Dias de Reflexão
Nos dias que se seguiram à leitura da carta, a vida na Covilhã continuou exatamente igual para toda a gente.
Mas para David, tudo parecia diferente.
No Liceu Nacional da Covilhã, os colegas continuavam a conversar animadamente sobre o fim das aulas e os planos para o verão.
Rui tentou aproximar-se dele várias vezes.
— Então? Recebeste a carta? — perguntou num intervalo.
David limitou-se a encolher os ombros.
— Recebi.
— E…?
— Depois falo contigo.
Mas nunca falava.
Começou a evitar os amigos. Nos intervalos ficava sozinho no pátio ou saía da escola mais cedo para caminhar pela cidade.
Passava muitas tardes a andar sem destino pelas ruas inclinadas da Covilhã.
Às vezes descia até ao Jardim Público da Covilhã e sentava-se no mesmo banco onde tinha lido a carta.
Outras vezes caminhava pelas ruas do centro, passando por lugares onde tinha estado com Carol.
Evita até entrar na Confeitaria Lisbonense ou no Café Primor.
Tudo lhe trazia lembranças.
Numa noite, quando os pais já estavam deitados, David foi até à sala.
Ligou o velho gira-discos da casa.
Escolheu um disco que tinha ouvido muitas vezes naquele inverno.
Unchained Melody de The Righteous Brothers começou a tocar lentamente.
A música encheu a sala com aquela melodia melancólica.
David sentou-se no sofá e ficou a ouvir em silêncio.
A letra parecia falar diretamente com ele.
Enquanto a música tocava, as memórias voltavam:
o verão na piscina,
os passeios pela cidade,
o beijo na noite de fim de ano no GIR Rodrigo.
Quando a música terminou, ele não se levantou.
Limitou-se a colocar o disco novamente a tocar.
Na manhã seguinte, a mãe reparou que algo não estava bem.
David estava sentado à mesa do pequeno-almoço, mas quase não tocava na comida.
— Estás doente? — perguntou ela.
— Não.
— Então o que se passa?
David ficou em silêncio durante alguns segundos.
— Nada… só estou cansado.
A mãe olhou para ele com atenção.
As mães percebem certas coisas sem que seja preciso explicar.
— Tem a ver com a Carol, não tem?
David baixou os olhos.
Não respondeu.
A mãe aproximou-se e pousou a mão no ombro dele.
— A vida às vezes faz estas coisas… principalmente quando somos jovens.
David levantou-se da mesa sem dizer muito.
Mas aquelas palavras ficaram-lhe na cabeça.
Dias cinzentos
Os dias seguintes passaram lentamente.
As aulas terminaram no Liceu Nacional da Covilhã e a cidade começou a preparar-se para o verão.
Os amigos voltaram a falar das tardes na Piscina e de passeios pela Serra da Estrela.
Mas David quase não participava nessas conversas.
Continuava a caminhar sozinho pelas ruas da cidade, como se estivesse à procura de alguma resposta.
À noite, por vezes, voltava a ligar o gira-discos.
E mais uma vez deixava a sala encher-se com os acordes lentos de Unchained Melody.
A música repetia-se no silêncio da casa.
E, em algum lugar muito longe dali, junto ao mar da Nazaré, alguém continuava a viver uma vida nova… sem saber que aquelas palavras escritas numa carta tinham deixado um rapaz nas montanhas a tentar perceber como seguir em frente.
Continua…
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