Sofia continuava a olhar para Maria da Luz.
Aquela última frase parecia ecoar-lhe na cabeça.
“Disseram-me que aquela criança ia partir para França.”
— Quem lhe disse isso? — perguntou finalmente.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Já passaram muitos anos, Sofia. Há coisas de que já não me lembro bem.
— Mas lembra-se de a ter visto?
— Lembro-me de uma mulher muito jovem. E lembro-me de que estava desesperada.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
— E o bebé?
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Não sei se devo dizer mais alguma coisa.
— Por favor.
A mulher respirou fundo.
— Só me lembro de uma coisa: aquela criança não estava bem.
Sofia sentiu um arrepio.
— Não estava bem como?
— Era muito pequena. Precisava de cuidados. A mulher dizia que não tinha condições para ficar com ela.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Nunca me tinhas contado isso.
— Porque não era uma história minha para contar.
Sofia sentiu os olhos humedecerem.
— E depois?
Maria da Luz abanou a cabeça.
— Depois, desapareceu.
— Para onde?
— Não sei.
Sofia olhou novamente para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé tinha uma expressão triste. Não parecia estar a despedir-se de alguém. Parecia estar a lutar contra uma decisão que não queria tomar.
— Maria da Luz... sabe quem era essa mulher?
A resposta demorou alguns segundos.
— Talvez.
Sofia levantou imediatamente os olhos.
— Talvez?
— Tenho uma vaga lembrança de um nome.
— Qual?
Maria da Luz fechou os olhos por momentos, tentando recordar.
— Rita.
O nome ficou suspenso entre as três.
Rita.
Sofia repetiu baixinho:
— Rita...
Ao sair do café, Sofia caminhava ao lado de Cláudia em silêncio.
— Estás bem? — perguntou a amiga.
— Não sei.
— Queres que esqueçamos isto?
Sofia parou.
— Não.
Olhou para a fotografia que tinha guardado cuidadosamente na mala.
— Quero saber quem é aquela mulher.
— E se descobrires alguma coisa que não gostes?
Sofia respirou fundo.
— Então terei de aprender a viver com a verdade.
As duas continuaram a caminhar.
Ao atravessarem uma das ruas do centro da cidade, Sofia quase chocou com um homem que vinha distraído, olhando para o telemóvel.
— Desculpe! — disseram os dois ao mesmo tempo.
O homem sorriu.
— A culpa foi minha.
Sofia sorriu também.
— Não faz mal.
— Sou Francisco.
— Sofia.
Por breves instantes, os dois ficaram a olhar um para o outro.
Cláudia, alguns passos à frente, voltou-se e sorriu discretamente.
— Vamos? — chamou.
— Já vou.
Sofia despediu-se de Francisco e continuou o caminho.
Não sabia ainda quem ele era.
Nem imaginava que aquele encontro aparentemente insignificante voltaria a cruzar-se com a sua vida.
Nessa noite, Sofia abriu novamente a fotografia.
Virou-a.
A frase continuava lá:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Pegou no telemóvel e procurou entre as fotografias antigas que tinha guardadas.
Queria encontrar alguma imagem da sua infância.
Depois de alguns minutos, encontrou uma fotografia que Beatriz lhe tinha enviado anos antes.
Sofia ampliou-a.
Era muito pequena.
Estava ao colo de Beatriz.
Mas havia algo naquela fotografia que nunca tinha reparado.
Ao fundo, parcialmente escondida, estava uma mulher.
Sofia aproximou ainda mais a imagem.
O coração começou a bater-lhe depressa.
Aquela mulher parecia-se demasiado com a mulher da fotografia antiga.
Fim do Episódio 5.
Sofia continuava com o telemóvel na mão.
O nome de Beatriz permanecia no ecrã.
Durante alguns segundos, não soube o que fazer.
Atender significava ouvir a voz da mulher que sempre conhecera como mãe. Mas, naquele momento, uma pergunta começava a crescer dentro dela.
E se houvesse coisas que Beatriz nunca lhe tinha contado?
Respirou fundo e atendeu.
— Olá, mãe.
— Então, filha? Estás bem? — perguntou Beatriz.
— Estou.
— Pareces-me um pouco estranha.
Sofia ficou em silêncio.
— Estou só cansada da viagem.
Do outro lado, Beatriz demorou alguns segundos a responder.
— Tens a certeza?
— Tenho, mãe.
António aproximou-se de Beatriz.
— É a Sofia?
Beatriz confirmou com um gesto.
— O teu pai manda um beijo.
— Outro para ele.
Sofia quase perguntou:
“Mãe, onde estava eu quando era bebé?”
Mas a pergunta ficou presa na garganta.
— Vou desligar, mãe. Amanhã falamos melhor.
— Está bem, filha. Aproveita as férias.
— Vou aproveitar.
Quando desligou, Sofia voltou a olhar para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé continuava a provocar-lhe uma sensação estranha.
Não conseguia explicar porquê.
Na manhã seguinte, Cláudia apareceu novamente.
Desta vez, trazia consigo uma mulher de cabelos grisalhos e olhar tranquilo.
— Sofia, quero apresentar-te a minha mãe.
— Maria da Luz — disse a mulher, estendendo-lhe a mão.
Sofia sorriu.
— Muito prazer.
Maria da Luz ficou alguns segundos a olhar para Sofia.
Não era um olhar indiscreto.
Era um olhar de quem tentava reconhecer alguém.
— És muito parecida com a tua mãe — disse finalmente.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Com a minha mãe?
— Sim... com a Beatriz.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Ou talvez não.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Mãe...
— Desculpa, Sofia. Não devia ter dito isso.
Mas já era tarde.
Sofia sentou-se.
— O que é que a senhora sabe?
Maria da Luz respirou fundo.
— Sei apenas aquilo que ouvi há muitos anos. E talvez nem tudo seja verdade.
— Então conte-me.
A mulher hesitou.
— Quando eras bebé, houve uma mulher que apareceu por aqui algumas vezes. Era muito jovem. Andava sempre muito preocupada.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— Quem era ela?
Maria da Luz abanou lentamente a cabeça.
— Não sei o nome.
— E o que aconteceu?
— Um dia deixou de aparecer.
Sofia levantou-se.
— E a fotografia?
Maria da Luz olhou para Cláudia.
Depois para Sofia.
— Essa fotografia… eu lembro-me de a ter visto.
Sofia ficou sem palavras.
— Onde?
Maria da Luz aproximou-se dela e falou quase num sussurro:
— Na altura, disseram-me que aquela criança ia partir para França.
O mundo pareceu parar.
Sofia olhou para Cláudia.
— Para França?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
De repente, uma pergunta tornou-se impossível de ignorar:
E se aquela criança fosse ela?
Fim do Episódio 4.
Sofia continuava a olhar para o telemóvel.
A mensagem de Cláudia não lhe saía da cabeça.
“Tens de prometer que não vais contar a ninguém.”
Porquê tanto mistério?
Durante alguns segundos, pensou em telefonar-lhe, mas acabou por escrever:
— Prometo. Mas agora tens de me contar.
A resposta demorou.
Um minuto.
Dois.
Depois chegou:
— Não por mensagem. Quero falar contigo pessoalmente.
Sofia suspirou.
— Está bem. Quando?
— Amanhã de manhã. No Jardim do Lago.
Sofia pousou o telemóvel sobre a mesa.
Sentia uma inquietação que não conseguia explicar.
Naquela noite, tentou distrair-se. Abriu uma série na televisão, respondeu a algumas mensagens e chegou mesmo a preparar a roupa para o dia seguinte.
Mas a pergunta continuava presente.
O que sabia a mãe de Cláudia sobre ela?
Na manhã seguinte, Sofia chegou cedo ao Jardim do Lago.
O sol iluminava a cidade e, ao longe, a Serra da Estrela destacava-se no horizonte.
Sentou-se num banco e esperou.
Poucos minutos depois, viu Cláudia aproximar-se.
— Desculpa o atraso.
— Não faz mal. Mas agora vais ter de me explicar tudo.
Cláudia sentou-se ao lado dela.
— Ontem falei com a minha mãe.
Sofia ficou imediatamente atenta.
— E?
— Perguntei-lhe o que sabia sobre ti quando eras pequena.
— O que ela disse?
Cláudia hesitou.
— Disse que, quando vocês foram para França, houve muita gente que ficou surpreendida.
— Porquê?
— Porque, segundo ela, havia coisas na tua história que ninguém percebia muito bem.
Sofia franziu a testa.
— Que coisas?
— Ela não quis explicar.
— Cláudia...
— Espera. Há mais.
Cláudia abriu a mala e retirou um pequeno envelope.
— A minha mãe encontrou isto numa caixa antiga.
Sofia olhou para o envelope.
— O que é?
— Não sei. Ela disse apenas que talvez fosse teu.
Sofia pegou nele.
As mãos tremiam-lhe ligeiramente.
Abriu devagar.
Dentro havia uma fotografia antiga.
Uma mulher muito jovem segurava um bebé ao colo.
Sofia ficou a olhar para a fotografia.
— Quem é esta mulher?
Cláudia abanou a cabeça.
— Não sei.
No verso da fotografia havia uma data.
2001.
Sofia ficou confusa.
— Mas eu nasci em 2001...
Cláudia olhou para ela.
— Eu sei.
O coração de Sofia começou a bater mais depressa.
Voltou a olhar para a fotografia.
Havia qualquer coisa naquele rosto.
Não sabia o quê.
Uma sensação.
Uma familiaridade inexplicável.
— Cláudia... onde é que a tua mãe encontrou isto?
— Numa caixa que pertenceu à minha avó.
Sofia virou a fotografia.
No verso, além da data, havia uma frase escrita à mão.
A tinta estava já desbotada, mas ainda era possível ler:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Sofia levantou lentamente os olhos.
— A verdade sobre quê?
Cláudia não respondeu.
Porque, naquele preciso momento, o telemóvel de Sofia começou a tocar.
Era Beatriz.
Sofia olhou para o nome no ecrã.
E, pela primeira vez na vida, sentiu medo de atender a chamada da mulher que sempre chamara de mãe.
Fim do Episódio 3.
Muito obrigado pela vossa visita
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