AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO I

                                 Capítulo I - A despedida

Na Covilhã dos anos 70, o Pedro e a Flor encontravam-se quase todos os dias junto ao Pelourinho. Diziam que era só coincidência, mas os dois sabiam de cor as horas um do outro. Das arcadas da Câmara Municipal viam o movimento da praça e inventavam histórias sobre quem passava.
Ao sábado, percorriam o Mercado Municipal, partilhando uma maçã comprada às escondidas. Depois fugiam para o Café MONTALTO, onde o cheiro a bica e a conversa dos adultos os fazia sentir ainda mais crescidos.
À saída do Teatro Cine da Covilhã, comentavam o filme como se fossem críticos famosos. Cumprimentavam o polícia sinaleiro, sempre firme no cruzamento, e espreitavam as manchetes no Leal dos Jornais antes de seguirem para a Igreja da Misericórdia, onde a Flor acendia uma vela em silêncio.
Entre ruas de pedra e promessas sussurradas, a cidade era deles — inteira e infinita.
Numa tarde de outono, Pedro apareceu mais cedo no Pelourinho da Covilhã. Trazia um ar sério, diferente. A Flor percebeu logo que havia novidade.
— Fui alistado para o serviço militar — disse ele, olhando para as pedras antigas como se procurasse resposta nelas.
Caminharam em silêncio pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, onde o eco dos passos parecia maior do que o costume. No Mercado Municipal da Covilhã, as peixeiras gritavam preços como sempre, mas tudo soava distante.
Refugiaram-se no Café MONTALTO. O dono piscou-lhes o olho; já sabia que aqueles dois eram inseparáveis. A Flor pousou a mão sobre a dele.
— Mesmo que vás, voltas, a Covilhã não desaparece.
Nessa noite, foram ao Teatro Cine da Covilhã. O filme falava de partidas e regressos. À saída, o polícia sinaleiro levantou a mão para travar o trânsito e sorriu-lhes, como se abençoasse o momento.
Passaram ainda pelo Leal dos Jornais, onde as manchetes falavam de mudanças no país. Mudanças — a palavra parecia persegui-los.
Antes de se despedirem, entraram na Igreja da Misericórdia. A Flor acendeu outra vela. Pedro não pediu nada em voz alta, mas prometeu regressar.
E, pela primeira vez, perceberam que crescer era isto: amar uma cidade, amar alguém… e aprender que nem tudo fica parado no mesmo lugar.
Os dias passaram depressa demais. Quando chegou dezembro, o frio descia da serra e entrava pelas ruas como um aviso.
Na manhã da partida, encontraram-se pela última vez junto à Estação da Covilhã. O comboio ainda não tinha chegado, mas o fumo já se adivinhava ao longe. Havia malas gastas, lenços a acenar, silêncios pesados.
— Eu volto — disse o Pedro, tentando soar mais velho do que era.
Flor fingiu acreditar sem medo. Entregou-lhe um envelope com folhas arrancadas do caderno onde escrevia às escondidas. “Para não te esqueceres”, murmurou.
Na véspera, tinham passado pelo Café Primor. Sentados lado a lado, beberam dois galões devagar, como se o tempo pudesse ser esticado à força de pequenos goles. Falaram da escola, dos filmes no cinema, das tardes no Pelourinho — mas evitaram a palavra adeus.
O apito ecoou pela estação. O comboio começou a mover-se com um estremecimento de ferro e esperança. Pedro encostou-se à janela. Flor correu ao lado da carruagem até perder o fôlego.
Quando tudo ficou em silêncio outra vez, a Covilhã parecia maior — e mais vazia. Mas a Flor sabia que, algures entre carris e montanhas, começava outra parte da história deles…
Continua…
-------------------------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀



E TUDO SE RENOVA...

 Bom dia caros seguidores!

 Último dia de Fevereiro deste ano, o que tudo indica vamos entrar num mês que a meu ver trás mais otimismo a todos os níveis. Março por si só, e mais não fosse, é o mês que entra a Primavera, o mês que tudo se renova, os dias são maiores e os passarinho cantam alegres. 

 Há mais de dois anos que recomecei a minha renovação pessoal, continuo a acertar agulhas, muito tenho ainda para fazer, mas uma coisa eu consegui, maior auto estima e decisões mais acertadas. Tento a cada dia ser melhor e por sequência ao ser melhor para mim estou a ser melhor para os outros.

 Gosto da escrita desde sempre e começei a lançar uns contos nas redes sociais, um  pouco das minhas vivências misturadas com alguma ficção. Não quero ser conhecido nem ganhar dinheiro com isso, apenas que os seguidores os leiam porque muitas das histórias estão também relacionadas com eles.

 Último dia de Fevereiro, que seja de paz e harmonia entre os povos, num dia em que começa outra guerra entre Estados Unidos/Israel contra o Irão. Não é com guerras que se constrói um mundo mais justo e saudável, não é à custa de civis inocentes que se proclama justiça. O ódio só fomenta mais ódio.

Sejam felizes e tentem andar em paz com vocês mesmos.

Um abraço.



UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE - (COMPACTO)

UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE
                                               
                                                    I Parte
                                           O TESOURO

 
Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.
Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Francisco, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.
— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.
— Ninguém sabe — respondeu o Francisco, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.
Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.
A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .
A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.
Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Quim encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.
Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.
— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.
— E sobre a amizade — completou o João.
Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.
E, de certa forma, tinham.
Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

                                                II Parte
                                  O SEGREDO DO SINO


 Depois da descoberta da caixa na capela, o grupo não falou de outra coisa durante dias. As cartas antigas tinham mexido com todos. Quem seriam aqueles jovens? Teriam ficado amigos para sempre? Teriam voltado a São Silvestre?
Numa tarde quente de agosto, voltaram a reunir-se no Largo de São Silvestre. O Francisco trazia um ar sério.
— O meu pai contou-me uma coisa — disse ele. — Antigamente, o sino da capela tocava sozinho em certas noites. Diziam que era sinal de promessa por cumprir.
O Quim arregalou os olhos.
— Sozinho? Isso é impossível.
— Impossível é não irmos ver — respondeu a Natércia.
Combinaram encontrar-se ao anoitecer, com a velha lanterna do quintal da casa do Francisco. O largo ficava diferente à noite: menos vozes, sombras mais longas, janelas iluminadas aqui e ali.
Aproximaram-se da capela em bicos de pés, como se o silêncio fosse frágil. O Paulo empurrou devagar a porta de madeira — que, para surpresa de todos, não estava trancada.
Lá dentro, o ar era fresco e cheirava a pedra antiga. A lanterna iluminava o altar simples e as paredes gastas pelo tempo. O coração do João batia tão alto que ele jurava que dava eco.
De repente…
Dong.
O sino soou uma vez.
Os quatro ficaram imóveis.
— Foi o vento — sussurrou a Natércia, sem muita convicção.
O Francisco apontou a luz para cima. A corda do sino balançava levemente.
Subiram as escadas estreitas até à pequena torre. Quando lá chegaram, perceberam o mistério: uma das janelas estava aberta e o vento da serra entrava com força, empurrando a corda.
O João soltou uma gargalhada de alívio.
— Afinal o fantasma era o vento!
Mas o Helder, que observava o chão, encontrou algo preso entre as tábuas: um papel dobrado, muito antigo. Abriram com cuidado.
Era apenas uma frase, escrita à mão:
"Prometemos voltar aqui todos os verões, enquanto formos amigos."
Os sete olharam uns para os outros em silêncio. Não era medo — era entendimento.
Sem combinar, deram as mãos em círculo.
— Então fazemos a mesma promessa — disse a Natércia.
E ali, na pequena torre da capela, fizeram o seu pacto: todos os verões, independentemente do que mudasse, voltariam a São Silvestre para uma nova aventura.
Ao sair, o sino tocou outra vez com o vento, mas agora soava diferente.
Soava a tradição a começar.
--------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀





UM ROMANCE NA COVILHÃ - (3º CAPÍTULO)

Capítulo 3 — Vinte anos depois

Vinte anos passaram.

A Cidade da Covilhã já não era exatamente a mesma — havia cafés novos, lojas diferentes, ruas e avenidas mais movimentadas. Mas as pedras continuavam lá. E o ar fresco da serra continuava a descer ao fim da tarde como se o tempo nunca tivesse aprendido a correr.
Xavi já não era o rapaz que sonhava com grandes histórias. Era um homem feito, com marcas de escolhas, perdas, conquistas. Fez o serviço militar, saído da cidade, começou a trabalhar. Mas naquele verão o passado ressuscitou.
Não por nostalgia.
Ou talvez um pouco.
Caminhou pelo centro da cidade com passos mais lentos. Passou pela antiga escola, olhou as vitrines renovadas, reconheceu cheiros familiares. Quando chegou ao jardim, o coração acelerou sem pedir autorização.
O banco ainda estava lá, mas o jardim estava renovado, os arbustos e os canteiros com flores já não existiam.
Sentou-se.
Abriu a mochila e tirou um livro antigo, gasto nas bordas. O mesmo. O que ela lhe tinha dado vinte anos antes.
Folheou até encontrar o bilhete que ainda guardava entre as páginas.
"Última corrida na piscina. Hoje."
Sorriu sozinho.
— Ainda guardas isso?
A voz veio atrás dele.
Xavi congelou por um segundo antes de se virar.
Era ela.
O tempo tinha desenhado maturidade no rosto dela, mas os olhos eram exatamente os mesmos. Aqueles olhos que riam antes da boca.
— Pensei que tinhas ido embora para sempre — disse ele, quase num sussurro.
— Fui. Mas algumas partes minhas ficaram aqui.
Sentaram-se lado a lado, como antes. Não houve pressa em falar. O silêncio já não era tímido; era confortável.
Ela contou que tinha vivido noutras cidades, trabalhado, amado, perdido, crescido. Ele contou o mesmo. Riram das versões jovens de si próprios.
— Sabes o que mais me marcou? — perguntou ela.
— A corrida?
— Não. O que disseste naquele miradouro. Que eu fazia parte da tua história.
Xavi respirou fundo.
— E fazes.
Ela olhou para as árvores do jardim.
— Eu voltei há alguns meses. Trouxe a minha filha para viver aqui. Queria que ela crescesse num sítio onde as histórias começam em bancos de jardim.
O coração dele bateu diferente.
— Então ainda acreditas nisso?
— Mais do que nunca.
O sol começava a descer, pintando o céu com tons dourados — quase iguais aos daquele verão distante. Como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa.
— Há uma piscina nova, na parte baixa da cidade - tem ondas - disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu.
— Ainda sabes perder corridas?
— Nunca foi sobre ganhar.
Ficaram ali mais um pouco. Vinte anos tinham passado, mas o que era verdadeiro não tinha desaparecido — apenas amadurecido.
Desta vez, quando as mãos se encontraram, não foi por acaso nem por despedida.
Foi escolha.
E Xavi percebeu, finalmente, que algumas histórias não acabam.
Elas esperam.
O relógio da torre de São Francisco dava as horas no mesmo instante que os lábios se uniam e a história se escrevia de vez…

FIM

Bom dia para todos nós🍀



UM ROMANCE NA COVILHÃ - (2º CAPÍTULO)

Capítulo 2 — O verão que não acabou

O verão terminou, mas a história não.

Quando setembro chegou à Covilhã, trouxe consigo o cheiro a cadernos novos e manhãs mais frescas. Xavi voltou às aulas no liceu com uma sensação estranha, como se carregasse um segredo só dele. Sempre que passava pelo jardim, o banco onde a tinha conhecido parecia guardar ecos de risos.

Mas ela ainda não tinha ido embora.

Numa tarde depois da escola, Xavi recebeu um bilhete dobrado dentro do manual de História. Só uma frase:

"Última corrida na piscina. Hoje."

Ele nem precisou de pensar.

Na piscina municipal, o ambiente estava quase vazio. A água refletia a luz suave do fim de dia. Ela já lá estava, sentada na borda, os pés a tocar a superfície.

— Pensei que não vinhas — disse ela.

— Eu nunca falto a uma última corrida — respondeu Xavi, tentando parecer confiante.

Alinharam lado a lado. Quando mergulharam, tudo ficou em silêncio. Só o som da respiração e o deslizar na água. Não era sobre ganhar. Era sobre guardar aquele momento para sempre.

Ela chegou primeiro à outra ponta, mas ficou à espera dele.

— Sabes — disse ela, ofegante — eu tenho medo de ir.

Xavi não esperava aquela confissão.

— Medo de quê?

— De que isto… — fez um gesto vago, como se apontasse para a água, para a cidade, para eles — fique só aqui.

Ele saiu da piscina e sentou-se ao lado dela.
Da piscina Municipal podia ver-se grande parte da Cova da Beira, os raios de sol eram refletidos desde que nascia até desaparecer no horizonte.

— Então não fica. — respondeu. — Não precisamos que as coisas fiquem iguais para continuarem a ser nossas.

No dia seguinte, encontraram-se outra vez no jardim. Sentaram-se no mesmo banco da primeira vez. Ela entregou-lhe o livro que estava a ler naquele dia.

— Fica com ele. Para continuares a escrever a nossa história na tua cabeça.

Xavi sorriu.

— Não vai ser só na cabeça.

Desta vez, quando as mãos se tocaram, não foi por acaso. E quando se despediram, houve um beijo — breve, inseguro, mas cheio de tudo o que não sabiam dizer.

Ela partiu no início de outubro.

Os dias passaram. O inverno chegou. A Covilhã ficou coberta de nevoeiro e frio. Xavi continuou a ir ao centro onde a esplanada do café MONTALTO era recolhida, e ao jardim com as arvores despidas de folhas. Mas já não procurava algo maior longe dali.

Porque tinha aprendido uma coisa: algumas pessoas não ficam para sempre no mesmo lugar, mas ficam para sempre dentro de nós.

E o sonho de menino transformou-se noutra coisa.

Não era viver uma grande história.

Era ter coragem de senti-la quando ela acontece.

(continua)…

Bom dia para todos nós🍀



FORÇA COVILHÃ!!!

🍀Hoje, todos os caminhos vão dar ao estádio José Santos Pinto.

Vamos equipa, Força Covilhã!!!

Bom domingo para todos nós💚



CONTOS DE UMA VIDA

🌼Grato pelo vosso Feedback nos comentários dos meus textos pois eles são muito importantes para me aperfeiçoar.

Escrevo apenas pelo gosto de escrever pois já em criança fazia uns rabiscos nos cadernos da escola. Agora que tenho a oportunidade de dar a conhecer os meus escritos, é com prazer que o faço e acreditem que é de corpo e alma.

Os meus contos tinham de passar quase todos invariavelmente pela cidade que eu adoro, a cidade que me viu nascer e crescer, a cidade da minha vida, Covilhã.
Muito do que escrevo é mesmo real, é baseado em acontecimentos que eu participei ou presenciei, aqui ou ali com alguma ficção, mas pouca. Pretendo que quem leia, saiba identificar os locais e as ruas e assim possa ser tocado interiormente pelas histórias.

Revelar também que o conto "ROMANCE NA COVILHÃ" vai ter um novo capitulo a pedido de vários seguidores que gostaram da primeira parte. Prevista publicação na segunda feira 23.
Também "UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE" terá continuação.

Espero que desfrutem destes contos e ao mesmo tempo aguardo pelos vossos comentários aos mesmos, a critica é que me faz evoluir.
Quanto a um futuro livro, quem sabe, um dia…

Bom dia para todos nós🍀



UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE

  Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.

Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Chico, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.

— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.

— Ninguém sabe — respondeu o Chico, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.

Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.

A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .

A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.

Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Francisco encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.

Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.

— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.

— E sobre a amizade — completou o João.

Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.

E, de certa forma, tinham.

Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

Bom dia para todos nós 🍀




Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...