UMA AVENTURA NA ESTAÇÃO — O SEGREDO DAS LANTERNAS

CLUBE DOS SEIS

Uma aventura na Estação
Episódio 3 de 5 — O segredo das lanternas


A noite caíra sobre a Covilhã, envolvendo as ruas do centro numa escuridão interrompida apenas pela luz amarelada dos candeeiros públicos.

Na casa de Paulo, seis jovens estavam reunidos em volta da mesa da sala. Em cima dela encontravam-se a fotografia do barracão, o envelope castanho e o pequeno papel com a frase que não lhes saía da cabeça:

«Se querem encontrar as joias, procurem onde a luz nunca chega.»

Paulo voltou a ler as palavras em voz alta.

— Onde a luz nunca chega… Que raio quererá isto dizer?

Francisco, sentado numa cadeira e com uma bolacha Maria entre os dedos, encolheu os ombros.

— Se for um sítio onde nunca chega a luz, só pode ser a minha carteira ao fim do mês!

— Francisco, por uma vez, tenta levar isto a sério! — repreendeu Natércia, embora não conseguisse evitar um sorriso.

— Eu levo! Mas, se vamos entrar num barracão escuro, alguém tem de manter o moral da equipa. E não estou a ver o Quim a contar anedotas!

Quim nem respondeu. Continuava a observar a fotografia.

Fátima aproximou-se da mesa e apontou para o canto inferior da imagem.

— Vejam aqui. Esta abertura na parede parece estar parcialmente escondida por umas tábuas. E, se repararem bem, há uma zona mais escura por baixo do telhado.

João pegou na fotografia e examinou-a junto à luz.

— Tens razão. Pode haver um compartimento escondido. Mas não sabemos se a fotografia foi tirada recentemente.

— Nem sequer sabemos quem a deixou à porta do Paulo — acrescentou Natércia. — Pode ser alguém a tentar ajudar-nos, mas também pode ser uma armadilha.

Paulo levantou-se e foi buscar um pequeno mapa da zona da estação, que tinha desenhado com base no que conhecia.

— Seja como for, não podemos continuar a adivinhar. Temos de perceber o que se passa naquele barracão.

— Estás a pensar irmos lá esta noite? — perguntou Quim.

— Estou. Mas não vamos entrar à força nem andar a mexer em coisas que não nos pertencem. Vamos observar o terreno, perceber se alguém anda por lá e tentar descobrir o significado daquela mensagem. Se houver alguém ou alguma coisa suspeita, recuamos.

Fátima concordou.

— E vamos juntos. Ninguém se afasta dos outros.

João abriu uma gaveta e começou a distribuir algumas lanternas que tinham conseguido arranjar.

— Convém verificar as pilhas. Não quero ninguém às escuras a meio da investigação.

Francisco pegou numa lanterna, carregou no interruptor e apontou-a para o teto.

— Esta funciona. Agora só falta descobrir se também serve para afugentar ladrões!

— Se começares a fazer perguntas sem sentido, talvez os afugentes pelo cansaço! — respondeu João.

O grupo riu-se, mas a preocupação permanecia.

Pouco depois, os seis combinaram a hora da partida. Iriam descer juntos até à estação, mantendo-se atentos e sem chamar a atenção.

A aventura estava prestes a entrar numa nova fase.


Já passava das dez da noite quando deixaram o centro da cidade.

A descida pelo Ramal da Estação parecia diferente àquela hora. Durante o dia, o movimento das pessoas e os ruídos habituais escondiam a inquietação de quem caminhava. Agora, cada passo ecoava na rua quase deserta.

Francisco seguia atrás de João, segurando a lanterna com as duas mãos.

— Nunca pensei que um dia viesse passear para estes lados a estas horas por causa de umas joias!

— Ainda podes voltar para casa — disse Natércia.

— Nem pensar! Depois, se encontrarem um saco cheio de ouro, ainda dizem que eu não quis ajudar a carregar!

— Já estou a imaginar — comentou Quim. — O Francisco a escolher uma joia para cada bolacha Maria que comeu durante a investigação!

— Se continuas com essa conversa, Quim, não te dou nem uma migalha!

As brincadeiras ajudavam a aliviar a tensão, mas o silêncio da noite depressa voltou a impor-se.

Quando chegaram à zona da estação dos Caminhos de Ferro, Paulo fez sinal para que parassem.

Ao longe, ouviam-se os sons próprios de uma estação ferroviária. Um apito distante, o ruído metálico de uma composição e o eco de passos algures na plataforma.

O grupo avançou com cautela por um caminho público, afastado da circulação ferroviária.

— O barracão fica para lá daquela zona — sussurrou Quim, apontando para o descampado situado por detrás da estação.

— Vamos contornar o terreno e observar primeiro — decidiu Paulo.

Seguiram pelo caminho, iluminando o chão com as lanternas. A vegetação estava húmida e, de vez em quando, um ramo estalava sob os pés de alguém.

De repente, Natércia agarrou o braço de Fátima.

— Ouviram?

Todos ficaram imóveis.

Um ruído tinha vindo do lado do barracão.

Parecia uma pancada seca, seguida de um arrastar de qualquer coisa pesada.

Paulo ergueu a mão, pedindo silêncio.

O grupo apagou as lanternas durante alguns segundos.

No escuro, ouviram claramente duas vozes masculinas.

— Tens a certeza de que ninguém nos viu? — perguntou uma delas.

— Já te disse que não. Amanhã isto tem de estar resolvido.

Seguiu-se um silêncio.

Depois, a primeira voz voltou a falar:

— E se os seis voltarem?

Quim sentiu um arrepio.

Os seis?

Estariam aqueles homens a falar deles?

Francisco aproximou-se de João e murmurou-lhe ao ouvido:

— Se sabem que somos seis, espero que não tenham contado com a minha parte do lanche!

João deu-lhe uma cotovelada discreta para que se calasse.

As vozes desapareceram. Pouco depois, uma luz surgiu por detrás do barracão e deslocou-se lentamente até uma abertura na parede.

— Alguém está lá dentro — sussurrou Fátima.

Paulo fez sinal para avançarem apenas até um ponto de onde pudessem observar sem serem vistos. Não tentariam entrar. Se conseguissem perceber o que aqueles homens estavam a fazer, já seria uma vitória.

Foi então que João apontou para o chão.

Havia marcas recentes de pneus junto a uma zona de terra batida.

— Veio aqui um veículo — murmurou.

— E não há muito tempo — acrescentou Fátima.

Paulo olhou para o barracão. A luz interior apagou-se subitamente.

No instante seguinte, ouviu-se o bater violento de uma porta.

— Depressa! — gritou alguém lá dentro.

Os seis baixaram-se instintivamente.

Um homem saiu do barracão e começou a correr na direção oposta à estação. Levava qualquer coisa debaixo do braço.

O segundo apareceu logo atrás, mas, em vez de seguir o companheiro, ficou parado junto à entrada, olhando atentamente para o descampado.

Paulo sentiu que estavam prestes a ser descobertos.

— Não se mexam — sussurrou.

O homem deu alguns passos na direção deles.

A luz da sua lanterna percorreu o terreno, passou por uma pedra e deteve-se junto a um arbusto.

Fátima prendeu a respiração.

Francisco apertou tanto a lanterna que os nós dos dedos ficaram brancos.

O homem avançou mais um pouco.

Foi então que um comboio se fez ouvir ao longe, aproximando-se da estação. O ruído cresceu rapidamente, enchendo a noite e abafando todos os outros sons.

Aproveitando aquele momento, Paulo fez sinal aos amigos para recuarem em silêncio pelo caminho por onde tinham vindo.

Mas Quim, ao dar um passo atrás, pisou um ramo seco.

Crac!

O homem virou-se imediatamente.

— Quem está aí?

A luz da lanterna varreu a escuridão.

— Apareçam! Eu sei que estão aí!

O grupo começou a afastar-se, tentando não fazer barulho. Contudo, quando alcançaram uma zona mais aberta, ouviram passos a correr na sua direção.

— Estão a fugir! — gritou o desconhecido.

Paulo não hesitou.

— Todos juntos! Vamos sair daqui!

Os seis aceleraram o passo, contornando o terreno até alcançarem uma zona mais iluminada e movimentada da estação. O homem não os perseguiu até ali.

Só quando tiveram a certeza de que estavam fora do alcance imediato do desconhecido é que pararam para recuperar o fôlego.

Francisco apoiou as mãos nos joelhos.

— Da próxima vez, proponho uma atividade mais tranquila. Um jogo de cartas, por exemplo. Ou uma visita à mercearia do Sr. Raul!

— Estás bem? — perguntou Natércia.

— Estou. Mas acho que perdi três anos de vida e duas bolachas Maria que ainda tinha no bolso!

Apesar do nervosismo, todos se riram.

Paulo, porém, continuava preocupado.

— Aquele homem sabia que alguém estava a observar o barracão. E ouviu-se falar de nós. Isto já não é uma simples coincidência.

— Também ouvi uma coisa importante — disse Fátima. — Um deles perguntou se os seis voltariam. Isso significa que sabem da nossa existência ou, pelo menos, que alguém lhes falou de nós.

— E o homem que saiu primeiro levava qualquer coisa debaixo do braço — acrescentou João. — Pode ter sido a caixa das joias.

Quim abanou a cabeça.

— Ou pode ter sido outra coisa qualquer. Ainda não temos a certeza de nada.

Paulo concordou.

— Amanhã vamos pensar com calma. Não podemos arriscar mais do que já arriscámos esta noite. Se as joias estão naquele barracão, temos de encontrar uma maneira segura de provar isso.

O grupo iniciou o regresso ao centro da Covilhã. A descida pelo Ramal da Estação fora feita com a esperança de encontrar respostas. A subida fazia-se agora com mais perguntas do que certezas.

Mas a aventura ainda não tinha terminado.


Quando chegaram a casa de Paulo, já a noite ia adiantada.

Os seis entraram na sala, pousaram as lanternas e sentaram-se, exaustos. Paulo preparou um pouco de água para todos, enquanto Natércia voltou a colocar a fotografia do barracão em cima da mesa.

— Há uma coisa que não me sai da cabeça — disse ela. — A mensagem dizia para procurarmos onde a luz nunca chega. E hoje vimos uma luz a sair de uma abertura na parede.

Fátima pegou na fotografia.

— Talvez a pista não se refira à escuridão da noite. Talvez haja um espaço escondido no interior do barracão, atrás daquela parede.

João aproximou-se e examinou novamente a imagem.

— Se existir um compartimento secreto, pode ser ali que as joias estão guardadas.

— Ou pode não haver compartimento nenhum — lembrou Quim. — Não vamos transformar suspeitas em certezas.

Paulo estava prestes a responder quando alguém bateu à porta.

Três pancadas lentas.

Toc. Toc. Toc.

Todos se entreolharam.

Aquela hora, não estavam à espera de visitas.

Paulo levantou-se devagar e aproximou-se da entrada. Antes de abrir, perguntou:

— Quem é?

Ninguém respondeu.

Voltou a ouvir-se uma pancada, desta vez mais forte.

Paulo abriu a porta de repente.

O patamar estava vazio.

No chão, junto à entrada, encontrava-se um pequeno embrulho envolvido em papel pardo.

Paulo olhou para o corredor, mas não viu ninguém. Apanhou o embrulho e fechou a porta.

Os amigos reuniram-se à volta dele.

Com cuidado, Paulo retirou o papel.

Dentro havia uma pequena chave de ferro, escurecida pelo tempo, e um pedaço de papel dobrado.

Fátima abriu-o e leu em voz alta:

«Amanhã será tarde. A caixa vai sair da Covilhã. Se querem salvar as joias, descubram o que está escondido debaixo do chão.»

O silêncio instalou-se na sala.

João olhou para a chave.

— Será a chave do barracão?

Quim ficou pensativo.

— E se a caixa que vimos esta noite não tiver as joias? E se existir outra, escondida debaixo do chão?

Paulo fechou a mão em torno da chave.

— Amanhã temos de agir. Mas, desta vez, vamos procurar ajuda e não vamos correr riscos desnecessários.

Foi então que Francisco, que até ali estivera calado, reparou num pormenor no papel.

— Esperem! Há mais qualquer coisa escrita aqui, quase apagada.

Aproximou o papel da luz.

Por baixo da mensagem, em letras pequenas, lia-se um nome:

PACHECO.

O nome da ourivesaria assaltada.

Paulo empalideceu.

— Isto significa que alguém ligado à ourivesaria nos está a tentar ajudar?

— Ou que alguém quer que pensemos isso — respondeu Fátima.

Antes que pudessem discutir a descoberta, ouviu-se um ruído vindo da rua.

Um motor arrancou bruscamente.

Paulo correu à janela e viu um automóvel escuro afastar-se, desaparecendo na noite.

Não conseguiu distinguir o condutor.

Mas, por breves instantes, teve a certeza de ter visto um rosto conhecido atrás do vidro.

Era o homem do boné escuro.

Paulo voltou-se para os amigos.

— Meus amigos, estamos metidos numa história muito mais complicada do que imaginávamos.

A chave continuava na sua mão.

E algures, por detrás da estação, talvez as joias roubadas estivessem escondidas debaixo do chão de um velho barracão.

Mas quem seria o misterioso informador?

E porque estaria alguém disposto a arriscar tanto para ajudar o Clube dos Seis?

CONTINUA NO EPISÓDIO 4…



CLUBE DOS SEIS - UMA AVENTURA NA ESTAÇÃO


Episódio 2 de 5 — O mistério do Ramal da Estação


A Covilhã acordara para mais um dia de outono, com o movimento habitual nas ruas do centro da cidade. Mas, para Paulo, aquela manhã estava longe de ser igual às outras.

A chamada telefónica que recebera em casa não lhe saía da cabeça.

«É melhor esquecer o que viu esta manhã. Há coisas nesta cidade que não são para descobrir.»

Quem seria aquele homem? Como sabia o seu nome? E porque razão queria impedi-lo de investigar?

Paulo não era de se assustar facilmente, mas também não era tolo. Se alguém se dera ao trabalho de o ameaçar, era porque alguma coisa tinha para esconder.

Vestiu o casaco, saiu de casa e dirigiu-se à procura dos amigos. Como todos viviam no centro da cidade, não precisou de percorrer grandes distâncias para começar a reunir o Clube dos Seis.

A primeira paragem foi em casa de Quim.

— Temos de juntar o pessoal — anunciou Paulo, mal o amigo abriu a porta. — A história está a ficar mais complicada do que pensávamos.

— Eu bem te disse! — respondeu Quim, com ar preocupado. — Desde que ouvi aqueles dois perto do Café Central, fiquei com a sensação de que havia ali qualquer coisa muito estranha.

— E havia! Ontem vi-os a sair do Hotel Solneve. Segui-os com os olhos até desaparecerem na direção da estação. Depois, recebi uma chamada anónima em casa. Alguém me mandou esquecer o assunto.

Quim arregalou os olhos.

— Uma ameaça?

— Não sei se lhe podemos chamar isso, mas não me pareceu um convite para tomar café!

Os dois trocaram um olhar. Era evidente que o caso estava a ganhar outra dimensão.

— Vamos falar com os outros — decidiu Quim. — E desta vez ninguém fica em casa!

Pouco depois, o grupo encontrava-se novamente na sala de Paulo. Francisco chegou com o habitual ar descontraído, João trazia um pequeno caderno no bolso, Natércia vinha cheia de perguntas e Fátima apareceu com uma determinação que não deixava dúvidas: estava pronta para a sua primeira verdadeira investigação.

— Antes de mais — começou Paulo —, quero contar-vos o que aconteceu. Recebi uma chamada de um desconhecido que sabia quem eu era e que me aconselhou a esquecer os dois homens.

— Isso significa que eles sabem que estamos atrás deles — observou João.

— Ou que alguém os está a ajudar — acrescentou Fátima. — Não podemos partir do princípio de que os dois homens agem sozinhos.

Natércia concordou.

— E se as joias ainda estiverem na cidade? Quanto mais tempo passar, mais difícil será encontrá-las.

Francisco, que se preparava para tirar uma bolacha Maria do prato, suspendeu o movimento.

— Meus amigos, proponho que sejamos prudentes. Uma coisa é procurar joias roubadas; outra é acabarmos nós próprios dentro de uma ourivesaria, mas do lado de lá do balcão!

— Não te preocupes, Francisco — respondeu João. — Se te apanharem, dizes que foste lá comprar uma pulseira para a tua sogra!

As gargalhadas aliviaram por instantes a tensão.

Fátima aproveitou a pausa para fazer uma pergunta que ninguém parecia ter considerado.

— Quim, quando ouviste os homens junto ao Café Central, conseguiste perceber se falavam de algum lugar concreto?

Quim levou a mão ao queixo.

— Agora que falas nisso, lembro-me de uma coisa. Um deles disse que o material tinha de ficar num sítio onde ninguém se lembrasse de procurar. O outro respondeu que, junto à linha, ninguém se metia com eles.

— Junto à linha? — repetiu Paulo.

João abriu o caderno.

— Se estão a falar da estação, há vários sítios por ali. Temos a própria estação, os cafés, o pavilhão da FAEC e outros edifícios. Mas também há terrenos mais isolados.

— E um descampado por detrás da estação — acrescentou Quim, recordando-se de um barracão que conhecia de passagem.

Todos olharam para ele.

— Que barracão? — perguntou Natércia.

— Um barracão antigo, num terreno meio abandonado. Não sei a quem pertence, nem se ainda é utilizado. Mas fica numa zona onde pouca gente anda, sobretudo ao fim do dia.

Paulo levantou-se e foi buscar um papel.

— Então temos uma hipótese. Não é uma prova, mas é um sítio que merece ser observado.

— E como vamos até lá? — perguntou Fátima.

— A pé, naturalmente! — respondeu Francisco. — O nosso orçamento para grandes operações secretas ainda não chegou ao ponto de incluir automóveis!

A proposta foi aceite sem discussão.

Ficou combinado que desceriam o Ramal da Estação durante o dia, mantendo-se atentos a qualquer movimento suspeito. Não entrariam em propriedades alheias nem confrontariam ninguém. Se encontrassem provas de um crime, avisariam as autoridades.

O grupo estava de acordo.

Pelo menos, em teoria.


A descida começou pouco depois do almoço.

O centro da Covilhã ficava para trás e, à medida que os seis avançavam pelo Ramal da Estação, a paisagem ia mudando. A rua inclinada obrigava-os a caminhar com cuidado, e Francisco aproveitava cada paragem para recuperar o fôlego.

— Isto é uma investigação ou uma prova de atletismo? — resmungou ele. — Se as joias estiverem lá em baixo, espero que os ladrões tenham a gentileza de as trazer cá acima!

— Tu devias era fazer mais exercício — comentou Natércia.

— Faço! Todos os dias levanto o garfo e a faca. E isso exige coordenação!

Fátima abanou a cabeça, divertida.

Quando chegaram à zona da estação, o grupo dispersou-se apenas o suficiente para observar o movimento sem chamar a atenção. O Café do Redondo, o Café Arco-Íris e o Café Primor faziam parte daquele ambiente familiar, onde as conversas se cruzavam e quase toda a gente parecia conhecer alguém.

Mas os dois homens não estavam à vista.

Paulo olhou para a estação dos Caminhos de Ferro. Um comboio preparava-se para partir, e alguns passageiros apressavam o passo para não o perder.

— Se estes indivíduos querem abandonar a cidade, podem aproveitar o comboio — comentou João.

— Ou podem querer fazer-nos pensar precisamente isso — respondeu Fátima. — Talvez estejam a tentar desviar as atenções de outro lugar.

Quim apontou discretamente para uma zona mais afastada.

— O barracão fica para ali, por detrás da estação.

Seguiram naquela direção, sem se aproximarem demasiado uns dos outros. O terreno era irregular, com ervas altas, pedras soltas e sinais de abandono. Ao fundo, quase escondido pela vegetação, erguia-se um pequeno barracão de paredes envelhecidas e uma porta de madeira escurecida pelo tempo.

À primeira vista, não parecia ter nada de especial.

Mas havia um pormenor que chamou a atenção de Paulo.

A erva junto à entrada estava esmagada, como se alguém tivesse passado por ali recentemente.

— Olhem para o chão — murmurou.

João aproximou-se e observou as marcas.

— Isto não parece estar assim há muito tempo.

Fátima reparou noutra coisa: junto à porta havia pequenas lascas de madeira e uma marca recente na fechadura.

— Alguém tentou abrir isto — disse ela.

— Ou alguém já entrou — acrescentou Natércia.

Francisco deixou de brincar.

— Muito bem. Acho que já chega de passeios turísticos. Se há alguém lá dentro, prefiro saber isso a uma distância respeitável.

Paulo aproximou-se apenas o suficiente para observar a porta. Não tentou abri-la. Escutou durante alguns segundos.

Silêncio.

Depois, um ruído seco.

Parecia ter vindo do interior.

Os seis recuaram instintivamente.

— Ouviram? — sussurrou Quim.

Ninguém respondeu. Todos tinham ouvido.

Paulo fez sinal para se afastarem e regressarem à estação. Não fazia sentido arriscar uma entrada precipitada, sobretudo sem saber quem poderia estar lá dentro.

Enquanto caminhavam de volta, João reparou num homem do outro lado do terreno. Usava um boné escuro e parecia observá-los.

Quando percebeu que tinha sido visto, virou costas e desapareceu por detrás de um muro.

— Não gostei nada daquilo — disse João.

— Nem eu — respondeu Paulo. — Alguém anda a vigiar aquele barracão.

— Talvez seja o proprietário — sugeriu Natércia.

— Talvez — concordou Fátima. — Mas, se for, porque fugiu assim que reparou em nós?

Ninguém encontrou resposta.


O grupo decidiu regressar ao centro da cidade antes de anoitecer. A descida fora suficientemente esclarecedora para justificar uma segunda visita, mas não tinham provas de que as joias estivessem no barracão.

Nessa noite, Paulo mal conseguiu concentrar-se nas tarefas habituais. A imagem da porta, as marcas no chão e o homem de boné não lhe saíam da cabeça.

Pouco depois das nove, ouviu bater à porta.

Abriu-a e encontrou Quim, que parecia ter vindo a correr.

— Paulo, temos um problema!

— Outro? Começo a achar que este caso ainda nos vai obrigar a vender as bolachas Maria para pagar as despesas!

— Deixa-te de brincadeiras! Acabei de falar com uma pessoa que conhece bem aquela zona da estação. Disse-me que, há poucos dias, viu um homem a transportar uma caixa para o barracão.

Paulo ficou sério.

— Uma caixa? Tens a certeza?

— Foi o que me disseram. E há mais: o homem levava o mesmo tipo de casaco que usava um dos indivíduos que vimos sair do Hotel Solneve.

Paulo fechou a porta e chamou Quim para dentro.

— Amanhã temos de voltar a falar com os outros. Mas desta vez precisamos de preparar tudo com cuidado.

Quim concordou.

Foi então que, do lado de fora, se ouviu um ruído de passos apressados.

Paulo aproximou-se da janela e espreitou discretamente.

Na rua, sob a luz amarelada de um candeeiro, estava parado um homem de boné escuro.

Era o mesmo que os observara junto ao barracão.

O homem levantou a cabeça, como se soubesse exatamente onde Paulo estava, e deixou qualquer coisa no chão, junto à porta.

Depois afastou-se sem dizer uma palavra.

Paulo esperou alguns segundos antes de sair. No passeio encontrou um pequeno envelope castanho.

Abriu-o com cuidado.

Lá dentro havia uma fotografia antiga do barracão.

No verso, alguém escrevera à mão uma frase curta:

«Se querem encontrar as joias, procurem onde a luz nunca chega.»

Paulo sentiu um arrepio.

Quim leu a frase por cima do ombro do amigo.

— Onde a luz nunca chega? Que raio quererá isto dizer?

Paulo voltou a olhar para a fotografia. No canto inferior, quase escondido pela sombra, via-se uma pequena abertura na parede do barracão.

Seria essa a pista?

E quem teria deixado o envelope à porta de sua casa?

Uma coisa era certa: alguém queria que o Clube dos Seis encontrasse as joias… ou estava a preparar-lhes uma armadilha.

CONTINUA NO EPISÓDIO 3…



GRUPO DOS SEIS - UMA AVENTURA NA ESTAÇÃO

Episódio 1 de 5 — Uma reunião de urgência

Na Covilhã, há dias em que parece que nada acontece. As pessoas vão aos seus afazeres, os cafés enchem-se de conversas e a cidade segue tranquilamente a sua rotina. Mas, como o Grupo dos Seis estava prestes a descobrir, por detrás de uma cidade aparentemente sossegada podem esconder-se histórias capazes de tirar o sono a qualquer um!

Tudo começou com uma reunião extraordinária.

O Clube dos Seis precisava de fazer uma alteração na sua constituição. O Hélder ia morar para longe e, por esse motivo, deixaria de poder acompanhar as aventuras do grupo. A escolha da substituta recaiu sobre a Fátima, que passaria a juntar-se ao Paulo, ao Francisco, ao Quim, ao João e à Natércia.

A reunião realizou-se, como sempre, na sala de estar da casa do Paulo, que já tinha preparado o habitual lanche: uns copos de sumo e um prato de bolachas Maria, compradas na mercearia do Sr. Raul Paiva.

— Meus amigos, antes de começarmos, quero desejar as boas-vindas à Fátima — anunciou Paulo. — E quero também deixar um abraço ao Hélder, que vai para longe, mas continuará a fazer parte das nossas histórias.

— Desde que não nos apareça agora a pedir que lhe paguemos as despesas da mudança! — brincou Francisco, arrancando algumas gargalhadas.

— Francisco, tu não mudas! — comentou Natércia. — Se um dia desapareceres, vamos procurar-te na mercearia do Sr. Raul, a ver se estás a discutir o preço das bolachas!

— Não é má ideia! Ao preço a que estão as coisas, até as bolachas Maria merecem investigação! — respondeu Francisco.

Fátima ria-se, enquanto Quim, sentado na ponta do sofá, parecia estar noutro mundo. Mexia no copo de sumo, olhava para os restantes e dava sinais de quem tinha alguma coisa entalada na garganta.

Paulo reparou.

— Quim, estás com uma cara que não augura nada de bom. Ou o sumo está estragado ou tens alguma coisa para nos contar.

Quim pousou o copo.

— E tenho! Aliás, foi por isso que te pedi para marcares esta reunião de urgência. O que vos vou contar pode ser muito sério.

De repente, ninguém voltou a tocar nas bolachas.

— Ontem, passei junto ao Café Central e ouvi uma conversa entre dois homens. Nunca os tinha visto na Covilhã. Estavam ali perto, a falar baixo, mas algumas palavras chegaram-me aos ouvidos.

— Que palavras? — perguntou João, inclinando-se para a frente.

Quim fez uma pausa, como se quisesse ter a certeza de que todos estavam a prestar atenção.

— Joias roubadas!

— Joias roubadas? — repetiu Fátima. — Tens a certeza de que ouviste bem?

— Absoluta. Um deles falou numa caixa e o outro perguntou se as peças já estavam guardadas em segurança. Depois, ouvi qualquer coisa sobre não poderem ficar muito tempo na cidade.

Paulo franziu o sobrolho.

— Espera lá! Na noite passada houve um assalto à Ourivesaria Pacheco. Não me digas que achas que esses homens estão metidos nisso!

— Não acho nada, Paulo. Não tenho provas. Mas a coincidência é demasiado grande para ficar de braços cruzados.

— E porque não foste à polícia? — perguntou Natércia.

— Porque não sei quem são, não tenho a certeza do que ouvi e não quero fazer acusações sem fundamento. Primeiro, achei melhor falar convosco.

Francisco pegou numa bolacha Maria e ficou a olhar para ela, pensativo.

— Portanto, temos um assalto a uma ourivesaria, dois desconhecidos a falar de joias roubadas e seis pessoas sentadas numa sala a comer bolachas. A pergunta que se impõe é: quem é que vai ficar sem lanche se isto correr mal?

— Tu, de certeza! — respondeu João. — Se continuas a comer a esse ritmo, não chega para os outros!
Mais uma gargalhada, mas a preocupação de Quim não desapareceu.
Fátima, que até então tinha escutado atentamente, resolveu intervir:

— Brincadeiras à parte, se os homens são desconhecidos e estão envolvidos no assalto, podem estar a preparar a fuga. Temos de perceber o que se passa, mas sem fazer disparates. Não somos polícias.

— Muito bem, Fátima! — disse Paulo. — É precisamente por isso que o grupo precisa de ti. Já temos quem faça piadas, quem coma bolachas e quem se preocupe com tudo. Faltava-nos alguém com juízo!

— Olha quem fala! — atalhou Quim. — Ainda nem começámos e já estás a distribuir cargos!
Depois de mais algumas trocas de impressões, ficou decidido que todos estariam atentos a qualquer movimento suspeito. Nada de confrontos, nada de acusações precipitadas e, sobretudo, nada de aventuras individuais.

Naturalmente, Francisco concordou com tudo.

Afinal, enquanto houvesse bolachas Maria, estava disposto a aprovar qualquer plano.

A reunião terminou já com a noite a aproximar-se. Cada um seguiu o seu caminho, mas Paulo ficou a pensar na conversa de Quim. Havia qualquer coisa naquela história que não lhe saía da cabeça.

E o dia seguinte iria dar-lhe razões para não esquecer o assunto.
---

Na manhã seguinte, Paulo andava pela cidade quando decidiu passar nas imediações do Hotel Solneve. 

Não tinha propriamente um plano. Queria apenas estar atento, na esperança de encontrar algum indício que ajudasse a esclarecer o mistério.

Foi então que os viu.

Dois homens saíam do hotel.

Paulo parou por breves instantes. Um deles era alto, de cabelo escuro e usava um casaco comprido. O outro era mais baixo, tinha uma ligeira barba por fazer e levava uma pequena mala preta na mão.

O coração de Paulo começou a bater mais depressa.

As descrições que Quim tinha dado na reunião correspondiam, quase na perfeição, àqueles dois indivíduos.

Seriam eles?

Paulo fingiu estar distraído, mas manteve-os debaixo de olho. Os homens olharam em redor, trocaram algumas palavras e começaram a caminhar pela rua.

A certa altura, o mais baixo parou, consultou o relógio e disse qualquer coisa ao companheiro. Paulo não conseguiu ouvir a conversa, mas viu-os mudar de direção.

Estavam a caminho da estação.

Paulo sentiu um arrepio. A estação! Seria ali que pretendiam fugir da Covilhã? Ou estariam à espera de alguém?

Sem perder tempo, afastou-se discretamente e pegou no telemóvel. Tinha de avisar os outros.

Foi quando o homem mais alto parou de repente.

Olhou para trás.

Os olhos dos dois cruzaram-se por um instante.

Paulo desviou o olhar, fingindo procurar qualquer coisa no bolso. Mas já era tarde. O desconhecido tinha reparado nele.

O homem disse algumas palavras ao companheiro. Este virou-se também e olhou diretamente na direção de Paulo.

Depois, os dois aceleraram o passo.

Paulo ficou imóvel por instantes, tentando perceber o que acabara de acontecer. Os dois homens tinham desaparecido na direção da estação, e ele sentia que a situação estava a tornar-se mais séria do que imaginara.

Precisava de avisar os amigos, mas não podia perder tempo. Decidiu regressar a casa, onde poderia utilizar o telefone fixo para contactar Quim.

Mal chegou, ainda com o coração aos saltos, ouviu o telefone tocar.

Correu para atender.

— Estou?

Do outro lado, uma voz masculina, desconhecida, respondeu em tom baixo:
— Senhor Paulo? É melhor esquecer o que viu esta manhã. Há coisas nesta cidade que não são para descobrir.

A chamada foi interrompida.

Paulo ficou a olhar para o auscultador, sem conseguir esconder a inquietação.

Quem seria aquele homem? Como sabia o seu nome? E, acima de tudo, como sabia que Paulo tinha visto os dois suspeitos?

Uma coisa era certa: o Clube dos Seis acabara de entrar numa aventura muito mais perigosa do que qualquer um deles poderia imaginar.

E o pior ainda estava para vir…

CONTINUA NO EPISÓDIO 2…



🌧️ TUDO FAZ FALTA, ATÉ AQUILO DE QUE MENOS GOSTAMOS!

 Estamos na hora de inverno! Confesso que não é uma época de que goste particularmente. Acho os dias demasiado cinzentos, tristes e, por vezes, até um pouco deprimentes. Falta a luz, falta o calor e parece que até a disposição resolve ficar debaixo dos cobertores!


Mas, como diz a canção, «Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado».

Só que há uma coisa que precisamos de compreender: nem tudo o que nos desagrada deixa de ser necessário!

O planeta precisa de água. E de onde vem ela? Da chuva, pois claro! Podemos não gostar de sair à rua com o guarda-chuva numa mão e a esperança de não pisar uma poça na outra, mas a verdade é que a chuva é indispensável à vida.

E a neve? Também faz falta! Acumula-se nas montanhas durante o inverno e, ao derreter lentamente na primavera e no verão, alimenta rios, lagos e reservas de água subterrâneas. Ajuda a garantir o abastecimento das populações, a agricultura e até a produção de energia hidroelétrica.

E o vento? Sim, também precisamos dele! Ajuda a distribuir o calor pela atmosfera, influencia o clima e contribui para o equilíbrio dos ecossistemas. Além disso, é uma fonte de energia limpa e renovável.

Portanto, meus amigos, a natureza tem as suas razões, mesmo quando nos obriga a vestir mais uma camisola, a procurar o cachecol perdido ou a enfrentar uma manhã em que só nos apetece ficar na cama!

A verdade é que tudo tem a sua importância e, muitas vezes, aquilo de que menos gostamos é precisamente aquilo de que mais precisamos.

Talvez também seja assim na vida. Nem todos os dias são de sol, nem todos os caminhos são fáceis e nem todas as experiências nos trazem aquilo que desejamos. Mas até os dias cinzentos podem ensinar-nos alguma coisa, preparar-nos para novos desafios e fazer-nos dar ainda mais valor aos dias luminosos.

E, por falar em novos desafios… amanhã começa mais uma aventura!

O GRUPO DOS SEIS ESTÁ DE VOLTA!

Desta vez, a aventura chama-se «Uma aventura na estação».

Durante cinco dias, vamos acompanhar as peripécias destes jovens, percorrer as ruas frias da nossa querida Covilhã e tentar desvendar mais um mistério. Haverá surpresas, pistas, perguntas sem resposta e, quem sabe, algumas voltas inesperadas!

Será que vamos conseguir descobrir o que se esconde por detrás deste novo enigma? Ou haverá segredos capazes de nos deixar de boca aberta?

A partir de amanhã, conto convosco para mais esta viagem. Afinal, a Covilhã tem histórias, tem recantos cheios de encanto e, pelos vistos, tem também mistérios à espera de serem descobertos!

Bom domingo para todos nós!🍀



O PAI NATAL MUDOU-SE PARA AS PENHAS DA SAÚDE! Uma história encantada, com passagem obrigatória pela Covilhã.


Era uma vez… Não, companheiros, desta vez não foi no reino distante da Lapónia, onde o frio entra pelos ossos e até as barbas dos duendes ficam congeladas. Esta história começa bem mais perto de nós, nas nossas belas Penhas da Saúde, lá no alto da Serra da Estrela!

Cansado de tantos anos a viver na Lapónia, o Pai Natal decidiu que estava na hora de mudar de ares. Depois de consultar o seu GPS, que por sinal andava um bocadinho baralhado com tanta neve, tomou uma decisão histórica:

— Minhas queridas renas, este ano vamos passar o Natal em Portugal! E não é em Lisboa, nem no Algarve. Vamos para as Penhas da Saúde, porque ouvi dizer que por lá há frio a sério, paisagens maravilhosas e uma cidade logo ali ao lado que merece uma visita!

As renas ficaram entusiasmadas. O Rodolfo, com o seu nariz vermelho a brilhar como um semáforo em dia de nevoeiro, até deu um salto de alegria.

— Finalmente, chefe! — exclamou ele. — É que já estava farto de comer cenouras congeladas. Ouvi dizer que na Covilhã há bons restaurantes e um comércio tradicional de fazer crescer água na boca!

E assim começou a aventura.

 A primeira viagem até à cidade da lã

Na manhã de dezembro, o Pai Natal vestiu o seu fato vermelho, ajeitou o cinto, penteou a barba e preparou o trenó. As renas estavam a postos e os duendes tinham-lhe preparado uma lista de compras tão comprida que quase chegava da Serra da Estrela à estação de caminhos de ferro!

O trenó levantou voo das Penhas da Saúde e começou a descer em direção à Covilhã.

Quando passou sobre a cidade, aconteceu algo extraordinário: a neve começou a cair abundantemente, cobrindo telhados, ruas, jardins e praças com um manto branco que parecia saído de um conto de fadas.

As crianças foram as primeiras a dar o alarme.

— Mãe! Pai! Venham à janela! Está ali o Pai Natal!

E tinham razão! Lá vinha ele, a sobrevoar a cidade, com as renas a abrir caminho entre as nuvens e os sininhos a anunciar a sua chegada.

O trenó passou pelo Bairro da Biquinha, tão perto da Serra que quase parecia que o Pai Natal tinha decidido fazer uma visita aos vizinhos antes de ir às compras.

Do alto, olhou para a cidade e comentou:

— Ho, ho, ho! Que cidade tão bonita! Mas quem foi o arquiteto que se lembrou de construir isto tudo a subir e a descer? Espero que as renas tenham bons travões!

O Rodolfo respondeu-lhe:

— Chefe, não se preocupe! Se o trenó avariar, aqui desce sozinho. O problema vai ser voltar a subi-lo!

E lá seguiram, entre gargalhadas, até ao coração da Covilhã.

 Uma aterragem que ninguém vai esquecer

O Pai Natal escolheu o centro da cidade para fazer a sua aterragem. O trenó desceu suavemente, levantando uma nuvem de neve, enquanto as renas pousavam as patas no chão como verdadeiras bailarinas.

As pessoas ficaram de boca aberta. Os telemóveis começaram a sair dos bolsos, as crianças saltavam de alegria e os adultos, que até ali diziam que já não acreditavam nessas coisas, começaram a esfregar os olhos.

— Será possível? É mesmo o Pai Natal!

Era, sim senhor! E não vinha de mãos a abanar.

Trazia uma missão muito especial: fazer as compras de Natal no comércio tradicional da Covilhã. Porque, segundo ele, já estava farto de encomendar tudo pela Internet e de receber mensagens a dizer que a encomenda estava atrasada.

— Este ano, compro tudo na cidade! — anunciou. — Quero falar com os comerciantes, conhecer as lojas e levar presentes que tenham um bocadinho da alma da Covilhã!

E foi assim que começou a grande operação natalícia.
🛍️ O Pai Natal nas ruas inclinadas da Covilhã

Primeiro, meteu-se pelas artérias principais da cidade, entrando nas lojas e cumprimentando toda a gente.

Na Rua Comendador Campos Melo, conhecida por tantos como Rua Direita, o Pai Natal começou a perceber que fazer compras na Covilhã também era uma modalidade desportiva.

Subia uma rua, parava para recuperar o fôlego, entrava numa loja, comprava um presente e, quando dava por si, tinha de descer tudo outra vez para ir buscar o trenó.

— Ó meu querido Rodolfo, traz-me lá uma cadeira! — pediu ele. — Na Lapónia, as ruas são planas. Aqui, para comprar um brinquedo, tenho de fazer preparação física para os Jogos Olímpicos!

As renas, essas, divertiam-se à grande. Uma delas chegou mesmo a sugerir que, no próximo ano, o trenó fosse equipado com travões ABS e mudanças automáticas.

O Pai Natal visitou as lojas, escolheu brinquedos para os mais pequenos, roupas quentinhas para combater o frio da serra e presentes para todos os gostos. E, como não podia deixar de ser, também levou produtos tradicionais, porque os presentes são muito bonitos, mas um Pai Natal de barriga vazia não trabalha nas melhores condições!

A certa altura, entrou numa loja e perguntou ao comerciante:

— Diga-me lá uma coisa: qual é o presente que se vende mais nesta época?

— Depende, senhor Pai Natal. Há quem procure brinquedos, há quem procure roupa e há quem procure prendas para a família.

— Pois eu procuro uma coisa muito mais difícil!

— O quê?

— Um presente para aquele cunhado que diz mal de tudo, não gosta de nada e ainda reclama quando lhe oferecem dinheiro!

O comerciante ficou a pensar e respondeu:

— Nesse caso, ofereça-lhe um espelho!

O Pai Natal soltou uma gargalhada tão grande que até o Rodolfo, lá fora, começou a espirrar neve pelo nariz!

E assim, entre compras, conversas e muitas brincadeiras, o comércio tradicional da Covilhã viveu um dia que jamais esqueceria.

Porque há coisas que não se compram nos grandes centros comerciais: o sorriso de quem nos atende, a conversa de quem nos conhece e o carinho de quem mantém viva a nossa cidade.

 Os estudantes da UBI recebem o Pai Natal

Mas a aventura ainda estava longe de terminar.

Quando o Pai Natal passou junto à Universidade da Beira Interior, foi recebido por um grupo de estudantes que, ao princípio, julgou estar perante uma campanha publicitária.

Um deles, com os livros debaixo do braço e os exames à porta, aproximou-se e perguntou:

— Senhor Pai Natal, desculpe lá, mas o senhor também oferece prendas aos estudantes universitários?

— Claro que sim, meu rapaz! O que desejas?

O estudante pensou durante uns segundos e respondeu:

— Gostava de ter boas notas, passar a todas as cadeiras e não precisar de estudar durante as férias!

O Pai Natal coçou a barba, olhou para o livro que o jovem levava na mão e respondeu:

— Meu filho, eu distribuo prendas, não faço milagres académicos! Mas posso oferecer-te uma caneta, uns apontamentos e uma boa dose de coragem!

Os estudantes desataram a rir. Juntaram-se à volta do trenó, tiraram fotografias, cantaram músicas de Natal e ajudaram o Pai Natal a distribuir pequenas lembranças.

Durante alguns minutos, ninguém pensou em exames, trabalhos ou frequências. A universidade transformou-se num lugar de pura alegria, onde os estudantes voltaram a sentir-se crianças.

E o Pai Natal, emocionado, confessou:

— Sabem uma coisa? A juventude é a maior fábrica de esperança que existe no mundo. Nunca deixem de sonhar!

 A neve, o Jardim Público e uma cidade rendida à magia

Entretanto, a neve continuava a cair. A Covilhã estava vestida de branco, como se a Serra da Estrela tivesse decidido oferecer à cidade o mais belo presente de Natal.

O Pai Natal subiu novamente para o trenó e sobrevoou o Jardim Público. Lá do alto, avistou o miradouro, os jardins cobertos de neve e as pessoas que se juntavam para assistir àquele espetáculo.

Durante uns instantes, ficou em silêncio.

Lembrou-se de todos os Natais que tinha passado na Lapónia, das crianças que esperavam por ele junto à lareira e dos sonhos que transportava no seu saco mágico.

Mas ali, na Covilhã, sentia qualquer coisa diferente.

Talvez fosse a beleza da cidade, abraçada pela Serra da Estrela. Talvez fosse a alegria das crianças. Ou talvez fosse aquele sentimento especial que nasce quando uma comunidade se junta e acredita que, por umas horas, tudo é possível.

— Rodolfo, sabes que mais? — perguntou.

— Diga, chefe!

— Acho que encontrei o meu novo lugar preferido para passar o Natal.

— Então e a Lapónia?

— A Lapónia que me desculpe, mas aqui tenho serra, neve, gente acolhedora e ruas que me mantêm em forma!

O Rodolfo abanou a cabeça.

— Está bem, chefe. Mas para o ano quero férias no Algarve!

— No Algarve?! — exclamou o Pai Natal. — Só se as renas aprenderem a nadar!

E os dois continuaram a rir, enquanto o trenó desaparecia entre os flocos de neve.

 A noite em que a Covilhã acreditou

Chegou finalmente a véspera de Natal.

Nas casas da cidade, as famílias preparavam a ceia, as crianças espreitavam pelas janelas e os mais velhos contavam histórias de outros tempos.

Lá no alto, nas Penhas da Saúde, o Pai Natal preparava a última etapa da sua missão. O trenó estava carregado de presentes comprados na Covilhã, e cada embrulho levava consigo um pouco do carinho dos comerciantes, dos sorrisos das pessoas e da magia que se espalhara pelas ruas.

Antes de partir, olhou uma última vez para a cidade iluminada.

— Obrigado, Covilhã! — murmurou. — Recebeste-me de braços abertos e fizeste-me sentir em casa. Este ano, os presentes que vou distribuir são especiais, porque levam um bocadinho desta terra maravilhosa.

As renas ergueram voo e o trenó desapareceu na noite estrelada, deixando atrás de si um rasto de luzes e pequenos flocos de neve cintilantes.

Naquela noite, muitas crianças adormeceram convencidas de que tinham visto o verdadeiro Pai Natal. E talvez tivessem razão, porque há coisas que não precisam de explicação: basta senti-las no coração.

Na manhã seguinte, encontraram os seus presentes junto à árvore. E, entre os embrulhos, havia um pequeno cartão com uma mensagem:

«Este ano, os presentes vieram da Covilhã, uma cidade onde a Serra abraça o céu, a neve dança nas ruas e a magia vive no coração das pessoas. Nunca deixem de acreditar nos vossos sonhos.

Com amizade,

O vosso Pai Natal, residente temporário nas Penhas da Saúde.»

E dizem que, desde esse Natal, sempre que a neve começa a cair sobre a Covilhã, há quem olhe para o céu à procura de um trenó e de um nariz vermelho a brilhar.

Porque a Covilhã nunca mais se esqueceu do Natal em que a magia andou no ar, as renas desceram a serra e o Pai Natal escolheu a nossa cidade para fazer as suas compras.

E quem sabe se, lá no alto das Penhas da Saúde, ele não estará já a preparar o regresso?

Ho, ho, ho!  Covilhã! 

Bom dia para todos nós 🍀





🍂 ADIANTE, SEMPRE EM FRENTE!

Adiante, sempre em frente! Não vale a pena ficar a chorar sobre o leite derramado. O que passou, passou. A vida não espera por nós, e é preciso aprender a cair e a levantar, cair e a levantar, tantas vezes quantas forem necessárias. Afinal, este é o manual de vida que devemos adotar.

Nem sempre o caminho é fácil, nem sempre as coisas correm como desejamos, mas o importante é nunca perdermos a vontade de continuar. Cada queda ensina-nos alguma coisa, cada dificuldade torna-nos mais fortes e cada novo dia traz consigo a oportunidade de recomeçar.

E já agora, quem vier atrás, feche a porta! A vida é demasiado curta para andarmos sempre a olhar para trás. Levemos connosco as boas recordações, as lições aprendidas e a esperança de que o melhor ainda pode estar para vir.

Bom dia para todos nós! 🍀



COVILHÃ, 156 ANOS DE CIDADE, UMA VIDA INTEIRA DE MEMÓRIAS!


Entre o passado e o futuro, há uma cidade que continua a morar no nosso coração.

Há cidades que conhecemos, cidades por onde passamos e cidades que levamos connosco para toda a vida. A Covilhã é assim! Uma cidade que se sente, que se recorda e que, por mais voltas que a vida dê, nunca deixa de fazer parte de nós.

No próximo dia 20 de outubro, a nossa querida Covilhã assinala 156 anos de elevação a cidade. Mas a sua história é muito mais antiga: são 840 anos de história, de trabalho, de sacrifício, de gente humilde e lutadora, de famílias que aqui criaram os seus filhos e de tantas outras que partiram à procura de uma vida melhor, levando a saudade no peito e a Covilhã na alma.

Hoje, quero fazer convosco uma viagem. Uma viagem entre o ontem e o hoje, entre aquilo que guardamos na memória e aquilo que a nossa cidade foi construindo ao longo dos anos.

Vamos?

COMEÇAMOS PELO NOSSO JARDIM PÚBLICO…

Ah, o Jardim Público! Quantas histórias cabem naquele espaço tão querido dos covilhanenses? Quantos namoros começaram num banco, quantas amizades nasceram entre conversas demoradas e quantas crianças correram por aqueles caminhos, sem outra preocupação que não fosse brincar até alguém chamar por elas?

Quem não se lembra dos peixes dourados, dos repuxos, dos canteiros, das árvores que nos davam sombra nos dias quentes e daqueles bancos onde se punha a conversa em dia? E havia sempre alguém que conhecia alguém que sabia de alguma coisa! Na Covilhã, as notícias também circulavam de banco em banco, muito antes de existirem as redes sociais.

E os amigos de São Francisco? E aquela tília, junto à igreja, que parecia fazer parte da família? Para muitos de nós, o jardim não era apenas um jardim. Era um pedaço da nossa vida, um lugar onde crescemos, namorámos, brincámos e aprendemos, sem darmos por isso, que a felicidade também se encontra nas coisas mais simples.

Depois, há a piscina dos Penedos Altos, onde tantos de nós passámos dias inesquecíveis de verão. A água fresca, as brincadeiras, as gargalhadas e aquela vontade de aproveitar cada minuto, porque as férias pareciam sempre demasiado curtas! Bastava uma toalha, uns amigos e vontade de brincar. Não precisávamos de grandes luxos para sermos felizes.

E quem se lembra da placa do Pelourinho? Daquele património que nos transporta para outros tempos, quando as ruas tinham outro movimento, os rostos eram conhecidos e a cidade parecia uma grande família? Há lugares que, mesmo sem dizerem uma palavra, contam muito daquilo que fomos.

O MONTALTO, O TEATRO CINE E AS CONVERSAS QUE FICARAM…

O Café Montalto também faz parte das memórias de tantas gerações. Os cafés de antigamente eram muito mais do que estabelecimentos onde se bebia uma bica. Eram pontos de encontro, lugares de conversa, de discussão sobre futebol, de comentários sobre a vida alheia — sempre com a melhor das intenções, claro! — e de reencontros que, por vezes, valiam mais do que muitas horas de sono.

E depois havia o Teatro Cine, essa referência cultural que ocupa um lugar especial na memória da cidade. Ir ao cinema era um acontecimento. Havia a expectativa do filme, o ambiente da sala e aquela sensação de que, durante algum tempo, podíamos esquecer o mundo lá fora e viver outras vidas através do grande ecrã.

Hoje, a Covilhã continua a ter espaços culturais, novas propostas e outras formas de viver a arte. Mudaram os tempos, mudaram os hábitos, mas permanece a mesma necessidade de nos encontrarmos, de partilharmos emoções e de sentirmos que a cultura também faz uma cidade crescer.

E O NOSSO SPORTING DA COVILHÃ?

Agora, falemos de futebol! E aqui, companheiros, o coração começa logo a bater mais depressa!

O Estádio José Santos Pinto é um daqueles lugares que não se explicam apenas com palavras. É preciso ter lá estado, sentir o ambiente, ouvir os adeptos e perceber o que significa vestir e defender as cores do Sporting Clube da Covilhã.

Quantas tardes de emoção, quantas vitórias celebradas, quantas derrotas sofridas e quantas vezes saímos do estádio a jurar que, para a semana, é que vai ser! Porque ser adepto também é isto: sofrer, acreditar e nunca abandonar a nossa equipa.

O Sporting da Covilhã faz parte da identidade da cidade. É uma bandeira desportiva que representa a nossa terra, dentro e fora de portas, e que merece o carinho de todos aqueles que sentem orgulho em dizer: sou da Covilhã!

E se há coisa que os anos nos ensinam é que uma cidade não se faz apenas de edifícios e estradas. Faz-se também das suas paixões, dos seus símbolos e das pessoas que continuam a acreditar neles.

DAS SIRENES DAS FÁBRICAS À UNIVERSIDADE…

Mas não podemos falar da Covilhã sem recordar as antigas fábricas de lanifícios.

Durante décadas, o som das sirenes fazia parte da vida quotidiana. Homens e mulheres levantavam-se cedo, enfrentavam o frio e seguiam para o trabalho. Nas fábricas, entre teares, novelos, máquinas e tecidos, construía-se uma parte importante da riqueza da cidade.

Foram tempos de muito trabalho e de sacrifício. As mãos dos operários transformavam a lã em tecidos, mas também ajudavam a tecer o futuro das suas famílias. Havia cansaço, havia dificuldades, mas havia igualmente orgulho no trabalho realizado e esperança num amanhã melhor.

Muitas dessas fábricas silenciaram as suas máquinas. Os tempos mudaram, a indústria transformou-se e ficaram edifícios que são testemunhos de uma época que jamais devemos esquecer.

A Covilhã não pode apagar essa história, porque foi também com o suor dos seus trabalhadores que conquistou o lugar que hoje ocupa.

E eis que, entre paredes antigas e memórias industriais, surgiu uma nova força: a Universidade da Beira Interior.

A UBI trouxe estudantes, conhecimento, investigação, juventude e novas oportunidades. Deu uma nova vida a antigos espaços industriais e ajudou a afirmar a Covilhã como uma cidade universitária, aberta ao mundo e preparada para os desafios do futuro.

É bonito pensar nisto: onde outrora se fabricavam tecidos, hoje também se tecem ideias, projetos, sonhos e oportunidades.

A lã continua a fazer parte da nossa identidade, mas a Covilhã aprendeu que o futuro também se constrói com conhecimento.

AS AVENIDAS NOVAS E A CIDADE QUE NÃO PARA DE CRESCER…

Quem conheceu a Covilhã de outros tempos e hoje percorre as suas avenidas encontra uma cidade diferente. Há novos edifícios, novas zonas habitacionais, mais serviços e espaços comerciais que alteraram a paisagem urbana.

As chamadas Avenidas Novas são um sinal dessa transformação. A cidade cresceu, alargou horizontes e passou a responder a novas necessidades. Vieram novas gerações, novas profissões e novas maneiras de viver.

Também os hipermercados e as grandes superfícies comerciais passaram a fazer parte do nosso quotidiano. Hoje, fazemos compras de uma forma muito diferente daquela dos nossos pais e avós, quando as mercearias de bairro eram pontos de encontro, o comerciante conhecia os clientes pelo nome e, por vezes, até sabia o que faltava em casa antes de nós darmos por isso!

Não vale a pena olhar para o passado como se tudo fosse melhor, nem para o presente como se tudo o que é novo fosse necessariamente superior. Cada tempo tem as suas vantagens e dificuldades. O importante é sabermos evoluir sem perdermos aquilo que nos identifica.

Uma cidade moderna precisa de bons serviços, comércio, habitação, emprego e oportunidades para os mais novos. Mas precisa também de preservar o comércio tradicional, os seus espaços históricos, as suas memórias e a proximidade entre as pessoas.

Porque o verdadeiro progresso não se mede apenas pelo número de edifícios que se constroem, mas também pela qualidade de vida de quem cá vive.

NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO, UM OLHAR SOBRE A CIDADE…

E quando o pensamento se volta para Nossa Senhora da Conceição, regressa aquele sentimento de pertença que tantas vezes nos acompanha.

A sua imagem, tão ligada à devoção e à identidade da Covilhã, faz parte da paisagem afetiva de muitos covilhanenses. Para uns, representa a fé; para outros, recorda a infância, a família, as tradições e os momentos vividos junto de quem já partiu.

Há símbolos que atravessam gerações sem perderem significado. E numa cidade onde tantas famílias conheceram a emigração, as dificuldades e a saudade, esses símbolos podem representar um elo profundo entre quem ficou e quem teve de partir.

Porque há covilhanenses espalhados pelo mundo que, mesmo a milhares de quilómetros, continuam a falar da sua terra com o mesmo brilho nos olhos.

Podem mudar de país, aprender outras línguas e construir uma vida longe da Serra da Estrela. Mas basta uma fotografia da Covilhã, uma notícia do Sporting ou uma recordação de infância para que o coração faça a viagem de regresso.

A COVILHÃ DE HOJE, COM OS OLHOS POSTOS NO AMANHÃ…

A nossa cidade mudou muito. Tem novos espaços, novas acessibilidades, serviços de saúde, escolas, comércio, equipamentos e uma universidade que projeta o seu nome para além das nossas fronteiras.

Continua a ser uma porta de entrada privilegiada para a Serra da Estrela, uma cidade de paisagens únicas, de ruas que sobem e descem, de recantos cheios de personalidade e de uma luz muito própria.

Mas, acima de tudo, continua a ser a cidade das nossas gentes.

Das pessoas que acordam cedo para trabalhar, dos comerciantes que abrem as portas, dos estudantes que chegam de outras paragens, dos idosos que guardam histórias que mereciam ser escritas e dos jovens que procuram aqui o seu futuro.

É também a cidade daqueles que partiram e daqueles que regressaram. Dos que conheceram os velhos bairros, as fábricas em funcionamento e as ruas de outros tempos, mas também dos que nasceram numa Covilhã mais moderna e cheia de novos desafios.

A todos eles pertence esta cidade.

E talvez seja essa a maior riqueza da Covilhã: conseguir juntar gerações diferentes, memórias antigas e sonhos novos, sem deixar de ser ela própria.

156 ANOS DE CIDADE, UMA ETERNIDADE DE SENTIMENTOS!

Companheiros, quando celebramos mais um aniversário da elevação da Covilhã a cidade, não estamos apenas a assinalar uma data no calendário.

Estamos a homenagear os nossos pais e avós, que trabalharam de sol a sol. Os operários que fizeram das fábricas a força da cidade. Os comerciantes, os professores, os trabalhadores, os desportistas e todos aqueles que, de uma forma ou de outra, ajudaram a construir a Covilhã que hoje conhecemos.

Estamos também a recordar os amigos de infância, os passeios pelo jardim, os mergulhos na piscina dos Penedos Altos, as conversas de café, as tardes de futebol e os caminhos que tantas vezes percorremos sem imaginar que, um dia, sentiríamos saudades deles.

O tempo passa. As pessoas mudam. Os edifícios transformam-se. Algumas portas fecham-se, outras abrem-se. E a cidade continua a sua caminhada, entre as marcas do passado e as promessas do futuro.

Mas há coisas que não mudam: o amor à nossa terra, o orgulho nas nossas raízes e aquela saudade que nos aperta o peito quando estamos longe.

Por isso, neste aniversário, desejo que a Covilhã continue a crescer, a modernizar-se e a criar oportunidades para todos. Que saiba cuidar do seu património, respeitar a sua história, acolher quem chega e nunca esquecer aqueles que ajudaram a construí-la.

Que os mais novos encontrem aqui razões para ficar, que os que partiram tenham sempre motivos para regressar e que os mais velhos sintam que as suas memórias continuam a ter lugar na cidade que ajudaram a erguer.

Porque a Covilhã não é apenas um ponto no mapa, encostado à Serra da Estrela.

A COVILHÃ É UMA HISTÓRIA QUE SE ESCREVE TODOS OS DIAS.

É a cidade que vimos crescer, aquela onde guardamos os nossos melhores anos e aquela que desejamos deixar às gerações futuras.

E nós, os que temos a felicidade de lhe chamar nossa terra, sabemos bem que, por mais longe que a vida nos leve, haverá sempre um caminho de regresso.

Um caminho que passa pelas ruas da nossa infância, pelos lugares onde fomos felizes e pelas memórias que o tempo jamais conseguirá apagar.

PARABÉNS, COVILHÃ!

Pelos teus 156 anos de cidade, pelos teus 840 anos de história e por todos os anos que ainda tens pela frente.

Que continues a ser uma cidade de trabalho, de esperança, de cultura, de juventude e de gente boa. Que nunca percas a tua identidade e que saibas caminhar para o futuro com o orgulho de quem conhece e respeita o passado.

E a todos os covilhanenses, aos que aqui vivem e aos que estão espalhados pelo mundo, deixo um abraço sentido, daqueles que atravessam montanhas e encurtam distâncias.

Porque podemos viver longe da Covilhã, mas há uma coisa que ninguém nos tira: a Covilhã que guardamos dentro de nós.

Covilhã és linda terra, hoje e sempre!

Um grande abraço a todos.

E, como sempre, bom dia para todos nós! 🎉🎈🎉🎈



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...