1978


Em 1978 não existiam telemóveis.
Não havia internet, redes sociais, computadores ou televisão por cabo.

E, mesmo assim… eu era feliz.

Talvez até mais feliz do que muitos jovens hoje.

Tinha 16 anos.
Vivia com a minha mãe, a minha avó materna e o meu irmão.
A vida era simples, mas tinha sabor.

Nesse verão, por alturas da Feira de São Tiago, apaixonei-me perdidamente… durante cinco dias 
Parece pouco?
Naquela idade parecia uma eternidade. 😂

Numa outra ocasião, eu e o Francisco, grande amigo da minha juventude, conhecemos umas emigrantes e acabámos por improvisar um baile na Escola Central.
Ele foi buscar o rádio de cassetes a casa e fizemos uma festa como hoje já quase não se vê.

A escola estava aberta.
As pessoas confiavam umas nas outras.
E nós só queríamos rir, dançar e aproveitar a vida.

Estudava na Escola Frei Heitor Pinto, onde hoje tenho o privilégio de trabalhar.
A vida dá voltas incríveis.

Nas férias brincávamos em São Silvestre, nos Penedos Altos ou simplesmente na rua até anoitecer.
Não precisávamos de muito para sermos felizes.

E sabem uma das minhas brincadeiras preferidas?

Escrever nas caricas das garrafas os nomes dos ciclistas da Volta à França e inventar eu próprio as etapas da corrida pela sala de casa 

Os móveis transformavam-se em montanhas, curvas perigosas e metas finais.
E eu divertia-me horas sem precisar de ecrãs, internet ou baterias.

 Hoje as crianças têm quase tudo…
mas muitas vezes falta-lhes aquilo que nós tínhamos em abundância:
tempo, imaginação e liberdade.

Na televisão existiam apenas dois canais da RTP e, com sorte, apanhávamos os canais espanhóis da TVE.
Talvez por isso vivêssemos mais na rua do que fechados dentro de casa.

 Não escrevo isto por saudosismo.
Nem para dizer que antigamente tudo era melhor.

Escrevo apenas para recordar uma verdade simples:

A felicidade nunca dependeu da tecnologia.
Dependeu sempre das pessoas, dos momentos e da forma como vivíamos a vida.

E às vezes penso…

talvez tenhamos evoluído muito no conforto…
mas perdido um pouco da alma pelo caminho.

Bom dia para todos nós 🍀



UMA RUA CHEIA DE VIDA

É difícil explicar a saudade de um lugar onde fomos verdadeiramente felizes.

🌿 Eu nasci numa rua cheia de vida.
Uma rua onde as pessoas se conheciam pelo nome, onde as portas estavam quase sempre abertas e onde os cheiros das estações pareciam fazer parte da família.

Ainda hoje fecho os olhos e consigo ver-me a correr até São Silvestre para brincar com os meus amigos na Escola Central, no tempo em que ainda era passagem pública.
Antes disso, esperava pacientemente junto ao “Montiel” pelo sinal do polícia sinaleiro… e mal ele autorizava, lá ia eu a correr pela rua fora, como se o mundo inteiro me esperasse no Largo da Capela de São Silvestre.

Naquele tempo, a cidade tinha alma.

O comércio vivia cheio de gente.
Na mercearia do Sr. Raúl Paiva levantavam-se as compras da minha mãe e da minha avó.
Em frente ao Jardim Público, a D. São recebia todos na padaria com um sorriso que nunca falhava.

E na minha rua… a Comendador Campos Melo… havia vida em cada porta.

Os cafés cheios de conversa e amizade.
As lojas tradicionais onde toda a gente se conhecia.
As mercearias, padarias e livrarias que davam vida à rua.
Os espaços onde se aprendia música, onde se faziam amizades e onde cada porta guardava histórias.
Os bancos, os pequenos negócios, sempre cheios de gente e movimento.

Cada nome destes guarda uma história.
Cada porta fechada hoje leva consigo um pedaço da nossa memória.

 Às 5h30 da manhã já se ouviam os operários a descer para as fábricas, a mota do padeiro e, pouco depois, o primeiro autocarro vindo da Aldeia do Carvalho.

A cidade acordava cedo… mas acordava viva.

Não havia telemóveis.
Não havia redes sociais.
Havia futebol na rua, joelhos esfolados, gargalhadas sinceras e adultos sentados nos cafés a conversar horas sem olhar para relógios.

No Natal, as famílias juntavam-se à mesa como se nada fosse mais importante no mundo.
E muitos ainda saíam para a Missa do Galo ou para se aquecerem junto da fogueira.

 Hoje, quando passo naquela rua, sinto um aperto no peito.

Vejo demasiadas portas fechadas onde antes existia movimento, amizade e alegria.
Mas há coisas que o tempo nunca conseguirá apagar.

Porque, mesmo mudada… mesmo mais silenciosa…
continuará sempre a ser a rua onde nasci.
A minha rua.
A rua da minha vida.

Boa tarde para todos nós 🍀



ABRIL TEM DE SER CORAGEM, MUDANÇA, FUTURO

Portugal está a morrer aos poucos… e o mais assustador é que já quase ninguém se indigna.

Em pleno século XXI, vemos o interior do país a ficar vazio.
Fecham escolas.
Encerram centros de saúde, tribunais, correios e serviços públicos.
Diminuem os transportes.
As aldeias perdem vida.
As ruas perdem crianças.

Os pais abandonam os filhos.
Os filhos maltratam os pais.

E, enquanto tudo fecha… aumentam os lares e alargam-se os cemitérios.

Um país que abandona os seus idosos, destrói a educação e deixa morrer o interior é um país que perde a sua identidade.

Hoje temos tecnologia, temos modernidade, temos redes sociais…
mas estamos a perder aquilo que mais importava: valores, humanidade e sentido de comunidade.

Os nossos pais e avós tinham menos dinheiro… mas talvez fossem mais felizes.
Havia respeito.
Havia união.
Havia tempo para viver e não apenas para sobreviver.

Então porque razão tanta gente vive sem esperança?

Portugal é um dos países mais bonitos do mundo.
Tem mar, montanha, sol, terra fértil e um povo trabalhador.
Um verdadeiro cantinho à beira-mar plantado.

Porque durante anos deixámos que nos roubassem o futuro em silêncio.
E porque muitas vezes criticamos tudo… mas esquecemo-nos de que também somos responsáveis pelas escolhas que fazemos.

Mas eu recuso-me a acreditar que este país não tem solução.

A esperança está numa geração que tenha coragem de lutar, de pensar diferente e de voltar a colocar as pessoas em primeiro lugar.

Porque Abril não pode ser apenas uma data no calendário.
Abril tem de ser coragem.
Tem de ser mudança.
Tem de ser futuro.

E enquanto houver alguém que não desista de Portugal…
Portugal ainda pode renascer.

Boa tarde para todos nós🍀



MESTRES OU APRENDIZES?

Somos mestres a aconselhar os outros… mas aprendizes quando a vida nos põe ao espelho.

É curioso como conseguimos encontrar as palavras certas para aliviar a dor de alguém:
“Vai passar.”
“Tu és forte.”
“Não penses demasiado nisso.”
“Afasta-te do que te faz mal.”

Mas quando a tempestade chega à nossa porta, esquecemo-nos de tudo aquilo que ensinámos aos outros.

😔 É mais fácil entender a tristeza alheia do que enfrentar os nossos próprios medos.
É mais fácil criticar os vícios dos outros enquanto escondemos os nossos nas gavetas do silêncio.
É mais fácil apontar defeitos do que admitir que também falhamos… todos os dias.

Vivemos numa sociedade onde muitos falam de força, mas poucos têm coragem de mostrar as suas fragilidades.
Há quem critique quem bebe demais, enquanto se afoga em ansiedades escondidas.
Há quem condene a mentira, mas viva preso às pequenas falsidades que criou para parecer perfeito.
Há quem dê lições de amor, mas não saiba amar-se a si próprio.

A verdade é que todos carregamos batalhas invisíveis.
Todos temos cicatrizes que escondemos atrás de sorrisos.
Todos temos hábitos, medos e fraquezas que tentamos maquilhar para que ninguém veja.

E talvez a maior humildade da vida seja esta:
antes de julgarmos alguém… olharmos para dentro de nós.

Porque ninguém é tão perfeito como mostra nas redes sociais.
Ninguém tem a vida totalmente resolvida.
E muitas vezes, quem mais aconselha… é quem mais precisa de ouvir os próprios conselhos.

Talvez o mundo fosse mais leve se trocássemos a crítica pela compreensão.
Se em vez de apontarmos dedos, estendêssemos mãos.
Se tivéssemos a coragem de admitir:
“Eu também erro.”
“Eu também caio.”
“Eu também estou a tentar.”

No fundo, todos somos humanos a aprender a viver… mesmo quando fingimos que já sabemos tudo.

Boa noite para todos nós 🌙



NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE

Há fases da vida em que parece que tudo acontece ao mesmo tempo.
Avaria-se a máquina, o carro deixa-nos na estrada, aparecem despesas inesperadas, problemas de saúde, preocupações… e, quando pensamos que pior já não pode ficar, surge mais uma dificuldade.

E então fazemos a pergunta que quase todos fazemos em silêncio:
“Porquê eu?”

Nesses momentos, a vida parece injusta.
Sentimo-nos cansados, revoltados e até perdidos.
Há dias em que sorrimos por fora… enquanto por dentro travamos batalhas que ninguém imagina.

Mas o tempo ensina-nos uma coisa:
as maiores tempestades também acabam por passar.

Muitas vezes são precisamente os momentos mais difíceis que nos transformam.
São eles que nos tornam mais fortes, mais humanos, mais conscientes da fragilidade da vida e do verdadeiro valor das pessoas que permanecem ao nosso lado.

Para quem tem fé, talvez sejam provas.
Para outros, simples desafios da vida.
Mas, seja qual for a explicação, existe algo que nunca podemos perder: a esperança.

Porque, mesmo depois da noite mais escura, o sol volta sempre a nascer. 

E talvez a verdadeira coragem não esteja em nunca cair…
mas em levantar-nos vezes sem conta, mesmo quando a alma já está cansada.

A vida é isto:
resistir, acreditar, semear e continuar.

E nunca esquecer:
há dores que nos derrubam…
mas também há forças dentro de nós que ainda não conhecemos até ao dia em que somos obrigados a usá-las.

Boa noite amigo@s do meu pequeno mundo 🍀



O CINEMA CINE-CENTRO

🎬Houve um tempo em que ir ao cinema na Covilhã não era apenas ver um filme… era viver uma aventura.

O velho Cine-Centro marcou gerações inteiras nos anos 80 e 90. E quem lá entrou uma vez, nunca mais esqueceu aquele ambiente tão nosso. 

 Antes do filme começar, já o espetáculo tinha começado cá fora. Filas enormes, grupos de amigos, namoros tímidos e o cheiro das castanhas assadas misturado com o frio da noite covilhanense.

Depois, entrávamos na sala… e parecia que o filme começava dentro de um nevoeiro. O fumo dos cigarros vindo do bar espalhava-se lentamente e dava ao cinema um cenário quase mágico. Hoje seria impensável… mas naquela altura fazia parte da experiência.

E quem não se lembra do porteiro?
A meio da sessão, lá vinha ele, lanterna na mão, a conduzir os atrasados até aos lugares, enquanto toda a gente olhava de lado para os “artistas” que tinham chegado depois do início do filme.

Mas o melhor eram as brincadeiras da plateia.
Pacotes de batatas fritas amachucados de propósito nas cenas mais silenciosas… gargalhadas exageradas… piropos ditos em voz alta… comentários que faziam a sala inteira rebentar a rir. Às vezes, o público conseguia ser mais divertido do que o próprio filme.

 E havia sempre uma figura obrigatória: o bombeiro presente na sala. Discreto, atento, quase parte da mobília daquele espaço que marcou a cidade.

O Cine-Centro não era apenas um cinema.
Era ponto de encontro. Era juventude. Era namoro. Era amizade. Era a Covilhã a viver em comunidade, numa época em que as pessoas se divertiam juntas e criavam memórias sem precisar de telemóveis.

Hoje, naquele espaço onde tantos sonharam diante do grande ecrã, funciona a Assembleia Municipal da Covilhã.
Mudaram-se os tempos, mudou-se o edifício… mas as memórias continuam sentadas naquelas cadeiras invisíveis da nossa saudade. 

Quem viveu o Cine-Centro sabe:
não era só um cinema… era um pedaço da nossa vida.

Bom dia para todos nós 🍀



A PRAÇA

🌼Houve um tempo em que os sábados de manhã na Covilhã tinham outro sabor…

A cidade acordava cedo e quase toda a gente corria para a “Praça”.
As ruas enchiam-se de passos apressados, vozes cruzadas e alcofas na mão.

Eu ia pela mão da minha mãe, atravessava o Pelourinho ao sinal do sinaleiro e entrava naquela confusão maravilhosa da Rua António Augusto de Aguiar.

Na Praça havia de tudo:
pinhões, tremoços, peixe fresco, hortaliças…
e sobretudo vida.

As vendedeiras conheciam as pessoas pelo nome.
Os clientes conversavam uns com os outros.
E nós, miúdos, andávamos colados às mães para não nos perdermos naquele mar de pernas. 😀

As tascas enchiam logo de madrugada, os autocarros vinham carregados da Aldeia do Carvalho e o comércio vivia em pleno.

Hoje talvez tenhamos mais conforto…
mas dificilmente voltaremos a ter aquela proximidade humana, aquela simplicidade e aquele sentimento de comunidade.

A velha Praça não era apenas um mercado.
Era o coração da cidade a bater. 💛

Bom dia de sábado para todos nós🍀



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...