NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO V



                                     Na praia da NazarĂ©


A viagem desde a CovilhĂŁ atĂ© Ă  NazarĂ© pareceu longa para Carol. À medida que a carrinha da famĂ­lia descia das montanhas para as planĂ­cies e depois se aproximava do litoral, o ar começava a mudar. Tornava-se mais hĂșmido, mais leve… e trazia um cheiro diferente que Carol nunca tinha sentido antes.
Quando finalmente chegaram, ouviu-se ao longe um som constante.
— O que Ă© isso? — perguntou Carol.
O pai sorriu.
— É o mar.
Carol abriu a janela. O vento trouxe o cheiro do sal e o murmĂșrio das ondas. Naquele momento percebeu que a sua vida estava mesmo a começar numa nova pĂĄgina.
A nova casa ficava numa rua tranquila da Nazaré, não muito longe da praia. Era simples, mas tinha algo especial: das janelas do andar de cima via-se um pedaço do oceano.
Na primeira noite, Carol ficou alguns minutos Ă  janela.
O som das ondas era diferente de tudo o que conhecia. Na CovilhĂŁ, o silĂȘncio vinha das montanhas; ali, o silĂȘncio era preenchido pelo mar.
Pensou em David.
— Um dia ele tem mesmo de ver isto — murmurou para si mesma.
Alguns dias depois começaram as aulas do 3Âș perĂ­odo na Escola BĂĄsica e SecundĂĄria Amadeu GaudĂȘncio.
Carol entrou um pouco nervosa. Tudo era novo: corredores diferentes, vozes desconhecidas, professores que ainda nĂŁo sabia como eram.
Mas rapidamente percebeu que as pessoas da Nazaré eram acolhedoras.
Na sala de aula, uma rapariga chamada Ana sentou-se ao lado dela.
— És nova aqui, nĂŁo Ă©s?
— Sou… vim da CovilhĂŁ.
— Da serra? EntĂŁo mudaste da neve para o mar!
As duas riram.
Nos dias seguintes, Carol começou a conhecer outros colegas. Muitos eram filhos de pescadores ou de famílias ligadas ao mar.
Falavam das ondas, dos barcos e das histĂłrias da pesca como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Para Carol, era como descobrir um universo novo.
Num domingo, os pais decidiram mostrar-lhe um dos lugares mais emblemåticos da vila: o Sítio da Nazaré.
Subiram até lå e Carol ficou sem palavras.
Do alto da falésia, o mar parecia infinito.
Ali perto ficava o antigo Santuårio de Nossa Senhora da Nazaré, onde muitas pessoas iam rezar e agradecer graças.
Entraram por alguns minutos.
O silĂȘncio da igreja lembrou-lhe a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde tantas vezes tinha estado com David.
Carol fechou os olhos por um instante.
Talvez estivesse a pedir que a distĂąncia nĂŁo mudasse aquilo que sentia.
Mas o momento que mais a marcou aconteceu alguns dias depois.
Carol caminhou até à Praia da Nazaré ao final da tarde.
O céu estava dourado e as ondas quebravam com força na areia.
Ela tirou os sapatos e caminhou devagar.
Quando a ågua fria tocou os seus pés, Carol riu sozinha.
O mar era poderoso, imenso, quase assustador… mas tambĂ©m fascinante.
Sentou-se na areia e ficou a olhar o horizonte.
Pensou nas ruas inclinadas da Covilhã, nos amigos, na piscina onde tudo tinha começado.
E claro… pensou em David.
Pegou num pequeno caderno que ele lhe tinha dado no Natal.
Escreveu apenas uma frase:
"David, tens mesmo de vir aqui. O mar Ă© ainda mais bonito do que eu imaginava."
O vento levou o som das ondas pela praia.
E, mesmo longe da serra, Carol sentiu que uma parte da sua história ainda estava ligada à cidade onde tinha deixado alguém muito importante.

Continua…



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