CAMINHOS CRUZADOS Episódio 3 — Uma velha recordação

Sofia continuava a olhar para o telemóvel.
A mensagem de Cláudia não lhe saía da cabeça.
“Tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Porquê tanto mistério?
Durante alguns segundos, pensou em telefonar-lhe, mas acabou por escrever:
— Prometo. Mas agora tens de me contar.
A resposta demorou.
Um minuto.
Dois.
Depois chegou:
— Não por mensagem. Quero falar contigo pessoalmente.
Sofia suspirou.
— Está bem. Quando?
— Amanhã de manhã. No Jardim do Lago.
Sofia pousou o telemóvel sobre a mesa.
Sentia uma inquietação que não conseguia explicar.
Naquela noite, tentou distrair-se. Abriu uma série na televisão, respondeu a algumas mensagens e chegou mesmo a preparar a roupa para o dia seguinte.
Mas a pergunta continuava presente.
O que sabia a mãe de Cláudia sobre ela?
Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo ao Jardim do Lago.
O sol iluminava a cidade e, ao longe, a Serra da Estrela destacava-se no horizonte.
Sentou-se num banco e esperou.
Poucos minutos depois, viu Cláudia aproximar-se.
— Desculpa o atraso.
— Não faz mal. Mas agora vais ter de me explicar tudo.
Cláudia sentou-se ao lado dela.
— Ontem falei com a minha mãe.
Sofia ficou imediatamente atenta.
— E?
— Perguntei-lhe o que sabia sobre ti quando eras pequena.
— O que ela disse?
Cláudia hesitou.
— Disse que, quando vocês foram para França, houve muita gente que ficou surpreendida.
— Porquê?
— Porque, segundo ela, havia coisas na tua história que ninguém percebia muito bem.
Sofia franziu a testa.
— Que coisas?
— Ela não quis explicar.
— Cláudia...
— Espera. Há mais.
Cláudia abriu a mala e retirou um pequeno envelope.
— A minha mãe encontrou isto numa caixa antiga.
Sofia olhou para o envelope.
— O que é?
— Não sei. Ela disse apenas que talvez fosse teu.
Sofia pegou nele.
As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
Abriu devagar.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Uma mulher muito jovem segurava um bebé ao colo.
Sofia ficou a olhar para a fotografia.
— Quem é esta mulher?
Cláudia abanou a cabeça.
— Não sei.
No verso da fotografia havia uma data.
2001.
Sofia ficou confusa.
— Mas eu nasci em 2001...
Cláudia olhou para ela.
— Eu sei.
O coração de Sofia começou a bater mais depressa.
Voltou a olhar para a fotografia.
Havia qualquer coisa naquele rosto.
Não sabia o quê.
Uma sensação.
Uma familiaridade inexplicável.
— Cláudia... onde é que a tua mãe encontrou isto?
— Numa caixa que pertenceu à minha avó.
Sofia virou a fotografia.
No verso, além da data, havia uma frase escrita à mão.
A tinta estava já desbotada, mas ainda era possível ler:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Sofia levantou lentamente os olhos.
— A verdade sobre quê?
Cláudia não respondeu.
Porque, naquele preciso momento, o telemóvel de Sofia começou a tocar.
Era Beatriz.
Sofia olhou para o nome no ecrã.
E, pela primeira vez na vida, sentiu medo de atender a chamada da mulher que sempre chamara de mãe.

Fim do Episódio 3.



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