CAMINHOS CRUZADOS Episódio 5 — A fotografia

Sofia continuava a olhar para Maria da Luz.
Aquela última frase parecia ecoar-lhe na cabeça.
“Disseram-me que aquela criança ia partir para França.”
— Quem lhe disse isso? — perguntou finalmente.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Já passaram muitos anos, Sofia. Há coisas de que já não me lembro bem.
— Mas lembra-se de a ter visto?
— Lembro-me de uma mulher muito jovem. E lembro-me de que estava desesperada.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
— E o bebé?
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Não sei se devo dizer mais alguma coisa.
— Por favor.
A mulher respirou fundo.
— Só me lembro de uma coisa: aquela criança não estava bem.
Sofia sentiu um arrepio.
— Não estava bem como?
— Era muito pequena. Precisava de cuidados. A mulher dizia que não tinha condições para ficar com ela.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Nunca me tinhas contado isso.
— Porque não era uma história minha para contar.
Sofia sentiu os olhos humedecerem.
— E depois?
Maria da Luz abanou a cabeça.
— Depois, desapareceu.
— Para onde?
— Não sei.
Sofia olhou novamente para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé tinha uma expressão triste. Não parecia estar a despedir-se de alguém. Parecia estar a lutar contra uma decisão que não queria tomar.
— Maria da Luz... sabe quem era essa mulher?
A resposta demorou alguns segundos.
— Talvez.
Sofia levantou imediatamente os olhos.
— Talvez?
— Tenho uma vaga lembrança de um nome.
— Qual?
Maria da Luz fechou os olhos por momentos, tentando recordar.
— Rita.
O nome ficou suspenso entre as três.
Rita.
Sofia repetiu baixinho:
— Rita...
Ao sair do café, Sofia caminhava ao lado de Cláudia em silêncio.
— Estás bem? — perguntou a amiga.
— Não sei.
— Queres que esqueçamos isto?
Sofia parou.
— Não.
Olhou para a fotografia que tinha guardado cuidadosamente na mala.
— Quero saber quem é aquela mulher.
— E se descobrires alguma coisa que não gostes?
Sofia respirou fundo.
— Então terei de aprender a viver com a verdade.
As duas continuaram a caminhar.
Ao atravessarem uma das ruas do centro da cidade, Sofia quase chocou com um homem que vinha distraído, olhando para o telemóvel.
— Desculpe! — disseram os dois ao mesmo tempo.
O homem sorriu.
— A culpa foi minha.
Sofia sorriu também.
— Não faz mal.
— Sou Francisco.
— Sofia.
Por breves instantes, os dois ficaram a olhar um para o outro.
Cláudia, alguns passos à frente, voltou-se e sorriu discretamente.
— Vamos? — chamou.
— Já vou.
Sofia despediu-se de Francisco e continuou o caminho.
Não sabia ainda quem ele era.
Nem imaginava que aquele encontro aparentemente insignificante voltaria a cruzar-se com a sua vida.
Nessa noite, Sofia abriu novamente a fotografia.
Virou-a.
A frase continuava lá:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Pegou no telemóvel e procurou entre as fotografias antigas que tinha guardadas.
Queria encontrar alguma imagem da sua infância.
Depois de alguns minutos, encontrou uma fotografia que Beatriz lhe tinha enviado anos antes.
Sofia ampliou-a.
Era muito pequena.
Estava ao colo de Beatriz.
Mas havia algo naquela fotografia que nunca tinha reparado.
Ao fundo, parcialmente escondida, estava uma mulher.
Sofia aproximou ainda mais a imagem.
O coração começou a bater-lhe depressa.
Aquela mulher parecia-se demasiado com a mulher da fotografia antiga.

Fim do Episódio 5.



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