicatos e direitos novos. Ela ouvia com atenção e sorria — havia esperança naquele cansaço.
A cidade transformava-se devagar. E Pedro, entre fios entrelaçados e sonhos reconstruídos, começava finalmente a tecer o seu próprio futuro.
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO II

                              Capítulo II - A Revolução dos cravos

Os meses foram passando, marcados pelas cartas que chegavam com selo e cheiro a viagem. O Pedro escrevia sobre fábricas, saudades e o frio que não era o da serra. A Flor respondia contando-lhe as novidades da cidade — o movimento no mercado, os filmes novos no cinema, as conversas intermináveis no café.
Até que chegou o dia 25 de abril de 1974.
Nessa manhã, a Covilhã acordou diferente. A rádio falava baixo, mas com urgência. Na praça, junto ao Pelourinho, as pessoas juntavam-se em pequenos grupos. Corria a palavra: revolução.
A Flor ouviu na telefonia a canção que parecia senha e promessa — Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso — e sentiu um arrepio. Diziam que, em Lisboa, os militares tinham saído para a rua. Que o regime estava a cair. Que o país podia, finalmente, respirar.
Na Covilhã, os rostos estavam entre o medo e a esperança. Alguns choravam. Outros sorriam sem saber bem porquê. A Flor correu até às arcadas da câmara, onde alguém agitava um cravo vermelho.
Nessa noite, escreveu ao Pedro uma carta diferente de todas as outras:
“Hoje o país mudou. Talvez quando voltares, encontres uma Covilhã mais livre. Talvez nós também sejamos mais livres.”
Sem saber quando ele leria aquelas palavras, a Flor percebeu que a distância já não era só ausência — era também caminho. Tal como o país, eles estavam a aprender o que significava começar de novo.
E, pela primeira vez desde a partida na estação, a esperança parecia maior do que a saudade.
Pedro estava de serviço na Escola Prática de Santarém, o ponto de partida da coluna militar comandada pelo Capitão Salgueiro Maia que derrubou a ditadura no dia 25 de abril de 1974, sem que Flor soubesse, Pedro era um herói de Abril…
Chamava-se Pedro, mas na tropa passaram a tratá-lo apenas por “Soldado”. Voltou à Covilhã numa manhã clara, com a farda ainda marcada pelo pó distante e um silêncio que trazia dentro.
Desceu na Estação da Covilhã com uma mala leve e memórias pesadas. A cidade parecia igual — a serra ao fundo, o ar frio a cortar — mas ele sentia tudo diferente.
Caminhou devagar até ao centro. No Pelourinho da Covilhã, parou como quem precisa de confirmar que o chão é firme. As arcadas da Câmara Municipal da Covilhã devolviam-lhe o eco dos passos, agora mais seguros.
Entrou no Café MONTALTO. O burburinho calou-se por um instante. Alguém lhe bateu no ombro. “Já chega de guerra, rapaz”, disse um homem ao balcão. Pedro sorriu pela primeira vez.
Mais tarde, passou pela Igreja da Misericórdia da Covilhã. Não pediu nada; agradeceu apenas por estar ali.
Ao fim da tarde, viu a cidade tingir-se de laranja. Não sabia ainda que futuro o esperava, mas sabia isto: regressar é um ato de coragem. E naquela Covilhã que respirava novos tempos, Pedro deixava de ser só soldado — voltava a ser filho, amigo, vizinho. Voltava para sua casa…
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO I

                                 Capítulo I - A despedida

Na Covilhã dos anos 70, o Pedro e a Flor encontravam-se quase todos os dias junto ao Pelourinho. Diziam que era só coincidência, mas os dois sabiam de cor as horas um do outro. Das arcadas da Câmara Municipal viam o movimento da praça e inventavam histórias sobre quem passava.
Ao sábado, percorriam o Mercado Municipal, partilhando uma maçã comprada às escondidas. Depois fugiam para o Café MONTALTO, onde o cheiro a bica e a conversa dos adultos os fazia sentir ainda mais crescidos.
À saída do Teatro Cine da Covilhã, comentavam o filme como se fossem críticos famosos. Cumprimentavam o polícia sinaleiro, sempre firme no cruzamento, e espreitavam as manchetes no Leal dos Jornais antes de seguirem para a Igreja da Misericórdia, onde a Flor acendia uma vela em silêncio.
Entre ruas de pedra e promessas sussurradas, a cidade era deles — inteira e infinita.
Numa tarde de outono, Pedro apareceu mais cedo no Pelourinho da Covilhã. Trazia um ar sério, diferente. A Flor percebeu logo que havia novidade.
— Fui alistado para o serviço militar — disse ele, olhando para as pedras antigas como se procurasse resposta nelas.
Caminharam em silêncio pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, onde o eco dos passos parecia maior do que o costume. No Mercado Municipal da Covilhã, as peixeiras gritavam preços como sempre, mas tudo soava distante.
Refugiaram-se no Café MONTALTO. O dono piscou-lhes o olho; já sabia que aqueles dois eram inseparáveis. A Flor pousou a mão sobre a dele.
— Mesmo que vás, voltas, a Covilhã não desaparece.
Nessa noite, foram ao Teatro Cine da Covilhã. O filme falava de partidas e regressos. À saída, o polícia sinaleiro levantou a mão para travar o trânsito e sorriu-lhes, como se abençoasse o momento.
Passaram ainda pelo Leal dos Jornais, onde as manchetes falavam de mudanças no país. Mudanças — a palavra parecia persegui-los.
Antes de se despedirem, entraram na Igreja da Misericórdia. A Flor acendeu outra vela. Pedro não pediu nada em voz alta, mas prometeu regressar.
E, pela primeira vez, perceberam que crescer era isto: amar uma cidade, amar alguém… e aprender que nem tudo fica parado no mesmo lugar.
Os dias passaram depressa demais. Quando chegou dezembro, o frio descia da serra e entrava pelas ruas como um aviso.
Na manhã da partida, encontraram-se pela última vez junto à Estação da Covilhã. O comboio ainda não tinha chegado, mas o fumo já se adivinhava ao longe. Havia malas gastas, lenços a acenar, silêncios pesados.
— Eu volto — disse o Pedro, tentando soar mais velho do que era.
Flor fingiu acreditar sem medo. Entregou-lhe um envelope com folhas arrancadas do caderno onde escrevia às escondidas. “Para não te esqueceres”, murmurou.
Na véspera, tinham passado pelo Café Primor. Sentados lado a lado, beberam dois galões devagar, como se o tempo pudesse ser esticado à força de pequenos goles. Falaram da escola, dos filmes no cinema, das tardes no Pelourinho — mas evitaram a palavra adeus.
O apito ecoou pela estação. O comboio começou a mover-se com um estremecimento de ferro e esperança. Pedro encostou-se à janela. Flor correu ao lado da carruagem até perder o fôlego.
Quando tudo ficou em silêncio outra vez, a Covilhã parecia maior — e mais vazia. Mas a Flor sabia que, algures entre carris e montanhas, começava outra parte da história deles…
Continua…
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