UMA RUA CHEIA DE VIDA

É difícil explicar a saudade de um lugar onde fomos verdadeiramente felizes.

🌿 Eu nasci numa rua cheia de vida.
Uma rua onde as pessoas se conheciam pelo nome, onde as portas estavam quase sempre abertas e onde os cheiros das estações pareciam fazer parte da família.

Ainda hoje fecho os olhos e consigo ver-me a correr até São Silvestre para brincar com os meus amigos na Escola Central, no tempo em que ainda era passagem pública.
Antes disso, esperava pacientemente junto ao “Montiel” pelo sinal do polícia sinaleiro… e mal ele autorizava, lá ia eu a correr pela rua fora, como se o mundo inteiro me esperasse no Largo da Capela de São Silvestre.

Naquele tempo, a cidade tinha alma.

O comércio vivia cheio de gente.
Na mercearia do Sr. Raúl Paiva levantavam-se as compras da minha mãe e da minha avó.
Em frente ao Jardim Público, a D. São recebia todos na padaria com um sorriso que nunca falhava.

E na minha rua… a Comendador Campos Melo… havia vida em cada porta.

Os cafés cheios de conversa e amizade.
As lojas tradicionais onde toda a gente se conhecia.
As mercearias, padarias e livrarias que davam vida à rua.
Os espaços onde se aprendia música, onde se faziam amizades e onde cada porta guardava histórias.
Os bancos, os pequenos negócios, sempre cheios de gente e movimento.

Cada nome destes guarda uma história.
Cada porta fechada hoje leva consigo um pedaço da nossa memória.

 Às 5h30 da manhã já se ouviam os operários a descer para as fábricas, a mota do padeiro e, pouco depois, o primeiro autocarro vindo da Aldeia do Carvalho.

A cidade acordava cedo… mas acordava viva.

Não havia telemóveis.
Não havia redes sociais.
Havia futebol na rua, joelhos esfolados, gargalhadas sinceras e adultos sentados nos cafés a conversar horas sem olhar para relógios.

No Natal, as famílias juntavam-se à mesa como se nada fosse mais importante no mundo.
E muitos ainda saíam para a Missa do Galo ou para se aquecerem junto da fogueira.

 Hoje, quando passo naquela rua, sinto um aperto no peito.

Vejo demasiadas portas fechadas onde antes existia movimento, amizade e alegria.
Mas há coisas que o tempo nunca conseguirá apagar.

Porque, mesmo mudada… mesmo mais silenciosa…
continuará sempre a ser a rua onde nasci.
A minha rua.
A rua da minha vida.

Boa tarde para todos nós 🍀



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