🌿 UMA VISITA A NUESTROS HERMANOS 🌿 Covilhã- Fuentes de Oñoro

Nos anos 70, a Rua Comendador Campos Melo, mais conhecida por Rua Direita, tinha dois sentidos de circulação. O sinaleiro encontrava-se no final da rua, mesmo em frente ao comércio do Sr. Paiva, e o principal foco de atenção era a famosa curva da Leitaria Triunfo.

Escusado será dizer que esta experiência dos dois sentidos durou pouco. Bastava o sinaleiro abandonar o local para começar uma verdadeira sinfonia de buzinas, travagens e pequenos acidentes, que davam muito dinheirinho a ganhar aos bons bate-chapas da cidade.

Mais ao meio da rua, mesmo ao lado das escadas do Quebra-Costas, situava-se a Electro Selfe, do Sr. Pombo, cliente assíduo do Café Danúbio, propriedade dos meus pais, como já referi em crónicas anteriores.

Um dia de verão, surgiu no café a ideia de fazer uma viagem a Espanha, mais propriamente a Fuentes de Oñoro, juntando as duas famílias num passeio que, para a época, era uma autêntica aventura.

Depois de confirmarem que os passaportes estavam em ordem, começava a azáfama dos preparativos. A noite anterior foi de muito trabalho para a minha mãe e para a minha avó, que fritaram rissóis, bolinhos de bacalhau, cozeram arroz e prepararam muitas outras iguarias. Eu mal consegui dormir, tal era a ansiedade de fazer aquela tão esperada viagem internacional.

Chegou finalmente o grande dia.

Bem cedo, entrei no Opel Rekord do meu pai, acompanhado pela minha mãe e pela minha avó. Os meus irmãos seguiram no Fiat 850 do Sr. Pombo. E lá partimos pela EN230, entre curvas e mais curvas que, para mim, pareciam não ter fim.
Horas depois, avistei ao longe o posto fronteiriço de Vilar Formoso. Os guardas analisavam cuidadosamente os documentos, um por um, enquanto espreitavam atentamente para o interior dos automóveis.
— "Tudo certo... podem seguir!"

Quando entrámos em Espanha, senti que tinha chegado a um mundo diferente. O que mais me impressionou foram as estradas: retas intermináveis, um piso impecável e uma viagem muito mais confortável. Foi a primeira grande diferença que notei entre o desenvolvimento espanhol e o português naquela altura.

Pouco depois, entrámos numa enorme mercearia que, para nós, já parecia um verdadeiro supermercado. Compraram-se os indispensáveis caramelos, chocolates, cigarros para os adultos, algumas garrafinhas, bacalhau, bolachas e tantas outras coisas que em Portugal eram mais difíceis de encontrar ou mais caras.
Ao almoço, parámos num descampado para saborear tudo aquilo que a minha mãe e a minha avó tinham preparado durante a noite.

Foi aí que aconteceu um episódio que nunca mais esqueci.
O meu irmão Luís encontrou umas chaves junto a uma casa abandonada e o meu pai, sempre bem-disposto, apressou-se a dizer:
— "Devem ser do Fugitivo!"
Era uma referência à famosa série televisiva que fazia sucesso na época. A gargalhada foi geral.

Depois do almoço, ainda demos mais uma volta por terras espanholas antes do regresso. Mas havia uma preocupação comum a todos: esconder bem as compras para que os guardas da fronteira não dessem conta de tudo o que levávamos.
Umas coisas iam escondidas na mala, outras debaixo dos bancos, outras ainda nos bolsos dos casacos. Quando terminava a inspeção e os agentes espanhóis diziam, com um sorriso:
"¡Buen viaje!"
...todos respiravam de alívio.
Seguiu-se novamente a longa viagem de regresso, entre curvas e contracurvas, até à nossa querida Covilhã.

Foi mais um dia inesquecível, passado em terras de nuestros hermanos, daqueles que ficam gravados para sempre na memória.

Assim eram as viagens a Espanha nos anos 70.
E havia um pormenor indispensável…
Não podíamos esquecer as pesetas! 

Quem também viveu estas aventuras certamente se lembrará da emoção de atravessar a fronteira, dos passaportes, das revistas dos guardas, das compras escondidas e daquele entusiasmo que transformava um simples passeio numa verdadeira expedição.

As memórias envelhecem… mas nunca perdem o brilho.

Bom dia para todos nós! 🍀

Foto de Vilar Formoso, anos 70'



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