CAMINHOS CRUZADOS Episódio 8 — O documento

Sofia chegou a casa de Maria da Luz pouco depois das dez da manhã.
Cláudia já estava à espera.
Assim que entrou, percebeu pela expressão da amiga que alguma coisa tinha acontecido.
— A minha mãe está lá dentro — disse Cláudia. — Encontrou o documento ontem à noite.
Sofia sentiu o coração acelerar.
Maria da Luz apareceu na sala com uma pequena pasta castanha nas mãos.
— Sente-se, Sofia.
A jovem sentou-se.
— O que encontrou?
Maria da Luz pousou a pasta sobre a mesa.
— Isto estava dentro da mesma caixa onde encontrámos a fotografia.
Abriu-a cuidadosamente.
Havia alguns papéis antigos, amarelados pelo tempo.
Sofia aproximou-se.
— Aqui.
Maria da Luz retirou um documento dobrado.
Sofia olhou para ele.
O seu nome estava escrito numa das linhas.
Sofia.
Ficou sem palavras.
— É o meu nome...
— Sim.
— Mas o que é isto?
Maria da Luz respirou fundo.
— É uma cópia de um documento antigo. Não sei como foi parar àquela caixa, nem porque estava lá.
Sofia pegou nele com as mãos trémulas.
Leu algumas linhas.
Depois parou.
— Aqui diz que eu nasci na Covilhã.
Cláudia aproximou-se.
— E então?
Sofia levantou os olhos.
— Eu sempre pensei que tivesse saído daqui muito pequena, mas... nunca soube exatamente onde tinha nascido.
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Há mais uma coisa — disse finalmente.
Sofia olhou para ela.
— O nome de António e Beatriz aparece no documento?
Maria da Luz abanou a cabeça.
Sofia sentiu um vazio no estômago.
— Então quem aparece?
Maria da Luz apontou para uma linha quase apagada.
Sofia aproximou o rosto.
Leu.
E ficou imóvel.
Rita.
O nome que já tinha ouvido.
O nome da mãe de Francisco.
— Não... — murmurou.
Cláudia segurou-lhe a mão.
— Sofia...
— A Rita aparece aqui?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia levantou-se de repente.
— Então ela era minha mãe?
— Eu não disse isso.
— Mas está aqui o nome dela!
— E isso não significa que tenhamos todas as respostas.
Sofia começou a andar pela sala.
Tudo parecia acontecer depressa demais.
A fotografia.
A mulher.
A viagem para França.
O nome de Rita.
E agora aquele documento.
— Tenho de falar com o Francisco.
Cláudia olhou para ela.
— Tens a certeza?
Sofia respondeu sem hesitar:
— Tenho.
Do outro lado da cidade, Francisco estava junto ao carro quando recebeu uma chamada.
Era um número que não conhecia.
— Estou?
Do outro lado, ninguém respondeu durante alguns segundos.
Depois ouviu uma voz feminina:
— É o Francisco?
— Sim.
— O meu nome é Sofia. Precisamos de falar.
Francisco ficou em silêncio.
— Sobre a minha mãe — acrescentou ela.
O rosto de Francisco mudou.
— Quem lhe falou da minha mãe?
Sofia apertou o documento contra o peito.
— Acho que a sua mãe e eu temos uma história em comum.
Francisco não respondeu.
E, pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Sofia percebeu que ele também parecia ter medo de alguma coisa.
— Onde podemos encontrar-nos? — perguntou.
Francisco olhou para a estrada.
— No lugar onde a minha mãe costumava ir quando queria estar sozinha.
— Onde?
Houve uma pausa.
— No Bairro da Biquinha.
A chamada terminou.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Não sabia o que iria encontrar naquele lugar.
Mas sabia uma coisa:
estava cada vez mais perto da verdade.

Fim do Episódio 8.



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