NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO XIV

                                     O mar que guarda memĂłrias


A viagem começou cedo numa manhã luminosa de verão.
Na rua ainda meio silenciosa da CovilhĂŁ, o pequeno Fiat 600 azul do pai de David estava carregado com malas e sacos de viagem.
O carro parecia pequeno demais para tudo aquilo, mas para a famĂ­lia era suficiente. Sempre fora.
— Vamos ver o mar — disse a mĂŁe, com um sorriso.
David limitou-se a acenar com a cabeça.
Durante a viagem, o carro serpenteou pelas estradas da serra e depois desceu lentamente para as terras mais planas. A paisagem foi mudando: as montanhas ficaram para trĂĄs, os campos tornaram-se mais verdes, e o ar parecia cada vez mais leve.
Horas depois, quando finalmente chegaram à Nazaré, David viu o mar pela primeira vez.
Ficou em silĂȘncio.
O oceano estendia-se até ao horizonte, enorme, vivo, diferente de tudo o que conhecia nas montanhas.
Os pais tinham arrendado uma pequena casa numa rua perto da Praia da Nazaré.
Da janela conseguia ouvir-se o som constante das ondas.
A mĂŁe abriu as janelas para entrar o ar do mar.
— Cheira a fĂ©rias — disse ela.
O pai riu-se.
— E a peixe tambĂ©m.
David pousou a mala no quarto e ficou algum tempo Ă  janela, a observar a praia cheia de gente.
Sabia que algures naquela vila Carol vivia agora a sua nova vida.
Mas nĂŁo fazia ideia se algum dia a voltaria a ver.
Nessa mesma tarde, David decidiu caminhar sozinho pela marginal.
As ruas estavam cheias de turistas, crianças com gelados, vendedores ambulantes e pescadores que regressavam da faina.
Enquanto passava por uma esplanada cheia de jovens a rir e conversar, ouviu uma gargalhada que lhe pareceu estranhamente familiar.
O coração acelerou.
Virou ligeiramente a cabeça.
E viu-a.
Carol estava sentada numa mesa com um grupo de amigos.
Conversava animadamente, gesticulava, ria com uma alegria natural.
Entre eles estava tambĂ©m uma rapariga que David nunca tinha visto — provavelmente a amiga Ana de quem Carol falara na carta.
Durante alguns segundos, David ficou parado do outro lado da rua.
Carol parecia feliz.
Muito feliz.
Uma felicidade simples, leve, como se o passado tivesse ficado muito longe.
David pensou em atravessar a rua.
Pensou em chamar o nome dela.
Pensou em aproximar-se e dizer apenas:
— OlĂĄ, Carol.
Mas as palavras nunca saĂ­ram.
Em vez disso, continuou a caminhar lentamente, como se tivesse medo de quebrar aquela imagem.
Talvez fosse melhor assim.
Talvez aquela histĂłria tivesse mesmo ficado no verĂŁo anterior.
Ao final da tarde, David caminhou até à areia da Praia da Nazaré.
O sol começava a descer no horizonte e o céu estava pintado de tons laranja e dourado.
Sentou-se perto da ĂĄgua.
As ondas vinham e iam, repetidamente, como se o mar respirasse.
Durante algum tempo ficou apenas a olhar para o horizonte.
Pensou em tudo o que tinha acontecido.
Pensou no verĂŁo na CovilhĂŁ.
Pensou na carta.
Pensou naquele momento na esplanada.
E, pela Ășltima vez, as lĂĄgrimas vieram-lhe aos olhos.
NĂŁo eram lĂĄgrimas de raiva.
Eram lĂĄgrimas de despedida.
As Ășltimas lĂĄgrimas de David por Carol.
Quando regressou Ă  pequena casa, jĂĄ era noite.
A mĂŁe percebeu imediatamente que algo nĂŁo estava bem.
— Foste ver o mar?
David assentiu.
— Sim.
O pai olhou para ele durante alguns segundos.
— E encontraste aquilo que foste procurar?
David pensou por um momento antes de responder.
— Acho que sim.
Sentaram-se os trĂȘs na pequena varanda da casa, ouvindo ao longe o som das ondas.
A mĂŁe pousou a mĂŁo no ombro dele.
— Sabes… a vida ainda te vai trazer muitas coisas bonitas.
O pai acrescentou:
— E o mundo Ă© muito maior do que aquilo que imaginamos quando somos novos.
David olhou novamente para o mar escuro ao longe.
Pela primeira vez desde que recebera a carta, sentiu algo diferente dentro de si.
NĂŁo era alegria.
Mas também jå não era apenas tristeza.
Era simplesmente a sensação de que um capítulo da sua vida tinha terminado.
E que, algures mais Ă  frente, outros ainda estavam por escrever.

Continua…



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