Religiosamente, todas as quintas-feiras dos anos 70, a minha falecida mãe — Deus a tenha em descanso — comprava a revista Crónica Feminina. Fazia-o ao "Leal dos jornais", como era carinhosamente conhecido por todos os seus fiéis clientes.
Depois de ela a ler, deixava-me folhear a secção dedicada aos mais novos, a famosa Crónica Infantil. Lembra-se? Tinha o "quadro de honra" para os meninos que comiam a sopinha toda e se portavam bem, a página dos aniversários e muitos passatempos.
Só que a minha curiosidade não ficava pelas rubricas infantis. Eu corria as páginas todas! Devorava as fotonovelas — aliás, foi ali que tive o meu primeiro contacto com uma fotonovela —, via as tendências de moda e nunca me esquecia da contracapa, onde vinha o editorial e a crónica de saúde, sempre tão bem escrita pelo Dr. Ramiro da Fonseca. Além disso, a revista trazia entrevistas fascinantes com as grandes personalidades da época.
E o que dizer da culinária, da nutrição e, claro, do "Correio Sentimental" e da rubrica "Conversando"? Eram os verdadeiros motores de audiência! Nesses espaços, a icónica conselheira "Gabriela" respondia às cartas das leitoras que partilhavam as suas angústias amorosas, dúvidas sobre o namoro, casamentos difíceis ou conflitos familiares. Digam o que disserem: a revista Maria de hoje corava de vergonha ao lado da Crónica Feminina daquele tempo!
Numa época em que o analfabetismo no nosso país era muito elevado e apenas uma pequena parte da população tinha acesso a livros, revistas e jornais, eu, com os meus meros oito anos, já era um felizardo. Não apenas por ter a revista em mãos, mas porque já conseguia ler e interpretar muito bem o mundo à minha volta.
Não sei ao certo em que ano a minha mãe deixou de a comprar, mas terá sido um pouco depois do 25 de Abril de 1974. Com a revolução, a revista acabou por sofrer com a incapacidade de modernização e com a forte concorrência que surgiu no mercado editorial. O aparecimento de novas publicações femininas, com formatos mais modernos, papel de melhor qualidade e abordagens muito mais progressistas — sintonizadas com a nova realidade da mulher independente em Portugal — acabou por ditar o fim desta icónica publicação da Agência Portuguesa de Revistas, que fechou portas em 1987.
Há coisas que nunca se esquecem. A Crónica Feminina ajudou-me a entender um pouco melhor o mundo de então e a sociedade que se aproximava a toda a velocidade.

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