David sente-se inseguro
Os dias continuavam a passar na Covilhã, mas para David tudo parecia diferente desde que Carol tinha partido para a Nazaré.
As ruas eram as mesmas, os cafés continuavam cheios ao fim da tarde, e os colegas seguiam com a rotina das aulas no Liceu Nacional da Covilhã. Mas havia sempre uma sensação estranha, como se algo importante tivesse ficado vazio na cidade.
Muitas vezes, depois das aulas, David caminhava sozinho atĂ© ao Jardim PĂșblico da CovilhĂŁ.
Ali, entre as årvores e os bancos de madeira, ficava sentado a observar as pessoas que passavam. Alguns idosos conversavam calmamente, crianças brincavam perto dos caminhos de terra, e o som da cidade parecia distante.
Num desses dias, caminhou devagar até ao Monumento de Nossa Senhora da Conceição.
Ficou parado a olhar para a imagem da santa durante alguns minutos.
NĂŁo era propriamente uma oração. Era mais um momento de silĂȘncio, de pensamentos que nĂŁo sabia muito bem como organizar.
Pensava em Carol.
Pensava na praia, no mar que ela agora via todos os dias… e pensava na distĂąncia que separava a serra daquele litoral distante.
O desabafo
Nessa mesma tarde, Rui — o amigo mais prĂłximo de todo o grupo — apareceu no jardim.
— Andas desaparecido — disse ele ao sentar-se no banco ao lado.
David suspirou.
— Tenho pensado muito.
Rui olhou para ele com atenção.
— Na Carol, nĂŁo Ă©?
David assentiu.
Durante alguns segundos ficou em silĂȘncio.
— Tenho um pressentimento… — disse finalmente.
— Que pressentimento?
— Que a distĂąncia vai fazer tudo desaparecer.
Rui franziu a testa.
— EstĂĄs a exagerar.
David abanou a cabeça.
— LĂĄ ela tem uma vida nova… escola nova… amigos novos… o mar… tudo diferente. Aqui Ă© sĂł a mesma cidade de sempre.
Rui encostou-se no banco e olhou para as ĂĄrvores do jardim.
— Sabes uma coisa?
— O quĂȘ?
— Quando fomos Ă Serra da Estrela naquele dia… eu vi a forma como ela olhava para ti.
David ficou em silĂȘncio.
— Aquilo nĂŁo era uma coisa qualquer — continuou Rui. — NĂŁo desaparece assim de um dia para o outro.
David tentou sorrir.
— Espero que tenhas razĂŁo.
Rui deu-lhe uma pequena palmada no ombro.
— Em vez de pensares no pior… faz uma coisa.
— O quĂȘ?
— Vai visitĂĄ-la um dia destes.
David olhou para ele, surpreendido.
— Ă NazarĂ©?
— Claro. Nunca disseste que querias ver o mar?
David levantou os olhos para o céu que começava a ficar dourado ao final da tarde.
Talvez Rui tivesse razĂŁo.
Talvez aquela histĂłria ainda nĂŁo tivesse chegado ao fim.
E talvez, algures na Praia da NazarĂ©, houvesse alguĂ©m Ă espera de o ver chegar pela primeira vez… para lhe mostrar o mar.
Continua…
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