O destino escreve de novo
Na Covilhã, a Universidade da Beira Interior estava cada vez mais dinâmica, cheia de jovens vindos de várias partes do país.
Entre eles estavam dois que não faziam ideia da história que os unia.
Henrique e Beatriz
Henrique, filho de David e Cláudia, tinha decidido estudar Gestão. Era curioso, comunicativo e com vontade de fazer algo diferente do percurso do pai.
Beatriz, filha de Carol e Paulo, tinha escolhido o mesmo curso. Viera da Nazaré com sonhos próprios, mas também com uma curiosidade natural pelo mundo.
Conheceram-se numa aula.
— Posso sentar-me aqui? — perguntou Henrique.
— Claro — respondeu Beatriz.
O início foi simples. Trabalhos de grupo, conversas nos intervalos, cafés depois das aulas.
Mas rapidamente se tornou mais do que isso.
Havia uma ligação fácil, natural, quase inexplicável.
Como se se conhecessem há muito tempo.
Com o passar dos meses, começaram a passar cada vez mais tempo juntos.
Passeavam pela cidade, estudavam juntos e, por vezes, iam ao cinema Cine-Centro, ao Jardim público ou ao quiosque "Verdinho".
— Sabes — disse Beatriz numa tarde — esta cidade tem qualquer coisa especial.
Henrique sorriu.
— Tem… eu cresci aqui.
— Eu não… mas sinto-me bem aqui.
Olharam um para o outro.
E sem grandes palavras, perceberam o que estava a acontecer.
Apaixonaram-se.
Alguns meses depois, Henrique decidiu falar com os pais.
Numa noite tranquila, à mesa, disse:
— Há alguém que gostava que conhecessem.
Cláudia sorriu imediatamente.
— Finalmente!
David levantou os olhos.
— Então?
— Chama-se Beatriz… é da Nazaré.
Por um instante, David ficou em silêncio.
— Da Nazaré? — perguntou, quase automaticamente.
— Sim… veio estudar para aqui.
David assentiu lentamente.
— Então temos de a conhecer.
Henrique sorriu.
— Ela também quer conhecer-vos.
A viagem inesperada
Quase ao mesmo tempo, na Nazaré, Beatriz teve uma conversa semelhante com os pais.
— Vou apresentar-vos alguém — disse ela.
Carol trocou um olhar com Paulo.
— Então?
— Chama-se Henrique… é da Covilhã.
Carol sentiu algo estranho, um pequeno arrepio que não soube explicar.
— Da Covilhã?
— Sim… os pais vivem lá.
Paulo sorriu.
— Então fazemos uma coisa… vamos lá passar um fim de semana.
E assim ficou combinado.
No sábado seguinte, os pais de Beatriz viajaram até à Covilhã.
A cidade recebia-os com o ar fresco da serra e o movimento típico de um fim de semana.
Henrique combinou um almoço em casa.
David ajudava Cláudia a preparar a mesa, sem imaginar o que estava prestes a acontecer.
— Estão quase a chegar — disse Henrique.
David acenou.
— Ótimo.
O som do carro a parar lá fora ecoou na rua.
Henrique abriu a porta.
Beatriz entrou primeiro, sorridente.
— Pai, mãe… este é o Henrique.
David aproximou-se lentamente da sala.
E então viu.
Carol.
Durante um segundo, o tempo parou.
Vinte anos desapareceram naquele instante.
Carol também ficou imóvel.
Os olhos encontraram-se.
Nenhum dos dois disse nada de imediato.
Mas ambos reconheceram aquele olhar.
O mesmo de um verão distante.
O silêncio cheio de história
Cláudia e Paulo trocaram olhares, sem perceber completamente o que estava a acontecer.
Henrique e Beatriz olhavam, confusos.
— Vocês… conhecem-se? — perguntou Henrique.
David respirou fundo.
Carol esboçou um sorriso leve.
— Conhecemo-nos… há muitos anos.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável.
Era cheio de história.
De memórias.
De tudo o que tinha sido vivido… e deixado para trás.
Naquele momento, ninguém precisava de explicar tudo.
Bastava olhar para Henrique e Beatriz.
Dois jovens, apaixonados, exatamente como tinham sido um dia.
Mas com uma diferença.
Talvez agora o destino estivesse a dar uma segunda oportunidade… não a eles, mas à história que tinham começado sem saber.
E, entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré, duas gerações cruzavam-se num mesmo ponto.
Como se o tempo tivesse dado a volta completa.
Como se nada tivesse sido em vão.