O 25 DE ABRIL VISTO COM OS MEUS OLHOS

UM DESABAFO DE QUEM VIVEU… E NÃO ESQUECE

Eu não dou muita margem a quem lê e não reage…
e até fico satisfeito — porque, pelo menos, tentam entender os meus rabiscos.
Isto das redes sociais tem muito que se lhe diga…
Eu sou do tempo do Robin dos Bosques, do Dallas, do Marco e da Heidi…
Nesse tempo, éramos felizes com uma simples pirolita no jardim público da Covilhã.
Sou o que sou. Sempre fui.
Não faço diferenças nem indiferenças para ninguém.
Erros? Ui… mais que muitos.
Mas quem nunca errou que atire a primeira pedra.
Também não sou dos que se armam mais que os outros…
porque ninguém é mais do que ninguém.
Mas há coisas que não gosto:

viver na sombra
 fazer-me de “coitadinho”
Prefiro mil vezes dizer verdades…
do que viver de mentiras bonitas.

Sempre defendi um país mais justo.
Porque “coitados” são aqueles que:
 acordam às seis da manhã
 tratam dos filhos
 trabalham o dia inteiro
 e só regressam a casa ao anoitecer
Desses, sim… pouco se fala.

Sou do tempo do OMO lavado à mão (passo a publicidade),
da televisão a preto e branco com quatro canais,
onde o comando… era o dedo indicador.
 Rádio para ouvir notícias, relatos de futebol e radionovelas.
Sou do tempo das fábricas,
das mães com os filhos,
dos avós presentes até ao fim.
 Jogos de futebol às 15h
 relatos na rádio
 brincadeiras na rua — fizesse sol ou chuva — sem dar conta do tempo

Sou do tempo de ir a Fuentes de Oñoro comprar caramelos espanhóis…
e apresentar passaporte na fronteira.
 Escola com respeito e disciplina
 rios, estações e províncias decoradas
 catecismo e a primeira comunhão
livros com histórias que ainda hoje vivem na memória
Saudades desse tempo?
Algumas.
Fui feliz como criança.
Da miséria ninguém tem saudades.

Mas também não tenho orgulho no país em que Portugal se está a transformar…
Isto é apenas um desabafo.
Que o futuro seja melhor.
Mais justo.
Mais risonho.
 
MEMÓRIAS DE UM TEMPO QUE MUDOU TUDO

Andava eu no Ciclo preparatório da Covilhã…
debaixo do braço levava o “Je Commence”, da Nicole, Robert e Patapouf 

Mas o mundo… estava longe de ser inocente.
A guerra no Ultramar continuava a fazer vítimas.
 O país sentia o peso de a manter.

Enquanto isso…
 lá fora, a Europa mudava.
Paris lançava modas — minissaias, biquínis… liberdade.

E em 1969… o mundo parou para ouvir música.
 Festival de Woodstock
Três dias que marcaram uma geração.
Paz, amor, liberdade.
Nomes como Janis Joplin e Jimi Hendrix tornaram-se eternos.
Mas por cá…
 
Portugal continuava fechado.
 Não havia eleições livres.
 A PIDE perseguia quem ousasse discordar.

Mesmo assim, a vida seguia:
“Crónica Feminina” nas mãos das mulheres
 Héctor Yazalde era o meu ídolo
 Sinaleiros a comandar o trânsito
Café a 1$50
 Pão a 10 tostões
 Cinema a 15$00
Casas a 200 escudos a renda
Jornal a 1$00
SG Gigante 4$00

E depois…
25 de Abril de 1974

Nesse dia, a aula de educação física foi no jardim público.
Equipamentos branquinhos… tudo normal.
Ou talvez não.
Na província, pouco ou nada se sabia.
Sem internet. Sem notícias imediatas.
A rádio falava… mas a conta-gotas.
À tarde?
 Futebol com os amigos de São Francisco, no campo das festas.
A revolução estava na rua…
mas a mais de 300 km de distância.
 À noite, em casa… algo era diferente.
Olhos colados ao pequeno ecrã.
Sorrisos. Emoção.

E de repente…
“Viva a Liberdade!”
 “Somos Livres!”
 “Povo MFA!”
As ruas encheram-se.
O povo despertou.

O 1.º de Maio de 1974 foi um mar de gente.
Uma alegria impossível de esquecer.
Eu?
Um miúdo de 12 anos…
mas a sentir que algo enorme tinha acontecido.
Feliz por ver o meu irmão regressar do Ultramar (Angola).
Feliz por ver um povo inteiro a sorrir.
Sim…
vieram erros depois. Muitos.
Mas uma coisa é certa:
 Hoje vivemos melhor
Temos mais conforto
 Mais liberdade
Mais voz

Mesmo com defeitos.
Mesmo com excessos.
 Somos livres.
E disso…
não abrimos mão.

Bom dia para todos nós🌹



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