MEMÓRIAS DE SÃO FRANCISCO

Há Freguesias onde as pessoas vivem.

E há Freguesias que vivem para sempre dentro de nós.
São Francisco é uma delas.

Nasci na Rua Comendador Campos Melo, a nossa eterna Rua Direita, bem no coração da Covilhã. Foi ali que aprendi o verdadeiro significado da palavra infância. Uma infância sem telemóveis, sem internet, sem videojogos… mas com uma riqueza que hoje vale ouro: a liberdade.
O Jardim Público era o nosso mundo. Jogávamos às apanhadas, ao berlinde, aos castelos, às escondidas e inventávamos brincadeiras que duravam horas. Quando construíram o parque infantil, parecia que tínhamos recebido um parque de diversões. Quem não se lembra da "barca" constantemente virada ao contrário? Dos cavalinhos que pareciam andar à velocidade da luz? E dos baloiços onde acreditávamos que conseguíamos tocar no céu? 

No adro da Igreja de São Francisco jogava-se à bola, mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, o Sr. Padre apareceria à porta a ralhar connosco. Mas isso nunca nos demovia.
Juntávamos moedas entre todos e, com apenas 2$50, um de nós ia à loja do Sr. Raúl Paiva ou do Sr. Morão comprar uma bola de plástico. Vinham penduradas em enormes sacos à porta da loja. Duravam pouco… Bastava um remate mais forte e ficavam com uma forma que nem o melhor guarda-redes conseguia prever. 
E depois havia o inesquecível Campo das Festas. Que jogos épicos ali se fizeram! Havia equipas, árbitro, discussões, golos e muita paixão. O drama começava quando uma "rosca" mandava a bola até à Avenida Frei Heitor Pinto. Quem a fosse buscar tinha de descer… e depois subir tudo outra vez. Era o preço da glória.

Quando a barriga começava a dar horas, seguíamos para a padaria da Dona São, no Largo de Infantaria 21. Recebia-nos sempre com um sorriso. Era ali que as nossas mães compravam o pão e onde tantas vezes se dizia: "Fica na conta."

As festas de São João transformavam a Freguesia. Havia bailaricos, fogueiras, cheiro a rosmaninho, música e alegria até altas horas. Ainda me lembro do senhor que vendia bombinhas e estalinhos na Avenida Frei Heitor Pinto. No Carnaval vinham as garrafinhas de mau cheiro, as seringas de água e as batalhas que hoje fariam qualquer adulto entrar em pânico. Felizmente, naquele tempo ainda não existia a ASAE... nem as redes sociais para filmar tudo! 
E quem esquece os grandes bailes no Arsenal de São Francisco?
Os fins de semana de inverno eram outro espetáculo. Nos anos 70 e 80, centenas de autocarros chegavam à Covilhã rumo à Serra da Estrela. A cidade fervilhava de vida. Os hotéis estavam cheios, os cafés apinhados, o Teatro-Cine e o Cine Centro com lotações esgotadas. Lembro-me de muitas vezes nem conseguir entrar na Leitaria Triunfo, tal era a multidão.

Poderia escrever durante horas sobre São Francisco. Recordar vizinhos, comerciantes, jardineiros, funcionários da Biblioteca, dirigentes das coletividades, sacerdotes… Tenho receio de esquecer alguém, porque todos fizeram parte desta história.

Deixo um abraço muito especial ao Sr. Padre Fernando Brito, a todos os amigos dessa época e, sobretudo, aos nossos pais, muitos deles já ausentes, mas eternamente presentes naquilo que somos hoje.

Obrigado.
Obrigado por nos terem dado uma infância que nenhuma tecnologia conseguirá substituir.
Obrigado por nos ensinarem que a felicidade podia morar numa bola de plástico, num baloiço, numa fatia de pão ou numa rua cheia de amigos.

Porque nós não tivemos tudo…
Mas tivemos tudo o que realmente importava.

Bom dia para todos nós 🍀



Sem comentários:

Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...