O reencontro aconteceu numa tarde tranquila de primavera.
Pedro caminhava sem destino certo quando a viu, junto ao Pelourinho da Covilhã. A Flor estava diferente — o cabelo mais comprido, o olhar mais firme — mas era ela. Sempre fora ela.
Ficaram imóveis por um segundo que pareceu um ano inteiro.
— Voltaste — disse ela, num sopro.
— Voltei — respondeu ele, com a voz ainda rouca das coisas que nunca contaria.
Caminharam lado a lado pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, como se retomassem um passo interrompido. Na Confeitaria Lisbonense, pediram dois cafés. As mãos quase se tocaram sobre a mesa de mármore.
Não falaram da guerra. Nem da distância. Falaram da cidade, das mudanças depois de abril, dos sonhos que tinham ficado suspensos no tempo.
Ao sair, passaram pelo monumento de Nossa Senhora da Conceição. A Flor entrou para acender uma vela. Pedro ficou junto às grades, olhando o céu sobre a serra.
Quando ela voltou, já não havia dúvida no silêncio entre eles. Havia escolha.
E, ali mesmo, entre pedras antigas e promessas novas, perceberam que há reencontros que não pedem explicações — apenas coragem para recomeçar.
Os dias seguintes à revolução trouxeram um entusiasmo inquieto à Covilhã. Falava-se de liberdade nas ruas, nas filas do pão, nas mesas de café. Pedro sentia que o país tinha mudado — e que ele também precisava de mudar.
Numa manhã fria, atravessou o centro e subiu em direção às fábricas de lanifícios que faziam da cidade um coração de lã e fumo. O som dos teares ecoava como um pulso constante. Ali não havia tiros nem ordens gritadas — havia trabalho.
Apresentou-se ao encarregado da "LANOFABRIL" com a mesma postura firme que trouxera da tropa. Dias depois, começou na secção de acabamento. As mãos, habituadas ao peso da arma, aprenderam o ritmo dos tecidos, a aspereza da lã crua, o orgulho de ver um rolo perfeito sair da máquina.
Ao fim da tarde, encontrava-se com a Flor no jardim. Contava-lhe do cheiro a vapor, das conversas dos operários sobre sindicatos e direitos novos. Ela ouvia com atenção e sorria — havia esperança naquele cansaço.
A cidade transformava-se devagar. E Pedro, entre fios entrelaçados e sonhos reconstruídos, começava finalmente a tecer o seu próprio futuro.
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀
Pedro caminhava sem destino certo quando a viu, junto ao Pelourinho da Covilhã. A Flor estava diferente — o cabelo mais comprido, o olhar mais firme — mas era ela. Sempre fora ela.
Ficaram imóveis por um segundo que pareceu um ano inteiro.
— Voltaste — disse ela, num sopro.
— Voltei — respondeu ele, com a voz ainda rouca das coisas que nunca contaria.
Caminharam lado a lado pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, como se retomassem um passo interrompido. Na Confeitaria Lisbonense, pediram dois cafés. As mãos quase se tocaram sobre a mesa de mármore.
Não falaram da guerra. Nem da distância. Falaram da cidade, das mudanças depois de abril, dos sonhos que tinham ficado suspensos no tempo.
Ao sair, passaram pelo monumento de Nossa Senhora da Conceição. A Flor entrou para acender uma vela. Pedro ficou junto às grades, olhando o céu sobre a serra.
Quando ela voltou, já não havia dúvida no silêncio entre eles. Havia escolha.
E, ali mesmo, entre pedras antigas e promessas novas, perceberam que há reencontros que não pedem explicações — apenas coragem para recomeçar.
Os dias seguintes à revolução trouxeram um entusiasmo inquieto à Covilhã. Falava-se de liberdade nas ruas, nas filas do pão, nas mesas de café. Pedro sentia que o país tinha mudado — e que ele também precisava de mudar.
Numa manhã fria, atravessou o centro e subiu em direção às fábricas de lanifícios que faziam da cidade um coração de lã e fumo. O som dos teares ecoava como um pulso constante. Ali não havia tiros nem ordens gritadas — havia trabalho.
Apresentou-se ao encarregado da "LANOFABRIL" com a mesma postura firme que trouxera da tropa. Dias depois, começou na secção de acabamento. As mãos, habituadas ao peso da arma, aprenderam o ritmo dos tecidos, a aspereza da lã crua, o orgulho de ver um rolo perfeito sair da máquina.
Ao fim da tarde, encontrava-se com a Flor no jardim. Contava-lhe do cheiro a vapor, das conversas dos operários sobre sindicatos e direitos novos. Ela ouvia com atenção e sorria — havia esperança naquele cansaço.
A cidade transformava-se devagar. E Pedro, entre fios entrelaçados e sonhos reconstruídos, começava finalmente a tecer o seu próprio futuro.
Continua…
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