Vinte anos depois
1999
Vinte anos depois daquele verão que tinha começado na Covilhã, tudo parecia diferente — e ao mesmo tempo, estranhamente familiar.
A nova Covilhã
A cidade já não era a mesma.
Cresceu para sul, ganhou novas avenidas largas, edifícios modernos e um movimento que antes não existia. Onde havia terrenos vazios, agora havia bairros novos e comércio.
A antiga Piscina dos Penedos Altos continuava lá, mas agora coberta, transformada num espaço mais moderno, protegido do frio rigoroso da serra.
E mais abaixo, uma nova Piscina-Praia da Covilhã tinha sido criada, trazendo de volta, de outra forma, o espírito dos verões de antigamente.
David também já não era o rapaz calado que caminhava sozinho pelas ruas.
Agora era homem feito.
Casado com Cláudia, uma mulher tranquila e prática, com quem construiu uma vida estável, tinha um filho — Henrique, com 18 anos.
Henrique estava naquela fase da vida em que tudo parecia possível. Falava de estudos, de sair da cidade, de conhecer o mundo.
David via-se um pouco nele… mas também via aquilo que nunca chegou a fazer.
Era proprietário de um pequeno supermercado na cidade. Não era grande, mas era suficiente. Conhecia os clientes pelo nome, cumprimentava-os com um aceno e mantinha uma rotina que lhe dava segurança.
Às vezes, ao fechar a loja ao final do dia, ficava alguns minutos à porta a olhar para a cidade que crescia.
E, sem saber bem porquê, lembrava-se de um verão distante.
Entretanto, na Nazaré, a transformação também era evidente.
A vila tinha crescido, tornara-se mais turística, mais movimentada. No verão, as ruas enchiam-se de gente de todo o país e até do estrangeiro.
A Praia da Nazaré continuava imponente, mas agora rodeada por mais hotéis, restaurantes e vida.
A marginal estava mais moderna, a Praça Sousa Oliveira mais movimentada do que nunca.
Carol também seguiu o seu caminho.
Depois de terminar o curso na Universidade de Coimbra, ficou ligada à Nazaré, onde abriu o seu próprio consultório de advocacia.
Casou com Paulo, colega de profissão, também advogado. A relação tinha crescido com base no trabalho, na compreensão e numa vida partilhada com objetivos comuns.
Tinham uma filha, Beatriz, agora com 17 anos.
Beatriz herdara algo da mãe — a forma de observar o mundo com atenção — mas também tinha uma personalidade própria, mais inquieta, mais curiosa.
Muitas vezes fazia perguntas sobre o passado.
— Mãe, como era a tua vida antes da Nazaré?
Carol sorria.
— Diferente… muito diferente.
Mas raramente contava tudo.
De vez em quando, em momentos inesperados, o passado surgia.
Para David, podia ser quando passava pela antiga piscina ou quando via jovens reunidos na nova Piscina-Praia da Covilhã.
Para Carol, podia ser ao ver o pôr do sol na Praia da Nazaré ou ao ouvir uma música antiga na rádio.
Nenhum deles falava disso.
Mas ambos sabiam que aquela história existiu.
Duas vidas completas
David tinha uma vida simples, mas sólida.
Carol tinha uma vida mais agitada, mas realizada.
Nenhum deles era infeliz.
Mas também nenhum deles tinha esquecido completamente.
Porque há histórias que não ficam por resolver… apenas ficam guardadas.
Em 1999, o mundo era diferente.
As cidades cresciam, as pessoas mudavam, os filhos preparavam-se para sair de casa e começar as suas próprias histórias.
E, sem saberem, Henrique e Beatriz estavam exatamente na idade em que, anos antes, David e Carol se tinham encontrado pela primeira vez.
Talvez o destino tivesse ainda algumas páginas por escrever.
Talvez não.
Mas uma coisa era certa:
Entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré, havia uma história antiga… que o tempo nunca conseguiu apagar completamente.
Continua…