AS EXCURSÕES PAROQUIAIS QUE NUNCA MAIS VOLTARAM

Houve um tempo em que a felicidade cabia numa camioneta cheia de gente, num saco com sandes de fiambre, numa garrafa de laranjada e na ansiedade de uma viagem que começava ainda antes do nascer do sol.

Nos anos 70 e 80, as excursões paroquiais eram um dos grandes acontecimentos do ano. Durante semanas falava-se delas. Faziam-se as inscrições, preparavam-se os farnéis e contavam-se os dias que faltavam para partir.

Quem era novo nem sonhava ocupar um banco normal. O nosso lugar era na "cozinha", como chamávamos à parte de trás das camionetas. Era ali que ia a rapaziada. Entre gargalhadas, empurrões, jogos improvisados e conversas sem fim, fazíamos daquele pequeno espaço o melhor lugar do mundo.

E também porque podíamos fumar um cigarrito 

E mal a camioneta arrancava começavam as cantilenas que todos sabíamos de cor.
"Senhor chauffeur, por favor, ponha o pé no acelerador... se bater não faz mal, vamos parar ao hospital!"
Cantávamos aquilo a plenos pulmões, para desespero do motorista, que fingia não ouvir enquanto sorria pelo canto da boca. Eram refrões inocentes, próprios de uma juventude despreocupada, que transformava qualquer quilómetro numa festa.

Na nossa paróquia de Nossa Senhora da Conceição, essas excursões deixaram memórias que o tempo nunca conseguiu apagar. Fomos a Fátima, onde a fé e a amizade caminhavam lado a lado. Visitámos Évora, com as suas muralhas e ruas carregadas de história. Descobrimos a Figueira da Foz, onde muitos de nós sentíamos a emoção de voltar a ver o mar.

Mas a viagem que guardo com mais carinho foi a última, em 1983. O destino era Santiago de Compostela e, pelo caminho, pernoitávamos em Braga. Para muitos de nós, dormir fora de casa já era uma aventura. Havia sempre quem demorasse horas a adormecer, quem passasse o tempo a contar anedotas e quem acabasse por acordar toda a gente com mais uma gargalhada.

Não existiam telemóveis, nem selfies, nem redes sociais. As fotografias eram poucas, mas as recordações eram infinitas. Vivíamos o momento sem pensar em registá-lo. Talvez por isso tenha ficado tão bem gravado na memória.

As excursões eram muito mais do que uma simples viagem. Eram uma escola de convivência, de amizade e de entreajuda. Aproximavam gerações, fortaleciam laços e faziam da paróquia uma verdadeira família.

Hoje viaja-se com muito mais conforto. As camionetas são melhores, as estradas são mais seguras e chegamos muito mais depressa aos destinos. Mas, curiosamente, parece que já ninguém regressa com tantas histórias para contar.

Porque o que tornou aquelas excursões inesquecíveis nunca foram os quilómetros percorridos. Foram as pessoas. As gargalhadas na "cozinha" da camioneta. As cantorias que ecoavam estrada fora. O motorista que já conhecia as nossas partidas. Os lanches partilhados. A amizade sincera. A inocência de um tempo em que bastava uma viagem para sermos felizes.

Quem viveu essas excursões sabe exatamente do que estou a falar.

E, de vez em quando, basta ouvir ao longe uma velha camioneta ou recordar aquela cantilena para voltarmos a ser os miúdos de outrora, de mochila às costas e coração cheio, prontos para mais uma aventura.

Boa noite para todos nós ✨



Sem comentários:

Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...