UM ROMANCE NA COVILHÃ - (2º CAPÍTULO)

Capítulo 2 — O verão que não acabou

O verão terminou, mas a história não.

Quando setembro chegou à Covilhã, trouxe consigo o cheiro a cadernos novos e manhãs mais frescas. Xavi voltou às aulas no liceu com uma sensação estranha, como se carregasse um segredo só dele. Sempre que passava pelo jardim, o banco onde a tinha conhecido parecia guardar ecos de risos.

Mas ela ainda não tinha ido embora.

Numa tarde depois da escola, Xavi recebeu um bilhete dobrado dentro do manual de História. Só uma frase:

"Última corrida na piscina. Hoje."

Ele nem precisou de pensar.

Na piscina municipal, o ambiente estava quase vazio. A água refletia a luz suave do fim de dia. Ela já lá estava, sentada na borda, os pés a tocar a superfície.

— Pensei que não vinhas — disse ela.

— Eu nunca falto a uma última corrida — respondeu Xavi, tentando parecer confiante.

Alinharam lado a lado. Quando mergulharam, tudo ficou em silêncio. Só o som da respiração e o deslizar na água. Não era sobre ganhar. Era sobre guardar aquele momento para sempre.

Ela chegou primeiro à outra ponta, mas ficou à espera dele.

— Sabes — disse ela, ofegante — eu tenho medo de ir.

Xavi não esperava aquela confissão.

— Medo de quê?

— De que isto… — fez um gesto vago, como se apontasse para a água, para a cidade, para eles — fique só aqui.

Ele saiu da piscina e sentou-se ao lado dela.
Da piscina Municipal podia ver-se grande parte da Cova da Beira, os raios de sol eram refletidos desde que nascia até desaparecer no horizonte.

— Então não fica. — respondeu. — Não precisamos que as coisas fiquem iguais para continuarem a ser nossas.

No dia seguinte, encontraram-se outra vez no jardim. Sentaram-se no mesmo banco da primeira vez. Ela entregou-lhe o livro que estava a ler naquele dia.

— Fica com ele. Para continuares a escrever a nossa história na tua cabeça.

Xavi sorriu.

— Não vai ser só na cabeça.

Desta vez, quando as mãos se tocaram, não foi por acaso. E quando se despediram, houve um beijo — breve, inseguro, mas cheio de tudo o que não sabiam dizer.

Ela partiu no início de outubro.

Os dias passaram. O inverno chegou. A Covilhã ficou coberta de nevoeiro e frio. Xavi continuou a ir ao centro onde a esplanada do café MONTALTO era recolhida, e ao jardim com as arvores despidas de folhas. Mas já não procurava algo maior longe dali.

Porque tinha aprendido uma coisa: algumas pessoas não ficam para sempre no mesmo lugar, mas ficam para sempre dentro de nós.

E o sonho de menino transformou-se noutra coisa.

Não era viver uma grande história.

Era ter coragem de senti-la quando ela acontece.

(continua)…

Bom dia para todos nós🍀



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