Episódio 1 de 5 — Uma reunião de urgência
Na Covilhã, há dias em que parece que nada acontece. As pessoas vão aos seus afazeres, os cafés enchem-se de conversas e a cidade segue tranquilamente a sua rotina. Mas, como o Grupo dos Seis estava prestes a descobrir, por detrás de uma cidade aparentemente sossegada podem esconder-se histórias capazes de tirar o sono a qualquer um!
Tudo começou com uma reunião extraordinária.
O Clube dos Seis precisava de fazer uma alteração na sua constituição. O Hélder ia morar para longe e, por esse motivo, deixaria de poder acompanhar as aventuras do grupo. A escolha da substituta recaiu sobre a Fátima, que passaria a juntar-se ao Paulo, ao Francisco, ao Quim, ao João e à Natércia.
A reunião realizou-se, como sempre, na sala de estar da casa do Paulo, que já tinha preparado o habitual lanche: uns copos de sumo e um prato de bolachas Maria, compradas na mercearia do Sr. Raul Paiva.
— Meus amigos, antes de começarmos, quero desejar as boas-vindas à Fátima — anunciou Paulo. — E quero também deixar um abraço ao Hélder, que vai para longe, mas continuará a fazer parte das nossas histórias.
— Desde que não nos apareça agora a pedir que lhe paguemos as despesas da mudança! — brincou Francisco, arrancando algumas gargalhadas.
— Francisco, tu não mudas! — comentou Natércia. — Se um dia desapareceres, vamos procurar-te na mercearia do Sr. Raul, a ver se estás a discutir o preço das bolachas!
— Não é má ideia! Ao preço a que estão as coisas, até as bolachas Maria merecem investigação! — respondeu Francisco.
Fátima ria-se, enquanto Quim, sentado na ponta do sofá, parecia estar noutro mundo. Mexia no copo de sumo, olhava para os restantes e dava sinais de quem tinha alguma coisa entalada na garganta.
Paulo reparou.
— Quim, estás com uma cara que não augura nada de bom. Ou o sumo está estragado ou tens alguma coisa para nos contar.
Quim pousou o copo.
— E tenho! Aliás, foi por isso que te pedi para marcares esta reunião de urgência. O que vos vou contar pode ser muito sério.
De repente, ninguém voltou a tocar nas bolachas.
— Ontem, passei junto ao Café Central e ouvi uma conversa entre dois homens. Nunca os tinha visto na Covilhã. Estavam ali perto, a falar baixo, mas algumas palavras chegaram-me aos ouvidos.
— Que palavras? — perguntou João, inclinando-se para a frente.
Quim fez uma pausa, como se quisesse ter a certeza de que todos estavam a prestar atenção.
— Joias roubadas!
— Joias roubadas? — repetiu Fátima. — Tens a certeza de que ouviste bem?
— Absoluta. Um deles falou numa caixa e o outro perguntou se as peças já estavam guardadas em segurança. Depois, ouvi qualquer coisa sobre não poderem ficar muito tempo na cidade.
Paulo franziu o sobrolho.
— Espera lá! Na noite passada houve um assalto à Ourivesaria Pacheco. Não me digas que achas que esses homens estão metidos nisso!
— Não acho nada, Paulo. Não tenho provas. Mas a coincidência é demasiado grande para ficar de braços cruzados.
— E porque não foste à polícia? — perguntou Natércia.
— Porque não sei quem são, não tenho a certeza do que ouvi e não quero fazer acusações sem fundamento. Primeiro, achei melhor falar convosco.
Francisco pegou numa bolacha Maria e ficou a olhar para ela, pensativo.
— Portanto, temos um assalto a uma ourivesaria, dois desconhecidos a falar de joias roubadas e seis pessoas sentadas numa sala a comer bolachas. A pergunta que se impõe é: quem é que vai ficar sem lanche se isto correr mal?
— Tu, de certeza! — respondeu João. — Se continuas a comer a esse ritmo, não chega para os outros!
Mais uma gargalhada, mas a preocupação de Quim não desapareceu.
Fátima, que até então tinha escutado atentamente, resolveu intervir:
— Brincadeiras à parte, se os homens são desconhecidos e estão envolvidos no assalto, podem estar a preparar a fuga. Temos de perceber o que se passa, mas sem fazer disparates. Não somos polícias.
— Muito bem, Fátima! — disse Paulo. — É precisamente por isso que o grupo precisa de ti. Já temos quem faça piadas, quem coma bolachas e quem se preocupe com tudo. Faltava-nos alguém com juízo!
— Olha quem fala! — atalhou Quim. — Ainda nem começámos e já estás a distribuir cargos!
Depois de mais algumas trocas de impressões, ficou decidido que todos estariam atentos a qualquer movimento suspeito. Nada de confrontos, nada de acusações precipitadas e, sobretudo, nada de aventuras individuais.
Naturalmente, Francisco concordou com tudo.
Afinal, enquanto houvesse bolachas Maria, estava disposto a aprovar qualquer plano.
A reunião terminou já com a noite a aproximar-se. Cada um seguiu o seu caminho, mas Paulo ficou a pensar na conversa de Quim. Havia qualquer coisa naquela história que não lhe saía da cabeça.
E o dia seguinte iria dar-lhe razões para não esquecer o assunto.
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Na manhã seguinte, Paulo andava pela cidade quando decidiu passar nas imediações do Hotel Solneve.
Não tinha propriamente um plano. Queria apenas estar atento, na esperança de encontrar algum indício que ajudasse a esclarecer o mistério.
Foi então que os viu.
Dois homens saíam do hotel.
Paulo parou por breves instantes. Um deles era alto, de cabelo escuro e usava um casaco comprido. O outro era mais baixo, tinha uma ligeira barba por fazer e levava uma pequena mala preta na mão.
O coração de Paulo começou a bater mais depressa.
As descrições que Quim tinha dado na reunião correspondiam, quase na perfeição, àqueles dois indivíduos.
Seriam eles?
Paulo fingiu estar distraído, mas manteve-os debaixo de olho. Os homens olharam em redor, trocaram algumas palavras e começaram a caminhar pela rua.
A certa altura, o mais baixo parou, consultou o relógio e disse qualquer coisa ao companheiro. Paulo não conseguiu ouvir a conversa, mas viu-os mudar de direção.
Estavam a caminho da estação.
Paulo sentiu um arrepio. A estação! Seria ali que pretendiam fugir da Covilhã? Ou estariam à espera de alguém?
Sem perder tempo, afastou-se discretamente e pegou no telemóvel. Tinha de avisar os outros.
Foi quando o homem mais alto parou de repente.
Olhou para trás.
Os olhos dos dois cruzaram-se por um instante.
Paulo desviou o olhar, fingindo procurar qualquer coisa no bolso. Mas já era tarde. O desconhecido tinha reparado nele.
O homem disse algumas palavras ao companheiro. Este virou-se também e olhou diretamente na direção de Paulo.
Depois, os dois aceleraram o passo.
Paulo ficou imóvel por instantes, tentando perceber o que acabara de acontecer. Os dois homens tinham desaparecido na direção da estação, e ele sentia que a situação estava a tornar-se mais séria do que imaginara.
Precisava de avisar os amigos, mas não podia perder tempo. Decidiu regressar a casa, onde poderia utilizar o telefone fixo para contactar Quim.
Mal chegou, ainda com o coração aos saltos, ouviu o telefone tocar.
Correu para atender.
— Estou?
Do outro lado, uma voz masculina, desconhecida, respondeu em tom baixo:
— Senhor Paulo? É melhor esquecer o que viu esta manhã. Há coisas nesta cidade que não são para descobrir.
A chamada foi interrompida.
Paulo ficou a olhar para o auscultador, sem conseguir esconder a inquietação.
Quem seria aquele homem? Como sabia o seu nome? E, acima de tudo, como sabia que Paulo tinha visto os dois suspeitos?
Uma coisa era certa: o Clube dos Seis acabara de entrar numa aventura muito mais perigosa do que qualquer um deles poderia imaginar.
E o pior ainda estava para vir…
CONTINUA NO EPISÓDIO 2…