Capítulo VI
Pedro regressa à Covilhã
Durante algumas semanas, parecia que tudo ia melhorar. A Flor já conseguia sentar-se na cama, falava mais, até sorria quando Pedro lhe contava histórias da Covilhã — do barulho dos teares, das conversas no café, das novidades que chegavam à praça.
Mas, de repente, o estado dela voltou a piorar.
Os médicos começaram a falar em complicações internas do acidente. A Flor cansava-se depressa, a febre aparecia sem aviso, e os dias tornaram-se mais silenciosos.
Pedro passava horas sentado ao lado dela, segurando-lhe a mão. No entanto, o dinheiro começava a faltar. O trabalho na fábrica na Covilhã não podia esperar indefinidamente. Se não regressasse, perderia o lugar.
Foi uma decisão cruel.
Numa tarde cinzenta, contou-lhe.
— Tenho de voltar por uns tempos — disse, com a voz baixa. — Preciso de trabalhar… para depois voltar aqui.
A Flor ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois sorriu com uma serenidade inesperada.
— Eu sei — respondeu. — A vida continua, mesmo quando nós queremos pará-la.
Na manhã da partida, Pedro despediu-se no quarto do hospital. O abraço foi cuidadoso, frágil, como se o tempo pudesse partir-se.
— Escreve-me — disse ela.
— Todas as semanas — prometeu ele.
Dias depois, Pedro voltou a descer na Estação da Covilhã. A serra estava envolta em nevoeiro, e a cidade parecia mais silenciosa do que nunca.
Regressou à fábrica de lanifícios e ao som constante das máquinas. Mas, enquanto trabalhava, havia sempre um pensamento que o acompanhava, persistente como o bater dos teares:
Algures em França, entre paredes brancas de hospital, estava uma parte da sua própria vida à espera de voltar a respirar.
Os dias voltaram ao ritmo antigo na Covilhã, mas para Pedro nada era realmente igual. A fábrica de lanifícios continuava cheia do ruído dos teares, do vapor quente e das conversas dos operários. Ele trabalhava horas seguidas, quase sem levantar a cabeça, como se o cansaço pudesse calar os pensamentos.
À noite, no quarto, escrevia cartas para a Flor. Contava-lhe da cidade: das manhãs frias, das pessoas que falavam ainda da revolução, das tardes em que passava pelo Pelourinho e ficava ali parado, lembrando-se dos dois adolescentes que tinham sido.
Todas as semanas ia até à Estação dos Correios para enviar as cartas e perguntar se havia alguma para ele.
Durante algum tempo não veio resposta.
Até que, numa manhã de primavera, o funcionário dos Correios levantou a cabeça quando o viu entrar.
— Tens carta — disse, entregando-lhe um envelope fino com selo francês.
Pedro reconheceu imediatamente a letra trémula da Flor.
Sentou-se num banco de jardim antes de a abrir. O camião que passava levantou um vento frio enquanto ele lia.
“Pedro, estou mais fraca, mas ainda penso na Covilhã todos os dias. Quando fecho os olhos vejo a serra, o mercado, as ruas de pedra. Se não conseguir voltar… promete-me que continuas a viver também por mim. Promete que não deixas a vida parar.”
Pedro ficou muito tempo sentado, com a carta nas mãos.
Naquele momento percebeu algo que nunca tinha aprendido na guerra nem no trabalho: há amores que não vivem apenas na presença — vivem também na memória, na promessa de continuar.
E naquele banco da estação, entre partidas e chegadas, Pedro sentiu que a história deles ainda não tinha terminado. Apenas tinha mudado de forma.
Continua…
Boa tarde para todos nós🍀
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