NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VII

                                                     

                               Covilhã cada vez mais longe


Os primeiros dias na Nazaré foram intensos para Carol. Tudo era novo: os sons, os cheiros, as pessoas. Aos poucos, começou a sentir que a vila tinha um ritmo próprio, muito diferente da vida entre montanhas na Covilhã.
Na Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio, Carol foi sendo integrada no grupo de colegas.
A sua primeira amiga continuava a ser Ana, que rapidamente a apresentou aos outros.
— Pessoal, esta é a Carol… veio da serra! — dizia Ana, a brincar.
— Da serra? Então nunca tinha visto o mar! — respondeu um rapaz chamado Miguel.
Carol riu.
— Não… e ainda fico a olhar para ele como se fosse um espetáculo.
Os colegas começaram a convidá-la para passeios depois das aulas. Caminhavam muitas vezes pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), ouvindo o som das ondas e vendo os pescadores a arrumar as redes.
Ao fim da tarde, juntavam-se frequentemente na Praça Sousa Oliveira, onde jovens conversavam, riam e combinavam novos encontros.
Carol começou lentamente a sentir-se parte daquele grupo.
Mas, mesmo quando ria com os novos amigos, havia momentos em que o pensamento fugia para longe… para as ruas da Covilhã.
Num sábado, Ana convidou Carol para subir ao Ascensor da Nazaré.
— Tens de ver a vista lá de cima — disse ela.
Quando chegaram ao Sítio da Nazaré, Carol ficou novamente impressionada com o horizonte aberto sobre o oceano.
Caminharam até ao Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. Algumas pessoas entravam para rezar, outras apenas visitavam o local histórico.
— Este lugar é muito importante para a Nazaré — explicou Ana.
Carol entrou por alguns minutos.
Aquele silêncio fez-lhe lembrar os momentos tranquilos que tinha vivido na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
E, inevitavelmente, voltou a pensar em David.
Com o passar das semanas, Carol começou a falar menos de David em casa.
Os pais percebiam que ela ainda pensava muito nele.
Numa noite, durante o jantar, a mãe abordou o assunto.
— Carol… sabes que agora a nossa vida é aqui.
— Eu sei.
— A distância é grande… a Covilhã fica muito longe.
O pai acrescentou calmamente:
— Vais conhecer novas pessoas, fazer novos amigos… tens de seguir em frente.
Carol ficou em silêncio.
Não respondeu logo.
Sabia que os pais não diziam aquilo por mal. Apenas queriam que ela se adaptasse à nova vida.
Mas esquecer David não era algo simples.
Nos dias seguintes, Carol continuou a sair com Ana e os colegas. Caminhavam pela Avenida da República (Marginal da Nazaré), conversavam na Praça Sousa Oliveira e às vezes sentavam-se na areia da Praia a ver o pôr do sol.
Tudo parecia normal.
Mas dentro dela havia uma luta silenciosa.
De um lado estava a nova vida: amigos, escola, o mar, a vila cheia de movimento.
Do outro lado estava a memória de um verão na piscina, das caminhadas pelas ruas da Covilhã… e do rapaz que ainda ocupava os seus pensamentos.
Numa tarde, sentada na areia a olhar o horizonte, Carol abriu o pequeno caderno que David lhe tinha oferecido.
Durante alguns minutos ficou apenas a olhar para a página em branco.
Depois escreveu devagar:
"Será que a distância consegue mesmo apagar o que sentimos?"
O vento da Nazaré soprou forte naquele momento, levantando um pouco da areia.
Carol fechou o caderno.
No fundo do coração, ainda não sabia qual seria a resposta.

Continua…



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