Os vizinhos eram os guardiões uns dos outros. As portas e as janelas podiam ficar abertas que ninguém entrava onde não devia. Das janelas conversava-se de um lado para o outro, e a música ouvia-se, muitas vezes, quase na rua toda.
Podiam-se assar sardinhas que ninguém ficava incomodado com o cheiro. E, se fosse preciso, ainda se repartiam por quem estivesse por perto. O “tintol” era servido pelos restantes homens que se encontravam junto às portas, numa daquelas tertúlias espontâneas que faziam parte do dia a dia.
Podiam-se assar sardinhas que ninguém ficava incomodado com o cheiro. E, se fosse preciso, ainda se repartiam por quem estivesse por perto. O “tintol” era servido pelos restantes homens que se encontravam junto às portas, numa daquelas tertúlias espontâneas que faziam parte do dia a dia.
Quando brincava na rua, lá se ouvia a voz da minha mãe a chamar:
— O almoço está pronto!
E, sem pestanejar, lá ia eu a correr para casa.
Toda a gente em redor sabia quem era filho de quem e, por vezes, em jeito de ameaça, lá vinha o aviso:
— “Se te portares mal, vou dizer ao teu pai!”
Estávamos sob a vigilância dos adultos por onde quer que andássemos. Naquela altura, não se ouvia falar de raptos nem de abusos como infelizmente ouvimos hoje, e as crianças tinham uma liberdade que atualmente parece quase impossível de imaginar.
Na loja ou na padaria, nem era preciso identificarmo-nos. Bastava dizer:
— “A minha mãe pediu isto ou aquilo.”
E o recado era entregue.
Quando faltava alguma coisa em casa, lá estava a vizinha para desenrascar. E, se faltasse a luz, havia sempre uma vela por perto. No meu caso, cheguei várias vezes a ir ao Sr. Paraíso, da agência funerária, pois ele dizia aos meus pais que, quando fosse preciso, estava ali para desenrascar.
Era assim. Havia confiança, entreajuda e, acima de tudo, havia vizinhança.
Era assim. Havia confiança, entreajuda e, acima de tudo, havia vizinhança.
Nos Santos Populares, a vizinhança organizava sempre o seu bailarico, com o chiado, a boa da sardinha assada, pão e vinho tinto.
Aparecesse quem aparecesse, ninguém passava fome.
Aparecesse quem aparecesse, ninguém passava fome.
Nessa altura é que havia verdadeiro bairrismo. As ruas, junto às portas, estavam sempre varridas e muitas eram enfeitadas com lindos vasos de flores. Tudo era arranjado pela vizinhança, por gente que tinha orgulho e brio no seu bairro, na sua rua e, sobretudo, naquilo que era de todos.
Sei que os tempos são outros e que, como hoje se diz, existe muito stress. A vida mudou, as pessoas mudaram e até a maneira de nos relacionarmos mudou.
Mas que saudade de ver as crianças a brincar na rua, enquanto os adultos conversavam descontraidamente à porta de casa, muitas vezes sentados nas suas cadeiras, falando da vida, dos vizinhos e de tudo um pouco.
Mas que saudade de ver as crianças a brincar na rua, enquanto os adultos conversavam descontraidamente à porta de casa, muitas vezes sentados nas suas cadeiras, falando da vida, dos vizinhos e de tudo um pouco.
E, em jeito de brincadeira, até diria que eram os grupos do Facebook daquele tempo.
Só que havia uma grande diferença: em vez de escreverem atrás de um ecrã, estavam ali, frente a frente, a conversar, a rir e a partilhar a vida.
Só que havia uma grande diferença: em vez de escreverem atrás de um ecrã, estavam ali, frente a frente, a conversar, a rir e a partilhar a vida.
E isso, meus amigos, é daquelas coisas que o tempo levou, mas que a memória teima em guardar.
Que saudade desses tempos de boa vizinhança, em que a porta do vizinho estava tão perto como se fosse a porta de nossa casa.
Que saudade desses tempos de boa vizinhança, em que a porta do vizinho estava tão perto como se fosse a porta de nossa casa.
A fotografia é do Largo de Infantaria 21, na Covilhã, onde ainda se fizeram alguns bailaricos populares.
Ficava perto da antiga sede do Arsenal de São Francisco, na Rua Nogueira dos Frades.
Bons tempos… boas memórias… e uma enorme saudade!
Bom dia para todos nós🍀
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