NUNCA DIGAS NUNCA - CAPÍTULO II

                                                CapĂ­tulo II
                                            Outono


O verão terminou devagar, quase sem ninguém dar por isso. As tardes ficaram mais curtas e o vento da serra começou a trazer o cheiro das folhas molhadas.
Na Piscina dos Penedos Altos jĂĄ nĂŁo se ouviam as gargalhadas do grupo. As portas fecharam e o silĂȘncio tomou conta do lugar onde, durante meses, tinham vivido tantas aventuras.
Mas David e Carol continuavam a encontrar-se.
Agora os encontros eram no centro da cidade.
Num sĂĄbado Ă  tarde, David esperava Carol Ă  porta do Teatro Cine da CovilhĂŁ. Segurava dois bilhetes amassados na mĂŁo.
Quando Carol apareceu, com um casaco castanho e uma pasta da escola debaixo do braço, o sorriso de David surgiu imediatamente.
— Ainda vamos a tempo? — perguntou ela.
— Claro… comprei os bilhetes mais cedo.
Entraram na sala escura do cinema, onde o cheiro a madeira se misturava com o murmĂșrio das pessoas. Durante o filme, as mĂŁos deles tocaram-se discretamente.
Nenhum dos dois disse nada.
Mas ficaram assim, de mãos dadas, até o ecrã voltar a ficar branco.
Depois do cinema, o grupo Ă s vezes encontrava-se na Confeitaria Lisbonense.
As vitrinas estavam cheias de bolos e pastéis, e o senhor José atendia sempre com o mesmo sorriso.
— O costume? — perguntava ele.
David pedia uma meia de leite e Carol escolhia quase sempre um mil-folhas.
Sentavam-se numa mesa perto da janela enquanto os amigos falavam alto e contavam histĂłrias da escola.
Carol, Ă s vezes, olhava pela janela para as pessoas que passavam.
— Um dia vou sair daqui para ver o mundo — disse ela certa vez.
David ficou em silĂȘncio por alguns segundos.
— E voltas?
Carol olhou para ele.
— Talvez… se tiver alguĂ©m Ă  minha espera.
Caminhos da escola
Com o começo das aulas, as rotinas mudaram.
David estudava no Liceu Nacional da Covilhã. Todas as manhãs descia a Avenida 25 de Abril com os livros debaixo do braço, encontrando colegas pelo caminho.
Carol passava muitas vezes por ali quando vinha do Bairro da Estação.
Às vezes encontravam-se à porta do liceu, afinal ela estudava logo em frente na escola Campos Melo.
— JĂĄ tens teste hoje? — perguntava ela.
— MatemĂĄtica… vou precisar de sorte.
— EntĂŁo toma — dizia ela, dando-lhe um pequeno beijo na face.
E David entrava na escola com um sorriso que durava o resto do dia.
Havia também momentos mais tranquilos.
Numa tarde de domingo, caminharam até à Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
LĂĄ dentro reinava um silĂȘncio profundo. A luz entrava pelos vitrais e pintava o chĂŁo de cores suaves.
Sentaram-se lado a lado num banco de madeira.
— Gosto deste silĂȘncio — sussurrou Carol.
David olhou para o altar e depois para ela.
— Eu tambĂ©m.
NĂŁo falaram mais durante algum tempo. Apenas ficaram ali, lado a lado, como se o mundo lĂĄ fora estivesse muito longe.

Continua…
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Bom dia para todos nós🍀



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