CAMINHOS CRUZADOS Episódio 4 — A voz do passado

Sofia continuava com o telemóvel na mão.
O nome de Beatriz permanecia no ecrã.
Durante alguns segundos, não soube o que fazer.
Atender significava ouvir a voz da mulher que sempre conhecera como mãe. Mas, naquele momento, uma pergunta começava a crescer dentro dela.
E se houvesse coisas que Beatriz nunca lhe tinha contado?
Respirou fundo e atendeu.
— Olá, mãe.
— Então, filha? Estás bem? — perguntou Beatriz.
— Estou.
— Pareces-me um pouco estranha.
Sofia ficou em silêncio.
— Estou só cansada da viagem.
Do outro lado, Beatriz demorou alguns segundos a responder.
— Tens a certeza?
— Tenho, mãe.
António aproximou-se de Beatriz.
— É a Sofia?
Beatriz confirmou com um gesto.
— O teu pai manda um beijo.
— Outro para ele.
Sofia quase perguntou:
“Mãe, onde estava eu quando era bebé?”
Mas a pergunta ficou presa na garganta.
— Vou desligar, mãe. Amanhã falamos melhor.
— Está bem, filha. Aproveita as férias.
— Vou aproveitar.
Quando desligou, Sofia voltou a olhar para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé continuava a provocar-lhe uma sensação estranha.
Não conseguia explicar porquê.
Na manhã seguinte, Cláudia apareceu novamente.
Desta vez, trazia consigo uma mulher de cabelos grisalhos e olhar tranquilo.
— Sofia, quero apresentar-te a minha mãe.
— Maria da Luz — disse a mulher, estendendo-lhe a mão.
Sofia sorriu.
— Muito prazer.
Maria da Luz ficou alguns segundos a olhar para Sofia.
Não era um olhar indiscreto.
Era um olhar de quem tentava reconhecer alguém.
— És muito parecida com a tua mãe — disse finalmente.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Com a minha mãe?
— Sim... com a Beatriz.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Ou talvez não.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Mãe...
— Desculpa, Sofia. Não devia ter dito isso.
Mas já era tarde.
Sofia sentou-se.
— O que é que a senhora sabe?
Maria da Luz respirou fundo.
— Sei apenas aquilo que ouvi há muitos anos. E talvez nem tudo seja verdade.
— Então conte-me.
A mulher hesitou.
— Quando eras bebé, houve uma mulher que apareceu por aqui algumas vezes. Era muito jovem. Andava sempre muito preocupada.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— Quem era ela?
Maria da Luz abanou lentamente a cabeça.
— Não sei o nome.
— E o que aconteceu?
— Um dia deixou de aparecer.
Sofia levantou-se.
— E a fotografia?
Maria da Luz olhou para Cláudia.
Depois para Sofia.
— Essa fotografia… eu lembro-me de a ter visto.
Sofia ficou sem palavras.
— Onde?
Maria da Luz aproximou-se dela e falou quase num sussurro:
— Na altura, disseram-me que aquela criança ia partir para França.
O mundo pareceu parar.
Sofia olhou para Cláudia.
— Para França?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
De repente, uma pergunta tornou-se impossível de ignorar:
E se aquela criança fosse ela?

Fim do Episódio 4.





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