NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO X

                                       Um aperto no peito

Durante vários dias, David continuou a perguntar em casa se tinha chegado alguma carta. A resposta era sempre a mesma.
— Ainda não chegou nada.
Naquele final de tarde, depois das aulas no Liceu Nacional da Covilhã, David caminhava lentamente pelas ruas da Covilhã. O céu estava cinzento e um vento frio descia da serra.
Quando entrou em casa, a mãe chamou-o da cozinha.
— David… chegou correio para ti.
Ele ficou imóvel por um instante.
— Para mim?
— Sim. Está ali em cima da mesa.
Sobre a mesa da sala estava um envelope simples. No canto superior esquerdo estava escrito o remetente: Carol.
E por baixo… Nazaré.
David pegou no envelope com cuidado. Sentiu o coração bater mais depressa. Durante semanas tinha esperado aquele momento.
Mas, por alguma razão, não teve coragem de abrir a carta ali.
Pegou no casaco e saiu novamente de casa.
Caminhou sem destino durante alguns minutos até chegar ao Jardim Público da Covilhã.
O jardim estava quase vazio. Apenas algumas pessoas passavam pelos caminhos e um casal idoso conversava num banco distante.
David sentou-se num banco, debaixo de uma árvore.
Durante alguns segundos ficou apenas a olhar para o envelope.
Era estranho pensar que aquelas poucas folhas de papel tinham viajado desde o mar da Nazaré até às montanhas da Covilhã.
Finalmente abriu o envelope.
Começou a ler.
À medida que os olhos percorriam as linhas da carta, o sorriso que tinha surgido no início desapareceu lentamente.
As frases pareciam cada vez mais pesadas.
"Somos muito novos…"
"Temos muito futuro pela frente…"
"Talvez tenha sido apenas uma paixoneta de verão…"
David parou de ler por um momento.
Respirou fundo.
Depois continuou.
"Talvez eu nem estivesse tão envolvida…"
Sentiu um aperto no peito.
Leu a última frase.
"Agora acho que devemos seguir cada um o seu caminho."
O jardim parecia ter ficado completamente silencioso.
David ficou imóvel com a carta nas mãos.
Durante vários minutos não fez nada.
O vento leve fazia mover as folhas das árvores e uma criança corria ao longe pelo caminho do jardim.
Mas para David parecia que o mundo tinha parado.
Lembrou-se de tudo:
daquele primeiro olhar na Piscina,
dos passeios pela cidade,
do cinema no Teatro Cine da Covilhã,
do baile no GIR Rodrigo,
da promessa de um dia ver o mar juntos.
Agora tudo parecia distante.
Como se tivesse acontecido noutra vida.
David dobrou lentamente a carta e colocou-a novamente dentro do envelope.
Levantou-se do banco e caminhou devagar pelo jardim.
Caminhou pela cidade sem destino e ao passar perto do Monumento de Nossa Senhora da Conceição, parou por um instante.
Olhou para a imagem da santa.
Não disse nada.
Mas naquele momento sentiu que algo tinha terminado.
E, pela primeira vez desde que Carol tinha partido para a Nazaré, David percebeu que talvez aquela história que tinha começado num verão cheio de promessas… pudesse realmente ter chegado ao fim.
Mas, no fundo do coração, uma pequena dúvida ainda permanecia.
Porque às vezes as palavras escritas numa carta… não contam toda a verdade. 

Continua…



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