Capítulo IV- Partida para França
A notícia caiu numa tarde silenciosa.A Flor esperou pelo Pedro no jardim, como tantas vezes antes. Quando ele chegou, percebeu logo no olhar dela que algo tinha mudado.
— Vamos para França — disse, sem rodeios. — O meu pai conseguiu trabalho numa fábrica perto de Lyon. Partimos no fim do verão.
O Pedro ficou imóvel. A revolução trouxera liberdade ao país, mas não resolvera tudo. Havia ainda salários curtos, incertezas longas, sonhos adiados.
Nos dias que se seguiram, caminharam mais do que falavam. Passaram pelo mercado, pelas arcadas da câmara, pelo café onde já sabiam de cor o pedido um do outro. Cada esquina parecia guardar uma despedida.
Na véspera da partida, sentaram-se num banco com vista para a serra. Não prometeram eternidades — prometeram cartas, visitas, resistência.
— A cidade não é só ruas — disse o Pedro. — É quem fica nela.
Na manhã da viagem, a mala da Flor era pequena para tanta saudade. Abraçaram-se demoradamente, como quem tenta decorar o peso do outro.
Quando o carro arrancou em direção à fronteira, a Covilhã ficou para trás. Mas entre França e Portugal, entre fábricas e montanhas, levavam ambos a mesma certeza: algumas histórias não acabam com a distância — transformam-se.
Os primeiros meses em França foram duros para a Flor. A língua tropeçava-lhe na boca, o frio era húmido e estranho, e as ruas não tinham o eco das pedras da Covilhã. A fábrica onde o pai trabalhava cheirava a metal e óleo — nada a ver com a lã quente das fábricas da serra.
Escrevia ao Pedro todas as semanas. Contava-lhe dos prédios altos, das padarias com nomes difíceis, da saudade que aparecia sem avisar. Dizia-lhe que, às vezes, fechava os olhos e ouvia os teares como se ainda estivesse em casa.
Pedro respondia à noite, depois do turno. A fábrica de lanifícios continuava exigente, mas agora havia reuniões, conversas sobre direitos, esperança em voz alta. A revolução não ficara só nas rádios — estava também nas mãos calejadas dos operários.
Passaram-se estações. A distância deixou de ser ferida aberta e tornou-se ponte frágil, sustentada por cartas, fotografias e promessas sussurradas em papel fino.
Um dia, a Flor escreveu diferente: “Quero voltar no verão. Nem que seja só para sentir a serra.”
Quando o comboio dela parou na estação da Covilhã, anos depois, Pedro estava à espera. Já não eram adolescentes. Havia mais mundo nos olhos de ambos.
Mas quando se abraçaram, perceberam algo simples e inteiro: o tempo pode mudar a vida — não muda aquilo que foi verdadeiro.
E, entre partidas e regressos, a história deles continuava a ser tecida, fio a fio, como a própria cidade.
Continua…
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Boa tarde para todos nós🍀
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