O jantar decorreu com uma estranha mistura de alegria e silĂȘncio.
Ă mesa, Henrique e Beatriz falavam animadamente, ClĂĄudia e Paulo trocavam impressĂ”es sobre a viagem, a cidade, a universidade. Tudo parecia normal… demasiado normal.
Mas, por baixo daquela normalidade, havia uma histĂłria antiga que tinha regressado sem aviso.
David e Carol quase nĂŁo falaram diretamente um com o outro durante o jantar.
Limitavam-se a pequenos olhares, discretos, como quem tenta confirmar que aquilo tudo era real.
Vinte anos depois.
Um momento a sĂłs
Depois da sobremesa, ClĂĄudia sugeriu:
— Vamos atĂ© Ă varanda, estĂĄ uma noite agradĂĄvel.
Paulo e os jovens acompanharam-na.
David ficou na sala por alguns segundos.
Carol também.
O silĂȘncio instalou-se.
Finalmente, David falou:
— Queres… dar uma volta?
Carol assentiu.
— Sim.
SaĂram de casa e começaram a caminhar pelas ruas da CovilhĂŁ.
A noite estava calma. As luzes da cidade espalhavam-se pela encosta e o ar fresco da serra trazia uma sensação quase familiar.
Durante alguns minutos caminharam em silĂȘncio.
Até que Carol disse:
— Nunca pensei voltar aqui… assim.
David sorriu levemente.
— Nem eu pensei voltar a ver-te.
Pararam por um instante junto a um miradouro improvisado.
— EstĂĄs diferente — disse ele.
— Tu tambĂ©m… — respondeu Carol.
Houve uma pausa.
NĂŁo era desconfortĂĄvel.
Era apenas… carregada de tudo o que ficou por dizer.
David acabou por tocar no assunto.
— Recebi a tua carta.
Carol baixou ligeiramente o olhar.
— Eu sei…
— Demorei muito tempo Ă espera dela.
— Eu tambĂ©m demorei muito tempo a escrevĂȘ-la.
David respirou fundo.
— Foi… dura.
Carol assentiu.
— Eu sei que foi.
Ficaram em silĂȘncio por alguns segundos.
Carol olhou para ele com sinceridade.
— Nem tudo o que escrevi era exatamente o que sentia.
David franziu ligeiramente a testa.
— EntĂŁo porquĂȘ?
Carol respirou fundo.
— Quando cheguei Ă NazarĂ©, tudo mudou muito rĂĄpido… a escola, os amigos, o mar… a minha vida virou do avesso.
Fez uma pausa.
— E em casa… os meus pais começaram a pressionar-me.
— Pressionar?
— Sim. Diziam que eu tinha de seguir em frente… que a distĂąncia era grande… que aquilo era coisa de jovens… uma paixoneta.
David ficou em silĂȘncio, a ouvir.
— Diziam que eu nĂŁo podia ficar presa a alguĂ©m que estava longe… que tinha de me concentrar nos estudos, na nova vida.
— E tu?
Carol olhou para o chĂŁo por um momento.
— Eu estava confusa… tinha saudades tuas, mas tambĂ©m estava a tentar adaptar-me. E acabei por acreditar que talvez fosse mais fĂĄcil cortar tudo de uma vez.
David assentiu lentamente.
— Por isso escreveste aquilo.
— Sim… tentei convencer-te… e convencer-me a mim tambĂ©m.
David soltou um pequeno sorriso triste.
— Resultou.
Carol olhou para ele.
— Magoei-te muito?
David demorou a responder.
— Na altura… sim.
O silĂȘncio voltou.
Mas desta vez era mais leve.
Continuaram a caminhar até perto do Jardim.
— Sabes uma coisa? — disse David.
— O quĂȘ?
— Durante muito tempo pensei que para ti aquilo nĂŁo tinha significado.
Carol parou.
— Teve… mais do que imaginas.
Olharam um para o outro.
Agora sem pressa.
Sem expectativas.
Apenas com a verdade que o tempo tinha deixado amadurecer.
— Mas a vida seguiu — disse Carol suavemente.
— Sim… seguiu.
— Tens uma famĂlia bonita.
— Tu tambĂ©m.
Sorriram.
NĂŁo havia arrependimento.
Apenas compreensĂŁo.
Quando voltaram para casa, encontraram os outros ainda na varanda, a rir e a conversar.
Henrique e Beatriz estavam sentados lado a lado.
Jovens, apaixonados, no inĂcio de tudo.
David e Carol trocaram um Ășltimo olhar.
Desta vez diferente.
Sem peso.
Sem dĂșvida.
Apenas com a certeza de que, apesar de tudo o que aconteceu, aquela histĂłria tinha tido o seu tempo… e o seu lugar.
E talvez fosse isso que a tornava tĂŁo especial.
CapĂtulo XIX
Nunca digas Nunca
Os anos voltaram a passar.
A vida seguiu o seu curso natural, como sempre tinha feito entre as montanhas da Covilhã e o mar da Nazaré.
Henrique e Beatriz terminaram o curso na Universidade da Beira Interior, começaram a trabalhar, cresceram juntos.
O amor que tinha começado de forma simples, numa sala de aula, tornou-se sólido, verdadeiro, maduro.
E um dia, sem surpresa para ninguém, decidiram dar o passo seguinte.
O casamento
O casamento foi marcado para um dia luminoso de verĂŁo.
A cerimónia realizou-se na Nazaré, perto do mar que tinha mudado a vida de Carol muitos anos antes.
A Praia da Nazaré estendia-se ao fundo, azul e infinita, como testemunha silenciosa de duas histórias que agora se cruzavam definitivamente.
Familiares e amigos juntaram-se. Risos, abraços, emoçÔes partilhadas.
David e ClĂĄudia chegaram cedo.
Carol e Paulo recebiam os convidados com um sorriso tranquilo.
Quando os olhares de David e Carol se cruzaram, houve um instante breve — quase impercetĂvel — em que o passado voltou.
Mas jĂĄ nĂŁo havia dor.
Apenas uma memĂłria bonita.
Henrique, de fato elegante, esperava junto ao altar improvisado.
Beatriz aproximava-se lentamente, acompanhada pelo pai.
O vento leve da Nazaré fazia mover suavemente o vestido.
Quando os olhos dos dois se encontraram, tudo o resto desapareceu.
Tal como tinha acontecido, muitos anos antes… com outras duas pessoas.
Durante a cerimĂłnia, o celebrante falou de caminhos, de encontros e de como a vida tem formas inesperadas de unir pessoas.
— HĂĄ histĂłrias que parecem terminar — disse ele — mas que, na verdade, apenas ficam Ă espera do momento certo para recomeçar de outra forma.
David olhou discretamente para Carol.
Ela sorriu.
Como se ambos soubessem exatamente o que aquelas palavras significavam.
Mais tarde, jĂĄ durante a festa, Henrique levantou o copo para falar.
— Quero agradecer aos nossos pais… por tudo.
Olhou para David e ClĂĄudia.
Depois para Carol e Paulo.
— E hĂĄ uma coisa que aprendi com esta histĂłria toda… mesmo sem saber.
Fez uma pequena pausa.
— Nunca digas nunca.
Houve um silĂȘncio breve.
Depois, aplausos.
David baixou ligeiramente a cabeça, sorrindo.
Carol limpou discretamente uma lĂĄgrima.
A noite caiu sobre a Nazaré.
As luzes acenderam-se, a mĂșsica começou, e a festa continuou junto ao som das ondas.
David aproximou-se de Carol.
— Parece que afinal o mar ganhou Ă serra — disse ele, com um sorriso leve.
Carol respondeu:
— Ou talvez tenham aprendido a viver juntos.
Ficaram ali por um momento, a olhar para Henrique e Beatriz a dançar.
Duas vidas que começavam.
Duas histĂłrias que se tinham cruzado sem saber… e que agora se uniam para sempre.
EpĂlogo
Anos antes, tudo tinha começado com um olhar numa piscina de verão.
Passou por cartas, despedidas, silĂȘncios e reencontros.
E terminou — ou talvez recomeçou — com um casamento junto ao mar.
Porque a vida raramente segue linhas direitas.
Faz curvas, desvios, voltas inesperadas.
E, Ă s vezes, escreve histĂłrias tĂŁo improvĂĄveis… que parecem impossĂveis.
Mas nĂŁo sĂŁo.
Porque, no fundo, hĂĄ uma verdade simples que atravessa o tempo:
Nunca digas nunca.
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