Não íamos de automóvel, nem de autocarro, mas sim a pé, pois naquela época caminhava-se muito e as distâncias não metiam medo a ninguém. Descíamos as Escadas da Trapa, passávamos pela Ponte dos Costas e seguíamos pela EN 230, entre a Covilhã e o Canhoso. Pelo caminho, divertia-me a subir e a descer as pequenas encostas das bermas da estrada, como se cada metro percorrido fosse uma nova aventura.
Chegados ao Canhoso, o destino era a quinta dos meus tios-avós, situada nas traseiras das antigas bombas da SACOR. Atrás da casa existia um grande descampado — onde hoje se encontra o cemitério do Canhoso — que era o meu parque de diversões. Ali brincava durante horas e, sempre que o comboio passava, corria quase lado a lado com ele, acenando alegremente aos passageiros que seguiam viagem.
A quinta tinha uma mina de água cristalina, onde nunca faltava uma caneca de esmalte para matar a sede com aquela água sempre fresca e deliciosa. Quando as minhas primas vinham de França passar férias, era uma verdadeira festa. Na rádio tocava o conjunto Maria Albertina, com a inesquecível "Canção do Emigrante", e, no velho rádio da minha tia Maria, ainda se acompanhava, religiosamente, a radionovela "Simplesmente Maria".
Mas aquilo de que hoje mais me lembro — e ao qual, na altura, dava tão pouca importância — eram as noites passadas deitado no terraço, debaixo de um céu carregado de estrelas. Que silêncio... Que paz... Que sensação de liberdade e felicidade aquelas noites me proporcionavam!
E como esquecer os casamentos que duravam dois dias, reunindo famílias inteiras à volta de mesas fartas de comida caseira, gargalhadas, música e uma alegria que parecia não ter fim?
São memórias que o tempo jamais conseguirá apagar. Vivíamos com muito menos do que temos hoje, mas sabíamos transformar o pouco em muito. Havia menos bens materiais, é certo, mas havia algo que hoje parece cada vez mais raro: tempo para os outros, portas sempre abertas, vizinhos que eram família e um calor humano que fazia qualquer lugar parecer um verdadeiro lar.
Talvez o progresso nos tenha dado mais conforto, mas dificilmente nos devolverá a simplicidade, a união e a felicidade genuína daqueles inesquecíveis dias de Verão.
Bom dia para todos nós 🍀
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