NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO VIII

            
                                           A Carta que tarda

Naqueles meses de primavera, a vida continuava na Covilhã, mas para David os dias pareciam mais longos e mais silenciosos.
A cidade estava cheia de movimento: estudantes apressados, comerciantes nas portas das lojas e grupos de jovens a conversar nas esquinas. No entanto, para ele, faltava sempre alguém.
No Liceu Nacional da Covilhã aproximavam-se os últimos dias de aulas antes das férias.
Os colegas falavam de planos para o verão, passeios pela Serra da Estrela ou tardes passadas novamente na Piscina dos Penedos Altos.
Mas David raramente participava nas conversas.
Rui percebeu isso rapidamente.
— Ainda estás à espera da carta, não estás? — perguntou-lhe num intervalo.
David assentiu.
— Ela disse que ia escrever quando chegasse à Nazaré.
— Talvez ainda esteja a adaptar-se — respondeu Rui.
David tentou acreditar nisso, mas no fundo começava a sentir um peso estranho.
Depois das aulas, David encontrava-se muitas vezes com Rui no Café Primor.
Sentavam-se na primeira mesa da esplanada, com vista para a rua Heróis Dadrá.
Rui bebia café e falava das pequenas histórias do dia. David ouvia mais do que falava.
— Sabes o que devias fazer? — disse Rui certa tarde.
— O quê?
— Ir à Nazaré visitá-la.
David suspirou.
— Já tentei convencer os meus pais.
— E?
— Disseram que não.
Na noite anterior, David tinha tentado novamente.
— Pai, eu podia ir de autocarro… prometo que tenho cuidado.
O pai abanou a cabeça.
— David, és ainda muito novo para viajar sozinho para tão longe.
— Mas não é assim tão longe…
— Daqui até à Nazaré ainda são muitas horas de viagem — respondeu a mãe. — Quando fores mais velho, sim. Agora não.
David não insistiu mais.
Sabia que não iam mudar de opinião.
Assim, os dias continuaram a passar.
David caminhava pelas ruas da cidade, passava às vezes pelo Jardim Público da Covilhã ou pelo centro onde antes passeava com Carol.
Mas agora havia sempre um pensamento constante.
Todos os dias perguntava em casa:
— Chegou correio para mim?
A resposta era quase sempre a mesma.
— Ainda não.
Uma tarde diferente
Numa tarde quente, já perto do fim das aulas, David estava novamente sentado no Café Primor com Rui.
O Zé (empregado) trouxe dois sumos e pousou-os na mesa.
Rui olhou para o amigo.
— Estás a imaginar coisas… a carta vai chegar.
David tentou sorrir.
— Espero que sim.
Mas lá no fundo, um pensamento começava a crescer lentamente.
E se os pais dela tivessem razão?
E se a distância entre o mar da Nazaré e as montanhas da Covilhã fosse demasiado grande para aquele amor jovem?
Enquanto o sol começava a desaparecer atrás das casas da cidade, David olhou para a rua e ficou a pensar numa única coisa:
a carta que ainda não tinha chegado.

Continua…




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