Nasci no n.º 82, num primeiro andar de uma casa cujo rés do chão era ocupado pelo Café Danúbio, propriedade dos meus pais. O meu pai, o conhecido Zé Caninhas, além de ser proprietário do café, teve também um automóvel de aluguer na antiga praça de carros.
Foi naquela rua que vivi a minha infância e adolescência. Percorri aqueles passeios milhares de vezes, ora em direção ao Jardim Público, ora a subir rumo ao Pelourinho. Cada pedra da calçada guarda uma recordação, cada porta uma história, cada esquina um pedaço da minha vida.
A Rua Direita, que na realidade se chama Rua Comendador Campos Melo, era, nas décadas de 70 e 80, um verdadeiro centro comercial a céu aberto. Havia de tudo um pouco: bancos, cafés, lojas de pronto-a-vestir, sapatarias, alfaiates, escritórios ligados aos têxteis, mercearias, casas de ferragens, livrarias, ourivesarias, perfumarias e tantos outros estabelecimentos que faziam daquela rua uma das mais movimentadas da cidade. Como se costuma dizer, havia "do bom e do melhor".
Lembro-me de o Café Danúbio ser parede-meia com o Café Montanha. Nunca existiram rivalidades entre ambos. Os clientes conviviam naturalmente, conheciam-se e respeitavam-se. Era um ambiente saudável, onde imperava a amizade. Naquele tempo, os cafés praticamente não tinham dia de encerramento e mantinham-se abertos durante todo o ano. Recordo-me perfeitamente de, quando o meu pai precisava de sair por algum motivo com a família, deixar sempre um empregado ao balcão para que o café nunca fechasse portas. Havia um enorme respeito pelos clientes e, em troca, os clientes eram fiéis à casa.
Guardo também na memória a Rua Direita quando tinha dois sentidos de trânsito e, mais tarde, quando passou a ter apenas um. Ainda me recordo do sinaleiro que regulava a circulação junto à mercearia do Sr. Raúl Paiva.
Vou recordar apenas alguns comerciantes desta emblemática rua. Aos muitos outros que não menciono, peço desde já desculpa. Uns permanecem bem vivos na minha memória; outros eram clientes habituais do Danúbio e fazem igualmente parte das minhas recordações.
Recordo o patriarca da família Paraíso e os seus dois filhos. Hoje, apenas o Sr. Guilherme continua entre nós e o Pedro mantém viva a tradição da família na sua agência. A propósito deles, recordo uma história que já contei noutras publicações: sempre que faltava a eletricidade em casa ou no café, era ao Sr. Paraíso que recorríamos para pedir velas.
Lembro igualmente o Sr. Manuel e a sua esposa, pais do conhecido Zé Manuel, do "Verde e Amarelo", que abriram a sua primeira loja na Rua Fernão Penteado.
A mercearia do Sr. Raúl Paiva era onde aviávamos as compras da casa. Ali trabalhou durante muitos anos a D. Fernanda Bicho, que recentemente terminou também a sua ligação à Mini Grula.
A mercearia do Sr. Raúl Paiva era onde aviávamos as compras da casa. Ali trabalhou durante muitos anos a D. Fernanda Bicho, que recentemente terminou também a sua ligação à Mini Grula.
Recordo ainda o Sr. Mendes, alfaiate; a Casa Diniz, uma referência no pronto-a-vestir; o Zeca da Pinheira, que tantas vezes oferecia uma peça de roupa ao marcador do golo da vitória do Sporting da Covilhã; o Sr. Santos e a D. Luísa, da Livraria Nacional; o Sr. Pombo, da Electro-Selfe; a Casa Camolino; o Sr. João Nunes, dos Seguros; a Casa Cardona; a Casa Sousa; o Sr. Esteves; o Sr. Gabinete, juntamente com a esposa e as filhas; a Livraria Brincarte; as Ourivesarias Pacheco, Tavares e Patrão; o Sr. Sardinha; o Café Leitão, conhecido pelo seu café em saco; o Sr. Raúl Bonina; a loja dos candeeiros; o Banco Totta & Açores; o escritório Rodrigues & Bicho; a Sapataria Reis; a Casa Fael; a Drogaria Zenite; Perfurmaria Mário... e tantos outros que ajudaram a fazer da Rua Direita o coração comercial da Covilhã.
Mesmo em frente ao Café Danúbio situava-se o Orfeão da Covilhã e, no piso superior, funcionou durante muitos anos o Clube Nacional de Montanhismo.
Foi também nesta rua que frequentei as aulas de catequese, numa porta ao lado da Casa Camolino.
Foi também nesta rua que frequentei as aulas de catequese, numa porta ao lado da Casa Camolino.
Logo pela manhã, a Rua Direita ganhava vida. Cruzavam-se os operários que iam e vinham das fábricas, o primeiro autocarro vindo da Aldeia do Carvalho, a motorizada do padeiro, as senhoras que seguiam cedo para a praça e os comerciantes que levantavam as portas dos seus estabelecimentos para mais um dia de trabalho.
Era uma rua cheia de vida, de gente, de comércio, de cumplicidade e de humanidade. Uma rua onde todos se conheciam pelo nome, onde a palavra valia mais do que um contrato e onde um simples "bom dia" era dado com um sorriso sincero.
Hoje restam as memórias. Memórias que o tempo não consegue apagar, porque fazem parte da nossa identidade e da história de uma cidade que muitos tivemos o privilégio de viver intensamente.
Tenho saudades das verdadeiras amizades, da entreajuda, do respeito e dos valores que marcaram uma geração inteira.
Tenho saudades das verdadeiras amizades, da entreajuda, do respeito e dos valores que marcaram uma geração inteira.
E, como costuma dizer o meu amigo Pedro Paraíso:
"A Rua Direita… Sempre!"
"A Rua Direita… Sempre!"
Um excelente domingo para todos nós 🍀