AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VII

                                     Capítulo VII
               A transferência para o hospital da Covilhã


A carta seguinte não foi escrita pela Flor, mas pelo médico. O estado dela continuava frágil. Precisava de cuidados prolongados — e a família, já exausta, tomou uma decisão difícil.
A pedido da própria Flor, organizaram a transferência para Portugal.
“Quero ouvir a nossa língua. Quero ver a serra pela janela”, dissera ela.
Dias depois, a notícia chegou a Pedro como um sopro de ar depois de meses de angústia. A ambulância atravessaria a fronteira e seguiria direto para o hospital da Covilhã.
Na manhã da chegada, ele esperava junto ao edifício, o coração a bater descompassado. Quando a viu sair, mais magra, mais pálida, mas ali — em casa — sentiu algo que não cabia nas palavras.
A Flor abriu os olhos devagar quando a maca entrou no quarto. Pela janela via-se, ao longe, a silhueta da serra.
— Cheira a casa — murmurou.
Pedro aproximou-se.
— Estás na Covilhã — disse-lhe, com um sorriso contido.
Nos dias seguintes, a cidade parecia respirar com ela. Vizinhos perguntavam, antigos colegas enviavam flores, alguém deixou cravos vermelhos na mesa de cabeceira, como lembrança de que aquele país tinha aprendido a lutar.
A recuperação seria incerta, lenta. Mas agora, todas as manhãs, quando a luz entrava pela janela do hospital e tocava a montanha, a Flor sabia que, acontecesse o que acontecesse, estava onde sempre quisera estar.
E Pedro, sentado ao seu lado, compreendeu finalmente que às vezes o maior milagre não é curar — é regressar.
A presença da serra parecia dar força à Flor.
Os dias no hospital da Covilhã eram lentos, medidos pelo som distante das ambulâncias e pelo ranger das portas no corredor. Mas havia algo diferente ali: vozes conhecidas, o sotaque da terra, o cheiro do ar frio que entrava pela janela entreaberta.
Pedro ia todos os dias depois do turno na fábrica. Sentava-se ao lado dela e lia-lhe trechos das cartas antigas que tinham trocado. Às vezes falava do movimento na cidade, das reuniões dos operários, das mudanças que ainda estavam a acontecer depois da revolução.
Aos poucos, a Flor começou a recuperar pequenas coisas: primeiro sentou-se sozinha, depois conseguiu dar alguns passos pelo quarto com ajuda. Cada gesto era celebrado como uma vitória silenciosa.
Numa tarde clara, pediram autorização para descer ao jardim do hospital. A Flor caminhava devagar, apoiada no braço de Pedro. Quando sentiram o sol no rosto, ela fechou os olhos.
— Lembras-te de quando achávamos que o mundo acabava na estação? — perguntou ela, sorrindo.
Pedro riu baixo.
— Afinal, o mundo era maior. Mas a nossa cidade também.
A recuperação seria longa, talvez nunca completa. Havia cicatrizes invisíveis que o tempo não apagaria. Mas ali, debaixo do céu da Covilhã, perceberam que sobreviver também é uma forma de coragem.
E enquanto a serra permanecia firme no horizonte, como sempre estivera, a vida — frágil, teimosa e luminosa — continuava.
Mas a vida, por vezes, é feita de avanços curtos e recuos inesperados.
Depois de algumas semanas de esperança, a Flor começou a sentir-se novamente mais fraca. Primeiro foi o cansaço — um peso estranho que não passava com o descanso. Depois vieram as febres silenciosas, a falta de ar, o olhar mais distante.
Os médicos falavam baixo no corredor. Complicações tardias do acidente. O corpo estava a lutar há demasiado tempo.
Pedro percebeu antes de lhe dizerem. Sentia-o na forma como ela apertava a mão dele, com menos força a cada dia.
Numa noite em que a serra estava envolta em nevoeiro, a Flor pediu que abrissem ligeiramente a janela.
— Quero ouvir a cidade — sussurrou.
Lá fora, o som distante de um carro, um cão a ladrar, o vento a passar entre os prédios. Sons simples. Sons de casa.
Pedro sentou-se ao lado dela e falou-lhe do Pelourinho, das arcadas da Câmara, do café Montalto onde ainda guardavam a mesa junto à janela como se eles fossem voltar a ocupá-la a qualquer momento.
Ela sorriu, mas o sorriso era frágil.
— Se eu não conseguir… — começou.
Pedro interrompeu-a, com a voz firme apesar do tremor:
— Consegues. Estamos aqui.
Mas, pela primeira vez, o silêncio entre as palavras parecia mais pesado do que a esperança.
E naquela noite longa na Covilhã, enquanto a serra permanecia imóvel sob o céu escuro, ambos sentiram que a história deles estava a entrar numa das suas páginas mais difíceis.
Continua…
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Bom dia para todos nós 🍀


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