O carro de António e Beatriz entrou na Covilhã ao início da tarde.
Tinham viajado durante horas, quase sem trocar uma palavra.
Beatriz olhava pela janela.
As ruas da cidade traziam-lhe memórias que julgava enterradas para sempre.
— Chegámos — disse António.
Beatriz respirou fundo.
— Depois de vinte e cinco anos...
Sofia estava à espera de Maria da Luz.
Quando viu o carro aproximar-se, sentiu o coração bater mais depressa.
António saiu primeiro.
Depois Beatriz.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Sofia olhou para eles.
Já não conseguia vê-los apenas como os pais que a tinham criado.
Eram também as pessoas que tinham escondido uma parte essencial da sua vida.
Beatriz aproximou-se.
— Sofia...
— Quero a verdade.
António baixou os olhos.
— Vais tê-la.
Sentaram-se os quatro.
António começou:
— Quando nasceste, a tua mãe chamava-se Rita. Era muito jovem e não tinha condições para te criar.
Sofia ouviu em silêncio.
— O teu pai era Paulo. Ele amava a Rita e queria ficar contigo. Mas houve uma discussão entre os dois. Rita decidiu entregar-te a nós.
— E o meu pai?
António respirou fundo.
— Rita disse-lhe que tinhas morrido pouco depois de nasceres.
Sofia ficou petrificada.
— Ela mentiu-lhe?
— Sim.
Beatriz começou a chorar.
— Nós sabíamos que eras filha deles. Mas prometemos a Rita que te criaríamos como nossa filha e que nunca te faltaria amor.
— E a carta?
António retirou do bolso um envelope.
— Guardei-a todos estes anos.
Entregou-a a Sofia.
— Porque não me deram isto antes?
António respondeu com lágrimas nos olhos:
— Porque tivemos medo. Medo de te perder.
Sofia abriu o envelope.
A carta estava completa.
E, finalmente, conseguiu ler o nome que tinha sido arrancado.
Paulo.
O seu pai.
— Onde está ele? — perguntou Sofia.
António apontou para Francisco.
— Foi ele quem conseguiu encontrá-lo.
Sofia olhou para Francisco, surpresa.
— Ele está em Coimbra — explicou.
— Está vivo?
— Sim.
Sofia levou as mãos ao rosto.
Durante vinte e cinco anos imaginara que nunca conheceria os seus pais biológicos.
Agora sabia que o pai estava vivo.
Mas havia ainda uma última coisa que precisava de saber.
— E a Rita?
Beatriz segurou-lhe a mão.
— A Rita morreu há alguns anos.
Sofia baixou os olhos.
Não podia conhecê-la.
Não podia abraçá-la.
Não podia perguntar-lhe por que razão a entregara.
Mas podia finalmente compreender.
Rita não a abandonara por falta de amor.
Tinha-a entregado porque acreditava que António e Beatriz lhe poderiam dar aquilo que ela não conseguia.
Dois dias depois, Sofia chegou a Coimbra.
À porta da Universidade, parou por alguns segundos.
A cidade estava cheia de estudantes, vozes e movimento.
Mas para Sofia tudo parecia silencioso.
Francisco apontou para um homem que se aproximava lentamente.
Era Paulo.
Parou diante dela.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Sofia?
Ela não conseguiu responder.
Paulo aproximou-se.
— És igual à tua mãe quando sorrias.
Sofia chorou.
— Eu passei a vida a pensar que não tinha pai.
— E eu passei a vida a pensar que tinha perdido uma filha.
Abraçaram-se.
Um abraço de vinte e cinco anos.
Mais tarde, sentados junto ao Mondego, Sofia perguntou:
— Porque nunca procuraste por mim?
Paulo olhou para a água.
— Procurei. Durante anos.
— Então porque desististe?
— Porque me disseram que tinhas morrido.
Sofia segurou-lhe a mão.
— Eu estou aqui.
Paulo sorriu entre lágrimas.
— Agora sei.
De regresso à Covilhã, Sofia subiu até ao Bairro da Biquinha.
A cidade estendia-se diante dos seus olhos.
Pensou em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que chegara de França.
Tinha perdido certezas.
Descobrira mentiras.
Encontrara a verdade.
E, pelo caminho, encontrara também pessoas que passaram a fazer parte da sua vida.
Cláudia aproximou-se.
— Então, acabou?
Sofia sorriu.
— Não.
— Não?
Sofia olhou para a Serra da Estrela.
— A procura acabou. Agora começa outra coisa.
— O quê?
Sofia respirou fundo.
— A minha vida.
Francisco aproximou-se e abraçou-a.
— E vais voltar para França?
Sofia olhou para ele.
— Ainda não sei.
Nesse instante, o telemóvel tocou.
Era Paulo.
Sofia sorriu.
Pela primeira vez, o nome “pai” deixou de ser apenas uma palavra.
Era alguém.
Era uma história.
Era parte dela.
Sofia guardou o telemóvel no bolso e olhou uma última vez para a cidade onde tudo tinha começado.
Durante vinte e cinco anos, Sofia viveu sem saber de onde vinha.
Foi preciso regressar à terra natal para descobrir que, por vezes, os caminhos mais difíceis são precisamente aqueles que nos conduzem até nós próprios.
E assim terminou a história de Sofia.
Não com um ponto final.
Mas com um novo caminho.
CAMINHOS CRUZADOS — FIM
Sofia não conseguia tirar os olhos da carta.
Aquela folha tinha estado escondida durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte mais importante.
O nome do seu pai.
— Quem fez isto? — perguntou.
Francisco não respondeu.
— Tens de saber alguma coisa.
— Só sei que a carta estava numa caixa que pertencia à minha mãe.
Sofia levantou-se.
— Então temos de descobrir quem a colocou em casa do meu pai.
Nesse momento, o telemóvel tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, descobri mais uma coisa.
— O quê?
— Venha ter comigo.
Pouco depois, Sofia e Francisco estavam novamente em casa de Maria da Luz.
A mulher tinha sobre a mesa uma pequena fotografia.
— Encontrei isto esta manhã.
Sofia pegou nela.
Era uma fotografia antiga de Rita.
Ao lado dela estava um homem.
Sofia ficou a olhar.
— Quem é?
Maria da Luz respondeu:
— Paulo.
O nome fez Sofia lembrar-se imediatamente da inicial que aparecia na carta.
P.
— Ele era o pai?
Maria da Luz hesitou.
— Era o homem de quem Rita estava grávida quando tudo aconteceu.
Sofia sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Então o meu pai chama-se Paulo.
— Sim.
Francisco aproximou-se da fotografia.
— Eu conheço este homem.
Sofia virou-se para ele.
— Conheces?
— Vi-o algumas vezes com a minha mãe.
Maria da Luz interrompeu:
— Há mais uma coisa que precisam de saber.
Abriu uma velha agenda.
— Paulo não desapareceu em 2001.
Sofia ficou imóvel.
— Então onde está?
Maria da Luz passou o dedo por uma morada escrita numa página.
— Coimbra.
O coração de Sofia disparou.
— Coimbra?
— Sim.
Francisco olhou para Sofia.
— Tens de ir.
Nessa noite, Sofia ligou para António.
— Pai...
Foi a primeira vez que pronunciou aquela palavra desde que descobrira a verdade.
António ficou em silêncio.
— Já sei o nome dele.
Do outro lado, ouviu-se uma respiração profunda.
— Sofia...
— Chama-se Paulo.
António não respondeu.
— É verdade?
Mais silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
— Porque é que nunca me contaste?
— Porque prometi à Rita.
— Prometeste o quê?
— Que te protegeria.
— De quê?
António começou a chorar.
— Do homem que era teu pai.
Sofia ficou confusa.
— Ele queria fazer-me mal?
— Não.
— Então porquê?
António demorou a responder.
— Porque a história que te contaram sobre ele não era verdadeira.
Sofia sentiu um arrepio.
— O que queres dizer?
— Amanhã, quando chegarmos a Portugal, eu conto-te tudo.
— Não. Quero saber agora.
António respirou fundo.
— Paulo nunca abandonou a Rita.
Sofia ficou sem palavras.
— Foi a Rita que o deixou acreditar que tu tinhas morrido.
O mundo de Sofia pareceu desabar.
— Porquê?
António não respondeu.
— Pai!
A chamada terminou.
No dia seguinte, Sofia preparou uma pequena mala.
Cláudia apareceu em sua casa.
— Vais para Coimbra?
— Vou.
— Sozinha?
Sofia olhou para Francisco.
Ele estava à porta.
— Não.
Cláudia percebeu.
— Encontraste o teu pai?
Sofia segurou a fotografia contra o peito.
— Ainda não.
Respirou fundo.
— Mas sei onde ele está.
Francisco aproximou-se.
— E se não for aquilo que esperas?
Sofia olhou para ele.
— Depois de tudo o que descobri, já não tenho medo da verdade.
Os dois ficaram em silêncio.
Francisco segurou-lhe a mão.
— Então vamos.
Sofia sorriu pela primeira vez em muitos dias.
Mas, antes de saírem, recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
“Sofia, não vás à procura de Paulo. Há uma verdade que António ainda não te contou.”
Ela mostrou a mensagem a Francisco.
— Quem enviou isto?
O telefone voltou a vibrar.
Desta vez havia apenas uma fotografia.
Sofia abriu-a.
Era uma fotografia recente de Paulo.
E, ao lado dele, estava uma mulher que Sofia nunca tinha visto.
Fim do Episódio 14.
Sofia permanecia em silêncio.
A carta tremia-lhe nas mãos.
Agora sabia.
Rita era a mulher que lhe tinha dado a vida.
E António sabia.
Durante vinte e cinco anos.
— Não consigo acreditar... — murmurou.
Francisco aproximou-se.
— Sofia, há mais coisas que precisas de saber.
Ela levantou os olhos.
— Mais?
Francisco assentiu.
— Encontrei outras cartas.
— Quantas?
— Quatro.
Sofia sentiu o coração apertar.
— E nunca as leste?
— Li a primeira. As outras estavam fechadas.
Francisco retirou-as de uma pequena pasta.
— A minha mãe escreveu-as todas no mesmo ano.
Sofia pegou na primeira.
O envelope estava dirigido a António.
Abriu-a.
“António, sei que vais cuidar dela como se fosse tua. É a única coisa que me dá alguma paz.”
Sofia começou a chorar.
Continuou a ler.
Rita explicava que não tinha condições para criar a filha e que tomara uma decisão que lhe partia o coração.
Mas havia uma frase que a fez parar:
“Um dia, quando ela for adulta, tens de lhe contar quem é o verdadeiro pai.”
Sofia levantou os olhos.
— O verdadeiro pai?
Francisco ficou tão surpreendido como ela.
— Então existe outro homem.
Sofia voltou à carta.
Mais abaixo, havia apenas uma inicial.
“P.”
— P...
Francisco pensou durante alguns segundos.
— Pode ser Paulo. Pedro. Ou qualquer outro nome.
Sofia abanou a cabeça.
— Não. A minha mãe conhecia o pai. Só não queria que António lhe dissesse quem ele era.
— Talvez exista uma razão.
Sofia fechou a carta.
— Vou descobrir.
Nessa tarde, Sofia ligou para Beatriz.
Desta vez foi Beatriz quem pediu:
— Não me perguntes mais nada pelo telefone.
— Então diz-me apenas uma coisa.
— O quê?
— O António é o meu pai?
Silêncio.
Sofia fechou os olhos.
A resposta não veio.
Mas o silêncio foi suficiente.
— Eu sabia...
Beatriz começou a chorar.
— Sofia, nós amámos-te como nossa filha desde o primeiro dia.
— Eu sei.
— Nunca quisemos fazer-te mal.
— Mas esconderam-me a minha própria história.
— Porque tínhamos medo de te perder.
Sofia sentiu as lágrimas correrem pelo rosto.
— Já me perderam, mãe.
Beatriz ficou sem palavras.
— Não porque deixei de vos amar — continuou Sofia. — Mas porque já não sei em quem posso confiar.
Desligou.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco junto ao Jardim do Lago.
Ele tinha consigo a última carta.
— Esta é diferente — disse.
— Porquê?
— Não é dirigida ao António.
Sofia pegou nela.
No envelope havia apenas duas palavras:
“Para Sofia.”
Ela ficou imóvel.
— A minha mãe escreveu isto para mim?
Francisco assentiu.
— Mas nunca chegou até ti.
Sofia abriu lentamente o envelope.
Leu a primeira linha.
E o mundo pareceu parar.
“Minha filha, se algum dia leres esta carta, significa que descobriste a verdade.”
Sofia levou a mão à boca.
Continuou a ler.
Mas antes de chegar ao fim, encontrou uma frase que a deixou completamente sem chão:
“O teu pai chama-se...”
A carta terminava ali.
A parte seguinte tinha sido arrancada.
Sofia olhou para Francisco, desesperada.
— Quem arrancou o resto?
Francisco ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— A minha mãe não foi.
Sofia sentiu um arrepio.
— Como sabes?
Francisco apontou para a carta.
— Porque esta carta foi encontrada na casa do teu pai.
Sofia ficou gelada.
António tinha guardado a carta durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte onde estava escrito o nome do seu verdadeiro pai.
Fim do Episódio 13
Sofia não conseguiu dormir.
A fotografia estava sobre a mesa.
Ao lado, o documento antigo.
E, na sua cabeça, uma sucessão de perguntas para as quais ninguém parecia querer dar resposta.
Rita.
Francisco.
2001.
António e Beatriz.
Tudo parecia estar ligado.
Mas como?
Na manhã seguinte, Sofia tomou uma decisão.
Ligaria novamente a Beatriz.
Desta vez não iria fazer perguntas.
Iria exigir respostas.
Pegou no telemóvel.
— Mãe, precisamos de conversar.
A voz de Beatriz surgiu do outro lado.
— Eu sei, filha.
— Conheces a Rita?
Silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
Finalmente.
— Desde quando?
— Desde antes de tu nasceres.
Sofia sentiu um arrepio.
— Então a Rita conhecia-me?
Beatriz começou a chorar.
— Conhecia.
Aquela resposta atingiu Sofia como um golpe.
— Quem era ela para mim?
Beatriz não respondeu.
— Mãe!
— Não posso contar-te tudo por telefone.
— Então conta-me quando chegares.
— Vamos regressar amanhã.
Sofia ficou imóvel.
— Amanhã?
— Sim. Eu e o teu pai.
— E depois vais contar-me a verdade?
Beatriz respirou fundo.
— Depois de tantos anos, já não podemos continuar a esconder.
A chamada terminou.
Sofia sentou-se na cama.
Pela primeira vez, sentia que a verdade estava realmente próxima.
Nesse mesmo dia, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Beatriz tinha dito.
Ele ficou pensativo.
— Então a minha mãe conhecia-te antes de eu nascer.
— É o que parece.
Francisco tirou do bolso uma pequena chave.
— Há uma coisa que nunca contei a ninguém.
Sofia olhou para a chave.
— O que é?
— Depois da morte da minha mãe, encontrei uma caixa escondida.
— E nunca a abriste?
— Abri.
Francisco baixou os olhos.
— Dentro havia cartas.
— Cartas de quem?
— Da minha mãe.
— Para quem?
Francisco levantou os olhos para Sofia.
— Para António.
Sofia ficou sem respiração.
— Para o meu pai?
— Sim.
Francisco entregou-lhe uma das cartas.
O envelope estava envelhecido.
Na frente, escrito à mão, estava apenas:
“António — não podes levar a Sofia sem saberes toda a verdade.”
Sofia começou a tremer.
— Sofia...
Ela não conseguia falar.
Virou o envelope.
A carta tinha sido escrita em 2001.
Francisco segurou-lhe o braço.
— Queres mesmo ler?
Sofia olhou para ele.
Tinha lágrimas nos olhos.
— Passei vinte e cinco anos sem saber quem sou.
Abriu o envelope.
Retirou lentamente a folha.
Começou a ler.
A primeira frase fez-lhe faltar o ar:
“António, entrego-te a minha filha porque já não tenho condições para a criar...”
Sofia levou a mão à boca.
A carta caiu-lhe das mãos.
Francisco ficou pálido.
— Sofia...
Ela olhou para ele.
Agora já não havia espaço para dúvidas.
Rita tinha sido a mulher que lhe entregara a filha.
E António sabia de tudo.
Fim do Episódio 12.
Sofia passou a noite a pensar na mensagem de António.
“Há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Quem seria?
E por que razão o pai não lhe dizia simplesmente o nome?
Na manhã seguinte, voltou a casa de Maria da Luz.
Encontrou-a sentada junto à janela, com uma chávena de café nas mãos.
— Já estava à sua espera — disse Maria da Luz.
— O meu pai disse-me que a senhora sabe onde posso encontrar uma pessoa.
Maria da Luz levantou os olhos.
— Sei.
— Quem é?
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
— Chama-se Rita.
Sofia sentiu o coração parar.
— Rita?
— Sim.
— Mas o Francisco disse-me que a mãe dele morreu.
Maria da Luz baixou a voz.
— E morreu mesmo.
Sofia ficou confusa.
— Então como posso conhecê-la?
Maria da Luz levantou-se e abriu uma gaveta.
Retirou de lá um pequeno papel.
— Porque existe outra Rita.
Sofia franziu o sobrolho.
— Outra Rita?
— Uma mulher que conheceu a sua mãe... ou melhor, que conheceu a mulher que aparece naquela fotografia.
Sofia sentiu um arrepio.
— E onde está ela?
Maria da Luz entregou-lhe o papel.
Era uma morada.
— Vive fora da Covilhã. Mas ainda mantém contacto com algumas pessoas daqui.
Sofia guardou o papel.
— Sabe o que ela pode contar-me?
— Talvez muito.
— Ou talvez nada.
Maria da Luz olhou-a fixamente.
— Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir do passado.
Sofia respondeu:
— Eu passei a minha vida inteira sem sequer saber que ele existia.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Maria da Luz tinha descoberto.
Ele ficou pensativo.
— Outra Rita...
— Sim.
— Talvez devêssemos ter cuidado.
— Porquê?
Francisco hesitou.
— Porque a minha mãe tinha muito medo de algumas pessoas.
Sofia aproximou-se.
— Que pessoas?
Francisco abanou a cabeça.
— Nunca consegui saber.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Sobre o meu pai... há uma coisa que nunca te contei.
Sofia ficou atenta.
— O quê?
— Encontrei uma carta dele há alguns anos.
— E sabes quem ele é?
Francisco tirou o telemóvel do bolso.
— Não. Mas a carta tinha uma fotografia.
Mostrou-lha.
Sofia ficou imóvel.
O homem da fotografia era desconhecido para ela.
Mas no verso estava escrita uma data.
2001.
Sofia olhou para Francisco.
— Porque é que toda a gente parece ter fotografias de 2001?
Francisco não respondeu.
Nessa noite, em Lyon, António fechava uma mala.
Beatriz entrou no quarto.
— Está tudo pronto?
— Quase.
— António...
Ele parou.
— E se ela perguntar por mim?
— Desta vez não vamos mentir.
Beatriz respirou fundo.
— Prometes?
António aproximou-se dela.
— Prometo.
Beatriz abriu uma gaveta e retirou um pequeno envelope.
— Então leva isto.
António olhou para o envelope.
— Ainda o tens?
— Guardei-o durante vinte e cinco anos.
António ficou em silêncio.
— Está na altura de ela saber — disse Beatriz.
Na Covilhã, Sofia recebeu uma chamada.
Era Maria da Luz.
— Sofia?
— Sim?
— Acabei de me lembrar de uma coisa.
— O quê?
— Quando vi a fotografia pela primeira vez, não reparei num pormenor.
— Que pormenor?
A voz de Maria da Luz baixou.
— A mulher que segurava o bebé tinha uma aliança.
Sofia ficou pensativa.
— E então?
— Rita não era casada.
Silêncio.
Sofia sentiu um arrepio.
— Tem a certeza?
— Absoluta.
Sofia desligou lentamente.
Olhou para a fotografia.
Depois para o documento.
E finalmente para o nome que estava escrito no papel.
Rita.
Talvez aquela mulher não fosse a mãe.
Talvez fosse apenas alguém que sabia onde estava a verdadeira mãe de Sofia.
E, pela primeira vez, surgiu-lhe uma pergunta ainda mais assustadora:
Quem era o homem que tinha colocado aquela aliança no dedo de Rita?
Fim do Episódio 11.
— Mãe, conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada, Beatriz não respondeu.
Sofia esperou.
— Mãe?
Finalmente ouviu um suspiro.
— Sofia… onde ouviste esse nome?
A pergunta confirmou aquilo que ela já começava a suspeitar.
— Portanto, conheces.
— É complicado, filha.
— Complicado porquê?
— Há coisas do passado que não vale a pena mexer.
Sofia sentiu uma mistura de tristeza e revolta.
— Para ti talvez não valha a pena. Para mim vale.
Beatriz ficou em silêncio.
— Encontrei uma fotografia, mãe. Uma fotografia de uma mulher com um bebé.
A respiração de Beatriz tornou-se mais pesada.
— Sofia, por favor...
— E encontrei um documento onde aparece o nome Rita.
Beatriz não conseguiu responder.
— Quero saber quem ela é.
— Não podes continuar por esse caminho.
— Porquê?
A voz de Sofia tremeu.
— Porque tenho direito a saber quem sou!
Do outro lado, Beatriz começou a chorar.
Sofia fechou os olhos.
Nunca tinha ouvido a mãe chorar daquela maneira.
— Mãe...
— Desculpa.
— Desculpa pelo quê?
Outra pausa.
— Por tudo o que fizemos por ti.
Sofia ficou gelada.
“Fizemos?”
— O que queres dizer com isso?
Beatriz desligou a chamada.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Em Lyon, Beatriz entrou na sala.
António percebeu imediatamente o que tinha acontecido.
— Ela perguntou por Rita?
Beatriz assentiu.
— E agora?
— Já não conseguimos esconder mais.
António aproximou-se.
— Talvez esteja na altura de lhe contar.
Beatriz limpou as lágrimas.
— Não. Ainda não.
— Beatriz...
— Ela precisa de saber a verdade, mas não desta maneira.
António ficou pensativo.
— Então o que vamos fazer?
Beatriz olhou para uma velha fotografia que guardava numa gaveta.
Era uma fotografia de Sofia bebé.
— Temos de voltar à Covilhã.
Enquanto isso, Sofia encontrou-se com Cláudia.
Contou-lhe tudo.
— A tua mãe sabe — disse Cláudia.
— Sabe.
— E os teus pais também?
Sofia ficou alguns segundos calada.
— Acho que sim.
Cláudia apertou-lhe a mão.
— Então estamos mais perto da verdade do que pensávamos.
Sofia olhou para a fotografia de Rita.
— Só quero saber uma coisa.
— O quê?
— Porque é que me esconderam isto durante toda a minha vida?
Nesse instante, o telemóvel de Sofia vibrou.
Era uma mensagem de António.
“Filha, precisamos de falar. Vamos regressar a Portugal.”
Sofia sentiu o coração disparar.
Logo depois chegou outra mensagem.
“Mas antes de nos encontrarmos, há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Sofia olhou para Cláudia.
— Quem?
A resposta chegou alguns segundos depois.
“Maria da Luz sabe onde podes encontrar essa pessoa.”
Sofia ficou sem palavras.
O passado estava finalmente a começar a abrir as suas portas.
Mas quem seria a pessoa que António queria que ela conhecesse?
Fim do Episódio 10.
O fim da tarde aproximava-se quando Sofia chegou ao Bairro da Biquinha.
Do alto, a cidade estendia-se diante dos seus olhos e, ao longe, a Serra da Estrela começava a ganhar os tons dourados do pôr do sol.
Sofia parou por alguns instantes.
Tinha nas mãos a fotografia e o documento que Maria da Luz lhe entregara.
Tudo aquilo parecia impossível.
Rita.
A mulher da fotografia.
A pessoa que aparecia no documento.
E a mãe de Francisco.
Sofia ouviu passos atrás de si.
— Vieste mesmo.
Era Francisco.
— Disse que vinha.
Ele aproximou-se e ficou a olhar para a cidade.
— A minha mãe gostava deste lugar.
— Porquê?
— Dizia que daqui conseguia pensar melhor.
Sofia respirou fundo.
— Francisco, preciso de te perguntar uma coisa.
— Sobre a minha mãe?
Ela assentiu.
— Conheces esta mulher?
Sofia mostrou-lhe a fotografia.
Francisco pegou nela.
O rosto mudou imediatamente.
— Onde arranjaste isto?
— Foi encontrada numa caixa antiga.
Francisco continuou a olhar para a fotografia.
— É a minha mãe.
Sofia sentiu um nó na garganta.
— Tens a certeza?
— Tenho. Eu tinha fotografias dela. Esta é mais antiga, mas reconheço-a perfeitamente.
Sofia tirou o documento da mala.
— E isto?
Francisco leu.
O silêncio tornou-se pesado.
— Sofia...
— O nome da minha mãe aparece aqui como Rita.
Francisco levantou lentamente os olhos.
— Mas isso é impossível.
— Porquê?
— Porque a minha mãe nunca me falou de nenhuma filha.
Sofia ficou imóvel.
— Filha?
Francisco percebeu o que tinha acabado de dizer.
— Espera... não estou a dizer que...
— O que sabes?
— Sei apenas que a minha mãe teve problemas antes de eu nascer. Nunca quis falar muito sobre essa época.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Nunca conheci o meu pai.
Sofia sentiu um arrepio.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Francisco perguntou:
— Sofia, onde estão os teus pais?
— Em Lyon.
— António e Beatriz?
— Sim.
Francisco voltou a olhar para o documento.
— E eles sabem disto?
Sofia hesitou.
— Não sei.
Francisco entregou-lhe o papel.
— Acho que deves perguntar-lhes.
Sofia guardou o documento.
— Tenho medo da resposta.
Francisco aproximou-se.
— Às vezes, a verdade assusta mais antes de a conhecermos.
Os dois ficaram em silêncio, olhando a cidade.
Pela primeira vez desde que começara aquela procura, Sofia sentiu que não estava completamente sozinha.
Nessa noite, Sofia ligou para Lyon.
Beatriz atendeu.
— Olá, filha.
Sofia não respondeu logo.
— Mãe, preciso de te perguntar uma coisa.
Beatriz percebeu imediatamente que havia algo diferente na voz dela.
— O que aconteceu?
Sofia fechou os olhos.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada fez-se um silêncio absoluto.
Um silêncio que durou apenas alguns segundos.
Mas para Sofia pareceu uma eternidade.
Depois ouviu a voz de Beatriz, trémula:
— Quem te falou desse nome?
Sofia abriu os olhos.
Agora já não tinha dúvidas.
Beatriz conhecia Rita.
Fim do Episódio 9.
Sofia chegou a casa de Maria da Luz pouco depois das dez da manhã.
Cláudia já estava à espera.
Assim que entrou, percebeu pela expressão da amiga que alguma coisa tinha acontecido.
— A minha mãe está lá dentro — disse Cláudia. — Encontrou o documento ontem à noite.
Sofia sentiu o coração acelerar.
Maria da Luz apareceu na sala com uma pequena pasta castanha nas mãos.
— Sente-se, Sofia.
A jovem sentou-se.
— O que encontrou?
Maria da Luz pousou a pasta sobre a mesa.
— Isto estava dentro da mesma caixa onde encontrámos a fotografia.
Abriu-a cuidadosamente.
Havia alguns papéis antigos, amarelados pelo tempo.
Sofia aproximou-se.
— Aqui.
Maria da Luz retirou um documento dobrado.
Sofia olhou para ele.
O seu nome estava escrito numa das linhas.
Sofia.
Ficou sem palavras.
— É o meu nome...
— Sim.
— Mas o que é isto?
Maria da Luz respirou fundo.
— É uma cópia de um documento antigo. Não sei como foi parar àquela caixa, nem porque estava lá.
Sofia pegou nele com as mãos trémulas.
Leu algumas linhas.
Depois parou.
— Aqui diz que eu nasci na Covilhã.
Cláudia aproximou-se.
— E então?
Sofia levantou os olhos.
— Eu sempre pensei que tivesse saído daqui muito pequena, mas... nunca soube exatamente onde tinha nascido.
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Há mais uma coisa — disse finalmente.
Sofia olhou para ela.
— O nome de António e Beatriz aparece no documento?
Maria da Luz abanou a cabeça.
Sofia sentiu um vazio no estômago.
— Então quem aparece?
Maria da Luz apontou para uma linha quase apagada.
Sofia aproximou o rosto.
Leu.
E ficou imóvel.
Rita.
O nome que já tinha ouvido.
O nome da mãe de Francisco.
— Não... — murmurou.
Cláudia segurou-lhe a mão.
— Sofia...
— A Rita aparece aqui?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia levantou-se de repente.
— Então ela era minha mãe?
— Eu não disse isso.
— Mas está aqui o nome dela!
— E isso não significa que tenhamos todas as respostas.
Sofia começou a andar pela sala.
Tudo parecia acontecer depressa demais.
A fotografia.
A mulher.
A viagem para França.
O nome de Rita.
E agora aquele documento.
— Tenho de falar com o Francisco.
Cláudia olhou para ela.
— Tens a certeza?
Sofia respondeu sem hesitar:
— Tenho.
Do outro lado da cidade, Francisco estava junto ao carro quando recebeu uma chamada.
Era um número que não conhecia.
— Estou?
Do outro lado, ninguém respondeu durante alguns segundos.
Depois ouviu uma voz feminina:
— É o Francisco?
— Sim.
— O meu nome é Sofia. Precisamos de falar.
Francisco ficou em silêncio.
— Sobre a minha mãe — acrescentou ela.
O rosto de Francisco mudou.
— Quem lhe falou da minha mãe?
Sofia apertou o documento contra o peito.
— Acho que a sua mãe e eu temos uma história em comum.
Francisco não respondeu.
E, pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Sofia percebeu que ele também parecia ter medo de alguma coisa.
— Onde podemos encontrar-nos? — perguntou.
Francisco olhou para a estrada.
— No lugar onde a minha mãe costumava ir quando queria estar sozinha.
— Onde?
Houve uma pausa.
— No Bairro da Biquinha.
A chamada terminou.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Não sabia o que iria encontrar naquele lugar.
Mas sabia uma coisa:
estava cada vez mais perto da verdade.
Fim do Episódio 8.
Muito obrigado pela vossa visita
Voltem sempre...