AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO II

                              Capítulo II - A Revolução dos cravos

Os meses foram passando, marcados pelas cartas que chegavam com selo e cheiro a viagem. O Pedro escrevia sobre fábricas, saudades e o frio que não era o da serra. A Flor respondia contando-lhe as novidades da cidade — o movimento no mercado, os filmes novos no cinema, as conversas intermináveis no café.
Até que chegou o dia 25 de abril de 1974.
Nessa manhã, a Covilhã acordou diferente. A rádio falava baixo, mas com urgência. Na praça, junto ao Pelourinho, as pessoas juntavam-se em pequenos grupos. Corria a palavra: revolução.
A Flor ouviu na telefonia a canção que parecia senha e promessa — Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso — e sentiu um arrepio. Diziam que, em Lisboa, os militares tinham saído para a rua. Que o regime estava a cair. Que o país podia, finalmente, respirar.
Na Covilhã, os rostos estavam entre o medo e a esperança. Alguns choravam. Outros sorriam sem saber bem porquê. A Flor correu até às arcadas da câmara, onde alguém agitava um cravo vermelho.
Nessa noite, escreveu ao Pedro uma carta diferente de todas as outras:
“Hoje o país mudou. Talvez quando voltares, encontres uma Covilhã mais livre. Talvez nós também sejamos mais livres.”
Sem saber quando ele leria aquelas palavras, a Flor percebeu que a distância já não era só ausência — era também caminho. Tal como o país, eles estavam a aprender o que significava começar de novo.
E, pela primeira vez desde a partida na estação, a esperança parecia maior do que a saudade.
Pedro estava de serviço na Escola Prática de Santarém, o ponto de partida da coluna militar comandada pelo Capitão Salgueiro Maia que derrubou a ditadura no dia 25 de abril de 1974, sem que Flor soubesse, Pedro era um herói de Abril…
Chamava-se Pedro, mas na tropa passaram a tratá-lo apenas por “Soldado”. Voltou à Covilhã numa manhã clara, com a farda ainda marcada pelo pó distante e um silêncio que trazia dentro.
Desceu na Estação da Covilhã com uma mala leve e memórias pesadas. A cidade parecia igual — a serra ao fundo, o ar frio a cortar — mas ele sentia tudo diferente.
Caminhou devagar até ao centro. No Pelourinho da Covilhã, parou como quem precisa de confirmar que o chão é firme. As arcadas da Câmara Municipal da Covilhã devolviam-lhe o eco dos passos, agora mais seguros.
Entrou no Café MONTALTO. O burburinho calou-se por um instante. Alguém lhe bateu no ombro. “Já chega de guerra, rapaz”, disse um homem ao balcão. Pedro sorriu pela primeira vez.
Mais tarde, passou pela Igreja da Misericórdia da Covilhã. Não pediu nada; agradeceu apenas por estar ali.
Ao fim da tarde, viu a cidade tingir-se de laranja. Não sabia ainda que futuro o esperava, mas sabia isto: regressar é um ato de coragem. E naquela Covilhã que respirava novos tempos, Pedro deixava de ser só soldado — voltava a ser filho, amigo, vizinho. Voltava para sua casa…
Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



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