🌿MEMÓRIAS DO PASSADO E OS VALORES DE HOJE

Ter memórias do passado não significa que não se ande de braço dado com o presente. Eu, que até sou um adepto de tudo o que é novo e vai aparecendo, sei bem disso.
Ter memórias do passado é recordar um pouco de nós que ficou lá atrás. Umas são melhores, outras piores, mas, de uma maneira ou de outra, fica sempre uma ponta de saudade.
Já li muitos disparates quando se recorre às memórias para descrever o tempo passado. Um dos mais comuns é: “Têm saudades da pobreza?”
Não tem comparação. Aliás, pobreza existiu ontem e existe hoje. E pobreza de espírito… nem se fala.
Claro que hoje existem mais mordomias e a vida pode proporcionar-nos mais conforto e alguns luxos. Mas outra interrogação se levanta: como estamos nós de valores?
Há 30 ou 40 anos, vivíamos com aquilo que tínhamos. Não existiam telemóveis, computadores, e-mails, ar condicionado, micro-ondas… e nem sequer existia o VAR no futebol. 😊

A verdade é que ninguém inveja aquilo que não conhece. Tal como hoje, daqui a uns anos existirão certamente outras coisas que não temos atualmente, e que passarão a fazer parte do nosso quotidiano.
Cada década teve os seus momentos de felicidade. Fui feliz na infância, fui feliz na adolescência e, claro, também tive desilusões e tristezas, como qualquer ser humano.

Mas não, não era só pobreza.
Já existiam ricos, remediados, pobres e muito pobres, tal e qual como acontece hoje. A diferença é que cada época tinha a sua maneira de viver, os seus hábitos, as suas dificuldades e também as suas alegrias.

Hoje vivemos, sem dúvida, com mais qualidade de vida e com muito mais conforto. Mas também se perdeu muito daquilo que fazia parte das relações humanas: o respeito pelo outro, a amizade genuína, as conversas de café, os serões à porta de casa e aquela proximidade entre vizinhos e amigos que hoje, tantas vezes, parece ter desaparecido.

Meus amigos, ninguém tem saudades da pobreza. Mas olhem que a pobreza ainda hoje anda por aí, muitas vezes escondida atrás de portas que ninguém abre e de sorrisos que escondem muitas dificuldades.

Temos, por vezes, a mania de criticar de “barriga cheia”. Se antes existia pobreza, também é verdade que a muitos nunca faltava comida na mesa, porque havia pais que faziam das tripas coração para que nada faltasse aos filhos, nem que para isso eles próprios tivessem de ficar sem comer.

E hoje? Hoje também existem filhos com fome, por este ou por aquele motivo.
Por isso, talvez seja altura de olharmos menos para aquilo que temos e mais para aquilo que somos.

Sejamos mais humanos, mais amigos e, acima de tudo, tentemos incutir nas novas gerações aqueles que deveriam ser os principais valores da nossa sociedade: respeito, honestidade, empatia, solidariedade, justiça, amor e compaixão.

Porque podemos evoluir muito em tecnologia, ter mais conforto e viver rodeados de coisas que os nossos pais e avós nunca imaginaram… mas, se perdermos os valores que nos tornam humanos, teremos evoluído assim tanto?

Boa noite para todos nós 🍀



PODIA SER A PÁGINA DE UM DIÁRIO DOS ANOS 70

20 de setembro era o dia em que a minha mãe fazia anos. Deus a guarde no Céu.

20 de setembro era também um dia de muita felicidade, quando, ainda menino, corria pelo Jardim Público e percorria as ruas da cidade até chegar à piscina municipal.

20 de setembro ficou ainda marcado na minha memória por, no longínquo ano de 1978, ter pedido uma rapariga em namoro.

Mas este 20 de setembro ficará, para sempre, associado a uma notícia muito triste.

Esta sexta-feira recebi a notícia da partida para outra dimensão do meu melhor amigo de infância, o Francisco.

É mais uma parte de mim que se desmorona.

Passámos juntos momentos de aventura, brincadeiras sem fim, correrias, gargalhadas e tantos daqueles momentos que só a infância consegue proporcionar. Hoje, tudo isso permanece guardado num lugar muito especial: a memória.

E é aí que continuarás a viver, meu amigo.

Espera por mim, Chico, para um dia continuarmos as nossas brincadeiras, as nossas aventuras e aquelas gargalhadas que pareciam não ter fim.

A vida é mesmo assim… vai levando pessoas, vai fechando portas e deixando para trás pedaços da nossa história.

O verão prepara-se para as despedidas. Mais uma estação está prestes a começar.

O outono da vida.

Que esta nova estação seja repleta de coisas boas, de paz, de saúde e, sobretudo, de boas memórias.

Um abraço.



A VIDA DÁ, A VIDA TIRA…

E temos de aprender a habituar-nos a isso.

Quando somos novos, pensamos que somos imortais. Ou, pelo menos, acreditamos que temos uma vida inteira pela frente e que aqueles que mais amamos estarão sempre connosco.

Mas, aos poucos, a vida vai-nos ensinando que o ser humano é frágil e que, ao longo da nossa caminhada, vamos perdendo pessoas queridas em cada uma das suas estações.

É a lei da vida.

Partem uns, chegam outros. Tudo se renova. E são essas novas pessoas que entram no nosso caminho que, muitas vezes sem saberem, vão ajudando a apaziguar a dor e o vazio deixados por aqueles que partiram.

Também nós, um dia, iremos ficar numa estação qualquer…

Mas, enquanto esse dia não chega, e depois de tanta aprendizagem, há coisas que simplesmente deixam de fazer sentido.

O ódio não faz sentido.
Andarmos de costas voltadas não faz sentido.
Guardar mágoas não faz sentido.
Aquele café que prometemos e nunca bebemos não faz sentido.
E o eterno “fica para amanhã” só faz sentido… se ainda houver amanhã.

Porque a verdade é que nem sempre há tempo para depois.

É tão fácil sorrir, mesmo quando não nos apetece.
É tão fácil dizer “bom dia”, mesmo a quem não conhecemos.
É tão fácil ser simpático, mesmo quando não estamos a ter o nosso melhor dia.

Às vezes, um simples sorriso pode mudar o dia de alguém. Uma palavra amiga pode aliviar uma dor que desconhecemos. Um gesto de carinho pode ficar na memória de alguém muito mais tempo do que imaginamos.

Hoje vivemos, muitas vezes, numa espécie de redoma de vidro. Estamos rodeados de pessoas e, ainda assim, sentimo-nos sós. Tão sós, por vezes, num mundo que parece já não ser o nosso.

Mas lembram-se de quando éramos crianças?

Quando bastava um dia de sol para sermos felizes?
Quando brincar na rua era uma aventura?
Quando pisar uma poça de água era motivo para uma gargalhada?
Quando a felicidade cabia nas coisas mais simples?

O que foi feito dessa capacidade de sermos felizes com tão pouco?

Que esperamos nós para voltar a encontrar felicidade nas pequenas coisas?
Que esperamos para sermos melhores uns com os outros?

A vida é muito mais do que luxos, dinheiro ou coisas que hoje temos e amanhã podemos perder.

A vida é estar em paz connosco próprios.

E podem ter a certeza de uma coisa: quando estamos bem connosco, tornamo-nos melhores para os outros.

Por isso, se há alguém a quem devemos um abraço, dêmo-lo hoje.
Se há alguém a quem devemos um sorriso, sorria-mos hoje.
Se há alguém a quem prometemos aquele café… talvez seja melhor não deixar para amanhã.

Porque a vida dá.
A vida tira.
E, entre uma coisa e outra, o que realmente fica são os momentos que vivemos e o amor que fomos capazes de dar.

Bom dia para todos nós. 🍀



ATÉ UM DIA, FRANCISCO 🌹

Hoje recebi uma notícia muito triste.

Morreu o meu melhor amigo de infância, companheiro de tantas aventuras, brincadeiras e risos. Estou desolado. Partiu alguém que era muito mais do que um amigo; era como um irmão.

É, por isso, também uma pequena homenagem e uma forma de guardar na memória uma pessoa boa, que deixou a sua marca tanto na vida profissional, como enfermeiro em Castelo Branco, como na sua vida pessoal, enquanto amigo e ser humano.

Estas palavras ganham agora um significado ainda mais especial.



Até um dia, Francisco. 🌹



🌅 FIM DE VERÃO DE 1978

Há Verões que acabam no calendário… mas ficam para sempre dentro de nós.

Era o fim do Verão de 1978. Eu, o Francisco e o restante grupinho, toalha debaixo do braço, lá íamos nós a caminho dos últimos banhos na piscina dos Penedos Altos.

Sabíamos que setembro estava a chegar ao fim e que a piscina, como era habitual, encerraria portas no último dia do mês ou, por vezes, já nos primeiros dias de outubro. Por isso, cada banho, cada mergulho e cada momento passado entre amigos tinha um sabor especial.

O caminho era quase sempre o mesmo.

Saíamos pelo Jardim Público, descíamos as Escadas da Trapa, atravessávamos a Rua Marquês D’Ávila e Bolama, descíamos as Escadas da Ponte dos Costas e, finalmente, chegávamos àquela porta de pedra que dava acesso ao recinto da piscina.

E lá dentro… já cheirava a “maresia”! 

Primeiro, uma passagem rápida pela esplanada, só para espreitar quem estava lá em baixo. Depois, lá apresentávamos, com orgulho, o nosso cartão de sócio do CDC.

Entrávamos nos balneários, colocávamos a roupa no cabide e entregávamo-lo ao funcionário, recebendo em troca uma pequena chapa com um número. Aquela chapa era guardada religiosamente, porque, no final, era com ela que recuperávamos o nosso cabide e a nossa roupa.

Depois… era aproveitar!

Na relva, encontrávamo-nos com outro grupo de raparigas e rapazes do Bairro da Estação. Conversas, risos, brincadeiras, mergulhos… e as horas passavam sem darmos por elas.

E havia sempre aquele momento que nos fazia rir: os chuveiros de água fria! 

Uns encolhiam-se todos para conseguir passar, outros atravessavam aquilo a correr e ainda havia os mais espertos, que simplesmente saltavam a vedação!

Éramos jovens. Não precisávamos de muito para sermos felizes.

Uma toalha, uns amigos, uma piscina, algumas brincadeiras e tempo… muito tempo para viver.

Quando o sol começava a esconder-se por detrás das montanhas da Serra, abandonávamos a piscina e fazíamos juntos o caminho de regresso.

Ao chegarmos ao cruzamento da Rua do Rodrigo, chegava a hora das despedidas.

Um “até logo” aos amigos, porque naquele tempo quase nunca era um verdadeiro adeus.

 Depois do jantar, começava outra parte da noite.

Íamos ter com as namoradas — ou com as pretendentes a namoradas — para a esplanada do Café Primor.

Entre umas Pepsi-Colas, uns amendoins e muitas gargalhadas, falávamos sobre o Verão que estava a terminar e sobre aquilo que imaginávamos para o futuro.

As aulas estavam quase a começar e, naquela idade, o futuro parecia estar tão longe… e ao mesmo tempo tão perto.

Mais tarde, acabávamos sentados na relva, em frente às casas do Bairro.

Entre conversas, risos e uns beijos inocentes de namorados, próprios daquela adolescência, íamos vivendo os nossos pequenos grandes momentos.

Não tínhamos telemóveis.
Não tínhamos redes sociais.
Não tínhamos internet.

Mas tínhamos tempo, amigos e vontade de viver.

E talvez por isso aquelas memórias tenham ficado tão profundamente gravadas em nós.

No final da noite, elas ficavam por ali e eu e o Francisco subíamos a Avenida, de regresso às nossas casas.

 Nesse fim de Verão, o céu parecia mais estrelado do que nunca.

Uma brisa suave descia da Serra e a Covilhã adormecia lentamente, envolta num silêncio que anunciava a chegada dos dias mais curtos e das noites mais frias.

Nós ainda não sabíamos…

Mas estávamos a viver momentos que, décadas mais tarde, haveríamos de recordar com um sorriso no rosto e uma lágrima escondida no canto do olho.

Porque há coisas que o tempo leva…

Mas há memórias que o tempo nunca consegue apagar. 

E talvez seja essa a verdadeira magia da juventude: só percebemos o quanto fomos felizes quando já não podemos voltar atrás.

Quem viveu aqueles tempos sabe do que estou a falar.

Quem se lembra dos últimos banhos na piscina dos Penedos Altos? 

Bom dia para todos nós. 🍀



🍂 A PASSAGEM DO VERÃO PARA O OUTONO 🍂

A passagem do Verão para o Outono causa sempre uma certa nostalgia. As crianças regressam à escola, os dias ficam mais pequenos, as aves emigram e o tempo cinzento volta a fazer parte dos nossos dias. Valha-nos, ao menos, a beleza das cores do Outono, que conseguem embelezar a paisagem e dar-lhe um encanto muito próprio. 

Por entre as vidraças, vejo a chuva cair lá fora. É um daqueles momentos que nos levam para outros pensamentos e nos fazem viajar no tempo.

Quando era criança, também ficava longos minutos com a cara encostada ao vidro da janela, a ver a chuva cair e as pessoas apressadas no passeio, tentando desviar-se das poças de água. Era como se o mundo lá fora tivesse outra vida quando chovia.

Nos dias mais frios, tínhamos a braseira, que acendíamos com álcool e, por cima, colocávamos um estrado para podermos aquecer os pés. Enquanto isso, na televisão, passava a Telescola durante a tarde… uma grande seca para mim naquela altura! 

À tarde, vinha sempre uma fresquinha da Serra da Estrela. Se no Verão agradecíamos aquela aragem fresca, no Outono já era bem menos desejada. E depois havia o som inconfundível do amola-tesouras que, como se dizia na nossa terra, era sinal de que a chuva vinha a caminho.

Mas não era só o amola-tesouras que parecia adivinhar a chuva.

Quando víamos a caravana do circo chegar e começar a montar a tenda na cidade, era chuva pela certa! Três dias de circo no Campo das Festas e, muitas vezes, uma semanada de chuva já ninguém nos tirava. E quando começava a chover, eram dias sem fim… e o Inverno ainda vinha longe.

As aulas começavam por volta do dia 7 de Outubro e ainda hoje se costuma dizer: “Começam as aulas e muda o tempo.” Mas, naquele tempo, parecia que era mesmo assim. Coincidência ou não, começavam as aulas e o tempo mudava mesmo!

E havia ainda os avisos do Almanaque Borda d’Água, que, como se sabe, ainda hoje se vende e continua a fazer parte das nossas tradições. 

Hoje, olhando pela janela e vendo a chuva cair, dou por mim a recordar tudo isto e a pensar como eram diferentes aqueles dias… Não tínhamos tantas coisas como temos hoje, mas talvez tivéssemos mais tempo para olhar pela janela, ouvir a chuva e guardar na memória pequenos momentos que, muitos anos depois, se tornam grandes recordações.

Seja como for, as estações continuam a chegar, ano após ano, cada uma à sua hora. 

E nós só temos de as acompanhar, vivendo cada uma delas da melhor maneira, para não perdermos o comboio da vida. 

Bom dia para todos nós. 🍀



🌿NADA É POR ACASO…

Tudo na vida tem um propósito, uma razão. Nada acontece verdadeiramente por acaso.

Há pessoas que entram na nossa vida para nos ensinar alguma coisa. Há caminhos que se fecham para nos obrigar a procurar outros. Há despedidas que doem, mas que acabam por nos libertar. E há momentos difíceis que, mais tarde, percebemos que foram necessários para nos tornar mais fortes.

Nem sempre entendemos, no momento, porque certas coisas acontecem. Às vezes perguntamos: “Porquê eu?”

Mas o tempo tem uma forma especial de nos mostrar aquilo que, no presente, não conseguimos compreender.

Talvez aquela porta que se fechou tenha sido a oportunidade de encontrarmos uma melhor. Talvez aquela pessoa que partiu tenha deixado uma lição que ficará para sempre. Talvez aquele sonho que não se realizou tenha dado lugar a outro muito maior.

A vida nem sempre acontece como queremos, mas muitas vezes acontece como precisamos.

Por isso, não desistas quando o caminho parecer difícil.

Continua a caminhar, confia no processo e acredita que, mesmo nos dias em que nada parece fazer sentido, há sempre uma razão por detrás de cada capítulo da nossa vida.

Um dia, ao olharmos para trás, talvez percebamos:
“Agora entendo… afinal, nada foi por acaso.”

Boa noite para todos nós 🌜



AI, ANOS 80! ❤️


AI, ANOS 80! ❤️

Caso para dizer: ai, quem me dera ter outra vez 20 anos…

Os anos 80 foram uma década muito marcante na minha vida. Foram anos de juventude, de sonhos, de amizades, de futebol, de trabalho, de descobertas e, também, de algumas perdas que ficaram para sempre na memória.

Acabei o liceu e fui mobilizado para o Serviço Militar Obrigatório. Fiz a recruta em Castelo Branco e, depois de tirar a especialidade de Socorrista, prestei serviço no Hospital Militar Regional 2, em Coimbra.

Vi o Sporting Clube da Covilhã subir por duas vezes à Primeira Divisão. Fiz parte da claque “Leões da Serra” e também da organização dos comboios e da famosa caravana verde, momentos que ainda hoje recordo com enorme emoção. 

Assisti ao nascimento e ao crescimento da Universidade da Beira Interior, que viria a transformar profundamente a nossa cidade.

Vi muito cinema no Teatro Cine e no Cine Centro. 

Bebi muitos cafés e imperiais no Montalto, antes de este encerrar. 

Trabalhei na Etchandy, no antigo pavilhão da FAEC, e também na secção de peças da oficina Auto Sprint, ao Biribau.

E quem se lembra dos tempos em que ainda havia tantos carros a dar voltas à placa, no Pelourinho, à procura de um lugar para estacionar? 

Nem tudo foram rosas nos anos 80. Na segunda metade da década, perdi duas pessoas muito queridas e muito próximas, perdas que abalaram profundamente o meu interior e que o tempo nunca conseguiu apagar.

Mas a vida é mesmo assim: não existem espinhos sem rosas, nem rosas sem espinhos. 

Esta fotografia é dos anos 80, de um passeio que fizemos a Évora. Eu sou o dos óculos. 

Olho para esta fotografia e penso em tudo o que ficou para trás… Pessoas, lugares, momentos e histórias que fazem parte de quem somos.

Ai, anos 80… Se fosse possível voltar atrás no tempo, nem que fosse por um único dia, talvez eu não mudasse nada. Apenas queria voltar a sentir aquilo que era ter 20 anos. 

Bom dia para todos nós.🍀



BOM ANO LETIVO

Caminhos Cruzados chegou ao fim

“Caminhos Cruzados” chegou ao seu final. No início, tinha pensado em escrever 90 episódios, mas, à medida que fui desenvolvendo a história, percebi que iria criar um enredo com demasiadas tramas e labirintos, o que poderia acabar por aborrecer os seguidores e, ao mesmo tempo, criar um grau de dificuldade desnecessário para mim.

Assim, decidi reduzir a história para 15 episódios, mantendo sempre o suspense em torno de Sofia. Penso que o vosso feedback foi positivo e espero que tenham acompanhado esta aventura com o mesmo gosto com que eu a escrevi.

Este ano foram quatro romances: Um Romance na Covilhã, Nunca Digas Nunca, Amar e Viver em Liberdade e Caminhos Cruzados. A estes juntaram-se ainda duas aventuras: Uma Aventura em São Silvestre e Uma Aventura nas Portas do Sol.

A única coisa que me move é o gosto pela escrita. Escrever é, para mim, uma forma de dar vida a histórias, personagens, emoções e lugares que fazem parte do nosso imaginário. Quem quiser ler estes romances poderá encontrá-los aqui no blogue ou, simplesmente, pesquisá-los na minha página do Facebook.

Quanto ao lançamento de um livro, como já disse anteriormente, não é uma prioridade para mim, mas continuo recetivo a quem possa estar interessado nessa possibilidade.

Terça feira começa um novo ano letivo e, como faço parte da comunidade educativa, quero deixar uma palavra especial a todos os alunos, professores, funcionários, pais e restantes elementos desta comunidade: desejo-vos um excelente ano letivo, cheio de sucesso, esperança e muitas conquistas. Que tudo corra pelo melhor!

E, sobretudo, um enorme obrigado a todos os que me acompanham, leem, comentam e incentivam a continuar a escrever. Sem vocês, estas histórias não teriam o mesmo sentido.

Bom dia para todos nós. 🍀


CAMINHOS CRUZADOS Episódio 15 — O caminho da verdade

O carro de António e Beatriz entrou na Covilhã ao início da tarde.
Tinham viajado durante horas, quase sem trocar uma palavra.
Beatriz olhava pela janela.
As ruas da cidade traziam-lhe memórias que julgava enterradas para sempre.
— Chegámos — disse António.
Beatriz respirou fundo.
— Depois de vinte e cinco anos...
Sofia estava à espera de Maria da Luz.
Quando viu o carro aproximar-se, sentiu o coração bater mais depressa.
António saiu primeiro.
Depois Beatriz.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Sofia olhou para eles.
Já não conseguia vê-los apenas como os pais que a tinham criado.
Eram também as pessoas que tinham escondido uma parte essencial da sua vida.
Beatriz aproximou-se.
— Sofia...
— Quero a verdade.
António baixou os olhos.
— Vais tê-la.
Sentaram-se os quatro.
António começou:
— Quando nasceste, a tua mãe chamava-se Rita. Era muito jovem e não tinha condições para te criar.
Sofia ouviu em silêncio.
— O teu pai era Paulo. Ele amava a Rita e queria ficar contigo. Mas houve uma discussão entre os dois. Rita decidiu entregar-te a nós.
— E o meu pai?
António respirou fundo.
— Rita disse-lhe que tinhas morrido pouco depois de nasceres.
Sofia ficou petrificada.
— Ela mentiu-lhe?
— Sim.
Beatriz começou a chorar.
— Nós sabíamos que eras filha deles. Mas prometemos a Rita que te criaríamos como nossa filha e que nunca te faltaria amor.
— E a carta?
António retirou do bolso um envelope.
— Guardei-a todos estes anos.
Entregou-a a Sofia.
— Porque não me deram isto antes?
António respondeu com lágrimas nos olhos:
— Porque tivemos medo. Medo de te perder.
Sofia abriu o envelope.
A carta estava completa.
E, finalmente, conseguiu ler o nome que tinha sido arrancado.
Paulo.
O seu pai.
— Onde está ele? — perguntou Sofia.
António apontou para Francisco.
— Foi ele quem conseguiu encontrá-lo.
Sofia olhou para Francisco, surpresa.
— Ele está em Coimbra — explicou.
— Está vivo?
— Sim.
Sofia levou as mãos ao rosto.
Durante vinte e cinco anos imaginara que nunca conheceria os seus pais biológicos.
Agora sabia que o pai estava vivo.
Mas havia ainda uma última coisa que precisava de saber.
— E a Rita?
Beatriz segurou-lhe a mão.
— A Rita morreu há alguns anos.
Sofia baixou os olhos.
Não podia conhecê-la.
Não podia abraçá-la.
Não podia perguntar-lhe por que razão a entregara.
Mas podia finalmente compreender.
Rita não a abandonara por falta de amor.
Tinha-a entregado porque acreditava que António e Beatriz lhe poderiam dar aquilo que ela não conseguia.
Dois dias depois, Sofia chegou a Coimbra.
À porta da Universidade, parou por alguns segundos.
A cidade estava cheia de estudantes, vozes e movimento.
Mas para Sofia tudo parecia silencioso.
Francisco apontou para um homem que se aproximava lentamente.
Era Paulo.
Parou diante dela.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Sofia?
Ela não conseguiu responder.
Paulo aproximou-se.
— És igual à tua mãe quando sorrias.
Sofia chorou.
— Eu passei a vida a pensar que não tinha pai.
— E eu passei a vida a pensar que tinha perdido uma filha.
Abraçaram-se.
Um abraço de vinte e cinco anos.
Mais tarde, sentados junto ao Mondego, Sofia perguntou:
— Porque nunca procuraste por mim?
Paulo olhou para a água.
— Procurei. Durante anos.
— Então porque desististe?
— Porque me disseram que tinhas morrido.
Sofia segurou-lhe a mão.
— Eu estou aqui.
Paulo sorriu entre lágrimas.
— Agora sei.
De regresso à Covilhã, Sofia subiu até ao Bairro da Biquinha.
A cidade estendia-se diante dos seus olhos.
Pensou em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que chegara de França.
Tinha perdido certezas.
Descobrira mentiras.
Encontrara a verdade.
E, pelo caminho, encontrara também pessoas que passaram a fazer parte da sua vida.
Cláudia aproximou-se.
— Então, acabou?
Sofia sorriu.
— Não.
— Não?
Sofia olhou para a Serra da Estrela.
— A procura acabou. Agora começa outra coisa.
— O quê?
Sofia respirou fundo.
— A minha vida.
Francisco aproximou-se e abraçou-a.
— E vais voltar para França?
Sofia olhou para ele.
— Ainda não sei.
Nesse instante, o telemóvel tocou.
Era Paulo.
Sofia sorriu.
Pela primeira vez, o nome “pai” deixou de ser apenas uma palavra.
Era alguém.
Era uma história.
Era parte dela.
Sofia guardou o telemóvel no bolso e olhou uma última vez para a cidade onde tudo tinha começado.
Durante vinte e cinco anos, Sofia viveu sem saber de onde vinha.
Foi preciso regressar à terra natal para descobrir que, por vezes, os caminhos mais difíceis são precisamente aqueles que nos conduzem até nós próprios.
E assim terminou a história de Sofia.
Não com um ponto final.
Mas com um novo caminho.

CAMINHOS CRUZADOS — FIM 




CAMINHOS CRUZADOS Episódio 14 — O nome escondido

Sofia não conseguia tirar os olhos da carta.
Aquela folha tinha estado escondida durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte mais importante.
O nome do seu pai.
— Quem fez isto? — perguntou.
Francisco não respondeu.
— Tens de saber alguma coisa.
— Só sei que a carta estava numa caixa que pertencia à minha mãe.
Sofia levantou-se.
— Então temos de descobrir quem a colocou em casa do meu pai.
Nesse momento, o telemóvel tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, descobri mais uma coisa.
— O quê?
— Venha ter comigo.
Pouco depois, Sofia e Francisco estavam novamente em casa de Maria da Luz.
A mulher tinha sobre a mesa uma pequena fotografia.
— Encontrei isto esta manhã.
Sofia pegou nela.
Era uma fotografia antiga de Rita.
Ao lado dela estava um homem.
Sofia ficou a olhar.
— Quem é?
Maria da Luz respondeu:
— Paulo.
O nome fez Sofia lembrar-se imediatamente da inicial que aparecia na carta.
P.
— Ele era o pai?
Maria da Luz hesitou.
— Era o homem de quem Rita estava grávida quando tudo aconteceu.
Sofia sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.
— Então o meu pai chama-se Paulo.
— Sim.
Francisco aproximou-se da fotografia.
— Eu conheço este homem.
Sofia virou-se para ele.
— Conheces?
— Vi-o algumas vezes com a minha mãe.
Maria da Luz interrompeu:
— Há mais uma coisa que precisam de saber.
Abriu uma velha agenda.
— Paulo não desapareceu em 2001.
Sofia ficou imóvel.
— Então onde está?
Maria da Luz passou o dedo por uma morada escrita numa página.
— Coimbra.
O coração de Sofia disparou.
— Coimbra?
— Sim.
Francisco olhou para Sofia.
— Tens de ir.
Nessa noite, Sofia ligou para António.
— Pai...
Foi a primeira vez que pronunciou aquela palavra desde que descobrira a verdade.
António ficou em silêncio.
— Já sei o nome dele.
Do outro lado, ouviu-se uma respiração profunda.
— Sofia...
— Chama-se Paulo.
António não respondeu.
— É verdade?
Mais silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
— Porque é que nunca me contaste?
— Porque prometi à Rita.
— Prometeste o quê?
— Que te protegeria.
— De quê?
António começou a chorar.
— Do homem que era teu pai.
Sofia ficou confusa.
— Ele queria fazer-me mal?
— Não.
— Então porquê?
António demorou a responder.
— Porque a história que te contaram sobre ele não era verdadeira.
Sofia sentiu um arrepio.
— O que queres dizer?
— Amanhã, quando chegarmos a Portugal, eu conto-te tudo.
— Não. Quero saber agora.
António respirou fundo.
— Paulo nunca abandonou a Rita.
Sofia ficou sem palavras.
— Foi a Rita que o deixou acreditar que tu tinhas morrido.
O mundo de Sofia pareceu desabar.
— Porquê?
António não respondeu.
— Pai!
A chamada terminou.
No dia seguinte, Sofia preparou uma pequena mala.
Cláudia apareceu em sua casa.
— Vais para Coimbra?
— Vou.
— Sozinha?
Sofia olhou para Francisco.
Ele estava à porta.
— Não.
Cláudia percebeu.
— Encontraste o teu pai?
Sofia segurou a fotografia contra o peito.
— Ainda não.
Respirou fundo.
— Mas sei onde ele está.
Francisco aproximou-se.
— E se não for aquilo que esperas?
Sofia olhou para ele.
— Depois de tudo o que descobri, já não tenho medo da verdade.
Os dois ficaram em silêncio.
Francisco segurou-lhe a mão.
— Então vamos.
Sofia sorriu pela primeira vez em muitos dias.
Mas, antes de saírem, recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
“Sofia, não vás à procura de Paulo. Há uma verdade que António ainda não te contou.”
Ela mostrou a mensagem a Francisco.
— Quem enviou isto?
O telefone voltou a vibrar.
Desta vez havia apenas uma fotografia.
Sofia abriu-a.
Era uma fotografia recente de Paulo.
E, ao lado dele, estava uma mulher que Sofia nunca tinha visto.

Fim do Episódio 14.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 13 — A carta de Rita

Sofia permanecia em silêncio.
A carta tremia-lhe nas mãos.
Agora sabia.
Rita era a mulher que lhe tinha dado a vida.
E António sabia.
Durante vinte e cinco anos.
— Não consigo acreditar... — murmurou.
Francisco aproximou-se.
— Sofia, há mais coisas que precisas de saber.
Ela levantou os olhos.
— Mais?
Francisco assentiu.
— Encontrei outras cartas.
— Quantas?
— Quatro.
Sofia sentiu o coração apertar.
— E nunca as leste?
— Li a primeira. As outras estavam fechadas.
Francisco retirou-as de uma pequena pasta.
— A minha mãe escreveu-as todas no mesmo ano.
Sofia pegou na primeira.
O envelope estava dirigido a António.
Abriu-a.
“António, sei que vais cuidar dela como se fosse tua. É a única coisa que me dá alguma paz.”
Sofia começou a chorar.
Continuou a ler.
Rita explicava que não tinha condições para criar a filha e que tomara uma decisão que lhe partia o coração.
Mas havia uma frase que a fez parar:
“Um dia, quando ela for adulta, tens de lhe contar quem é o verdadeiro pai.”
Sofia levantou os olhos.
— O verdadeiro pai?
Francisco ficou tão surpreendido como ela.
— Então existe outro homem.
Sofia voltou à carta.
Mais abaixo, havia apenas uma inicial.
“P.”
— P...
Francisco pensou durante alguns segundos.
— Pode ser Paulo. Pedro. Ou qualquer outro nome.
Sofia abanou a cabeça.
— Não. A minha mãe conhecia o pai. Só não queria que António lhe dissesse quem ele era.
— Talvez exista uma razão.
Sofia fechou a carta.
— Vou descobrir.
Nessa tarde, Sofia ligou para Beatriz.
Desta vez foi Beatriz quem pediu:
— Não me perguntes mais nada pelo telefone.
— Então diz-me apenas uma coisa.
— O quê?
— O António é o meu pai?
Silêncio.
Sofia fechou os olhos.
A resposta não veio.
Mas o silêncio foi suficiente.
— Eu sabia...
Beatriz começou a chorar.
— Sofia, nós amámos-te como nossa filha desde o primeiro dia.
— Eu sei.
— Nunca quisemos fazer-te mal.
— Mas esconderam-me a minha própria história.
— Porque tínhamos medo de te perder.
Sofia sentiu as lágrimas correrem pelo rosto.
— Já me perderam, mãe.
Beatriz ficou sem palavras.
— Não porque deixei de vos amar — continuou Sofia. — Mas porque já não sei em quem posso confiar.
Desligou.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco junto ao Jardim do Lago.
Ele tinha consigo a última carta.
— Esta é diferente — disse.
— Porquê?
— Não é dirigida ao António.
Sofia pegou nela.
No envelope havia apenas duas palavras:
“Para Sofia.”
Ela ficou imóvel.
— A minha mãe escreveu isto para mim?
Francisco assentiu.
— Mas nunca chegou até ti.
Sofia abriu lentamente o envelope.
Leu a primeira linha.
E o mundo pareceu parar.
“Minha filha, se algum dia leres esta carta, significa que descobriste a verdade.”
Sofia levou a mão à boca.
Continuou a ler.
Mas antes de chegar ao fim, encontrou uma frase que a deixou completamente sem chão:
“O teu pai chama-se...”
A carta terminava ali.
A parte seguinte tinha sido arrancada.
Sofia olhou para Francisco, desesperada.
— Quem arrancou o resto?
Francisco ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— A minha mãe não foi.
Sofia sentiu um arrepio.
— Como sabes?
Francisco apontou para a carta.
— Porque esta carta foi encontrada na casa do teu pai.
Sofia ficou gelada.
António tinha guardado a carta durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte onde estava escrito o nome do seu verdadeiro pai.

Fim do Episódio 13



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 12 — A verdade começa a aparecer

Sofia não conseguiu dormir.
A fotografia estava sobre a mesa.
Ao lado, o documento antigo.
E, na sua cabeça, uma sucessão de perguntas para as quais ninguém parecia querer dar resposta.
Rita.
Francisco.
2001.
António e Beatriz.
Tudo parecia estar ligado.
Mas como?
Na manhã seguinte, Sofia tomou uma decisão.
Ligaria novamente a Beatriz.
Desta vez não iria fazer perguntas.
Iria exigir respostas.
Pegou no telemóvel.
— Mãe, precisamos de conversar.
A voz de Beatriz surgiu do outro lado.
— Eu sei, filha.
— Conheces a Rita?
Silêncio.
— Sim.
Sofia fechou os olhos.
Finalmente.
— Desde quando?
— Desde antes de tu nasceres.
Sofia sentiu um arrepio.
— Então a Rita conhecia-me?
Beatriz começou a chorar.
— Conhecia.
Aquela resposta atingiu Sofia como um golpe.
— Quem era ela para mim?
Beatriz não respondeu.
— Mãe!
— Não posso contar-te tudo por telefone.
— Então conta-me quando chegares.
— Vamos regressar amanhã.
Sofia ficou imóvel.
— Amanhã?
— Sim. Eu e o teu pai.
— E depois vais contar-me a verdade?
Beatriz respirou fundo.
— Depois de tantos anos, já não podemos continuar a esconder.
A chamada terminou.
Sofia sentou-se na cama.
Pela primeira vez, sentia que a verdade estava realmente próxima.
Nesse mesmo dia, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Beatriz tinha dito.
Ele ficou pensativo.
— Então a minha mãe conhecia-te antes de eu nascer.
— É o que parece.
Francisco tirou do bolso uma pequena chave.
— Há uma coisa que nunca contei a ninguém.
Sofia olhou para a chave.
— O que é?
— Depois da morte da minha mãe, encontrei uma caixa escondida.
— E nunca a abriste?
— Abri.
Francisco baixou os olhos.
— Dentro havia cartas.
— Cartas de quem?
— Da minha mãe.
— Para quem?
Francisco levantou os olhos para Sofia.
— Para António.
Sofia ficou sem respiração.
— Para o meu pai?
— Sim.
Francisco entregou-lhe uma das cartas.
O envelope estava envelhecido.
Na frente, escrito à mão, estava apenas:
“António — não podes levar a Sofia sem saberes toda a verdade.”
Sofia começou a tremer.
— Sofia...
Ela não conseguia falar.
Virou o envelope.
A carta tinha sido escrita em 2001.
Francisco segurou-lhe o braço.
— Queres mesmo ler?
Sofia olhou para ele.
Tinha lágrimas nos olhos.
— Passei vinte e cinco anos sem saber quem sou.
Abriu o envelope.
Retirou lentamente a folha.
Começou a ler.
A primeira frase fez-lhe faltar o ar:
“António, entrego-te a minha filha porque já não tenho condições para a criar...”
Sofia levou a mão à boca.
A carta caiu-lhe das mãos.
Francisco ficou pálido.
— Sofia...
Ela olhou para ele.
Agora já não havia espaço para dúvidas.
Rita tinha sido a mulher que lhe entregara a filha.
E António sabia de tudo.

Fim do Episódio 12.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 11 — A pessoa que faltava

Sofia passou a noite a pensar na mensagem de António.
“Há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Quem seria?
E por que razão o pai não lhe dizia simplesmente o nome?
Na manhã seguinte, voltou a casa de Maria da Luz.
Encontrou-a sentada junto à janela, com uma chávena de café nas mãos.
— Já estava à sua espera — disse Maria da Luz.
— O meu pai disse-me que a senhora sabe onde posso encontrar uma pessoa.
Maria da Luz levantou os olhos.
— Sei.
— Quem é?
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
— Chama-se Rita.
Sofia sentiu o coração parar.
— Rita?
— Sim.
— Mas o Francisco disse-me que a mãe dele morreu.
Maria da Luz baixou a voz.
— E morreu mesmo.
Sofia ficou confusa.
— Então como posso conhecê-la?
Maria da Luz levantou-se e abriu uma gaveta.
Retirou de lá um pequeno papel.
— Porque existe outra Rita.
Sofia franziu o sobrolho.
— Outra Rita?
— Uma mulher que conheceu a sua mãe... ou melhor, que conheceu a mulher que aparece naquela fotografia.
Sofia sentiu um arrepio.
— E onde está ela?
Maria da Luz entregou-lhe o papel.
Era uma morada.
— Vive fora da Covilhã. Mas ainda mantém contacto com algumas pessoas daqui.
Sofia guardou o papel.
— Sabe o que ela pode contar-me?
— Talvez muito.
— Ou talvez nada.
Maria da Luz olhou-a fixamente.
— Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir do passado.
Sofia respondeu:
— Eu passei a minha vida inteira sem sequer saber que ele existia.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Maria da Luz tinha descoberto.
Ele ficou pensativo.
— Outra Rita...
— Sim.
— Talvez devêssemos ter cuidado.
— Porquê?
Francisco hesitou.
— Porque a minha mãe tinha muito medo de algumas pessoas.
Sofia aproximou-se.
— Que pessoas?
Francisco abanou a cabeça.
— Nunca consegui saber.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Sobre o meu pai... há uma coisa que nunca te contei.
Sofia ficou atenta.
— O quê?
— Encontrei uma carta dele há alguns anos.
— E sabes quem ele é?
Francisco tirou o telemóvel do bolso.
— Não. Mas a carta tinha uma fotografia.
Mostrou-lha.
Sofia ficou imóvel.
O homem da fotografia era desconhecido para ela.
Mas no verso estava escrita uma data.
2001.
Sofia olhou para Francisco.
— Porque é que toda a gente parece ter fotografias de 2001?
Francisco não respondeu.
Nessa noite, em Lyon, António fechava uma mala.
Beatriz entrou no quarto.
— Está tudo pronto?
— Quase.
— António...
Ele parou.
— E se ela perguntar por mim?
— Desta vez não vamos mentir.
Beatriz respirou fundo.
— Prometes?
António aproximou-se dela.
— Prometo.
Beatriz abriu uma gaveta e retirou um pequeno envelope.
— Então leva isto.
António olhou para o envelope.
— Ainda o tens?
— Guardei-o durante vinte e cinco anos.
António ficou em silêncio.
— Está na altura de ela saber — disse Beatriz.
Na Covilhã, Sofia recebeu uma chamada.
Era Maria da Luz.
— Sofia?
— Sim?
— Acabei de me lembrar de uma coisa.
— O quê?
— Quando vi a fotografia pela primeira vez, não reparei num pormenor.
— Que pormenor?
A voz de Maria da Luz baixou.
— A mulher que segurava o bebé tinha uma aliança.
Sofia ficou pensativa.
— E então?
— Rita não era casada.
Silêncio.
Sofia sentiu um arrepio.
— Tem a certeza?
— Absoluta.
Sofia desligou lentamente.
Olhou para a fotografia.
Depois para o documento.
E finalmente para o nome que estava escrito no papel.
Rita.
Talvez aquela mulher não fosse a mãe.
Talvez fosse apenas alguém que sabia onde estava a verdadeira mãe de Sofia.
E, pela primeira vez, surgiu-lhe uma pergunta ainda mais assustadora:
Quem era o homem que tinha colocado aquela aliança no dedo de Rita?

Fim do Episódio 11.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 10 — O silêncio de Beatriz

— Mãe, conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada, Beatriz não respondeu.
Sofia esperou.
— Mãe?
Finalmente ouviu um suspiro.
— Sofia… onde ouviste esse nome?
A pergunta confirmou aquilo que ela já começava a suspeitar.
— Portanto, conheces.
— É complicado, filha.
— Complicado porquê?
— Há coisas do passado que não vale a pena mexer.
Sofia sentiu uma mistura de tristeza e revolta.
— Para ti talvez não valha a pena. Para mim vale.
Beatriz ficou em silêncio.
— Encontrei uma fotografia, mãe. Uma fotografia de uma mulher com um bebé.
A respiração de Beatriz tornou-se mais pesada.
— Sofia, por favor...
— E encontrei um documento onde aparece o nome Rita.
Beatriz não conseguiu responder.
— Quero saber quem ela é.
— Não podes continuar por esse caminho.
— Porquê?
A voz de Sofia tremeu.
— Porque tenho direito a saber quem sou!
Do outro lado, Beatriz começou a chorar.
Sofia fechou os olhos.
Nunca tinha ouvido a mãe chorar daquela maneira.
— Mãe...
— Desculpa.
— Desculpa pelo quê?
Outra pausa.
— Por tudo o que fizemos por ti.
Sofia ficou gelada.
“Fizemos?”
— O que queres dizer com isso?
Beatriz desligou a chamada.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Em Lyon, Beatriz entrou na sala.
António percebeu imediatamente o que tinha acontecido.
— Ela perguntou por Rita?
Beatriz assentiu.
— E agora?
— Já não conseguimos esconder mais.
António aproximou-se.
— Talvez esteja na altura de lhe contar.
Beatriz limpou as lágrimas.
— Não. Ainda não.
— Beatriz...
— Ela precisa de saber a verdade, mas não desta maneira.
António ficou pensativo.
— Então o que vamos fazer?
Beatriz olhou para uma velha fotografia que guardava numa gaveta.
Era uma fotografia de Sofia bebé.
— Temos de voltar à Covilhã.
Enquanto isso, Sofia encontrou-se com Cláudia.
Contou-lhe tudo.
— A tua mãe sabe — disse Cláudia.
— Sabe.
— E os teus pais também?
Sofia ficou alguns segundos calada.
— Acho que sim.
Cláudia apertou-lhe a mão.
— Então estamos mais perto da verdade do que pensávamos.
Sofia olhou para a fotografia de Rita.
— Só quero saber uma coisa.
— O quê?
— Porque é que me esconderam isto durante toda a minha vida?
Nesse instante, o telemóvel de Sofia vibrou.
Era uma mensagem de António.
“Filha, precisamos de falar. Vamos regressar a Portugal.”
Sofia sentiu o coração disparar.
Logo depois chegou outra mensagem.
“Mas antes de nos encontrarmos, há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Sofia olhou para Cláudia.
— Quem?
A resposta chegou alguns segundos depois.
“Maria da Luz sabe onde podes encontrar essa pessoa.”
Sofia ficou sem palavras.
O passado estava finalmente a começar a abrir as suas portas.
Mas quem seria a pessoa que António queria que ela conhecesse?

Fim do Episódio 10.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 9 — O encontro na Biquinha

O fim da tarde aproximava-se quando Sofia chegou ao Bairro da Biquinha.
Do alto, a cidade estendia-se diante dos seus olhos e, ao longe, a Serra da Estrela começava a ganhar os tons dourados do pôr do sol.
Sofia parou por alguns instantes.
Tinha nas mãos a fotografia e o documento que Maria da Luz lhe entregara.
Tudo aquilo parecia impossível.
Rita.
A mulher da fotografia.
A pessoa que aparecia no documento.
E a mãe de Francisco.
Sofia ouviu passos atrás de si.
— Vieste mesmo.
Era Francisco.
— Disse que vinha.
Ele aproximou-se e ficou a olhar para a cidade.
— A minha mãe gostava deste lugar.
— Porquê?
— Dizia que daqui conseguia pensar melhor.
Sofia respirou fundo.
— Francisco, preciso de te perguntar uma coisa.
— Sobre a minha mãe?
Ela assentiu.
— Conheces esta mulher?
Sofia mostrou-lhe a fotografia.
Francisco pegou nela.
O rosto mudou imediatamente.
— Onde arranjaste isto?
— Foi encontrada numa caixa antiga.
Francisco continuou a olhar para a fotografia.
— É a minha mãe.
Sofia sentiu um nó na garganta.
— Tens a certeza?
— Tenho. Eu tinha fotografias dela. Esta é mais antiga, mas reconheço-a perfeitamente.
Sofia tirou o documento da mala.
— E isto?
Francisco leu.
O silêncio tornou-se pesado.
— Sofia...
— O nome da minha mãe aparece aqui como Rita.
Francisco levantou lentamente os olhos.
— Mas isso é impossível.
— Porquê?
— Porque a minha mãe nunca me falou de nenhuma filha.
Sofia ficou imóvel.
— Filha?
Francisco percebeu o que tinha acabado de dizer.
— Espera... não estou a dizer que...
— O que sabes?
— Sei apenas que a minha mãe teve problemas antes de eu nascer. Nunca quis falar muito sobre essa época.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Nunca conheci o meu pai.
Sofia sentiu um arrepio.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Francisco perguntou:
— Sofia, onde estão os teus pais?
— Em Lyon.
— António e Beatriz?
— Sim.
Francisco voltou a olhar para o documento.
— E eles sabem disto?
Sofia hesitou.
— Não sei.
Francisco entregou-lhe o papel.
— Acho que deves perguntar-lhes.
Sofia guardou o documento.
— Tenho medo da resposta.
Francisco aproximou-se.
— Às vezes, a verdade assusta mais antes de a conhecermos.
Os dois ficaram em silêncio, olhando a cidade.
Pela primeira vez desde que começara aquela procura, Sofia sentiu que não estava completamente sozinha.
Nessa noite, Sofia ligou para Lyon.
Beatriz atendeu.
— Olá, filha.
Sofia não respondeu logo.
— Mãe, preciso de te perguntar uma coisa.
Beatriz percebeu imediatamente que havia algo diferente na voz dela.
— O que aconteceu?
Sofia fechou os olhos.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
Do outro lado da chamada fez-se um silêncio absoluto.
Um silêncio que durou apenas alguns segundos.
Mas para Sofia pareceu uma eternidade.
Depois ouviu a voz de Beatriz, trémula:
— Quem te falou desse nome?
Sofia abriu os olhos.
Agora já não tinha dúvidas.
Beatriz conhecia Rita.

Fim do Episódio 9.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 8 — O documento

Sofia chegou a casa de Maria da Luz pouco depois das dez da manhã.
Cláudia já estava à espera.
Assim que entrou, percebeu pela expressão da amiga que alguma coisa tinha acontecido.
— A minha mãe está lá dentro — disse Cláudia. — Encontrou o documento ontem à noite.
Sofia sentiu o coração acelerar.
Maria da Luz apareceu na sala com uma pequena pasta castanha nas mãos.
— Sente-se, Sofia.
A jovem sentou-se.
— O que encontrou?
Maria da Luz pousou a pasta sobre a mesa.
— Isto estava dentro da mesma caixa onde encontrámos a fotografia.
Abriu-a cuidadosamente.
Havia alguns papéis antigos, amarelados pelo tempo.
Sofia aproximou-se.
— Aqui.
Maria da Luz retirou um documento dobrado.
Sofia olhou para ele.
O seu nome estava escrito numa das linhas.
Sofia.
Ficou sem palavras.
— É o meu nome...
— Sim.
— Mas o que é isto?
Maria da Luz respirou fundo.
— É uma cópia de um documento antigo. Não sei como foi parar àquela caixa, nem porque estava lá.
Sofia pegou nele com as mãos trémulas.
Leu algumas linhas.
Depois parou.
— Aqui diz que eu nasci na Covilhã.
Cláudia aproximou-se.
— E então?
Sofia levantou os olhos.
— Eu sempre pensei que tivesse saído daqui muito pequena, mas... nunca soube exatamente onde tinha nascido.
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Há mais uma coisa — disse finalmente.
Sofia olhou para ela.
— O nome de António e Beatriz aparece no documento?
Maria da Luz abanou a cabeça.
Sofia sentiu um vazio no estômago.
— Então quem aparece?
Maria da Luz apontou para uma linha quase apagada.
Sofia aproximou o rosto.
Leu.
E ficou imóvel.
Rita.
O nome que já tinha ouvido.
O nome da mãe de Francisco.
— Não... — murmurou.
Cláudia segurou-lhe a mão.
— Sofia...
— A Rita aparece aqui?
Maria da Luz assentiu.
— Sim.
Sofia levantou-se de repente.
— Então ela era minha mãe?
— Eu não disse isso.
— Mas está aqui o nome dela!
— E isso não significa que tenhamos todas as respostas.
Sofia começou a andar pela sala.
Tudo parecia acontecer depressa demais.
A fotografia.
A mulher.
A viagem para França.
O nome de Rita.
E agora aquele documento.
— Tenho de falar com o Francisco.
Cláudia olhou para ela.
— Tens a certeza?
Sofia respondeu sem hesitar:
— Tenho.
Do outro lado da cidade, Francisco estava junto ao carro quando recebeu uma chamada.
Era um número que não conhecia.
— Estou?
Do outro lado, ninguém respondeu durante alguns segundos.
Depois ouviu uma voz feminina:
— É o Francisco?
— Sim.
— O meu nome é Sofia. Precisamos de falar.
Francisco ficou em silêncio.
— Sobre a minha mãe — acrescentou ela.
O rosto de Francisco mudou.
— Quem lhe falou da minha mãe?
Sofia apertou o documento contra o peito.
— Acho que a sua mãe e eu temos uma história em comum.
Francisco não respondeu.
E, pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Sofia percebeu que ele também parecia ter medo de alguma coisa.
— Onde podemos encontrar-nos? — perguntou.
Francisco olhou para a estrada.
— No lugar onde a minha mãe costumava ir quando queria estar sozinha.
— Onde?
Houve uma pausa.
— No Bairro da Biquinha.
A chamada terminou.
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
Não sabia o que iria encontrar naquele lugar.
Mas sabia uma coisa:
estava cada vez mais perto da verdade.

Fim do Episódio 8.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 7 — O nome

Sofia passou a noite quase sem dormir.
A palavra continuava a martelar-lhe a cabeça:
Francisco.
O mesmo nome que, por uma estranha coincidência, pertencia ao homem que conhecera no centro da cidade.
Ou seria mesmo uma coincidência?
Na manhã seguinte, ligou a Cláudia.
— Preciso de falar contigo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Descobri o nome do homem que a tua mãe disse estar ligado àquela mulher.
Do outro lado fez-se silêncio.
— Qual é o nome?
Sofia respirou fundo.
— Francisco.
Cláudia demorou alguns segundos a responder.
— Sofia... é melhor não tirares conclusões precipitadas.
— Eu sei. Mas ontem conheci um Francisco.
— O Francisco que me falaste?
— Sim.
— E sabes alguma coisa sobre ele?
— Não. Foi apenas um encontro casual.
Cláudia ficou pensativa.
— Então temos de descobrir quem ele é.
Nesse mesmo dia, Sofia voltou ao centro da cidade.
Caminhou sem destino definido, tentando organizar os pensamentos.
Passou pelos Correios, percorreu algumas ruas antigas e acabou por parar junto a um café.
Foi então que ouviu uma voz atrás de si.
— Sofia?
Voltou-se.
Era Francisco.
— Outra vez?
Ele sorriu.
— Parece que a Covilhã é pequena.
— Ou talvez seja o destino — respondeu Sofia, quase sem pensar.
Francisco sorriu.
— Talvez.
Sentaram-se para tomar um café.
Desta vez, Sofia observou-o com atenção.
— Posso fazer-te uma pergunta?
— Claro.
— A tua família é da Covilhã?
Francisco pareceu surpreendido.
— É. Os meus pais nasceram cá. Os meus avós também.
Sofia sentiu o coração acelerar.
— E conheces muita gente antiga da cidade?
— Algumas pessoas. Porquê?
Sofia hesitou.
— Conheces uma mulher chamada Rita?
O sorriso de Francisco desapareceu.
Durante alguns segundos, ficou completamente imóvel.
— Onde ouviste esse nome?
Sofia percebeu imediatamente que tinha tocado num ponto sensível.
— Foi apenas uma pergunta.
Francisco baixou os olhos.
— Rita era o nome da minha mãe.
Sofia ficou sem palavras.
— Era?
Francisco respirou fundo.
— Morreu há alguns anos.
Sofia sentiu um aperto no peito.
— Lamento muito.
— Obrigado.
Houve um silêncio pesado entre os dois.
— Porque perguntaste por ela? — quis saber Francisco.
Sofia não respondeu.
Ainda não podia.
Não sabia se podia confiar nele.
Mais tarde, encontrou-se com Cláudia.
— Ele conhecia a Rita — disse Sofia.
Cláudia arregalou os olhos.
— A sério?
— Era a mãe dele.
— Então talvez tenhas encontrado uma ligação.
Sofia retirou a fotografia da mala.
— Talvez.
Cláudia olhou para a imagem.
— Sofia...
— O quê?
— Há uma coisa que ainda não reparaste.
Cláudia apontou para o canto inferior da fotografia.
Havia uma pequena marca quase apagada.
Uma letra.
F.
Sofia aproximou a fotografia dos olhos.
— “F” de Francisco?
Cláudia não respondeu.
Sofia sentiu um arrepio.
Se aquela fotografia tinha sido tirada em 2001, se a mulher era Rita e se Francisco estava ligado a ela...
quem era, afinal, o bebé que Rita segurava nos braços?
Naquele momento, o telemóvel de Sofia tocou.
Era Maria da Luz.
— Sofia, preciso de falar consigo com urgência.
— Aconteceu alguma coisa?
A voz de Maria da Luz tremia.
— Encontrei outra coisa dentro da velha caixa.
Sofia levantou-se.
— O quê?
Do outro lado ouviu-se apenas uma frase:
— Encontrei um documento com o teu nome.

Fim do Episódio 7



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 6 — A mulher da fotografia

Sofia permaneceu imóvel diante do telemóvel.
A fotografia ampliada mostrava-a ainda criança, ao colo de Beatriz.
Mas era o fundo que lhe prendia a atenção.
A mulher que aparecia parcialmente atrás delas tinha o rosto voltado para a câmara.
Sofia aproximou a imagem.
O coração acelerou.
Era ela.
Ou, pelo menos, era extraordinariamente parecida com a mulher que aparecia na fotografia antiga.
Pegou na fotografia que Maria da Luz lhe tinha dado e colocou-a ao lado do telemóvel.
Comparou os dois rostos.
Os mesmos olhos.
O mesmo formato do rosto.
Até o cabelo parecia semelhante.
— Não pode ser... — murmurou.
De repente, ouviu o som de uma mensagem.
Era Cláudia.
“Descobriste alguma coisa?”
Sofia respondeu:
“Acho que encontrei a mulher da fotografia.”
A resposta chegou quase imediatamente.
“Quem é?”
Sofia hesitou antes de escrever:
“Não sei. Mas aparece numa fotografia minha de quando era bebé.”
Cláudia demorou alguns segundos.
Depois escreveu:
“Sofia, não mostres isso a ninguém. Principalmente aos teus pais.”
Sofia ficou a olhar para o ecrã.
Aquelas palavras assustaram-na.
“Porquê?”
Cláudia não respondeu.
Em Lyon, Beatriz pousou o telemóvel sobre a mesa.
António percebeu imediatamente que alguma coisa não estava bem.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Beatriz...
Ela levantou-se e caminhou até à janela.
— A Sofia anda estranha.
António ficou calado.
— Achas que ela descobriu alguma coisa? — perguntou finalmente.
Beatriz virou-se.
— Ainda não.
— Ainda?
Ela não respondeu.
António aproximou-se.
— Nós sabíamos que este dia chegaria.
— Eu sei.
— Então temos de estar preparados.
Beatriz levou as mãos ao rosto.
— Eu não consigo perdê-la, António.
— Não vais perdê-la.
— E se ela nunca nos perdoar?
António ficou em silêncio.
Porque, no fundo, essa era também a pergunta que mais o atormentava.
Na Covilhã, Sofia decidiu voltar ao local onde Maria da Luz tinha encontrado a fotografia.
Talvez houvesse mais alguma coisa naquela velha caixa.
Antes de sair, recebeu finalmente uma mensagem de Cláudia.
“A minha mãe lembrou-se de mais uma coisa. Disse que a mulher da fotografia tinha alguém à espera dela.”
Sofia respondeu:
“Quem?”
A resposta demorou.
Quando chegou, Sofia sentiu um arrepio.
“Um homem.”
E logo depois outra mensagem:
“E a minha mãe lembra-se do nome dele.”
Sofia ficou a olhar para o telemóvel.
O nome apareceu no ecrã alguns segundos depois.
Francisco.
Sofia deixou cair o telemóvel sobre a cama.
O homem que tinha conhecido por acaso no centro da cidade podia estar ligado ao segredo que perseguia a sua vida.

Fim do Episódio 6.



CAMINHOS CRUZADOS Episódio 5 — A fotografia

Sofia continuava a olhar para Maria da Luz.
Aquela última frase parecia ecoar-lhe na cabeça.
“Disseram-me que aquela criança ia partir para França.”
— Quem lhe disse isso? — perguntou finalmente.
Maria da Luz baixou os olhos.
— Já passaram muitos anos, Sofia. Há coisas de que já não me lembro bem.
— Mas lembra-se de a ter visto?
— Lembro-me de uma mulher muito jovem. E lembro-me de que estava desesperada.
Sofia apertou a fotografia entre os dedos.
— E o bebé?
Maria da Luz ficou em silêncio.
— Não sei se devo dizer mais alguma coisa.
— Por favor.
A mulher respirou fundo.
— Só me lembro de uma coisa: aquela criança não estava bem.
Sofia sentiu um arrepio.
— Não estava bem como?
— Era muito pequena. Precisava de cuidados. A mulher dizia que não tinha condições para ficar com ela.
Cláudia olhou para a mãe, surpreendida.
— Nunca me tinhas contado isso.
— Porque não era uma história minha para contar.
Sofia sentiu os olhos humedecerem.
— E depois?
Maria da Luz abanou a cabeça.
— Depois, desapareceu.
— Para onde?
— Não sei.
Sofia olhou novamente para a fotografia.
A mulher que segurava o bebé tinha uma expressão triste. Não parecia estar a despedir-se de alguém. Parecia estar a lutar contra uma decisão que não queria tomar.
— Maria da Luz... sabe quem era essa mulher?
A resposta demorou alguns segundos.
— Talvez.
Sofia levantou imediatamente os olhos.
— Talvez?
— Tenho uma vaga lembrança de um nome.
— Qual?
Maria da Luz fechou os olhos por momentos, tentando recordar.
— Rita.
O nome ficou suspenso entre as três.
Rita.
Sofia repetiu baixinho:
— Rita...
Ao sair do café, Sofia caminhava ao lado de Cláudia em silêncio.
— Estás bem? — perguntou a amiga.
— Não sei.
— Queres que esqueçamos isto?
Sofia parou.
— Não.
Olhou para a fotografia que tinha guardado cuidadosamente na mala.
— Quero saber quem é aquela mulher.
— E se descobrires alguma coisa que não gostes?
Sofia respirou fundo.
— Então terei de aprender a viver com a verdade.
As duas continuaram a caminhar.
Ao atravessarem uma das ruas do centro da cidade, Sofia quase chocou com um homem que vinha distraído, olhando para o telemóvel.
— Desculpe! — disseram os dois ao mesmo tempo.
O homem sorriu.
— A culpa foi minha.
Sofia sorriu também.
— Não faz mal.
— Sou Francisco.
— Sofia.
Por breves instantes, os dois ficaram a olhar um para o outro.
Cláudia, alguns passos à frente, voltou-se e sorriu discretamente.
— Vamos? — chamou.
— Já vou.
Sofia despediu-se de Francisco e continuou o caminho.
Não sabia ainda quem ele era.
Nem imaginava que aquele encontro aparentemente insignificante voltaria a cruzar-se com a sua vida.
Nessa noite, Sofia abriu novamente a fotografia.
Virou-a.
A frase continuava lá:
“Um dia ela vai querer saber a verdade.”
Pegou no telemóvel e procurou entre as fotografias antigas que tinha guardadas.
Queria encontrar alguma imagem da sua infância.
Depois de alguns minutos, encontrou uma fotografia que Beatriz lhe tinha enviado anos antes.
Sofia ampliou-a.
Era muito pequena.
Estava ao colo de Beatriz.
Mas havia algo naquela fotografia que nunca tinha reparado.
Ao fundo, parcialmente escondida, estava uma mulher.
Sofia aproximou ainda mais a imagem.
O coração começou a bater-lhe depressa.
Aquela mulher parecia-se demasiado com a mulher da fotografia antiga.

Fim do Episódio 5.



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...