CAMINHOS CRUZADOS Episódio 4 — A voz do passado

Sofia continuava com o telemóvel na mão.
O nome de Beatriz permanecia no ecrã.
Durante alguns segundos, não soube o que fazer.
Atender significava ouvir a voz da mulher que sempre conhecera como mãe. Mas, naquele momento, uma pergunta começava a crescer dentro dela.
E se houvesse coisas que Beatriz nunca lhe tinha contado?
Respirou fundo e atendeu.
— Olá, mãe.
— Então, filha? Estás bem? — perguntou Beatriz.
— Estou.
— Pareces-me um pouco estranha.
Sofia ficou em silêncio.
— Estou só cansada da viagem.
Do outro lado, Beatriz demorou alguns segundos a responder.
— Tens a certeza?
— Tenho, mãe.
António aproximou-se de Beatriz.
— É a Sofia?
Beatriz confirmou com um gesto.
— O teu pai manda um beijo.
— Outro para ele.
Sofia quase perguntou:
“Mãe, onde estava eu quando era bebé?”
Mas a pergunta ficou presa na garganta.
— Vou desligar, mãe. Amanhã falamos melhor.
— Está bem, filha. Aproveita as férias.
— Vou aproveitar.
Quando desligou, Sofia voltou a olhar para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé continuava a provocar-lhe uma sensação estranha.
Não conseguia explicar porquê.
Na manhã seguinte, Cláudia apareceu novamente.
Desta vez, trazia consigo uma mulher de cabelos grisalhos e olhar tranquilo.
— Sofia, quero apresentar-te a minha mãe.
— Maria da Luz — disse a mulher, estendendo-lhe a mão.
Sofia sorriu.
— Muito prazer.
Maria da Luz ficou alguns segundos a olhar para Sofia.
Não era um olhar indiscreto.
Era um olhar de quem tentava reconhecer alguém.
— És muito parecida com a tua mãe — disse finalmente.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Com a minha mãe?
— Sim... com a Beatriz.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Ou talvez não.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Mãe...
— Desculpa, Sofia. Não devia ter dito isso.
Mas já era tarde.
Sofia sentou-se.
— O que é que a senhora sabe?
Maria da Luz respirou fundo.
— Sei apenas aquilo que ouvi há muitos anos. E talvez nem tudo seja verdade.
— Então conte-me.
A mulher hesitou.
— Quando eras bebé, houve uma mulher que apareceu por aqui algumas vezes. Era muito jovem. Andava sempre muito preocupada.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— Quem era ela?
Maria da Luz abanou lentamente a cabeça.
— Não sei o nome.
— E o que aconteceu?
— Um dia deixou de aparecer.
Sofia levantou-se.
— E a fotografia?
Maria da Luz olhou para Cláudia.
Depois para Sofia.
— Essa fotografia… eu lembro-me de a ter visto.
Sofia ficou sem palavras.
— Onde?
Maria da Luz aproximou-se dela e falou quase num sussurro:
— Na altura, disseram-me que aquela criança ia partir para França.
O mundo pareceu parar.
Sofia olhou para Cláudia.
— Para França?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
De repente, uma pergunta tornou-se impossível de ignorar:
E se aquela criança fosse ela?

Fim do Episódio 4.





CAMINHOS CRUZADOS Episódio 3 — Uma velha recordação

Sofia continuava a olhar para o telemóvel.
A mensagem de Cláudia não lhe saía da cabeça.
“Tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Porquê tanto mistério?
Durante alguns segundos, pensou em telefonar-lhe, mas acabou por escrever:
— Prometo. Mas agora tens de me contar.
A resposta demorou.
Um minuto.
Dois.
Depois chegou:
— Não por mensagem. Quero falar contigo pessoalmente.
Sofia suspirou.
— Está bem. Quando?
— Amanhã de manhã. No Jardim do Lago.
Sofia pousou o telemóvel sobre a mesa.
Sentia uma inquietação que não conseguia explicar.
Naquela noite, tentou distrair-se. Abriu uma série na televisão, respondeu a algumas mensagens e chegou mesmo a preparar a roupa para o dia seguinte.
Mas a pergunta continuava presente.
O que sabia a mãe de Cláudia sobre ela?
Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo ao Jardim do Lago.
O sol iluminava a cidade e, ao longe, a Serra da Estrela destacava-se no horizonte.
Sentou-se num banco e esperou.
Poucos minutos depois, viu Cláudia aproximar-se.
— Desculpa o atraso.
— Não faz mal. Mas agora vais ter de me explicar tudo.
Cláudia sentou-se ao lado dela.
— Ontem falei com a minha mãe.
Sofia ficou imediatamente atenta.
— E?
— Perguntei-lhe o que sabia sobre ti quando eras pequena.
— O que ela disse?
Cláudia hesitou.
— Disse que, quando vocês foram para França, houve muita gente que ficou surpreendida.
— Porquê?
— Porque, segundo ela, havia coisas na tua história que ninguém percebia muito bem.
Sofia franziu a testa.
— Que coisas?
— Ela não quis explicar.
— Cláudia...
— Espera. Há mais.
Cláudia abriu a mala e retirou um pequeno envelope.
— A minha mãe encontrou isto numa caixa antiga.
Sofia olhou para o envelope.
— O que é?
— Não sei. Ela disse apenas que talvez fosse teu.
Sofia pegou nele.
As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
Abriu devagar.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Uma mulher muito jovem segurava um bebé ao colo.
Sofia ficou a olhar para a fotografia.
— Quem é esta mulher?
Cláudia abanou a cabeça.
— Não sei.
No verso da fotografia havia uma data.
2001.
Sofia ficou confusa.
— Mas eu nasci em 2001...
Cláudia olhou para ela.
— Eu sei.
O coração de Sofia começou a bater mais depressa.
Voltou a olhar para a fotografia.
Havia qualquer coisa naquele rosto.
Não sabia o quê.
Uma sensação.
Uma familiaridade inexplicável.
— Cláudia... onde é que a tua mãe encontrou isto?
— Numa caixa que pertenceu à minha avó.
Sofia virou a fotografia.
No verso, além da data, havia uma frase escrita à mão.
A tinta estava já desbotada, mas ainda era possível ler:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Sofia levantou lentamente os olhos.
— A verdade sobre quê?
Cláudia não respondeu.
Porque, naquele preciso momento, o telemóvel de Sofia começou a tocar.
Era Beatriz.
Sofia olhou para o nome no ecrã.
E, pela primeira vez na vida, sentiu medo de atender a chamada da mulher que sempre chamara de mãe.

Fim do Episódio 3.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 2 — O regresso

A Serra da Estrela surgiu finalmente no horizonte.
Depois de tantas horas de viagem, Sofia sentiu uma emoção difícil de explicar.
Sorriu.
— Finalmente… Covilhã!
Havia lugares que, por mais tempo que passasse, continuavam a fazer parte de nós.
Sofia tinha saído dali ainda criança, quando António e Beatriz emigraram para França à procura de uma vida melhor. Lyon tornara-se a sua casa, mas a Covilhã nunca deixara de ser a sua terra.
Entrou na cidade e começou a reconhecer os lugares que guardava na memória.
A estação, algumas ruas, os prédios que pareciam mais pequenos do que recordava…
Tudo lhe despertava lembranças.
Quando chegou à casa onde iria ficar durante as férias, deixou as malas no quarto e abriu a janela.
Respirou fundo.
Estava de volta.
O telemóvel tocou.
— Então, já chegaste? — perguntou Beatriz, do outro lado.
— Já, mãe. Cheguei há pouco.
— Correu tudo bem?
— Sim. Estou cansada, mas feliz.
António apareceu junto de Beatriz.
— Manda um beijo à nossa menina — disse ele.
— Eu ouvi! — respondeu Sofia, rindo.
— Aproveita bem as férias — disse Beatriz. — E não te esqueças de descansar.
— Prometo.
Depois de desligar, Sofia ficou alguns segundos a olhar para o telemóvel.
Sentia saudades dos pais, mas também uma enorme vontade de aproveitar aqueles dias.
Pouco depois recebeu uma mensagem.
Cláudia: “Já estás na Covilhã?”
Sofia respondeu imediatamente:
“Sim! Quando nos vemos?”
A resposta não demorou.
“Daqui a pouco. E prepara-te, porque tenho muita coisa para te contar.”
Sofia sorriu.
Conhecia bem Cláudia.
Quando ela dizia que tinha muita coisa para contar, normalmente significava que a conversa ia durar horas.
Encontraram-se pouco depois.
O abraço foi apertado.
— Estás igual! — disse Cláudia.
— Tu é que estás diferente.
— Para melhor?
— Ainda estou a decidir.
As duas começaram a rir.
Foram tomar um café e passaram boa parte da tarde a recordar histórias antigas, pessoas que tinham conhecido e episódios da infância.
Sofia sentia-se novamente em casa.
Até que, a certa altura, Cláudia ficou mais séria.
— Posso fazer-te uma pergunta?
— Claro.
— Nunca tiveste curiosidade sobre os teus primeiros anos na Covilhã?
Sofia franziu o sobrolho.
— Como assim?
— Tu eras muito pequena quando foste para França. Há coisas de que provavelmente nem te lembras.
— É normal. Eu era uma criança.
Cláudia hesitou.
— A minha mãe contou-me algumas coisas há muitos anos. Sobre aquela época.
Sofia olhou para ela com atenção.
— Que coisas?
Cláudia pareceu arrepender-se de ter começado aquela conversa.
— Nada de importante. Esquece.
— Agora tens de contar.
— Depois falamos disso.
Sofia ficou intrigada.
Quando regressou a casa, tentou não pensar mais no assunto.
Mas não conseguiu.
Naquela noite, ligou aos pais.
Beatriz atendeu.
— Está tudo bem, filha?
— Está. Queria só ouvir a vossa voz.
— Já estás com saudades?
— Um bocadinho.
Conversaram durante alguns minutos.
Sofia esteve quase a perguntar sobre a sua infância.
Quase.
Mas alguma coisa a fez parar.
— Boa noite, mãe.
— Boa noite, filha. Dorme bem.
Depois de desligar, Sofia ficou sentada na cama, pensativa.
A conversa com Cláudia continuava a incomodá-la.
Pegou no telemóvel.
Tinha uma nova mensagem.
Era de Cláudia.
“Sofia, estive a pensar no que te disse hoje. Acho que chegou a altura de te contar uma coisa que ouvi da minha mãe há muitos anos.”
Sofia sentiu um arrepio.
Antes que pudesse responder, chegou uma segunda mensagem:
“Mas tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Sofia ficou a olhar para o ecrã.
O que poderia ser tão importante?
E por que razão a mãe de Cláudia saberia alguma coisa sobre os primeiros anos da sua vida?

Fim do Episódio 2.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 1 — Antes da viagem

Lyon acordava lentamente naquela manhã de verão.
Pelas ruas, a cidade começava a ganhar o movimento habitual. Pessoas apressadas a caminho do trabalho, cafés a abrir portas e o ruído dos carros misturavam-se com os primeiros raios de sol.
Sofia olhou para o relógio antes de sair de casa.
Tinha 25 anos e trabalhava como enfermeira num hospital de Lyon. Gostava da profissão, apesar das exigências e das noites mal dormidas. Cuidar dos outros fazia parte da sua vida e, de certa forma, era aquilo que a fazia sentir-se útil.
Naquela manhã, porém, havia outra coisa a ocupar-lhe os pensamentos.
As férias.
— Finalmente! — disse Sofia, sorrindo enquanto fechava a mala. — Este ano preciso mesmo de descansar.
Na sala, António e Beatriz preparavam o pequeno-almoço.
— Já tens tudo pronto? — perguntou Beatriz.
— Acho que sim. Só falta meter algumas coisas no carro.
António levantou os olhos do café e sorriu.
— Covilhã outra vez...
Sofia riu.
— E que mal tem? É a minha terra. Tenho saudades.
Beatriz ficou alguns segundos em silêncio.
— Também eu...
Sofia não reparou na expressão da mãe.
Para ela, aquela viagem era apenas o regresso temporário a uma cidade que guardava algumas das melhores recordações da sua infância.
António e Beatriz tinham sido sempre o seu porto seguro. Tinham estado presentes nos momentos bons e nos momentos difíceis. Sofia nunca tivera razões para duvidar do amor daqueles dois.
E talvez por isso não compreendesse o estranho silêncio que, por vezes, surgia quando falavam dos primeiros anos da sua vida.
— Mãe?
— Sim?
— Estás bem?
Beatriz sorriu rapidamente.
— Estou, filha. Só estou a pensar que o tempo passa depressa demais.
Sofia aproximou-se e abraçou-a.
— Quando voltar, continuas a ter aqui a tua filha para te chatear.
Beatriz apertou-a contra si.
— Sempre.
Foi uma palavra simples.
Mas António, que observava as duas, baixou os olhos.
Havia coisas que não se diziam.
Havia perguntas que nunca tinham sido feitas.
E havia uma história enterrada há vinte e cinco anos que António e Beatriz tinham jurado nunca revelar.
Horas depois, Sofia entrou no carro.
Antes de partir, olhou uma última vez para a casa onde crescera.
Sentia-se feliz.
Não sabia que aquela viagem a Portugal iria mudar para sempre a sua vida.
A estrada parecia interminável, mas Sofia estava animada.
Pelo caminho, enviou uma mensagem a uma amiga na Covilhã:
“Amanhã estou aí. Temos de pôr a conversa em dia!”
Guardou o telemóvel e sorriu.
Não fazia ideia de que, dentro de poucos dias, uma conversa muito diferente iria acontecer.
Uma conversa que começaria por acaso.
Uma conversa que lhe faria uma pergunta para a qual nunca estivera preparada.
Quem era, afinal, Sofia?

Fim do Episódio 1.



🌿 AS FÉRIAS ESTÃO POR UM FIO… E UMA NOVA HISTÓRIA ESTÁ PRESTES A COMEÇAR! 📖❤️

As férias estão por um fio… Em breve, volto ao trabalho, com a dedicação de sempre. E, como a vida passa depressa, não tarda estamos no Natal e, quando dermos por isso, as férias estarão aí outra vez.

É assim a vida: feita de ciclos, de partidas e regressos, de momentos que passam demasiado depressa. 

Mas há algo que devemos valorizar acima de tudo: a saúde. Porque, sem ela, não conseguimos saborear verdadeiramente os pequenos e grandes momentos que a vida nos oferece. 

Mas estas férias não foram apenas para descansar. Também foram de muito trabalho!
Durante este período, dediquei muitas horas a escrever um romance que, a partir de amanhã, começarei a publicar aqui, diariamente, sempre à mesma hora, ao longo de 90 dias ininterruptos.

São três meses de uma história que espero que vos faça companhia, vos emocione, vos surpreenda e, acima de tudo, vos dê vontade de voltar no dia seguinte para descobrir o que vem a seguir.

Vou desvendar-vos um pequeno segredo…

O romance chama-se “CAMINHOS CRUZADOS” e a trama passa-se nos nossos dias, na época que vivemos atualmente.
E talvez seja precisamente por isso que algumas das personagens, algumas das situações e alguns dos caminhos desta história vos possam parecer estranhamente familiares…
Mas não vou contar mais. 

Uma história escrita com muito carinho, que espero que vocês gostem tanto de ler como eu gostei de a escrever.
E agora que já disse tudo… ou quase tudo… 

Não faltem ao primeiro capítulo! 

Bom dia para todos nós 🍀



🌿BOA VIZINHANÇA

Hoje, uma pessoa sai de casa, entra em casa e, muitas vezes, nem conhece os próprios vizinhos. Mas, na minha mocidade, as coisas eram bem diferentes.

Os vizinhos eram os guardiões uns dos outros. As portas e as janelas podiam ficar abertas que ninguém entrava onde não devia. Das janelas conversava-se de um lado para o outro, e a música ouvia-se, muitas vezes, quase na rua toda.
Podiam-se assar sardinhas que ninguém ficava incomodado com o cheiro. E, se fosse preciso, ainda se repartiam por quem estivesse por perto. O “tintol” era servido pelos restantes homens que se encontravam junto às portas, numa daquelas tertúlias espontâneas que faziam parte do dia a dia.

 Quando brincava na rua, lá se ouvia a voz da minha mãe a chamar:

— O almoço está pronto!

E, sem pestanejar, lá ia eu a correr para casa.

Toda a gente em redor sabia quem era filho de quem e, por vezes, em jeito de ameaça, lá vinha o aviso:

— “Se te portares mal, vou dizer ao teu pai!”

Estávamos sob a vigilância dos adultos por onde quer que andássemos. Naquela altura, não se ouvia falar de raptos nem de abusos como infelizmente ouvimos hoje, e as crianças tinham uma liberdade que atualmente parece quase impossível de imaginar.

Na loja ou na padaria, nem era preciso identificarmo-nos. Bastava dizer:

— “A minha mãe pediu isto ou aquilo.”

E o recado era entregue.

Quando faltava alguma coisa em casa, lá estava a vizinha para desenrascar. E, se faltasse a luz, havia sempre uma vela por perto. No meu caso, cheguei várias vezes a ir ao Sr. Paraíso, da agência funerária, pois ele dizia aos meus pais que, quando fosse preciso, estava ali para desenrascar.
Era assim. Havia confiança, entreajuda e, acima de tudo, havia vizinhança.

Nos Santos Populares, a vizinhança organizava sempre o seu bailarico, com o chiado, a boa da sardinha assada, pão e vinho tinto.
Aparecesse quem aparecesse, ninguém passava fome.

Nessa altura é que havia verdadeiro bairrismo. As ruas, junto às portas, estavam sempre varridas e muitas eram enfeitadas com lindos vasos de flores. Tudo era arranjado pela vizinhança, por gente que tinha orgulho e brio no seu bairro, na sua rua e, sobretudo, naquilo que era de todos.

Sei que os tempos são outros e que, como hoje se diz, existe muito stress. A vida mudou, as pessoas mudaram e até a maneira de nos relacionarmos mudou.
Mas que saudade de ver as crianças a brincar na rua, enquanto os adultos conversavam descontraidamente à porta de casa, muitas vezes sentados nas suas cadeiras, falando da vida, dos vizinhos e de tudo um pouco.

E, em jeito de brincadeira, até diria que eram os grupos do Facebook daquele tempo. 
Só que havia uma grande diferença: em vez de escreverem atrás de um ecrã, estavam ali, frente a frente, a conversar, a rir e a partilhar a vida.

E isso, meus amigos, é daquelas coisas que o tempo levou, mas que a memória teima em guardar.
Que saudade desses tempos de boa vizinhança, em que a porta do vizinho estava tão perto como se fosse a porta de nossa casa.

A fotografia é do Largo de Infantaria 21, na Covilhã, onde ainda se fizeram alguns bailaricos populares. 
Ficava perto da antiga sede do Arsenal de São Francisco, na Rua Nogueira dos Frades.

Bons tempos… boas memórias… e uma enorme saudade!

Bom dia para todos nós🍀



🌿OS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DA COVILHÃ

Anos 70, ainda antes da Revolução dos Cravos.

A Covilhã era, nessa altura, uma verdadeira cidade operária. Logo pela manhã, os grupos de operários dirigiam-se para as fábricas, enquanto outros faziam o percurso inverso, regressando a casa depois de uma noite de trabalho.
O Café Danúbio, de que o meu saudoso pai era proprietário, abria portas pelas seis da manhã. O meu pai, além do café, era também motorista de carros de praça, e quem permanecia mais tempo no estabelecimento era a minha avó, a Dona Maria da Trave Grossa, nome que lhe ficou de uma taberna que tivera em tempos.

 Lembro-me particularmente de um daqueles dias de novembro. Levantei-me cedo e, pela casa, ainda circulava o fumo do tabaco Kart, a marca que o meu pai fumava.
Enquanto me preparava para ir tomar o pequeno-almoço, ouvi a sirene dos Bombeiros tocar.
Era um toque intermitente (tipo choro).
Naqueles tempos, nós, miúdos, sabíamos distinguir os diferentes toques da sirene. Quando era intermitente, normalmente significava incêndio numa habitação ou acidente. Havia também o toque mais longo, geralmente associado a incêndios em mato ou a ocorrências consideradas menos urgentes.

 E, mal ouvia a sirene, eu não pensava duas vezes: saía disparado!
Subia as Escadas do Fael, seguia pela Rua Rui Faleiro, atravessava a Travessa do Postiguinho e lá estava eu, em frente ao quartel dos Bombeiros, à espera de ver sair as viaturas.
Os adultos perguntavam aos Bombeiros onde era o fogo ou o acidente e eu, sempre atento, ficava logo a saber a informação. Depois, regressava ao Danúbio e fazia questão de contar aos clientes onde tinha acontecido a ocorrência.
Era uma espécie de repórter de bairro, ainda sem saber que, muitos anos mais tarde, haveria de gostar tanto de contar histórias e memórias da minha cidade. 

Lembro-me também de que o jipe saía logo, normalmente com o comandante, e depois começavam a sair as chamadas “bombas”, uma atrás da outra, à medida que os bombeiros iam chegando ao quartel.
E eu ficava ali.
Só arredava pé quando o último carro saía.
Eu e muitos outros “mirones” que, naquela época, se juntavam em frente ao quartel para acompanhar aquele movimento. 
Hoje, tantos anos depois, sempre que ouço uma sirene de Bombeiros, é impossível não recuar no tempo.
Volto a ver aquele miúdo a correr pelas ruas da Covilhã, cheio de curiosidade, a querer saber onde era o fogo, quem tinha precisado de ajuda e para onde tinham partido aquelas viaturas vermelhas.
Mas, acima de tudo, volto a lembrar-me de homens e mulheres que, muitas vezes sem sabermos os seus nomes, saíam de casa deixando para trás a família, o trabalho e a tranquilidade, para correrem em auxílio de quem precisava.

É por isso que hoje quero deixar uma palavra de enorme respeito, gratidão e reconhecimento a todos os Bombeiros.
Aos que estão no ativo, aos que já vestiram essa farda e a todos aqueles que, ao longo dos anos, deram o melhor de si pela nossa comunidade, o meu muito obrigado!
E, de forma muito especial, uma merecida homenagem à nossa corporação dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, homens e mulheres que continuam a honrar uma missão que merece todo o nosso respeito e admiração.

Ser Bombeiro é muito mais do que vestir uma farda.
É ter coragem para correr quando todos os outros fogem.
É estar disponível para ajudar, muitas vezes sem saber o que vai encontrar.
É salvar, proteger e, tantas vezes, dar a própria vida pelos outros.
 A todos os Bombeiros Voluntários da Covilhã, o meu sincero e sentido OBRIGADO

Porque depois de um dia a cuidar dos outros, também os nossos Bombeiros merecem que alguém cuide deles. 

Bom dia para todos nós 🍀



🌿O MEU DIÁRIO

Antes de escrever mensagens no computador, tive um diário onde escrevia aquilo que achava importante. Era um desabafo para o papel, com alguns erros, é certo, mas com muita dedicação.

Escrevia sobre paixonetas, anotava os trocos que tinha para o mês, da mesada que me davam, as arrelias do dia… Enfim, era uma espécie de rede social, mas muito pessoal. Quando andava no ciclo preparatório, ainda tive algumas dedicatórias de colegas de escola que escreviam nesse diário.

 Num verão recente, resolvi romper com uma certa parte do passado. Algumas cartas e dedicatórias deitei fora; coisas que guardei religiosamente durante anos, coloquei-lhes uma pedra em cima. Fiquei com alguns aerogramas que escrevia e recebia do tempo em que o meu irmão esteve em Angola, na Guerra Colonial, uns bilhetes de cinema do Cine Centro e do Teatro Cine, e os bilhetes de futebol do ano da subida do Sporting Clube da Covilhã à 1.ª Divisão.
Das paixonetas da infância, foi quase tudo embora… mas apenas do papel, porque, na memória, ficou gravado.

Tudo tem um prazo de validade. Até as pedras, um dia, se vão transformar em pó. Quando fecho um ciclo, não estou a deitar fora o passado; estou apenas a fazer as pazes com ele.
Já não é possível voltar atrás, mas é possível aceitar aquilo que um dia nos foi dado e também aquilo que, um dia, nos foi retirado. Tudo tem uma razão de ser.

Por vezes, tenho de apagar números de telemóvel. Os amigos vão partindo e, apesar da dor, tenho de aceitar. É a lei da vida. Todos temos o nosso destino marcado.

Importante mesmo é fazer as pazes com o passado e poder viver o presente com a consciência tranquila e o coração mais leve. E, quem sabe, um dia, noutro sítio qualquer, iremos pôr a conversa em dia…

Porque há pessoas que saem da nossa vida, mas nunca saem verdadeiramente da nossa memória.

Bom dia para todos nós🍀





Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...