Episódio 2 de 5 — O mistério do Ramal da Estação
A Covilhã acordara para mais um dia de outono, com o movimento habitual nas ruas do centro da cidade. Mas, para Paulo, aquela manhã estava longe de ser igual às outras.
A chamada telefónica que recebera em casa não lhe saía da cabeça.
«É melhor esquecer o que viu esta manhã. Há coisas nesta cidade que não são para descobrir.»
Quem seria aquele homem? Como sabia o seu nome? E porque razão queria impedi-lo de investigar?
Paulo não era de se assustar facilmente, mas também não era tolo. Se alguém se dera ao trabalho de o ameaçar, era porque alguma coisa tinha para esconder.
Vestiu o casaco, saiu de casa e dirigiu-se à procura dos amigos. Como todos viviam no centro da cidade, não precisou de percorrer grandes distâncias para começar a reunir o Clube dos Seis.
A primeira paragem foi em casa de Quim.
— Temos de juntar o pessoal — anunciou Paulo, mal o amigo abriu a porta. — A história está a ficar mais complicada do que pensávamos.
— Eu bem te disse! — respondeu Quim, com ar preocupado. — Desde que ouvi aqueles dois perto do Café Central, fiquei com a sensação de que havia ali qualquer coisa muito estranha.
— E havia! Ontem vi-os a sair do Hotel Solneve. Segui-os com os olhos até desaparecerem na direção da estação. Depois, recebi uma chamada anónima em casa. Alguém me mandou esquecer o assunto.
Quim arregalou os olhos.
— Uma ameaça?
— Não sei se lhe podemos chamar isso, mas não me pareceu um convite para tomar café!
Os dois trocaram um olhar. Era evidente que o caso estava a ganhar outra dimensão.
— Vamos falar com os outros — decidiu Quim. — E desta vez ninguém fica em casa!
Pouco depois, o grupo encontrava-se novamente na sala de Paulo. Francisco chegou com o habitual ar descontraído, João trazia um pequeno caderno no bolso, Natércia vinha cheia de perguntas e Fátima apareceu com uma determinação que não deixava dúvidas: estava pronta para a sua primeira verdadeira investigação.
— Antes de mais — começou Paulo —, quero contar-vos o que aconteceu. Recebi uma chamada de um desconhecido que sabia quem eu era e que me aconselhou a esquecer os dois homens.
— Isso significa que eles sabem que estamos atrás deles — observou João.
— Ou que alguém os está a ajudar — acrescentou Fátima. — Não podemos partir do princípio de que os dois homens agem sozinhos.
Natércia concordou.
— E se as joias ainda estiverem na cidade? Quanto mais tempo passar, mais difícil será encontrá-las.
Francisco, que se preparava para tirar uma bolacha Maria do prato, suspendeu o movimento.
— Meus amigos, proponho que sejamos prudentes. Uma coisa é procurar joias roubadas; outra é acabarmos nós próprios dentro de uma ourivesaria, mas do lado de lá do balcão!
— Não te preocupes, Francisco — respondeu João. — Se te apanharem, dizes que foste lá comprar uma pulseira para a tua sogra!
As gargalhadas aliviaram por instantes a tensão.
Fátima aproveitou a pausa para fazer uma pergunta que ninguém parecia ter considerado.
— Quim, quando ouviste os homens junto ao Café Central, conseguiste perceber se falavam de algum lugar concreto?
Quim levou a mão ao queixo.
— Agora que falas nisso, lembro-me de uma coisa. Um deles disse que o material tinha de ficar num sítio onde ninguém se lembrasse de procurar. O outro respondeu que, junto à linha, ninguém se metia com eles.
— Junto à linha? — repetiu Paulo.
João abriu o caderno.
— Se estão a falar da estação, há vários sítios por ali. Temos a própria estação, os cafés, o pavilhão da FAEC e outros edifícios. Mas também há terrenos mais isolados.
— E um descampado por detrás da estação — acrescentou Quim, recordando-se de um barracão que conhecia de passagem.
Todos olharam para ele.
— Que barracão? — perguntou Natércia.
— Um barracão antigo, num terreno meio abandonado. Não sei a quem pertence, nem se ainda é utilizado. Mas fica numa zona onde pouca gente anda, sobretudo ao fim do dia.
Paulo levantou-se e foi buscar um papel.
— Então temos uma hipótese. Não é uma prova, mas é um sítio que merece ser observado.
— E como vamos até lá? — perguntou Fátima.
— A pé, naturalmente! — respondeu Francisco. — O nosso orçamento para grandes operações secretas ainda não chegou ao ponto de incluir automóveis!
A proposta foi aceite sem discussão.
Ficou combinado que desceriam o Ramal da Estação durante o dia, mantendo-se atentos a qualquer movimento suspeito. Não entrariam em propriedades alheias nem confrontariam ninguém. Se encontrassem provas de um crime, avisariam as autoridades.
O grupo estava de acordo.
Pelo menos, em teoria.
A descida começou pouco depois do almoço.
O centro da Covilhã ficava para trás e, à medida que os seis avançavam pelo Ramal da Estação, a paisagem ia mudando. A rua inclinada obrigava-os a caminhar com cuidado, e Francisco aproveitava cada paragem para recuperar o fôlego.
— Isto é uma investigação ou uma prova de atletismo? — resmungou ele. — Se as joias estiverem lá em baixo, espero que os ladrões tenham a gentileza de as trazer cá acima!
— Tu devias era fazer mais exercício — comentou Natércia.
— Faço! Todos os dias levanto o garfo e a faca. E isso exige coordenação!
Fátima abanou a cabeça, divertida.
Quando chegaram à zona da estação, o grupo dispersou-se apenas o suficiente para observar o movimento sem chamar a atenção. O Café do Redondo, o Café Arco-Íris e o Café Primor faziam parte daquele ambiente familiar, onde as conversas se cruzavam e quase toda a gente parecia conhecer alguém.
Mas os dois homens não estavam à vista.
Paulo olhou para a estação dos Caminhos de Ferro. Um comboio preparava-se para partir, e alguns passageiros apressavam o passo para não o perder.
— Se estes indivíduos querem abandonar a cidade, podem aproveitar o comboio — comentou João.
— Ou podem querer fazer-nos pensar precisamente isso — respondeu Fátima. — Talvez estejam a tentar desviar as atenções de outro lugar.
Quim apontou discretamente para uma zona mais afastada.
— O barracão fica para ali, por detrás da estação.
Seguiram naquela direção, sem se aproximarem demasiado uns dos outros. O terreno era irregular, com ervas altas, pedras soltas e sinais de abandono. Ao fundo, quase escondido pela vegetação, erguia-se um pequeno barracão de paredes envelhecidas e uma porta de madeira escurecida pelo tempo.
À primeira vista, não parecia ter nada de especial.
Mas havia um pormenor que chamou a atenção de Paulo.
A erva junto à entrada estava esmagada, como se alguém tivesse passado por ali recentemente.
— Olhem para o chão — murmurou.
João aproximou-se e observou as marcas.
— Isto não parece estar assim há muito tempo.
Fátima reparou noutra coisa: junto à porta havia pequenas lascas de madeira e uma marca recente na fechadura.
— Alguém tentou abrir isto — disse ela.
— Ou alguém já entrou — acrescentou Natércia.
Francisco deixou de brincar.
— Muito bem. Acho que já chega de passeios turísticos. Se há alguém lá dentro, prefiro saber isso a uma distância respeitável.
Paulo aproximou-se apenas o suficiente para observar a porta. Não tentou abri-la. Escutou durante alguns segundos.
Silêncio.
Depois, um ruído seco.
Parecia ter vindo do interior.
Os seis recuaram instintivamente.
— Ouviram? — sussurrou Quim.
Ninguém respondeu. Todos tinham ouvido.
Paulo fez sinal para se afastarem e regressarem à estação. Não fazia sentido arriscar uma entrada precipitada, sobretudo sem saber quem poderia estar lá dentro.
Enquanto caminhavam de volta, João reparou num homem do outro lado do terreno. Usava um boné escuro e parecia observá-los.
Quando percebeu que tinha sido visto, virou costas e desapareceu por detrás de um muro.
— Não gostei nada daquilo — disse João.
— Nem eu — respondeu Paulo. — Alguém anda a vigiar aquele barracão.
— Talvez seja o proprietário — sugeriu Natércia.
— Talvez — concordou Fátima. — Mas, se for, porque fugiu assim que reparou em nós?
Ninguém encontrou resposta.
O grupo decidiu regressar ao centro da cidade antes de anoitecer. A descida fora suficientemente esclarecedora para justificar uma segunda visita, mas não tinham provas de que as joias estivessem no barracão.
Nessa noite, Paulo mal conseguiu concentrar-se nas tarefas habituais. A imagem da porta, as marcas no chão e o homem de boné não lhe saíam da cabeça.
Pouco depois das nove, ouviu bater à porta.
Abriu-a e encontrou Quim, que parecia ter vindo a correr.
— Paulo, temos um problema!
— Outro? Começo a achar que este caso ainda nos vai obrigar a vender as bolachas Maria para pagar as despesas!
— Deixa-te de brincadeiras! Acabei de falar com uma pessoa que conhece bem aquela zona da estação. Disse-me que, há poucos dias, viu um homem a transportar uma caixa para o barracão.
Paulo ficou sério.
— Uma caixa? Tens a certeza?
— Foi o que me disseram. E há mais: o homem levava o mesmo tipo de casaco que usava um dos indivíduos que vimos sair do Hotel Solneve.
Paulo fechou a porta e chamou Quim para dentro.
— Amanhã temos de voltar a falar com os outros. Mas desta vez precisamos de preparar tudo com cuidado.
Quim concordou.
Foi então que, do lado de fora, se ouviu um ruído de passos apressados.
Paulo aproximou-se da janela e espreitou discretamente.
Na rua, sob a luz amarelada de um candeeiro, estava parado um homem de boné escuro.
Era o mesmo que os observara junto ao barracão.
O homem levantou a cabeça, como se soubesse exatamente onde Paulo estava, e deixou qualquer coisa no chão, junto à porta.
Depois afastou-se sem dizer uma palavra.
Paulo esperou alguns segundos antes de sair. No passeio encontrou um pequeno envelope castanho.
Abriu-o com cuidado.
Lá dentro havia uma fotografia antiga do barracão.
No verso, alguém escrevera à mão uma frase curta:
«Se querem encontrar as joias, procurem onde a luz nunca chega.»
Paulo sentiu um arrepio.
Quim leu a frase por cima do ombro do amigo.
— Onde a luz nunca chega? Que raio quererá isto dizer?
Paulo voltou a olhar para a fotografia. No canto inferior, quase escondido pela sombra, via-se uma pequena abertura na parede do barracão.
Seria essa a pista?
E quem teria deixado o envelope à porta de sua casa?
Uma coisa era certa: alguém queria que o Clube dos Seis encontrasse as joias… ou estava a preparar-lhes uma armadilha.
CONTINUA NO EPISÓDIO 3…

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