CAMINHOS CRUZADOS Episódio 7 — O nome

Sofia passou a noite quase sem dormir.
A palavra continuava a martelar-lhe a cabeça:
Francisco.
O mesmo nome que, por uma estranha coincidência, pertencia ao homem que conhecera no centro da cidade.
Ou seria mesmo uma coincidência?
Na manhã seguinte, ligou a Cláudia.
— Preciso de falar contigo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Descobri o nome do homem que a tua mãe disse estar ligado àquela mulher.
Do outro lado fez-se silêncio.
— Qual é o nome?
Sofia respirou fundo.
— Francisco.
Cláudia demorou alguns segundos a responder.
— Sofia... é melhor não tirares conclusões precipitadas.
— Eu sei. Mas ontem conheci um Francisco.
— O Francisco que me falaste?
— Sim.
— E sabes alguma coisa sobre ele?
— Não. Foi apenas um encontro casual.
Cláudia ficou pensativa.
— Então temos de descobrir quem ele é.
Nesse mesmo dia, Sofia voltou ao centro da cidade.
Caminhou sem destino definido, tentando organizar os pensamentos.
Passou pelos Correios, percorreu algumas ruas antigas e acabou por parar junto a um café.
Foi então que ouviu uma voz atrás de si.
— Sofia?
Voltou-se.
Era Francisco.
— Outra vez?
Ele sorriu.
— Parece que a Covilhã é pequena.
— Ou talvez seja o destino — respondeu Sofia, quase sem pensar.
Francisco sorriu.
— Talvez.
Sentaram-se para tomar um café.
Desta vez, Sofia observou-o com atenção.
— Posso fazer-te uma pergunta?
— Claro.
— A tua família é da Covilhã?
Francisco pareceu surpreendido.
— É. Os meus pais nasceram cá. Os meus avós também.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— E conheces muita gente antiga da cidade?
— Algumas pessoas. Porquê?
Sofia hesitou.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
O sorriso de Francisco desapareceu.
Durante alguns segundos, ficou completamente imóvel.
— Onde ouviste esse nome?
Sofia percebeu imediatamente que tinha tocado num ponto sensível.
— Foi apenas uma pergunta.
Francisco baixou os olhos.
— Rita era o nome da minha mãe.
Sofia ficou sem palavras.
— Era?
Francisco respirou fundo.
— Morreu há alguns anos.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Lamento muito.
— Obrigado.
Houve um silêncio pesado entre os dois.
— Porque perguntaste por ela? — quis saber Francisco.
Sofia não respondeu.
Ainda não podia.
Não sabia se podia confiar nele.
Mais tarde, encontrou-se com Cláudia.
— Ele conhecia a Rita — disse Sofia.
Cláudia arregalou os olhos.
— A sério?
— Era a mãe dele.
— Então talvez tenhas encontrado uma ligação.
Sofia retirou a fotografia da mala.
— Talvez.
Cláudia olhou para a imagem.
— Sofia...
— O quê?
— Há uma coisa que ainda não reparaste.
Cláudia apontou para o canto inferior da fotografia.
Havia uma pequena marca quase apagada.
Uma letra.
F.
Sofia aproximou a fotografia dos olhos.
— “F” de Francisco?
Cláudia não respondeu.
Sofia sentiu um arrepio.
Se aquela fotografia tinha sido tirada em 2001, se a mulher era Rita e se Francisco estava ligado a ela...
quem era, afinal, o bebé que Rita segurava nos braços?
Naquele momento, o telemóvel de Sofia tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, preciso de falar consigo com urgência.
— Aconteceu alguma coisa?
A voz de Maria da Luz tremia.
— Encontrei outra coisa dentro da velha caixa.
Sofia levantou-se.
— O quê?
Do outro lado ouviu-se apenas uma frase:
— Encontrei um documento com o teu nome.

Fim do Episódio 7



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 6 — A mulher da fotografia

Sofia permaneceu imóvel diante do telemóvel.
A fotografia ampliada mostrava-a ainda criança, ao colo de Beatriz.
Mas era o fundo que lhe prendia a atenção.
A mulher que aparecia parcialmente atrás delas tinha o rosto voltado para a câmara.
Sofia aproximou a imagem.
O coração acelerou.
Era ela.
Ou, pelo menos, era extraordinariamente parecida com a mulher que aparecia na fotografia antiga.
Pegou na fotografia que Maria da Luz lhe tinha dado e colocou-a ao lado do telemóvel.
Comparou os dois rostos.
Os mesmos olhos.
O mesmo formato do rosto.
Até o cabelo parecia semelhante.
— Não pode ser... — murmurou.
De repente, ouviu o som de uma mensagem.
Era Cláudia.
“Descobriste alguma coisa?”
Sofia respondeu:
“Acho que encontrei a mulher da fotografia.”
A resposta chegou quase imediatamente.
“Quem é?”
Sofia hesitou antes de escrever:
“Não sei. Mas aparece numa fotografia minha de quando era bebé.”
Cláudia demorou alguns segundos.
Depois escreveu:
“Sofia, não mostres isso a ninguém. Principalmente aos teus pais.”
Sofia ficou a olhar para o ecrã.
Aquelas palavras assustaram-na.
“Porquê?”
Cláudia não respondeu.
Em Lyon, Beatriz pousou o telemóvel sobre a mesa.
António percebeu imediatamente que alguma coisa não estava bem.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Beatriz...
Ela levantou-se e caminhou até à janela.
— A Sofia anda estranha.
António ficou calado.
— Achas que ela descobriu alguma coisa? — perguntou finalmente.
Beatriz virou-se.
— Ainda não.
— Ainda?
Ela não respondeu.
António aproximou-se.
— Nós sabíamos que este dia chegaria.
— Eu sei.
— Então temos de estar preparados.
Beatriz levou as mãos ao rosto.
— Eu não consigo perdê-la, António.
— Não vais perdê-la.
— E se ela nunca nos perdoar?
António ficou em silêncio.
Porque, no fundo, essa era também a pergunta que mais o atormentava.
Na Covilhã, Sofia decidiu voltar ao local onde Maria da Luz tinha encontrado a fotografia.
Talvez houvesse mais alguma coisa naquela velha caixa.
Antes de sair, recebeu finalmente uma mensagem de Cláudia.
“A minha mãe lembrou-se de mais uma coisa. Disse que a mulher da fotografia tinha alguém à espera dela.”
Sofia respondeu:
“Quem?”
A resposta demorou.
Quando chegou, Sofia sentiu um arrepio.
“Um homem.”
E logo depois outra mensagem:
“E a minha mãe lembra-se do nome dele.”
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
O nome apareceu no ecrã alguns segundos depois.
Francisco.
Sofia deixou cair o telemóvel sobre a cama.
O homem que tinha conhecido por acaso no centro da cidade podia estar ligado ao segredo que perseguia a sua vida.

Fim do Episódio 6.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 5 — A fotografia

Sofia continuava a olhar para Maria da Luz.
Aquela última frase parecia ecoar-lhe na cabeça.
“Disseram-me que aquela criança ia partir para França.”
— Quem lhe disse isso? — perguntou finalmente.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Já passaram muitos anos, Sofia. Há coisas de que já não me lembro bem.
— Mas lembra-se de a ter visto?
— Lembro-me de uma mulher muito jovem. E lembro-me de que estava desesperada.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
— E o bebé?
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Não sei se devo dizer mais alguma coisa.
— Por favor.
A mulher respirou fundo.
— Só me lembro de uma coisa: aquela criança não estava bem.
Sofia sentiu um arrepio.
— Não estava bem como?
— Era muito pequena. Precisava de cuidados. A mulher dizia que não tinha condições para ficar com ela.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Nunca me tinhas contado isso.
— Porque não era uma história minha para contar.
Sofia sentiu os olhos humedecerem.
— E depois?
Maria da Luz abanou a cabeça.
— Depois, desapareceu.
— Para onde?
— Não sei.
Sofia olhou novamente para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé tinha uma expressão triste. Não parecia estar a despedir-se de alguém. Parecia estar a lutar contra uma decisão que não queria tomar.
— Maria da Luz... sabe quem era essa mulher?
A resposta demorou alguns segundos.
— Talvez.
Sofia levantou imediatamente os olhos.
— Talvez?
— Tenho uma vaga lembrança de um nome.
— Qual?
Maria da Luz fechou os olhos por momentos, tentando recordar.
— Rita.
O nome ficou suspenso entre as três.
Rita.
Sofia repetiu baixinho:
— Rita...
Ao sair do café, Sofia caminhava ao lado de Cláudia em silêncio.
— Estás bem? — perguntou a amiga.
— Não sei.
— Queres que esqueçamos isto?
Sofia parou.
— Não.
Olhou para a fotografia que tinha guardado cuidadosamente na mala.
— Quero saber quem é aquela mulher.
— E se descobrires alguma coisa que não gostes?
Sofia respirou fundo.
— Então terei de aprender a viver com a verdade.
As duas continuaram a caminhar.
Ao atravessarem uma das ruas do centro da cidade, Sofia quase chocou com um homem que vinha distraído, olhando para o telemóvel.
— Desculpe! — disseram os dois ao mesmo tempo.
O homem sorriu.
— A culpa foi minha.
Sofia sorriu também.
— Não faz mal.
— Sou Francisco.
— Sofia.
Por breves instantes, os dois ficaram a olhar um para o outro.
Cláudia, alguns passos à frente, voltou-se e sorriu discretamente.
— Vamos? — chamou.
— Já vou.
Sofia despediu-se de Francisco e continuou o caminho.
Não sabia ainda quem ele era.
Nem imaginava que aquele encontro aparentemente insignificante voltaria a cruzar-se com a sua vida.
Nessa noite, Sofia abriu novamente a fotografia.
Virou-a.
A frase continuava lá:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Pegou no telemóvel e procurou entre as fotografias antigas que tinha guardadas.
Queria encontrar alguma imagem da sua infância.
Depois de alguns minutos, encontrou uma fotografia que Beatriz lhe tinha enviado anos antes.
Sofia ampliou-a.
Era muito pequena.
Estava ao colo de Beatriz.
Mas havia algo naquela fotografia que nunca tinha reparado.
Ao fundo, parcialmente escondida, estava uma mulher.
Sofia aproximou ainda mais a imagem.
O coração começou a bater-lhe depressa.
Aquela mulher parecia-se demasiado com a mulher da fotografia antiga.

Fim do Episódio 5.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 4 — A voz do passado

Sofia continuava com o telemóvel na mão.
O nome de Beatriz permanecia no ecrã.
Durante alguns segundos, não soube o que fazer.
Atender significava ouvir a voz da mulher que sempre conhecera como mãe. Mas, naquele momento, uma pergunta começava a crescer dentro dela.
E se houvesse coisas que Beatriz nunca lhe tinha contado?
Respirou fundo e atendeu.
— Olá, mãe.
— Então, filha? Estás bem? — perguntou Beatriz.
— Estou.
— Pareces-me um pouco estranha.
Sofia ficou em silêncio.
— Estou só cansada da viagem.
Do outro lado, Beatriz demorou alguns segundos a responder.
— Tens a certeza?
— Tenho, mãe.
António aproximou-se de Beatriz.
— É a Sofia?
Beatriz confirmou com um gesto.
— O teu pai manda um beijo.
— Outro para ele.
Sofia quase perguntou:
“Mãe, onde estava eu quando era bebé?”
Mas a pergunta ficou presa na garganta.
— Vou desligar, mãe. Amanhã falamos melhor.
— Está bem, filha. Aproveita as férias.
— Vou aproveitar.
Quando desligou, Sofia voltou a olhar para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé continuava a provocar-lhe uma sensação estranha.
Não conseguia explicar porquê.
Na manhã seguinte, Cláudia apareceu novamente.
Desta vez, trazia consigo uma mulher de cabelos grisalhos e olhar tranquilo.
— Sofia, quero apresentar-te a minha mãe.
— Maria da Luz — disse a mulher, estendendo-lhe a mão.
Sofia sorriu.
— Muito prazer.
Maria da Luz ficou alguns segundos a olhar para Sofia.
Não era um olhar indiscreto.
Era um olhar de quem tentava reconhecer alguém.
— És muito parecida com a tua mãe — disse finalmente.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Com a minha mãe?
— Sim... com a Beatriz.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Ou talvez não.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Mãe...
— Desculpa, Sofia. Não devia ter dito isso.
Mas já era tarde.
Sofia sentou-se.
— O que é que a senhora sabe?
Maria da Luz respirou fundo.
— Sei apenas aquilo que ouvi há muitos anos. E talvez nem tudo seja verdade.
— Então conte-me.
A mulher hesitou.
— Quando eras bebé, houve uma mulher que apareceu por aqui algumas vezes. Era muito jovem. Andava sempre muito preocupada.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— Quem era ela?
Maria da Luz abanou lentamente a cabeça.
— Não sei o nome.
— E o que aconteceu?
— Um dia deixou de aparecer.
Sofia levantou-se.
— E a fotografia?
Maria da Luz olhou para Cláudia.
Depois para Sofia.
— Essa fotografia… eu lembro-me de a ter visto.
Sofia ficou sem palavras.
— Onde?
Maria da Luz aproximou-se dela e falou quase num sussurro:
— Na altura, disseram-me que aquela criança ia partir para França.
O mundo pareceu parar.
Sofia olhou para Cláudia.
— Para França?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
De repente, uma pergunta tornou-se impossível de ignorar:
E se aquela criança fosse ela?

Fim do Episódio 4.





CAMINHOS CRUZADOS Episódio 3 — Uma velha recordação

Sofia continuava a olhar para o telemóvel.
A mensagem de Cláudia não lhe saía da cabeça.
“Tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Porquê tanto mistério?
Durante alguns segundos, pensou em telefonar-lhe, mas acabou por escrever:
— Prometo. Mas agora tens de me contar.
A resposta demorou.
Um minuto.
Dois.
Depois chegou:
— Não por mensagem. Quero falar contigo pessoalmente.
Sofia suspirou.
— Está bem. Quando?
— Amanhã de manhã. No Jardim do Lago.
Sofia pousou o telemóvel sobre a mesa.
Sentia uma inquietação que não conseguia explicar.
Naquela noite, tentou distrair-se. Abriu uma série na televisão, respondeu a algumas mensagens e chegou mesmo a preparar a roupa para o dia seguinte.
Mas a pergunta continuava presente.
O que sabia a mãe de Cláudia sobre ela?
Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo ao Jardim do Lago.
O sol iluminava a cidade e, ao longe, a Serra da Estrela destacava-se no horizonte.
Sentou-se num banco e esperou.
Poucos minutos depois, viu Cláudia aproximar-se.
— Desculpa o atraso.
— Não faz mal. Mas agora vais ter de me explicar tudo.
Cláudia sentou-se ao lado dela.
— Ontem falei com a minha mãe.
Sofia ficou imediatamente atenta.
— E?
— Perguntei-lhe o que sabia sobre ti quando eras pequena.
— O que ela disse?
Cláudia hesitou.
— Disse que, quando vocês foram para França, houve muita gente que ficou surpreendida.
— Porquê?
— Porque, segundo ela, havia coisas na tua história que ninguém percebia muito bem.
Sofia franziu a testa.
— Que coisas?
— Ela não quis explicar.
— Cláudia...
— Espera. Há mais.
Cláudia abriu a mala e retirou um pequeno envelope.
— A minha mãe encontrou isto numa caixa antiga.
Sofia olhou para o envelope.
— O que é?
— Não sei. Ela disse apenas que talvez fosse teu.
Sofia pegou nele.
As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
Abriu devagar.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Uma mulher muito jovem segurava um bebé ao colo.
Sofia ficou a olhar para a fotografia.
— Quem é esta mulher?
Cláudia abanou a cabeça.
— Não sei.
No verso da fotografia havia uma data.
2001.
Sofia ficou confusa.
— Mas eu nasci em 2001...
Cláudia olhou para ela.
— Eu sei.
O coração de Sofia começou a bater mais depressa.
Voltou a olhar para a fotografia.
Havia qualquer coisa naquele rosto.
Não sabia o quê.
Uma sensação.
Uma familiaridade inexplicável.
— Cláudia... onde é que a tua mãe encontrou isto?
— Numa caixa que pertenceu à minha avó.
Sofia virou a fotografia.
No verso, além da data, havia uma frase escrita à mão.
A tinta estava já desbotada, mas ainda era possível ler:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Sofia levantou lentamente os olhos.
— A verdade sobre quê?
Cláudia não respondeu.
Porque, naquele preciso momento, o telemóvel de Sofia começou a tocar.
Era Beatriz.
Sofia olhou para o nome no ecrã.
E, pela primeira vez na vida, sentiu medo de atender a chamada da mulher que sempre chamara de mãe.

Fim do Episódio 3.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 2 — O regresso

A Serra da Estrela surgiu finalmente no horizonte.
Depois de tantas horas de viagem, Sofia sentiu uma emoção difícil de explicar.
Sorriu.
— Finalmente… Covilhã!
Havia lugares que, por mais tempo que passasse, continuavam a fazer parte de nós.
Sofia tinha saído dali ainda criança, quando António e Beatriz emigraram para França à procura de uma vida melhor. Lyon tornara-se a sua casa, mas a Covilhã nunca deixara de ser a sua terra.
Entrou na cidade e começou a reconhecer os lugares que guardava na memória.
A estação, algumas ruas, os prédios que pareciam mais pequenos do que recordava…
Tudo lhe despertava lembranças.
Quando chegou à casa onde iria ficar durante as férias, deixou as malas no quarto e abriu a janela.
Respirou fundo.
Estava de volta.
O telemóvel tocou.
— Então, já chegaste? — perguntou Beatriz, do outro lado.
— Já, mãe. Cheguei há pouco.
— Correu tudo bem?
— Sim. Estou cansada, mas feliz.
António apareceu junto de Beatriz.
— Manda um beijo à nossa menina — disse ele.
— Eu ouvi! — respondeu Sofia, rindo.
— Aproveita bem as férias — disse Beatriz. — E não te esqueças de descansar.
— Prometo.
Depois de desligar, Sofia ficou alguns segundos a olhar para o telemóvel.
Sentia saudades dos pais, mas também uma enorme vontade de aproveitar aqueles dias.
Pouco depois recebeu uma mensagem.
Cláudia: “Já estás na Covilhã?”
Sofia respondeu imediatamente:
“Sim! Quando nos vemos?”
A resposta não demorou.
“Daqui a pouco. E prepara-te, porque tenho muita coisa para te contar.”
Sofia sorriu.
Conhecia bem Cláudia.
Quando ela dizia que tinha muita coisa para contar, normalmente significava que a conversa ia durar horas.
Encontraram-se pouco depois.
O abraço foi apertado.
— Estás igual! — disse Cláudia.
— Tu é que estás diferente.
— Para melhor?
— Ainda estou a decidir.
As duas começaram a rir.
Foram tomar um café e passaram boa parte da tarde a recordar histórias antigas, pessoas que tinham conhecido e episódios da infância.
Sofia sentia-se novamente em casa.
Até que, a certa altura, Cláudia ficou mais séria.
— Posso fazer-te uma pergunta?
— Claro.
— Nunca tiveste curiosidade sobre os teus primeiros anos na Covilhã?
Sofia franziu o sobrolho.
— Como assim?
— Tu eras muito pequena quando foste para França. Há coisas de que provavelmente nem te lembras.
— É normal. Eu era uma criança.
Cláudia hesitou.
— A minha mãe contou-me algumas coisas há muitos anos. Sobre aquela época.
Sofia olhou para ela com atenção.
— Que coisas?
Cláudia pareceu arrepender-se de ter começado aquela conversa.
— Nada de importante. Esquece.
— Agora tens de contar.
— Depois falamos disso.
Sofia ficou intrigada.
Quando regressou a casa, tentou não pensar mais no assunto.
Mas não conseguiu.
Naquela noite, ligou aos pais.
Beatriz atendeu.
— Está tudo bem, filha?
— Está. Queria só ouvir a vossa voz.
— Já estás com saudades?
— Um bocadinho.
Conversaram durante alguns minutos.
Sofia esteve quase a perguntar sobre a sua infância.
Quase.
Mas alguma coisa a fez parar.
— Boa noite, mãe.
— Boa noite, filha. Dorme bem.
Depois de desligar, Sofia ficou sentada na cama, pensativa.
A conversa com Cláudia continuava a incomodá-la.
Pegou no telemóvel.
Tinha uma nova mensagem.
Era de Cláudia.
“Sofia, estive a pensar no que te disse hoje. Acho que chegou a altura de te contar uma coisa que ouvi da minha mãe há muitos anos.”
Sofia sentiu um arrepio.
Antes que pudesse responder, chegou uma segunda mensagem:
“Mas tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Sofia ficou a olhar para o ecrã.
O que poderia ser tão importante?
E por que razão a mãe de Cláudia saberia alguma coisa sobre os primeiros anos da sua vida?

Fim do Episódio 2.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 1 — Antes da viagem

Lyon acordava lentamente naquela manhã de verão.
Pelas ruas, a cidade começava a ganhar o movimento habitual. Pessoas apressadas a caminho do trabalho, cafés a abrir portas e o ruído dos carros misturavam-se com os primeiros raios de sol.
Sofia olhou para o relógio antes de sair de casa.
Tinha 25 anos e trabalhava como enfermeira num hospital de Lyon. Gostava da profissão, apesar das exigências e das noites mal dormidas. Cuidar dos outros fazia parte da sua vida e, de certa forma, era aquilo que a fazia sentir-se útil.
Naquela manhã, porém, havia outra coisa a ocupar-lhe os pensamentos.
As férias.
— Finalmente! — disse Sofia, sorrindo enquanto fechava a mala. — Este ano preciso mesmo de descansar.
Na sala, António e Beatriz preparavam o pequeno-almoço.
— Já tens tudo pronto? — perguntou Beatriz.
— Acho que sim. Só falta meter algumas coisas no carro.
António levantou os olhos do café e sorriu.
— Covilhã outra vez...
Sofia riu.
— E que mal tem? É a minha terra. Tenho saudades.
Beatriz ficou alguns segundos em silêncio.
— Também eu...
Sofia não reparou na expressão da mãe.
Para ela, aquela viagem era apenas o regresso temporário a uma cidade que guardava algumas das melhores recordações da sua infância.
António e Beatriz tinham sido sempre o seu porto seguro. Tinham estado presentes nos momentos bons e nos momentos difíceis. Sofia nunca tivera razões para duvidar do amor daqueles dois.
E talvez por isso não compreendesse o estranho silêncio que, por vezes, surgia quando falavam dos primeiros anos da sua vida.
— Mãe?
— Sim?
— Estás bem?
Beatriz sorriu rapidamente.
— Estou, filha. Só estou a pensar que o tempo passa depressa demais.
Sofia aproximou-se e abraçou-a.
— Quando voltar, continuas a ter aqui a tua filha para te chatear.
Beatriz apertou-a contra si.
— Sempre.
Foi uma palavra simples.
Mas António, que observava as duas, baixou os olhos.
Havia coisas que não se diziam.
Havia perguntas que nunca tinham sido feitas.
E havia uma história enterrada há vinte e cinco anos que António e Beatriz tinham jurado nunca revelar.
Horas depois, Sofia entrou no carro.
Antes de partir, olhou uma última vez para a casa onde crescera.
Sentia-se feliz.
Não sabia que aquela viagem a Portugal iria mudar para sempre a sua vida.
A estrada parecia interminável, mas Sofia estava animada.
Pelo caminho, enviou uma mensagem a uma amiga na Covilhã:
“Amanhã estou aí. Temos de pôr a conversa em dia!”
Guardou o telemóvel e sorriu.
Não fazia ideia de que, dentro de poucos dias, uma conversa muito diferente iria acontecer.
Uma conversa que começaria por acaso.
Uma conversa que lhe faria uma pergunta para a qual nunca estivera preparada.
Quem era, afinal, Sofia?

Fim do Episódio 1.



🌿 AS FÉRIAS ESTÃO POR UM FIO… E UMA NOVA HISTÓRIA ESTÁ PRESTES A COMEÇAR! 📖❤️

As férias estão por um fio… Em breve, volto ao trabalho, com a dedicação de sempre. E, como a vida passa depressa, não tarda estamos no Natal e, quando dermos por isso, as férias estarão aí outra vez.

É assim a vida: feita de ciclos, de partidas e regressos, de momentos que passam demasiado depressa. 

Mas há algo que devemos valorizar acima de tudo: a saúde. Porque, sem ela, não conseguimos saborear verdadeiramente os pequenos e grandes momentos que a vida nos oferece. 

Mas estas férias não foram apenas para descansar. Também foram de muito trabalho!
Durante este período, dediquei muitas horas a escrever um romance que, a partir de amanhã, começarei a publicar aqui, diariamente, sempre à mesma hora, ao longo de 90 dias ininterruptos.

São três meses de uma história que espero que vos faça companhia, vos emocione, vos surpreenda e, acima de tudo, vos dê vontade de voltar no dia seguinte para descobrir o que vem a seguir.

Vou desvendar-vos um pequeno segredo…

O romance chama-se “CAMINHOS CRUZADOS” e a trama passa-se nos nossos dias, na época que vivemos atualmente.
E talvez seja precisamente por isso que algumas das personagens, algumas das situações e alguns dos caminhos desta história vos possam parecer estranhamente familiares…
Mas não vou contar mais. 

Uma história escrita com muito carinho, que espero que vocês gostem tanto de ler como eu gostei de a escrever.
E agora que já disse tudo… ou quase tudo… 

Não faltem ao primeiro capítulo! 

Bom dia para todos nós 🍀



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...