NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO III

                                            Inverno Rigoroso

Com novembro, chegou o frio da serra.
Os encontros passaram a ser mais curtos, as noites mais longas. O grupo já não se reunia tantas vezes como no verão.
Mas David e Carol continuavam a caminhar juntos pelas ruas da cidade iluminadas pelos candeeiros amarelos.
E mesmo com o inverno a aproximar-se, havia algo que permanecia quente entre eles.
Um amor jovem, nascido num verão na piscina… e que agora crescia lentamente nas ruas antigas da Covilhã.
O inverno instalou-se definitivamente na Covilhã. O vento frio descia da serra e corria pelas ruas inclinadas da cidade, fazendo as pessoas apertarem os casacos enquanto caminhavam apressadas.
Mesmo assim, havia uma alegria especial no ar. As montras começaram a encher-se de luzes e enfeites. O cheiro a bolo-rei e a filhoses saía das pastelarias, e as ruas ganhavam uma atmosfera diferente.
O Natal aproximava-se.
Numa tarde fria de dezembro, David encontrou Carol junto à Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
As luzes de Natal já estavam acesas nas ruas e o sino da igreja ecoava pela cidade.
— A Covilhã fica bonita nesta altura — disse Carol, olhando para as decorações.
— Fica… mas tu ficas mais — respondeu David, meio envergonhado.
Carol riu.
Caminharam até ao centro, passando pela Confeitaria Lisbonense, onde as vitrinas estavam cheias de sonhos, rabanadas e bolo-rei.
Entraram para se aquecer.
O senhor José, atrás do balcão, reconheceu-os imediatamente.
— Então, os namorados da piscina! Já estão preparados para o Natal?
David corou, enquanto Carol escondia o sorriso.
Sentaram-se junto à janela. Lá fora, algumas pessoas passavam com sacos de compras e crianças apontavam para as luzes nas árvores.
— O que pediste para o Natal? — perguntou David.
— Nada especial… talvez só que tudo fique como está.
David olhou para ela com atenção.
— Eu também.
Na noite de Natal, cada um ficou com a sua família.
David jantou no pequeno apartamento do centro da cidade. Depois da ceia, saiu à varanda. Lá ao longe via as luzes da cidade espalhadas pela encosta.
Pensou em Carol.
Ao mesmo tempo, no Bairro da Estação, Carol também pensava nele. O som distante de um comboio a passar pela estação misturava-se com as vozes da família na sala.
No dia seguinte encontraram-se novamente.
Trocaram pequenos presentes:
David ofereceu-lhe um cachecol azul.
Carol deu-lhe um pequeno caderno com capa de couro.
— Para escreveres histórias — disse ela.
— Histórias?
— Sim… sobre nós, talvez.
David sorriu.
À medida que o ano se aproximava do fim, os amigos começaram a falar da grande festa de passagem de ano.
Seria no GIR Rodrigo, um dos lugares mais animados da cidade.
— Vai haver baile! — dizia Nando entusiasmado.
— E música ao vivo — acrescentava Paula.
Todos combinaram ir.
A noite de fim de ano
Na noite de 31 de dezembro de 1978, o salão do GIR Rodrigo estava cheio de gente.
As luzes coloridas refletiam-se no chão encerado, e a banda tocava músicas que faziam toda a gente dançar.
David chegou primeiro com Rui e Nando.
Pouco depois, Carol entrou com as amigas.
David quase deixou cair o copo quando a viu.
Ela usava um vestido simples, mas elegante, e o cabelo caía-lhe sobre os ombros.
— Estás linda — disse ele.
— E tu estás nervoso — respondeu Carol, sorrindo.
A música começou e foram para a pista.
Dançaram, riram, encontraram os amigos e voltaram a dançar outra vez.
Meia-noite
Pouco antes da meia-noite, a música parou e alguém começou a contagem decrescente.
— Dez… nove… oito…
O salão inteiro repetia os números.
David e Carol estavam lado a lado.
— Três… dois… um…
Feliz Ano Novo!
Abraços, gargalhadas e brindes ecoaram pelo salão.
David olhou para Carol.
Por um segundo, o barulho à volta pareceu desaparecer.
— Feliz Ano Novo, Carol.
— Feliz Ano Novo, David.
Ele aproximou-se devagar e deu-lhe um beijo.
O primeiro beijo do novo ano.
Lá fora, no céu frio da Covilhã, rebentavam alguns foguetes improvisados.
E naquele instante, no início de 1979, parecia que toda a cidade celebrava não só a chegada de um novo ano… mas também o amor que tinha começado meses antes numa piscina de verão.

Continua…



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