UM ROMANCE NA COVILHÃ - (3º CAPÍTULO)

Capítulo 3 — Vinte anos depois

Vinte anos passaram.

A Cidade da Covilhã já não era exatamente a mesma — havia cafés novos, lojas diferentes, ruas e avenidas mais movimentadas. Mas as pedras continuavam lá. E o ar fresco da serra continuava a descer ao fim da tarde como se o tempo nunca tivesse aprendido a correr.
Xavi já não era o rapaz que sonhava com grandes histórias. Era um homem feito, com marcas de escolhas, perdas, conquistas. Fez o serviço militar, saído da cidade, começou a trabalhar. Mas naquele verão o passado ressuscitou.
Não por nostalgia.
Ou talvez um pouco.
Caminhou pelo centro da cidade com passos mais lentos. Passou pela antiga escola, olhou as vitrines renovadas, reconheceu cheiros familiares. Quando chegou ao jardim, o coração acelerou sem pedir autorização.
O banco ainda estava lá, mas o jardim estava renovado, os arbustos e os canteiros com flores já não existiam.
Sentou-se.
Abriu a mochila e tirou um livro antigo, gasto nas bordas. O mesmo. O que ela lhe tinha dado vinte anos antes.
Folheou até encontrar o bilhete que ainda guardava entre as páginas.
"Última corrida na piscina. Hoje."
Sorriu sozinho.
— Ainda guardas isso?
A voz veio atrás dele.
Xavi congelou por um segundo antes de se virar.
Era ela.
O tempo tinha desenhado maturidade no rosto dela, mas os olhos eram exatamente os mesmos. Aqueles olhos que riam antes da boca.
— Pensei que tinhas ido embora para sempre — disse ele, quase num sussurro.
— Fui. Mas algumas partes minhas ficaram aqui.
Sentaram-se lado a lado, como antes. Não houve pressa em falar. O silêncio já não era tímido; era confortável.
Ela contou que tinha vivido noutras cidades, trabalhado, amado, perdido, crescido. Ele contou o mesmo. Riram das versões jovens de si próprios.
— Sabes o que mais me marcou? — perguntou ela.
— A corrida?
— Não. O que disseste naquele miradouro. Que eu fazia parte da tua história.
Xavi respirou fundo.
— E fazes.
Ela olhou para as árvores do jardim.
— Eu voltei há alguns meses. Trouxe a minha filha para viver aqui. Queria que ela crescesse num sítio onde as histórias começam em bancos de jardim.
O coração dele bateu diferente.
— Então ainda acreditas nisso?
— Mais do que nunca.
O sol começava a descer, pintando o céu com tons dourados — quase iguais aos daquele verão distante. Como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa.
— Há uma piscina nova, na parte baixa da cidade - tem ondas - disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu.
— Ainda sabes perder corridas?
— Nunca foi sobre ganhar.
Ficaram ali mais um pouco. Vinte anos tinham passado, mas o que era verdadeiro não tinha desaparecido — apenas amadurecido.
Desta vez, quando as mãos se encontraram, não foi por acaso nem por despedida.
Foi escolha.
E Xavi percebeu, finalmente, que algumas histórias não acabam.
Elas esperam.
O relógio da torre de São Francisco dava as horas no mesmo instante que os lábios se uniam e a história se escrevia de vez…

FIM

Bom dia para todos nós🍀



UM ROMANCE NA COVILHÃ - (2º CAPÍTULO)

Capítulo 2 — O verão que não acabou

O verão terminou, mas a história não.

Quando setembro chegou à Covilhã, trouxe consigo o cheiro a cadernos novos e manhãs mais frescas. Xavi voltou às aulas no liceu com uma sensação estranha, como se carregasse um segredo só dele. Sempre que passava pelo jardim, o banco onde a tinha conhecido parecia guardar ecos de risos.

Mas ela ainda não tinha ido embora.

Numa tarde depois da escola, Xavi recebeu um bilhete dobrado dentro do manual de História. Só uma frase:

"Última corrida na piscina. Hoje."

Ele nem precisou de pensar.

Na piscina municipal, o ambiente estava quase vazio. A água refletia a luz suave do fim de dia. Ela já lá estava, sentada na borda, os pés a tocar a superfície.

— Pensei que não vinhas — disse ela.

— Eu nunca falto a uma última corrida — respondeu Xavi, tentando parecer confiante.

Alinharam lado a lado. Quando mergulharam, tudo ficou em silêncio. Só o som da respiração e o deslizar na água. Não era sobre ganhar. Era sobre guardar aquele momento para sempre.

Ela chegou primeiro à outra ponta, mas ficou à espera dele.

— Sabes — disse ela, ofegante — eu tenho medo de ir.

Xavi não esperava aquela confissão.

— Medo de quê?

— De que isto… — fez um gesto vago, como se apontasse para a água, para a cidade, para eles — fique só aqui.

Ele saiu da piscina e sentou-se ao lado dela.
Da piscina Municipal podia ver-se grande parte da Cova da Beira, os raios de sol eram refletidos desde que nascia até desaparecer no horizonte.

— Então não fica. — respondeu. — Não precisamos que as coisas fiquem iguais para continuarem a ser nossas.

No dia seguinte, encontraram-se outra vez no jardim. Sentaram-se no mesmo banco da primeira vez. Ela entregou-lhe o livro que estava a ler naquele dia.

— Fica com ele. Para continuares a escrever a nossa história na tua cabeça.

Xavi sorriu.

— Não vai ser só na cabeça.

Desta vez, quando as mãos se tocaram, não foi por acaso. E quando se despediram, houve um beijo — breve, inseguro, mas cheio de tudo o que não sabiam dizer.

Ela partiu no início de outubro.

Os dias passaram. O inverno chegou. A Covilhã ficou coberta de nevoeiro e frio. Xavi continuou a ir ao centro onde a esplanada do café MONTALTO era recolhida, e ao jardim com as arvores despidas de folhas. Mas já não procurava algo maior longe dali.

Porque tinha aprendido uma coisa: algumas pessoas não ficam para sempre no mesmo lugar, mas ficam para sempre dentro de nós.

E o sonho de menino transformou-se noutra coisa.

Não era viver uma grande história.

Era ter coragem de senti-la quando ela acontece.

(continua)…

Bom dia para todos nós🍀



FORÇA COVILHÃ!!!

🍀Hoje, todos os caminhos vão dar ao estádio José Santos Pinto.

Vamos equipa, Força Covilhã!!!

Bom domingo para todos nós💚



CONTOS DE UMA VIDA

🌼Grato pelo vosso Feedback nos comentários dos meus textos pois eles são muito importantes para me aperfeiçoar.

Escrevo apenas pelo gosto de escrever pois já em criança fazia uns rabiscos nos cadernos da escola. Agora que tenho a oportunidade de dar a conhecer os meus escritos, é com prazer que o faço e acreditem que é de corpo e alma.

Os meus contos tinham de passar quase todos invariavelmente pela cidade que eu adoro, a cidade que me viu nascer e crescer, a cidade da minha vida, Covilhã.
Muito do que escrevo é mesmo real, é baseado em acontecimentos que eu participei ou presenciei, aqui ou ali com alguma ficção, mas pouca. Pretendo que quem leia, saiba identificar os locais e as ruas e assim possa ser tocado interiormente pelas histórias.

Revelar também que o conto "ROMANCE NA COVILHÃ" vai ter um novo capitulo a pedido de vários seguidores que gostaram da primeira parte. Prevista publicação na segunda feira 23.
Também "UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE" terá continuação.

Espero que desfrutem destes contos e ao mesmo tempo aguardo pelos vossos comentários aos mesmos, a critica é que me faz evoluir.
Quanto a um futuro livro, quem sabe, um dia…

Bom dia para todos nós🍀



UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE

  Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.

Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Chico, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.

— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.

— Ninguém sabe — respondeu o Chico, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.

Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.

A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .

A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.

Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Francisco encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.

Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.

— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.

— E sobre a amizade — completou o João.

Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.

E, de certa forma, tinham.

Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

Bom dia para todos nós 🍀




UM ROMANCE NA COVILHÃ

 Agosto de 1983

 Na Covilhã, entre as ruas de pedra e o ar fresco que desce da serra, vivia um adolescente humilde e um pouco tímido. Ele tinha um sonho de menino que nunca o abandonara, queria sentir que a sua vida dava uma grande história, daquelas que se contam anos depois.

 Numa tarde de verão, depois das matriculas no liceu, subiu até ao centro da cidade. O sol dourava as arcadas dos Paços do Concelho, e o movimento das pessoas fazia-o imaginar para onde iriam, que segredos teriam. Mas o seu lugar era o jardim - um refúgio verde com bancos antigos, o lago com peixes, belos canteiros com flores coloridas e árvores altas que sussurravam ao vento. 

Foi lá que ele a viu pela primeira vez. 

Ela estava sentada nos bancos frente às grades que serviam de miradouro para a serra da estrela, a balançar os pés distraidamente enquanto lia um livro. Tinha ao lado uma mochila com uma toalha de banho a espreitar. Xavi Reconheceu-a; já a tinha visto na piscina municipal, sempre a nadar como se o mundo desaparecesse debaixo de agua. 

Nesse dia algo diferente aconteceu. Uma bola de um grupo de crianças rolou até ao lago do jardim, ficando presa perto da borda escorregadia. Sem pensar, Xavi aproximou-se para ajudar, mas o pé fugiu-lhe - e quase caiu à agua. Antes disso uma mão segurou-lhe o braço. 

-Cuidado - disse a rapariga do livro, rindo. 

-Heróis também escorregam.

Assim começaram a conversar. Descobriram que ambos iam muitas vezes à piscina, que gostavam do mesmo tipo de música e que partilhavam a sensação de querer "algo maior" da vida. Nos dias seguintes passaram a encontrar-se: às vezes nadavam juntos, desafiando-se em corridas, outras vezes passeavam pelo centro da cidade, inventando histórias, e quase sempre terminavam no jardim, onde falavam dos seus sonhos.

Certa tarde, ela confessou que talvez fosse mudar de cidade no ano seguinte. Xavi sentiu um aperto - como se o Verão ficasse mais curto de repente. Então teve uma ideia: no dia seguinte, levou-a até ao seu miradouro favorito,  monumento de Nossa Senhora da Conceição, de onde se via a cidade inteira.

-Eu não posso prender-te aqui - disse ele.

-Mas queria que soubesses que, aconteça o que acontecer , fizeste parte da minha história.

Ela sorriu, com os olhos brilhantes.

- Então escreve uma história bonita - respondeu - e garante que eu apareço nela. 

O primeiro gesto de romance veio tímido; sentaram-se lado a lado, mãos quase a tocar, até que tocaram mesmo. Não foi um grande beijo de cinema, nem promessas eternas. Foi melhor, foi verdadeiro. 

O verão acabou, como todos acabam. Mas Xavi percebeu algo importante - o sonho de menino não era viver uma aventura distante. Era aprender a ver a aventura e romance nos dias simples, na sua própria cidade, nas pessoas que entram na nossa vida quando menos esperamos.

E durante muito tempo, sempre que passava pelo jardim, sorria. Porque sabia, a sua história já tinha começado. 

Bom dia para todos nós 🍀



Muito obrigado pela vossa visita

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