São Francisco é uma delas.
O Jardim Público era o nosso mundo. Jogávamos às apanhadas, ao berlinde, aos castelos, às escondidas e inventávamos brincadeiras que duravam horas. Quando construíram o parque infantil, parecia que tínhamos recebido um parque de diversões. Quem não se lembra da "barca" constantemente virada ao contrário? Dos cavalinhos que pareciam andar à velocidade da luz? E dos baloiços onde acreditávamos que conseguíamos tocar no céu?
Juntávamos moedas entre todos e, com apenas 2$50, um de nós ia à loja do Sr. Raúl Paiva ou do Sr. Morão comprar uma bola de plástico. Vinham penduradas em enormes sacos à porta da loja. Duravam pouco… Bastava um remate mais forte e ficavam com uma forma que nem o melhor guarda-redes conseguia prever.
E depois havia o inesquecível Campo das Festas. Que jogos épicos ali se fizeram! Havia equipas, árbitro, discussões, golos e muita paixão. O drama começava quando uma "rosca" mandava a bola até à Avenida Frei Heitor Pinto. Quem a fosse buscar tinha de descer… e depois subir tudo outra vez. Era o preço da glória.
E quem esquece os grandes bailes no Arsenal de São Francisco?
Os fins de semana de inverno eram outro espetáculo. Nos anos 70 e 80, centenas de autocarros chegavam à Covilhã rumo à Serra da Estrela. A cidade fervilhava de vida. Os hotéis estavam cheios, os cafés apinhados, o Teatro-Cine e o Cine Centro com lotações esgotadas. Lembro-me de muitas vezes nem conseguir entrar na Leitaria Triunfo, tal era a multidão.
Obrigado por nos terem dado uma infância que nenhuma tecnologia conseguirá substituir.
Obrigado por nos ensinarem que a felicidade podia morar numa bola de plástico, num baloiço, numa fatia de pão ou numa rua cheia de amigos.
Mas tivemos tudo o que realmente importava.
