UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE

  Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.

Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Chico, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.

— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.

— Ninguém sabe — respondeu o Chico, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.

Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.

A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .

A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.

Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Francisco encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.

Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.

— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.

— E sobre a amizade — completou o João.

Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.

E, de certa forma, tinham.

Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

Bom dia para todos nós 🍀




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