CHUVA NO INÍCIO DA PRIMAVERA

 A Primavera começou com chuva, não muita, mas sempre molha. 

 O importante mesmo é que estamos na Primavera, a renovação que eu tanto falo e apregoo, porque mesmo na maior  escuridão  aparece sempre uma luz para nos guiar, assim o queiramos. 

 Há pouco mais de dois anos começei a minha renovação pessoal e ainda estou em reconstrução, acho que estarei sempre, pois todos os dias temos de melhorar algo. E eu ainda tenho tanto a melhorar…

 Amanhã é domingo de Passos na Covilhã. Antigamente dava gosto ver, era uma multidão que assistia e participava nela, mas hoje em dia já não é bem assim, até o percurso diminuiu para menos de metade. As tradições já não são como eram, é um facto. 

 Vou continuar hoje por casa, já fiz umas tarefas domésticas e daqui a pouco vou ver, via computador, o jogo entre o 1º de Dezembro e o Sporting Clube da Covilhã. Quem diria que depois de tantos anos o Covilhã estava a lutar para não descer para a 4ª divisão ou seja Campeonato de Portugal, e o pior é que isso pode mesmo acontecer, sinais dos tempos.   

 Boa tarde!

 Abraço. 






O REGRESSO DA PRIMAVERA

A Primavera está aí!

Primavera é sinónimo de renovação, é o despertar da natureza, em que o sol permanece mais tempo entre nós.

A energia anda no ar, e também nós devemos fazer um reset mental, limpando espaços e iniciando novos projetos.
Tal como as plantas, o nosso corpo reage ao calor e à luz, saindo do estado de "hibernação" do inverno para um estado de ação.

Mas para termos sucesso é importante fazermos por isso;

Intencionalidade: Não basta querer mudar; é preciso definir o quê e como. A energia da estação serve de combustível, mas tu és o motor.

Consistência: Tal como uma planta não cresce da noite para o dia, o sucesso requer rega diária (hábitos e disciplina), mesmo nos dias em que o entusiasmo falha.

Ambiente: Para florescer, precisas de solo fértil. Isso significa afastar o que te drena e rodear-te de pessoas e hábitos que alimentem essa tua nova fase.

Em resumo, por vezes temos de sair da zona de conforto e muito importante, afastarmo-nos de tudo aquilo que nos faz mal, inclusive as pessoas negativas e más influências.

Boa noite para todos nós🍀



UM ABRAÇO PARA O CÉU

 Os anos passam

 as memórias prevalecem 

 a saudade aumenta… 

Nunca por nunca esqueci

da tua fisionomia 

do teu sorriso

do teu beijo

Daqui para o céu

um abraço apertadinho

do teu querido filho

Amo-te Pai 🌹



MEMÓRIAS DO SERVIÇO MILITAR

Local: Hospital Militar Regional nº 2 - Coimbra
ano: 1984
especialidade: Socorrista

10 anos depois do 25 de Abril de 1974, cumpria o serviço militar no HMR2 de Coimbra.
A todos os meus camaradas da altura, um grande abraço, fazendo votos que se encontrem bem.
Para identificação, sou o que estou com a seta azul a indicar (cliquem na foto para ver maior).

Boa tarde para todos nós🍀 



SPORTING NOS QUARTOS DE FINAL DA LIGA DOS CAMPEÕES DEPOIS DE UMA REMONTADA ÉPICA

🍀A tarefa de virar uma desvantagem de três golos era hercúlea, exigia crença e esforço, e o Sporting teve-os. Desde o primeiro toque na bola que os leões caíram em cima do Bodø/Glimt, empurraram para trás os noruegueses, acumularam remates e foram marcando golos. Inácio, Pote e Suárez forçaram o prolongamento onde Maxi Araújo marcou o golo que pôs a equipa na frente da eliminatória. A reviravolta épica do Sporting só acabou nos 5-0 e os leões vão jogar os quartos de final da Liga dos Campeões.

Sublime🍀

Orgulho verde e branco 💚

ÉS ENORME SPORTING!!!



 


A MINHA ESCOLA PRIMÁRIA

Hoje as minhas memórias levam-me ao tempo da minha escola primária, um pouco em jeito de homenagem à minha professora, Dona Rosa, falecida na semana passada.

Da minha casa à escola distavam poucos metros de distância.- saía da minha residência com a pasta bem presa na mão, pisava as velhas pedras da rua Comendador Campos Melo e subia a Fernão Penteado, até dar de frente com a porta da escola da Dona Gabriela Seco.

A sala era pequenina mas acolhedora, nas paredes um quadro de ardósia, mapas de Portugal insular, Ultramarino e Continental e o crucifixo de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Os lugares nas carteiras eram sempre os mesmos, escolhidos pela professora no inicio do ano, o meu era um dos da frente, o que me permitia estar mais atento.
Apesar de na maioria das escolas primárias do Estado Novo as turmas serem constituídas apenas por rapazes ou raparigas, a nossa escola tinha turmas mistas o que facilitava as relações de amizade entre ambos os sexos, apenas o recreio era dividido, a parte de cima ficava para os rapazes pois tinha lá um pequeno campo para jogarmos à bola, com saída por um portão de ferro que ia dar à movimentada rua Rui Faleiro.

Ouvi histórias de amigos meus que tinham professores que lhes batiam a doer e lhes davam muitos castigos, felizmente eu não posso dizer o mesmo- nem eu, nem os meus colegas da altura.

A Dona Rosa era uma pessoa muito serena, quando entrava na sala todos nos calávamos e só nos sentávamos quando ela o fazia.
Tinha uma voz ternurenta e explicava tudo muito bem e explicitamente, escusado será dizer que não precisava mandar calar ninguém, bastava o olhar e continuava a dar a sua lição.
Quando algum de nós se portava mal tinha o seu castigo mas nada que não se aguentasse, não me recordo de nenhum castigo severo que a D. Rosa nos desse- ficar de pé a olhar para a parede ou umas reguadas de vez em quando, nada que não se aguentasse.

Os textos de português da 3ª classe eram os que mais ficaram na minha memória, escritos para as crianças entenderem e lindas gravuras que chamavam a atenção, dou como exemplo "As andorinhas", "A cigarra e a Formiga", "O rato do campo e da cidade", "Egas Moniz e a Honra", etc...

A caligrafia tinha de ser aperfeiçoada e para isso existiam os cadernos de duas linhas, a tabuada tinha de se saber na ponta da língua e sem vacilar, os rios, as serras, as linhas férreas de Portugal e das províncias ultramarinas- saber tudo isto sem pesquisar no Google meus amigo@s não era tarefa fácil 😊
Por isso quando íamos às compras com a nossa mãe o Sr. comerciante fazia as continhas todas de cabeça.

Um exame da quarta classe nesse tempo valia muito, era quase uma formação para um bom trabalho, quem fizesse o 5º ano (hoje 9º) era uma pessoa culta. Infelizmente perderam-se muitos bons valores individuais, pois tiveram de deixar a escola para ajudar os pais no sustento da casa.
Acredito que muitos operários agrícolas e fabris dos anos 60' e 70' podiam ter sido bons engenheiros, advogados ou qualquer outra profissão com formação Universitária.

No fundo, penso que todos os que estudámos nesse tempo, tivemos uma aprendizagem que com os anos se foi perdendo, muito às custas do desenvolvimento e novas tecnologias, a tabuada que tínhamos na cabeça, hoje está ao alcance de uma calculadora, assim as máquinas vão substituindo o trabalho humano e não sei até que ponto o Homem irá ficar escravo da máquina, o futuro o dirá…

Guardarei sempre boas recordações da minha instrução primária e D. Rosa, onde você estiver, obrigado de 💗

Na foto a escola da Dona Gabriela Seco na atualidade, rua Azedo Gneco na cidade da Covilhã.

Boa noite para todos nós🍀



UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL - CAPÍTULO V

                                              Capítulo V
                                   O final do mistério


O grupo ficou algum tempo em silêncio no Miradouro das Portas do Sol. A noite tinha caído completamente sobre a Covilhã e as luzes da cidade brilhavam espalhadas pela encosta.
O velho António encostou-se ao muro do miradouro e olhou para baixo, para as ruas antigas.
— Quando eu era jovem — começou ele — estas ruas estavam cheias de vida. As fábricas de lanifícios trabalhavam dia e noite. O som dos teares ouvia-se por toda a cidade.
Hélder imaginava as fábricas cheias de trabalhadores.
— E os túneis? — perguntou.
— Serviam para muita coisa — respondeu António. — Para levar água da ribeira às fábricas, para transportar lã, e até para fugir em tempos difíceis.
Quim abriu novamente o mapa antigo.
— Então este mapa foi feito para guardar essa memória?
O velho assentiu.
— O meu amigo… o teu avô… tinha medo que estas histórias desaparecessem quando as fábricas fechassem. Por isso quis criar uma espécie de jogo… uma aventura… para que alguém voltasse a percorrer estes lugares.
Natércia sorriu.
— E resultou.
João olhou para a cidade.
— Passámos pelo Mercado Municipal da Covilhã, pela Igreja de Santa Maria, pelas antigas fábricas… e pelos estendedores de lã.
— E acabámos exatamente onde tudo começou — disse Francisco.
Paulo respirou o ar fresco da noite.
— Nas Portas do Sol.
António tirou do bolso um pequeno objeto embrulhado num pano antigo.
— Ainda falta uma coisa.
Colocou o objeto nas mãos de Quim.
Quando o pano foi aberto, apareceu uma pequena medalha antiga de bronze. Nela estava gravado um tear e a data 1898.
— Isto pertenceu ao primeiro mestre tecelão daquela fábrica onde estiveram — explicou António. — Quero que fiquem com ela.
— Mas porquê nós? — perguntou Natércia.
O velho sorriu.
— Porque foram curiosos. Porque caminharam pela cidade para descobrir a sua história. E porque perceberam que o verdadeiro tesouro não estava escondido numa caixa.
Paulo levantou a medalha à luz do candeeiro.
— Está aqui… — disse ele.
— A história da Covilhã — completou Hélder.
O vento soprou suavemente pelo miradouro, como se trouxesse ecos distantes das antigas fábricas e dos teares que um dia deram vida à cidade.
O velho António começou a afastar-se devagar pelas ruas estreitas.
— Espere! — chamou João. — Voltaremos a vê-lo?
António virou-se apenas uma vez.
— A cidade é cheia de histórias… quando precisarem de ajuda para encontrar outra, talvez eu apareça.
E desapareceu na noite.
Os seis amigos ficaram novamente sozinhos no miradouro. Lá em baixo, a cidade continuava viva.
Quim guardou cuidadosamente o mapa e a medalha.
— Sabem uma coisa? — disse ele.
— O quê? — perguntaram os outros.
— Acho que a Covilhã ainda tem muitos segredos escondidos.
Paulo sorriu.
— Então vamos continuar a procurá-los.
E assim terminou aquela aventura que começou no alto das Portas do Sol, mas que lhes mostrou algo muito mais importante:
que cada rua, cada escada e cada fábrica antiga guarda pedaços da memória de uma cidade.
E enquanto houver quem queira escutá-las…
essas histórias nunca desaparecerão.
                                               

                                                🌿FIM🌿

Bom dia para todos nós🍀



UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL - CAPÍTULO IV

                                          Capítulo IV
                                    O Túnel escondido


 Os passos ecoavam dentro da fábrica abandonada. As sombras das antigas máquinas de lanifícios projetavam-se nas paredes, enquanto o grupo permanecia imóvel.
— Quem está aí? — perguntou Paulo com voz firme.
A silhueta aproximou-se lentamente, iluminada pela fraca luz que entrava por uma janela partida. Era um homem idoso, de boina escura e casaco gasto.
— Não precisam ter medo — disse ele com uma voz calma. — Eu sabia que um dia alguém iria encontrar este lugar.
— Quem é o senhor? — perguntou Natércia.
— Chamam-me António… trabalhei aqui quando esta fábrica ainda tinha vida.
Hélder olhou à volta para as máquinas antigas.
— Então isto era mesmo uma das antigas fábricas de lanifícios da Covilhã…
O velho assentiu.
— Houve um tempo em que a cidade inteira vivia da lã. As fábricas, os estendedores, a ribeira… tudo estava ligado.
Quim mostrou-lhe o mapa.
— Encontrámos isto.
O homem sorriu lentamente.
— Ah… então chegaram até aqui.
— O senhor conhece este mapa? — perguntou João.
— Conheço… porque fui eu que ajudei a desenhá-lo, há muitos anos.
Todos ficaram surpreendidos.
— Mas para quê? — perguntou Francisco.
O velho apontou para a porta trancada no fundo da fábrica.
— Porque o verdadeiro segredo ainda está por trás dessa porta.
Com um molho de chaves antigas tirado do bolso, António abriu lentamente a fechadura.
A porta rangeu… revelando outro túnel.
— Este é um dos túneis mais antigos da cidade — explicou ele. — Foi usado há mais de cem anos para ligar as fábricas aos pontos mais altos da cidade.
— E vai dar onde? — perguntou Natércia.
O velho sorriu.
— Sigam-me.
O grupo entrou no túnel. Era mais largo que o anterior e as paredes estavam feitas de pedra antiga. Durante vários minutos caminharam por uma galeria ligeiramente inclinada.
O ar começava a ficar mais fresco.
— Estamos a subir — disse Hélder.
Ao longe apareceu uma luz fraca.
Quim acelerou o passo.
De repente chegaram a uma escada de pedra. Subiram lentamente… até encontrarem uma pequena porta de madeira.
António empurrou-a.
A porta abriu-se.
E todos ficaram em silêncio.
Tinham saído… exatamente no Miradouro das Portas do Sol.
A cidade estava iluminada pelas luzes da noite. A serra da Estrela aparecia escura no horizonte.
— O túnel… vinha dar aqui… — disse João admirado.
António explicou:
— Antigamente este lugar era um ponto estratégico da cidade. Quem controlasse as Portas do Sol podia vigiar toda a Covilhã.
Paulo olhou para o velho.
— Então o mapa não era para encontrar um tesouro?
O homem sorriu.
— Era. Mas não de ouro.
Apontou para a cidade.
— O verdadeiro tesouro é conhecer as histórias escondidas da nossa terra.
O vento soprou suavemente no miradouro.
Quim dobrou o mapa com cuidado.
— Aposto que ainda existem mais túneis por descobrir.
António piscou o olho.
— Muito mais do que imaginam…
E naquele momento todos perceberam que aquela aventura… podia estar apenas a começar.

Continua…
------------------------------------------------------------------------------------

Boa tarde para todos nós🍀 





UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL - CAPÍTULO III

                                             Capítulo III
                        O Segredo das Fábricas de Lanifícios


O silêncio tomou conta do grupo enquanto todos olhavam para a entrada escura do túnel junto aos antigos Estendedores de Lã da Covilhã.
— Isto parece coisa de filme… — murmurou Natércia.
Quim iluminou o interior com a lanterna de pilhas. O túnel era estreito, feito de pedra antiga e com marcas de humidade. O ar tinha um cheiro forte a terra e a lã molhada.
— Aposto que isto tem a ver com as fábricas antigas — disse Francisco.
— As fábricas de lanifícios? — perguntou João.
Hélder assentiu.
— Antigamente a Covilhã estava cheia delas. A água da ribeira fazia mover as máquinas. Talvez estes túneis servissem para transportar água… ou até mercadorias.
Paulo respirou fundo.
— Então vamos descobrir.
Um a um, entraram no túnel.
Durante alguns minutos caminharam lentamente, iluminando as paredes antigas. De repente, o túnel começou a subir ligeiramente e terminou numa pequena porta de ferro enferrujada.
Quim empurrou.
A porta abriu com um ranger longo.
Do outro lado apareceu o interior de um enorme edifício abandonado.
— Uau… — disse Natércia em voz baixa.
Estavam dentro de uma antiga fábrica de lanifícios.
Máquinas gigantes cobertas de pó ocupavam o espaço. Correias de couro pendiam do teto. No chão havia restos de fios de lã espalhados como se o tempo tivesse parado ali.
— Isto deve ter sido uma das antigas fábricas da cidade — disse Hélder.
Paulo apontou para uma placa enferrujada na parede.
— Aqui diz Fábrica de Lanifícios – 1898.
O vento entrava por janelas partidas, fazendo algumas chapas de metal bater lentamente.
CLANG… CLANG…
— Foi este o barulho que ouvimos antes — disse João.
De repente Francisco reparou numa coisa estranha.
— Olhem para o chão…
Havia pegadas recentes na poeira.
Todos ficaram imóveis.
— Alguém esteve aqui… há pouco tempo — sussurrou Natércia.
Quim aproximou a lanterna das pegadas.
— E não foi só uma pessoa…
Nesse momento ouviram um ruído vindo do fundo da fábrica.
Uma luz fraca acendeu-se por um instante… e voltou a apagar-se.
— Viram aquilo?! — disse Helder.
Paulo apertou os olhos tentando ver melhor.
Ao fundo da nave industrial, entre máquinas antigas e teares enferrujados, parecia haver movimento.
João falou muito baixinho:
— Talvez não sejamos os únicos a seguir o mapa…
O grupo aproximou-se devagar.
No fundo da fábrica encontraram outra porta antiga. Por cima estava gravado outro símbolo igual ao do mapa.
E por baixo, outra frase:
"Onde o som dos teares parou, a história ainda respira."
Quim tentou abrir a porta.
Mas estava trancada.
Foi então que ouviram passos… atrás deles.
Passos lentos.
Vindos da escuridão da fábrica abandonada.
Natércia virou-se devagar.
E na entrada da fábrica apareceu uma silhueta…
Alguém que parecia conhecer aquele lugar muito melhor do que eles.

Continua…
--------------------------------------------------------------------------------------

Boa tarde para todos nós🍀



UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL - CAPÍTULO II

                                            Capítulo II
                                 O mistério continua


  Já o sol desaparecia por detrás da serra quando os seis amigos continuavam sentados no Miradouro das Portas do Sol. A frase encontrada na caixa parecia ser o fim da aventura… mas o Quim continuava a olhar para o mapa antigo com ar desconfiado.
— Isto não faz sentido — murmurou ele.
— O quê? — perguntou Paulo.
— O meu avô nunca faria um mapa só para dizer uma frase bonita. Ele trabalhou muitos anos na indústria da lã… e conhecia todos os cantos da cidade.
Francisco pegou novamente no papel e aproximou-o da luz do candeeiro do miradouro.
— Esperem… — disse ele — há aqui umas marcas que não tínhamos visto!
Hélder tirou do bolso um pequeno isqueiro e aproximou a chama com cuidado do papel.
De repente começaram a aparecer linhas muito ténues… como se estivessem escritas com tinta invisível.
— Isto agora já parece coisa séria — disse João.
Natércia leu lentamente o que começava a surgir no mapa:
"Quando a sombra da igreja tocar o mercado, procurem onde a água correu sob a lã."
Os seis olharam uns para os outros.
— Água… lã… — repetiu Paulo.
Quim estalou os dedos.
— A ribeira! A antiga ribeira da Carpinteira que passava junto aos estendedores!
Sem perder tempo, desceram novamente pelas ruas antigas da Covilhã. A cidade estava mais silenciosa agora, apenas com algumas luzes acesas nas janelas.
Passaram novamente pela Igreja de Santa Maria, Pelourinho, jardim e rua da Indústria.
Quando chegaram aos antigos Estendedores de Lã da Covilhã, ouviram algo inesperado.
Um barulho metálico.
CLANG…
Todos pararam.
— Ouviram isto? — sussurrou Natércia.
O som vinha das antigas estruturas de ferro dos estendedores. João apontou para uma pedra grande junto ao chão, parcialmente coberta por musgo.
— Aquela pedra não estava ali antes…
Hélder e Paulo aproximaram-se e empurraram-na com esforço. A pedra moveu-se lentamente… revelando um pequeno buraco escuro.
— Parece uma entrada… — disse Francisco.
Quim, com os olhos a brilhar de entusiasmo, pegou na velha lanterna.
— Meus amigos… acho que acabámos de encontrar um túnel antigo.
— Um túnel? — disse Natércia — Debaixo da Covilhã?
Quim iluminou o interior. Via-se uma pequena galeria de pedra, muito antiga.
Na parede, gravado na rocha, estava um símbolo idêntico ao do mapa.
E por baixo, uma frase quase apagada:
"O verdadeiro segredo da cidade está guardado onde poucos se atrevem a entrar."
Os seis ficaram em silêncio.
— Então… — disse João, sorrindo — quem entra primeiro?
O vento frio da noite passou pelos estendedores de lã.
E lá em baixo, no túnel escuro, parecia ouvir-se novamente um som distante…
…como se alguém ou alguma coisa estivesse a mover-se nas profundezas da Covilhã.

Continua…

Boa tarde para todos nós🍀



UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL - CAPÍTULO I

Grupo dos seis em:
                          UMA AVENTURA NAS PORTAS DO SOL


Numa tarde luminosa na cidade da Covilhã, seis amigos decidiram encontrar-se no famoso Miradouro das Portas do Sol. Paulo foi o primeiro a chegar. Encostado ao muro do miradouro, olhava a serra ao fundo e o casario antigo que descia pela encosta.
— Hoje cheira a aventura — disse Paulo quando viu chegar Francisco e Natércia.
Pouco depois apareceram também Helder, João e o Quim, sempre com um sorriso malandro como quem já traz uma ideia na cabeça.
— Ouçam — disse Quim, baixando a voz — encontrei um papel antigo no sótão do meu avô. Parece um mapa da Covilhã… e começa aqui, nas Portas do Sol.
Todos se aproximaram. O papel tinha marcas e desenhos que indicavam vários pontos da cidade.
— A primeira pista fala do “coração da cidade onde os comerciantes se encontram” — leu Natércia.
— Isso só pode ser o Mercado Municipal da Covilhã! — disse João.
E lá foram eles, descendo as ruas estreitas e animadas da cidade.
No mercado, entre bancas de fruta, peixe e legumes, perguntaram a um vendedor mais velho se conhecia algo sobre o mapa. O homem sorriu e apontou para o verso do papel.
— A próxima pista fala de uma igreja antiga — disse Helder.
Todos sabiam qual era. Caminharam até à imponente Igreja de Santa Maria. Lá dentro, o silêncio contrastava com a agitação do mercado. Francisco reparou numa pequena inscrição num banco antigo.
— Olhem! Aqui está outro símbolo igual ao do mapa!
A pista seguinte levava-os à antiga Casa dos Magistrados. O edifício parecia guardar histórias de outros tempos. Atrás de uma pedra solta encontraram outro pedaço de papel.
— Agora diz para subir… — murmurou Natércia.
Subiram então pelas históricas Escadas do Castelo da Covilhã. Já um pouco cansados, chegaram ao topo.
— E agora? — perguntou Paulo.
Foi Quim quem reparou num desenho no mapa que parecia lã pendurada.
— Esperem… isso só pode ser nos antigos Estendedores de Lã da Covilhã!
Correram até lá. Entre as estruturas onde antigamente se secava a lã da indústria têxtil da cidade, encontraram uma pequena caixa escondida.
João abriu-a devagar.
Dentro estava apenas uma placa de madeira antiga com uma frase gravada:
"O verdadeiro tesouro é conhecer a história da nossa cidade e partilhá-la com os amigos."
Durante alguns segundos ficaram em silêncio. Depois começaram todos a rir.
— Então andámos pela Covilhã inteira… — disse Helder.
— …e afinal o tesouro era a própria cidade — completou Natércia.
O sol começava a descer e decidiram voltar ao Miradouro das Portas do Sol. Sentados a olhar a paisagem, perceberam que tinham vivido uma pequena aventura… daquelas que ficam para sempre na memória.
E o Quim, já a dobrar o mapa antigo, disse:
— Aposto que ainda há muitos segredos escondidos nesta cidade.
E todos concordaram.
Continua…
--------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀



ALGUMAS HISTÓRIAS NUNCA ACABAM

Quero agradecer a todo@s o vosso feedback sobre o romance "Amar e viver em liberdade", que me deixou imensamente feliz e com vontade de continuar.

Construir uma história é algo que me dá satisfação, é reviver um passado da nossa cidade, das nossas ruas, das nossas tradições, da nossa juventude.

Tento criar um conto em que muitos se revejam e se identifiquem, seja pela brisa que vem da serra ou pela "bica" do café MONTALTO, ou ainda pelo jardim com seus canteiros de flores e tantas outras referências da bela cidade da Covilhã.

Tenho na cabeça uma nova história que brevemente irei passar para o computador e lá para meados de Abril publicarei nesta página. Aguardem, prometo que vou fazer o melhor que sei 😊
Até lá tenho mais uma aventura com os mesmos personagens de "uma aventura em São Silvestre".

Nos vossos comentários li muitos pedidos para editar um livro. Compreendo as vossas solicitações e isso deixa-me bastante lisonjeado, mas de momento fico-me com as publicações nas redes sociais, inclusive o Blogue https://meuveraoazul.blogspot.com/, não quero dizer que no futuro não pense no formato em livro, só que de momento não é prioridade.

E porque algumas histórias nunca acabam, vou continuar a calcar as velhas ruas de pedra da cidade, porque a escrita vive da memória e na promessa de continuar…
Sejam felizes, cada um à sua maneira, mas tentem😊

Bom dia para todos nós 🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VIII

                                          Capítulo VIII
                                 Flor Branca no Adeus

A madrugada chegou silenciosa.
No quarto do hospital, a luz fraca desenhava sombras nas paredes. A Flor respirava com dificuldade, cada vez mais devagar. Pedro estava sentado ao seu lado, segurando-lhe a mão como tinha feito tantas vezes desde que ela voltara à Covilhã.
Durante alguns minutos não disseram nada.
Depois, com um esforço suave, a Flor abriu os olhos e olhou para a janela onde começava a nascer uma luz pálida sobre a serra.
— Afinal… voltei a casa — murmurou.
Pedro inclinou-se para mais perto.
— Sim. Estás em casa.
Ela apertou-lhe a mão uma última vez.
— Obrigada… por nunca teres ido embora.
Foi um gesto pequeno, quase impercetível, quando os dedos dela perderam lentamente a força. A respiração tornou-se leve… e depois parou.
O silêncio que ficou no quarto parecia maior do que o mundo.
Pedro permaneceu ali muito tempo, sem se mexer, ainda com a mão dela entre as suas. Lá fora, a cidade começava a acordar. As primeiras pessoas iam para o trabalho, os carros passavam nas ruas frias da manhã.
A Covilhã continuava a viver.
Dias depois, no cemitério da cidade, família, amigos, vizinhos e antigos colegas reuniram-se para se despedir. A serra observava tudo em silêncio, como sempre.
Pedro ficou por último.
Colocou sobre a terra uma pequena flor branca.
— A história continua — disse baixinho.
Porque compreendeu algo que a Flor lhe tinha ensinado sem saber: algumas pessoas não desaparecem quando partem.
Ficam nas ruas onde caminharam, nas palavras que disseram, nas memórias que nunca deixam de viver.
E, enquanto a Covilhã respirasse entre montanhas e teares, uma parte da Flor continuaria ali. Sempre.
.../...
Depois do funeral, a vida pareceu parar para Pedro.
Durante semanas caminhou pela cidade quase sem destino. Passava pelo Pelourinho, pelo jardim, pelas ruas de pedra, pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, e cada lugar guardava um pedaço da Flor: uma risada, uma conversa, um silêncio partilhado.
No início, a dor era pesada. Mas, pouco a pouco, começou a transformar-se noutra coisa.
Pedro deixou o trabalho na fábrica de lanifícios e começou um novo num comércio local. Entre os teares e o cheiro da lã quente, percebeu que a vida continuava a ser tecida todos os dias, fio a fio, tal como a história deles tinha sido.
Às vezes, ao fim da tarde, passava pelo jardim da Cidade e sentava-se no mesmo banco onde tinham estado tantas vezes. Já não chorava. Ficava apenas ali, olhando a serra.
Um dia trouxe consigo um pequeno caderno. Nele começou a escrever tudo: as tardes no mercado, os cafés partilhados, as cartas vindas de França, o regresso à Covilhã, a coragem da Flor até ao último momento.
Queria que a história deles não se perdesse.
Anos mais tarde, muitas pessoas da cidade conheceriam aquela história — a de dois jovens que cresceram entre as ruas da Covilhã, atravessaram distância, dor e tempo, e aprenderam que amar alguém é também continuar a viver por aquilo que partilharam.
Numa tarde de primavera, já com os cabelos grisalhos, Pedro subiu a um miradouro da serra. O vento era fresco e o sol iluminava a cidade lá em baixo.
Ele sorriu.
— Vês, Flor? A cidade continua linda.
E naquele instante, entre o silêncio das montanhas e o coração da cidade, parecia quase possível ouvir uma resposta suave no vento.
Porque algumas histórias de amor não acabam.
Ficam para sempre a viver nos lugares onde nasceram. 🌹
                                                                          
                                             🌿 FIM 🌿

Bom dia Internacional da Mulher 🌹



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VII

                                     Capítulo VII
               A transferência para o hospital da Covilhã


A carta seguinte não foi escrita pela Flor, mas pelo médico. O estado dela continuava frágil. Precisava de cuidados prolongados — e a família, já exausta, tomou uma decisão difícil.
A pedido da própria Flor, organizaram a transferência para Portugal.
“Quero ouvir a nossa língua. Quero ver a serra pela janela”, dissera ela.
Dias depois, a notícia chegou a Pedro como um sopro de ar depois de meses de angústia. A ambulância atravessaria a fronteira e seguiria direto para o hospital da Covilhã.
Na manhã da chegada, ele esperava junto ao edifício, o coração a bater descompassado. Quando a viu sair, mais magra, mais pálida, mas ali — em casa — sentiu algo que não cabia nas palavras.
A Flor abriu os olhos devagar quando a maca entrou no quarto. Pela janela via-se, ao longe, a silhueta da serra.
— Cheira a casa — murmurou.
Pedro aproximou-se.
— Estás na Covilhã — disse-lhe, com um sorriso contido.
Nos dias seguintes, a cidade parecia respirar com ela. Vizinhos perguntavam, antigos colegas enviavam flores, alguém deixou cravos vermelhos na mesa de cabeceira, como lembrança de que aquele país tinha aprendido a lutar.
A recuperação seria incerta, lenta. Mas agora, todas as manhãs, quando a luz entrava pela janela do hospital e tocava a montanha, a Flor sabia que, acontecesse o que acontecesse, estava onde sempre quisera estar.
E Pedro, sentado ao seu lado, compreendeu finalmente que às vezes o maior milagre não é curar — é regressar.
A presença da serra parecia dar força à Flor.
Os dias no hospital da Covilhã eram lentos, medidos pelo som distante das ambulâncias e pelo ranger das portas no corredor. Mas havia algo diferente ali: vozes conhecidas, o sotaque da terra, o cheiro do ar frio que entrava pela janela entreaberta.
Pedro ia todos os dias depois do turno na fábrica. Sentava-se ao lado dela e lia-lhe trechos das cartas antigas que tinham trocado. Às vezes falava do movimento na cidade, das reuniões dos operários, das mudanças que ainda estavam a acontecer depois da revolução.
Aos poucos, a Flor começou a recuperar pequenas coisas: primeiro sentou-se sozinha, depois conseguiu dar alguns passos pelo quarto com ajuda. Cada gesto era celebrado como uma vitória silenciosa.
Numa tarde clara, pediram autorização para descer ao jardim do hospital. A Flor caminhava devagar, apoiada no braço de Pedro. Quando sentiram o sol no rosto, ela fechou os olhos.
— Lembras-te de quando achávamos que o mundo acabava na estação? — perguntou ela, sorrindo.
Pedro riu baixo.
— Afinal, o mundo era maior. Mas a nossa cidade também.
A recuperação seria longa, talvez nunca completa. Havia cicatrizes invisíveis que o tempo não apagaria. Mas ali, debaixo do céu da Covilhã, perceberam que sobreviver também é uma forma de coragem.
E enquanto a serra permanecia firme no horizonte, como sempre estivera, a vida — frágil, teimosa e luminosa — continuava.
Mas a vida, por vezes, é feita de avanços curtos e recuos inesperados.
Depois de algumas semanas de esperança, a Flor começou a sentir-se novamente mais fraca. Primeiro foi o cansaço — um peso estranho que não passava com o descanso. Depois vieram as febres silenciosas, a falta de ar, o olhar mais distante.
Os médicos falavam baixo no corredor. Complicações tardias do acidente. O corpo estava a lutar há demasiado tempo.
Pedro percebeu antes de lhe dizerem. Sentia-o na forma como ela apertava a mão dele, com menos força a cada dia.
Numa noite em que a serra estava envolta em nevoeiro, a Flor pediu que abrissem ligeiramente a janela.
— Quero ouvir a cidade — sussurrou.
Lá fora, o som distante de um carro, um cão a ladrar, o vento a passar entre os prédios. Sons simples. Sons de casa.
Pedro sentou-se ao lado dela e falou-lhe do Pelourinho, das arcadas da Câmara, do café Montalto onde ainda guardavam a mesa junto à janela como se eles fossem voltar a ocupá-la a qualquer momento.
Ela sorriu, mas o sorriso era frágil.
— Se eu não conseguir… — começou.
Pedro interrompeu-a, com a voz firme apesar do tremor:
— Consegues. Estamos aqui.
Mas, pela primeira vez, o silêncio entre as palavras parecia mais pesado do que a esperança.
E naquela noite longa na Covilhã, enquanto a serra permanecia imóvel sob o céu escuro, ambos sentiram que a história deles estava a entrar numa das suas páginas mais difíceis.
Continua…
---------------------------------------------------------------------------------------

Bom dia para todos nós 🍀


AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO VI


                                                       
Capítulo VI
                               Pedro regressa à Covilhã



Durante algumas semanas, parecia que tudo ia melhorar. A Flor já conseguia sentar-se na cama, falava mais, até sorria quando Pedro lhe contava histórias da Covilhã — do barulho dos teares, das conversas no café, das novidades que chegavam à praça.
Mas, de repente, o estado dela voltou a piorar.
Os médicos começaram a falar em complicações internas do acidente. A Flor cansava-se depressa, a febre aparecia sem aviso, e os dias tornaram-se mais silenciosos.
Pedro passava horas sentado ao lado dela, segurando-lhe a mão. No entanto, o dinheiro começava a faltar. O trabalho na fábrica na Covilhã não podia esperar indefinidamente. Se não regressasse, perderia o lugar.
Foi uma decisão cruel.
Numa tarde cinzenta, contou-lhe.
— Tenho de voltar por uns tempos — disse, com a voz baixa. — Preciso de trabalhar… para depois voltar aqui.
A Flor ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois sorriu com uma serenidade inesperada.
— Eu sei — respondeu. — A vida continua, mesmo quando nós queremos pará-la.
Na manhã da partida, Pedro despediu-se no quarto do hospital. O abraço foi cuidadoso, frágil, como se o tempo pudesse partir-se.
— Escreve-me — disse ela.
— Todas as semanas — prometeu ele.
Dias depois, Pedro voltou a descer na Estação da Covilhã. A serra estava envolta em nevoeiro, e a cidade parecia mais silenciosa do que nunca.
Regressou à fábrica de lanifícios e ao som constante das máquinas. Mas, enquanto trabalhava, havia sempre um pensamento que o acompanhava, persistente como o bater dos teares:
Algures em França, entre paredes brancas de hospital, estava uma parte da sua própria vida à espera de voltar a respirar.
Os dias voltaram ao ritmo antigo na Covilhã, mas para Pedro nada era realmente igual. A fábrica de lanifícios continuava cheia do ruído dos teares, do vapor quente e das conversas dos operários. Ele trabalhava horas seguidas, quase sem levantar a cabeça, como se o cansaço pudesse calar os pensamentos.
À noite, no quarto, escrevia cartas para a Flor. Contava-lhe da cidade: das manhãs frias, das pessoas que falavam ainda da revolução, das tardes em que passava pelo Pelourinho e ficava ali parado, lembrando-se dos dois adolescentes que tinham sido.
Todas as semanas ia até à Estação dos Correios para enviar as cartas e perguntar se havia alguma para ele.
Durante algum tempo não veio resposta.
Até que, numa manhã de primavera, o funcionário dos Correios levantou a cabeça quando o viu entrar.
— Tens carta — disse, entregando-lhe um envelope fino com selo francês.
Pedro reconheceu imediatamente a letra trémula da Flor.
Sentou-se num banco de jardim antes de a abrir. O camião que passava levantou um vento frio enquanto ele lia.
“Pedro, estou mais fraca, mas ainda penso na Covilhã todos os dias. Quando fecho os olhos vejo a serra, o mercado, as ruas de pedra. Se não conseguir voltar… promete-me que continuas a viver também por mim. Promete que não deixas a vida parar.”
Pedro ficou muito tempo sentado, com a carta nas mãos.
Naquele momento percebeu algo que nunca tinha aprendido na guerra nem no trabalho: há amores que não vivem apenas na presença — vivem também na memória, na promessa de continuar.
E naquele banco da estação, entre partidas e chegadas, Pedro sentiu que a história deles ainda não tinha terminado. Apenas tinha mudado de forma.

Continua…

Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO V

                                               Capítulo V
                                         O Acidente


O inverno chegou cedo nesse ano. Na Covilhã, Pedro continuava o seu trabalho na fábrica de lanifícios, repetindo o ritmo das máquinas enquanto pensava no verão em que a Flor prometera voltar.
Mas numa tarde cinzenta chegou uma carta diferente. Não era a letra dela.
Era de um conhecido da família em França. As palavras vinham cuidadosas, quase com medo: tinham sofrido um acidente de automóvel numa estrada molhada perto de Lyon. O carro despistara-se numa curva.
O pai da Flor estava hospitalizado. A mãe também. A Flor ficara gravemente ferida.
Pedro leu a carta várias vezes no quarto onde vivia, perto do jardim. As paredes pareciam apertar-se à sua volta. Durante horas não disse nada a ninguém. Depois falou com o patrão e este concordou em antecipar uns dias de férias.
Na manhã seguinte foi até à Estação da Covilhã. Comprou um bilhete com o pouco dinheiro que tinha. Não sabia quanto tempo demoraria a chegar, nem como se orientaria num país estranho. Sabia apenas que tinha de ir.
Antes de partir, passou pela Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Acendeu uma vela, como tantas vezes tinha visto a Flor fazer.
O comboio começou a mover-se devagar, deixando a serra para trás. Pedro olhava pela janela enquanto o país desaparecia.
Pela primeira vez desde a revolução, sentia que a vida não era feita de grandes mudanças políticas ou discursos nas praças — era feita de pequenos gestos de coragem.
E aquele, talvez, fosse o mais importante de todos: atravessar metade da Europa para não deixar alguém enfrentar a dor sozinho.
A viagem foi longa. Comboio atrás de comboio, estações que Pedro mal conseguia pronunciar, paisagens que passavam depressa pela janela. Levava apenas uma mala pequena e o endereço do hospital dobrado no bolso do casaco.
Dias depois chegou a Lyon. A cidade parecia enorme, cheia de ruídos e luzes que nada tinham a ver com a serenidade da serra. Com esforço e alguma ajuda de estranhos, encontrou finalmente o hospital.
O coração batia-lhe com força quando entrou no corredor branco onde lhe disseram que a Flor estava.
Ela estava deitada, pálida, com um braço engessado e o rosto marcado por cortes. Quando abriu os olhos e o viu à porta, demorou um segundo a acreditar.
— Pedro…? — sussurrou.
Ele aproximou-se devagar, como se temesse que o momento se quebrasse.
— Vim — disse apenas.
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. O pai e a mãe recuperavam noutro piso do hospital, ainda frágeis, mas fora de perigo. - Ainda requer muitos cuidados, disseram os médicos.
Nos dias seguintes, Pedro ficou por ali, ajudando no que podia. Aprendeu algumas palavras de francês, trouxe-lhe jornais, leu-lhe cartas antigas da Covilhã. Às vezes falavam da cidade: do Pelourinho, do café onde se sentavam, da serra coberta de neve.
E cada vez que falavam da Covilhã, a Flor sorria um pouco mais.
Uma tarde, olhando pela janela do hospital para o céu cinzento de França, ela disse:
— Quando eu melhorar… quero voltar para casa.
Pedro segurou-lhe a mão com cuidado.
Desta vez, nenhum dos dois duvidava do que significava “casa”.

Continua…
----------------------------------------------------------------------------------------
Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO IV

                            Capítulo IV- Partida para França

A notícia caiu numa tarde silenciosa.
A Flor esperou pelo Pedro no jardim, como tantas vezes antes. Quando ele chegou, percebeu logo no olhar dela que algo tinha mudado.
— Vamos para França — disse, sem rodeios. — O meu pai conseguiu trabalho numa fábrica perto de Lyon. Partimos no fim do verão.
O Pedro ficou imóvel. A revolução trouxera liberdade ao país, mas não resolvera tudo. Havia ainda salários curtos, incertezas longas, sonhos adiados.
Nos dias que se seguiram, caminharam mais do que falavam. Passaram pelo mercado, pelas arcadas da câmara, pelo café onde já sabiam de cor o pedido um do outro. Cada esquina parecia guardar uma despedida.
Na véspera da partida, sentaram-se num banco com vista para a serra. Não prometeram eternidades — prometeram cartas, visitas, resistência.
— A cidade não é só ruas — disse o Pedro. — É quem fica nela.
Na manhã da viagem, a mala da Flor era pequena para tanta saudade. Abraçaram-se demoradamente, como quem tenta decorar o peso do outro.
Quando o carro arrancou em direção à fronteira, a Covilhã ficou para trás. Mas entre França e Portugal, entre fábricas e montanhas, levavam ambos a mesma certeza: algumas histórias não acabam com a distância — transformam-se.
Os primeiros meses em França foram duros para a Flor. A língua tropeçava-lhe na boca, o frio era húmido e estranho, e as ruas não tinham o eco das pedras da Covilhã. A fábrica onde o pai trabalhava cheirava a metal e óleo — nada a ver com a lã quente das fábricas da serra.
Escrevia ao Pedro todas as semanas. Contava-lhe dos prédios altos, das padarias com nomes difíceis, da saudade que aparecia sem avisar. Dizia-lhe que, às vezes, fechava os olhos e ouvia os teares como se ainda estivesse em casa.
Pedro respondia à noite, depois do turno. A fábrica de lanifícios continuava exigente, mas agora havia reuniões, conversas sobre direitos, esperança em voz alta. A revolução não ficara só nas rádios — estava também nas mãos calejadas dos operários.
Passaram-se estações. A distância deixou de ser ferida aberta e tornou-se ponte frágil, sustentada por cartas, fotografias e promessas sussurradas em papel fino.
Um dia, a Flor escreveu diferente: “Quero voltar no verão. Nem que seja só para sentir a serra.”
Quando o comboio dela parou na estação da Covilhã, anos depois, Pedro estava à espera. Já não eram adolescentes. Havia mais mundo nos olhos de ambos.
Mas quando se abraçaram, perceberam algo simples e inteiro: o tempo pode mudar a vida — não muda aquilo que foi verdadeiro.
E, entre partidas e regressos, a história deles continuava a ser tecida, fio a fio, como a própria cidade.
Continua…
--------------------------------------------------------------------------------------------
Boa tarde para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO III

                               Capítulo III - O Reencontro

O reencontro aconteceu numa tarde tranquila de primavera.
Pedro caminhava sem destino certo quando a viu, junto ao Pelourinho da Covilhã. A Flor estava diferente — o cabelo mais comprido, o olhar mais firme — mas era ela. Sempre fora ela.
Ficaram imóveis por um segundo que pareceu um ano inteiro.
— Voltaste — disse ela, num sopro.
— Voltei — respondeu ele, com a voz ainda rouca das coisas que nunca contaria.
Caminharam lado a lado pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, como se retomassem um passo interrompido. Na Confeitaria Lisbonense, pediram dois cafés. As mãos quase se tocaram sobre a mesa de mármore.
Não falaram da guerra. Nem da distância. Falaram da cidade, das mudanças depois de abril, dos sonhos que tinham ficado suspensos no tempo.
Ao sair, passaram pelo monumento de Nossa Senhora da Conceição. A Flor entrou para acender uma vela. Pedro ficou junto às grades, olhando o céu sobre a serra.
Quando ela voltou, já não havia dúvida no silêncio entre eles. Havia escolha.
E, ali mesmo, entre pedras antigas e promessas novas, perceberam que há reencontros que não pedem explicações — apenas coragem para recomeçar.
Os dias seguintes à revolução trouxeram um entusiasmo inquieto à Covilhã. Falava-se de liberdade nas ruas, nas filas do pão, nas mesas de café. Pedro sentia que o país tinha mudado — e que ele também precisava de mudar.
Numa manhã fria, atravessou o centro e subiu em direção às fábricas de lanifícios que faziam da cidade um coração de lã e fumo. O som dos teares ecoava como um pulso constante. Ali não havia tiros nem ordens gritadas — havia trabalho.
Apresentou-se ao encarregado da "LANOFABRIL" com a mesma postura firme que trouxera da tropa. Dias depois, começou na secção de acabamento. As mãos, habituadas ao peso da arma, aprenderam o ritmo dos tecidos, a aspereza da lã crua, o orgulho de ver um rolo perfeito sair da máquina.
Ao fim da tarde, encontrava-se com a Flor no jardim. Contava-lhe do cheiro a vapor, das conversas dos operários sobre sindicatos e direitos novos. Ela ouvia com atenção e sorria — havia esperança naquele cansaço.
A cidade transformava-se devagar. E Pedro, entre fios entrelaçados e sonhos reconstruídos, começava finalmente a tecer o seu próprio futuro.
Continua…
--------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO II

                              Capítulo II - A Revolução dos cravos

Os meses foram passando, marcados pelas cartas que chegavam com selo e cheiro a viagem. O Pedro escrevia sobre fábricas, saudades e o frio que não era o da serra. A Flor respondia contando-lhe as novidades da cidade — o movimento no mercado, os filmes novos no cinema, as conversas intermináveis no café.
Até que chegou o dia 25 de abril de 1974.
Nessa manhã, a Covilhã acordou diferente. A rádio falava baixo, mas com urgência. Na praça, junto ao Pelourinho, as pessoas juntavam-se em pequenos grupos. Corria a palavra: revolução.
A Flor ouviu na telefonia a canção que parecia senha e promessa — Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso — e sentiu um arrepio. Diziam que, em Lisboa, os militares tinham saído para a rua. Que o regime estava a cair. Que o país podia, finalmente, respirar.
Na Covilhã, os rostos estavam entre o medo e a esperança. Alguns choravam. Outros sorriam sem saber bem porquê. A Flor correu até às arcadas da câmara, onde alguém agitava um cravo vermelho.
Nessa noite, escreveu ao Pedro uma carta diferente de todas as outras:
“Hoje o país mudou. Talvez quando voltares, encontres uma Covilhã mais livre. Talvez nós também sejamos mais livres.”
Sem saber quando ele leria aquelas palavras, a Flor percebeu que a distância já não era só ausência — era também caminho. Tal como o país, eles estavam a aprender o que significava começar de novo.
E, pela primeira vez desde a partida na estação, a esperança parecia maior do que a saudade.
Pedro estava de serviço na Escola Prática de Santarém, o ponto de partida da coluna militar comandada pelo Capitão Salgueiro Maia que derrubou a ditadura no dia 25 de abril de 1974, sem que Flor soubesse, Pedro era um herói de Abril…
Chamava-se Pedro, mas na tropa passaram a tratá-lo apenas por “Soldado”. Voltou à Covilhã numa manhã clara, com a farda ainda marcada pelo pó distante e um silêncio que trazia dentro.
Desceu na Estação da Covilhã com uma mala leve e memórias pesadas. A cidade parecia igual — a serra ao fundo, o ar frio a cortar — mas ele sentia tudo diferente.
Caminhou devagar até ao centro. No Pelourinho da Covilhã, parou como quem precisa de confirmar que o chão é firme. As arcadas da Câmara Municipal da Covilhã devolviam-lhe o eco dos passos, agora mais seguros.
Entrou no Café MONTALTO. O burburinho calou-se por um instante. Alguém lhe bateu no ombro. “Já chega de guerra, rapaz”, disse um homem ao balcão. Pedro sorriu pela primeira vez.
Mais tarde, passou pela Igreja da Misericórdia da Covilhã. Não pediu nada; agradeceu apenas por estar ali.
Ao fim da tarde, viu a cidade tingir-se de laranja. Não sabia ainda que futuro o esperava, mas sabia isto: regressar é um ato de coragem. E naquela Covilhã que respirava novos tempos, Pedro deixava de ser só soldado — voltava a ser filho, amigo, vizinho. Voltava para sua casa…
Continua…
-------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀



AMAR E VIVER EM LIBERDADE - CAPÍTULO I

                                 Capítulo I - A despedida

Na Covilhã dos anos 70, o Pedro e a Flor encontravam-se quase todos os dias junto ao Pelourinho. Diziam que era só coincidência, mas os dois sabiam de cor as horas um do outro. Das arcadas da Câmara Municipal viam o movimento da praça e inventavam histórias sobre quem passava.
Ao sábado, percorriam o Mercado Municipal, partilhando uma maçã comprada às escondidas. Depois fugiam para o Café MONTALTO, onde o cheiro a bica e a conversa dos adultos os fazia sentir ainda mais crescidos.
À saída do Teatro Cine da Covilhã, comentavam o filme como se fossem críticos famosos. Cumprimentavam o polícia sinaleiro, sempre firme no cruzamento, e espreitavam as manchetes no Leal dos Jornais antes de seguirem para a Igreja da Misericórdia, onde a Flor acendia uma vela em silêncio.
Entre ruas de pedra e promessas sussurradas, a cidade era deles — inteira e infinita.
Numa tarde de outono, Pedro apareceu mais cedo no Pelourinho da Covilhã. Trazia um ar sério, diferente. A Flor percebeu logo que havia novidade.
— Fui alistado para o serviço militar — disse ele, olhando para as pedras antigas como se procurasse resposta nelas.
Caminharam em silêncio pelas arcadas da Câmara Municipal da Covilhã, onde o eco dos passos parecia maior do que o costume. No Mercado Municipal da Covilhã, as peixeiras gritavam preços como sempre, mas tudo soava distante.
Refugiaram-se no Café MONTALTO. O dono piscou-lhes o olho; já sabia que aqueles dois eram inseparáveis. A Flor pousou a mão sobre a dele.
— Mesmo que vás, voltas, a Covilhã não desaparece.
Nessa noite, foram ao Teatro Cine da Covilhã. O filme falava de partidas e regressos. À saída, o polícia sinaleiro levantou a mão para travar o trânsito e sorriu-lhes, como se abençoasse o momento.
Passaram ainda pelo Leal dos Jornais, onde as manchetes falavam de mudanças no país. Mudanças — a palavra parecia persegui-los.
Antes de se despedirem, entraram na Igreja da Misericórdia. A Flor acendeu outra vela. Pedro não pediu nada em voz alta, mas prometeu regressar.
E, pela primeira vez, perceberam que crescer era isto: amar uma cidade, amar alguém… e aprender que nem tudo fica parado no mesmo lugar.
Os dias passaram depressa demais. Quando chegou dezembro, o frio descia da serra e entrava pelas ruas como um aviso.
Na manhã da partida, encontraram-se pela última vez junto à Estação da Covilhã. O comboio ainda não tinha chegado, mas o fumo já se adivinhava ao longe. Havia malas gastas, lenços a acenar, silêncios pesados.
— Eu volto — disse o Pedro, tentando soar mais velho do que era.
Flor fingiu acreditar sem medo. Entregou-lhe um envelope com folhas arrancadas do caderno onde escrevia às escondidas. “Para não te esqueceres”, murmurou.
Na véspera, tinham passado pelo Café Primor. Sentados lado a lado, beberam dois galões devagar, como se o tempo pudesse ser esticado à força de pequenos goles. Falaram da escola, dos filmes no cinema, das tardes no Pelourinho — mas evitaram a palavra adeus.
O apito ecoou pela estação. O comboio começou a mover-se com um estremecimento de ferro e esperança. Pedro encostou-se à janela. Flor correu ao lado da carruagem até perder o fôlego.
Quando tudo ficou em silêncio outra vez, a Covilhã parecia maior — e mais vazia. Mas a Flor sabia que, algures entre carris e montanhas, começava outra parte da história deles…
Continua…
-------------------------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀



E TUDO SE RENOVA...

 Bom dia caros seguidores!

 Último dia de Fevereiro deste ano, o que tudo indica vamos entrar num mês que a meu ver trás mais otimismo a todos os níveis. Março por si só, e mais não fosse, é o mês que entra a Primavera, o mês que tudo se renova, os dias são maiores e os passarinho cantam alegres. 

 Há mais de dois anos que recomecei a minha renovação pessoal, continuo a acertar agulhas, muito tenho ainda para fazer, mas uma coisa eu consegui, maior auto estima e decisões mais acertadas. Tento a cada dia ser melhor e por sequência ao ser melhor para mim estou a ser melhor para os outros.

 Gosto da escrita desde sempre e começei a lançar uns contos nas redes sociais, um  pouco das minhas vivências misturadas com alguma ficção. Não quero ser conhecido nem ganhar dinheiro com isso, apenas que os seguidores os leiam porque muitas das histórias estão também relacionadas com eles.

 Último dia de Fevereiro, que seja de paz e harmonia entre os povos, num dia em que começa outra guerra entre Estados Unidos/Israel contra o Irão. Não é com guerras que se constrói um mundo mais justo e saudável, não é à custa de civis inocentes que se proclama justiça. O ódio só fomenta mais ódio.

Sejam felizes e tentem andar em paz com vocês mesmos.

Um abraço.



UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE - (COMPACTO)

UMA AVENTURA EM SÃO SILVESTRE
                                               
                                                    I Parte
                                           O TESOURO

 
Nos fins dos anos 70, a Cidade da Covilhã tinha um ritmo próprio — nem tão rápido como as grandes cidades, nem tão calmo que travasse a imaginação dos mais novos. Para um grupo de jovens amigos, cada rua era território de aventura.
Tudo começou num sábado de Primavera, no Largo de São Silvestre. O sol ainda mal tinha nascido e já o Paulo, o Francisco, o João, a Natércia, o Quim, o Hélder e o pequeno Carlos combinavam o plano do dia. Tinham ouvido uma história curiosa de um velho da freguesia: dizia-se que, perto da Capela de São Silvestre, existia uma pequena caixa escondida por antigos moradores, com “coisas importantes”.
— Importantes como quê? — perguntou a Natércia.
— Ninguém sabe — respondeu o Francisco, com ar misterioso. — É por isso que vamos descobrir.
Antes de partir, fizeram a paragem obrigatória no café Gavinhos. Não para café — eram novos demais — mas para comprar rebuçados e ouvir as conversas dos adultos, que às vezes davam pistas sem querer. Um senhor mencionou obras antigas na capela e um “buraco tapado com pedra solta”. Os quatro trocaram olhares: era um sinal.
A primeira etapa foi passar pela escola central, onde costumavam jogar à bola. Dali seguiram pelo mercado municipal, que fervilhava de vozes, pregões e cheiros de fruta fresca. O Paulo jurava que aventuras sérias precisavam de mantimentos, então compraram umas maçãs e meia dúzia de bananas .
A “base” do grupo era a casa do Francisco. No quintal, guardavam tesouros de infância: berlindes, revistas, uma lanterna que só funcionava às vezes. Pegaram na lanterna — essencial para explorações — e avançaram.
Chegados à Capela de São Silvestre, o silêncio parecia maior que o normal. O Quim encontrou uma pedra diferente junto ao muro lateral. Forçaram um pouco e… a pedra cedeu. Lá dentro não havia ouro nem mapas secretos — apenas uma caixa de madeira com fotografias antigas, cartas e uma medalha religiosa.
Sentaram-se no chão a ver tudo. As cartas falavam de amizade, de partidas para longe, de saudades. Perceberam que tinham encontrado o “tesouro” de outros jovens como eles, décadas antes.
— Afinal isto é sobre pessoas — disse a Natércia.
— E sobre a amizade — completou o João.
Guardaram tudo novamente, com respeito, e colocaram a pedra no lugar. A aventura terminou no café Central, onde dividiram uma gasosa e riram como se tivessem descoberto o maior segredo do mundo.
E, de certa forma, tinham.
Porque naquele dia aprenderam que crescer também é isto: perceber que cada geração deixa histórias para a próxima encontrar. E que, na Covilhã daqueles tempos, a maior aventura era a amizade que se construía entre risos, ruas e sonhos.

                                                II Parte
                                  O SEGREDO DO SINO


 Depois da descoberta da caixa na capela, o grupo não falou de outra coisa durante dias. As cartas antigas tinham mexido com todos. Quem seriam aqueles jovens? Teriam ficado amigos para sempre? Teriam voltado a São Silvestre?
Numa tarde quente de agosto, voltaram a reunir-se no Largo de São Silvestre. O Francisco trazia um ar sério.
— O meu pai contou-me uma coisa — disse ele. — Antigamente, o sino da capela tocava sozinho em certas noites. Diziam que era sinal de promessa por cumprir.
O Quim arregalou os olhos.
— Sozinho? Isso é impossível.
— Impossível é não irmos ver — respondeu a Natércia.
Combinaram encontrar-se ao anoitecer, com a velha lanterna do quintal da casa do Francisco. O largo ficava diferente à noite: menos vozes, sombras mais longas, janelas iluminadas aqui e ali.
Aproximaram-se da capela em bicos de pés, como se o silêncio fosse frágil. O Paulo empurrou devagar a porta de madeira — que, para surpresa de todos, não estava trancada.
Lá dentro, o ar era fresco e cheirava a pedra antiga. A lanterna iluminava o altar simples e as paredes gastas pelo tempo. O coração do João batia tão alto que ele jurava que dava eco.
De repente…
Dong.
O sino soou uma vez.
Os quatro ficaram imóveis.
— Foi o vento — sussurrou a Natércia, sem muita convicção.
O Francisco apontou a luz para cima. A corda do sino balançava levemente.
Subiram as escadas estreitas até à pequena torre. Quando lá chegaram, perceberam o mistério: uma das janelas estava aberta e o vento da serra entrava com força, empurrando a corda.
O João soltou uma gargalhada de alívio.
— Afinal o fantasma era o vento!
Mas o Helder, que observava o chão, encontrou algo preso entre as tábuas: um papel dobrado, muito antigo. Abriram com cuidado.
Era apenas uma frase, escrita à mão:
"Prometemos voltar aqui todos os verões, enquanto formos amigos."
Os sete olharam uns para os outros em silêncio. Não era medo — era entendimento.
Sem combinar, deram as mãos em círculo.
— Então fazemos a mesma promessa — disse a Natércia.
E ali, na pequena torre da capela, fizeram o seu pacto: todos os verões, independentemente do que mudasse, voltariam a São Silvestre para uma nova aventura.
Ao sair, o sino tocou outra vez com o vento, mas agora soava diferente.
Soava a tradição a começar.
--------------------------------------------------------------------------
Bom dia para todos nós🍀





UM ROMANCE NA COVILHÃ - (3º CAPÍTULO)

Capítulo 3 — Vinte anos depois

Vinte anos passaram.

A Cidade da Covilhã já não era exatamente a mesma — havia cafés novos, lojas diferentes, ruas e avenidas mais movimentadas. Mas as pedras continuavam lá. E o ar fresco da serra continuava a descer ao fim da tarde como se o tempo nunca tivesse aprendido a correr.
Xavi já não era o rapaz que sonhava com grandes histórias. Era um homem feito, com marcas de escolhas, perdas, conquistas. Fez o serviço militar, saído da cidade, começou a trabalhar. Mas naquele verão o passado ressuscitou.
Não por nostalgia.
Ou talvez um pouco.
Caminhou pelo centro da cidade com passos mais lentos. Passou pela antiga escola, olhou as vitrines renovadas, reconheceu cheiros familiares. Quando chegou ao jardim, o coração acelerou sem pedir autorização.
O banco ainda estava lá, mas o jardim estava renovado, os arbustos e os canteiros com flores já não existiam.
Sentou-se.
Abriu a mochila e tirou um livro antigo, gasto nas bordas. O mesmo. O que ela lhe tinha dado vinte anos antes.
Folheou até encontrar o bilhete que ainda guardava entre as páginas.
"Última corrida na piscina. Hoje."
Sorriu sozinho.
— Ainda guardas isso?
A voz veio atrás dele.
Xavi congelou por um segundo antes de se virar.
Era ela.
O tempo tinha desenhado maturidade no rosto dela, mas os olhos eram exatamente os mesmos. Aqueles olhos que riam antes da boca.
— Pensei que tinhas ido embora para sempre — disse ele, quase num sussurro.
— Fui. Mas algumas partes minhas ficaram aqui.
Sentaram-se lado a lado, como antes. Não houve pressa em falar. O silêncio já não era tímido; era confortável.
Ela contou que tinha vivido noutras cidades, trabalhado, amado, perdido, crescido. Ele contou o mesmo. Riram das versões jovens de si próprios.
— Sabes o que mais me marcou? — perguntou ela.
— A corrida?
— Não. O que disseste naquele miradouro. Que eu fazia parte da tua história.
Xavi respirou fundo.
— E fazes.
Ela olhou para as árvores do jardim.
— Eu voltei há alguns meses. Trouxe a minha filha para viver aqui. Queria que ela crescesse num sítio onde as histórias começam em bancos de jardim.
O coração dele bateu diferente.
— Então ainda acreditas nisso?
— Mais do que nunca.
O sol começava a descer, pintando o céu com tons dourados — quase iguais aos daquele verão distante. Como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa.
— Há uma piscina nova, na parte baixa da cidade - tem ondas - disse ele, com um meio sorriso.
Ela riu.
— Ainda sabes perder corridas?
— Nunca foi sobre ganhar.
Ficaram ali mais um pouco. Vinte anos tinham passado, mas o que era verdadeiro não tinha desaparecido — apenas amadurecido.
Desta vez, quando as mãos se encontraram, não foi por acaso nem por despedida.
Foi escolha.
E Xavi percebeu, finalmente, que algumas histórias não acabam.
Elas esperam.
O relógio da torre de São Francisco dava as horas no mesmo instante que os lábios se uniam e a história se escrevia de vez…

FIM

Bom dia para todos nós🍀



UM ROMANCE NA COVILHÃ - (2º CAPÍTULO)

Capítulo 2 — O verão que não acabou

O verão terminou, mas a história não.

Quando setembro chegou à Covilhã, trouxe consigo o cheiro a cadernos novos e manhãs mais frescas. Xavi voltou às aulas no liceu com uma sensação estranha, como se carregasse um segredo só dele. Sempre que passava pelo jardim, o banco onde a tinha conhecido parecia guardar ecos de risos.

Mas ela ainda não tinha ido embora.

Numa tarde depois da escola, Xavi recebeu um bilhete dobrado dentro do manual de História. Só uma frase:

"Última corrida na piscina. Hoje."

Ele nem precisou de pensar.

Na piscina municipal, o ambiente estava quase vazio. A água refletia a luz suave do fim de dia. Ela já lá estava, sentada na borda, os pés a tocar a superfície.

— Pensei que não vinhas — disse ela.

— Eu nunca falto a uma última corrida — respondeu Xavi, tentando parecer confiante.

Alinharam lado a lado. Quando mergulharam, tudo ficou em silêncio. Só o som da respiração e o deslizar na água. Não era sobre ganhar. Era sobre guardar aquele momento para sempre.

Ela chegou primeiro à outra ponta, mas ficou à espera dele.

— Sabes — disse ela, ofegante — eu tenho medo de ir.

Xavi não esperava aquela confissão.

— Medo de quê?

— De que isto… — fez um gesto vago, como se apontasse para a água, para a cidade, para eles — fique só aqui.

Ele saiu da piscina e sentou-se ao lado dela.
Da piscina Municipal podia ver-se grande parte da Cova da Beira, os raios de sol eram refletidos desde que nascia até desaparecer no horizonte.

— Então não fica. — respondeu. — Não precisamos que as coisas fiquem iguais para continuarem a ser nossas.

No dia seguinte, encontraram-se outra vez no jardim. Sentaram-se no mesmo banco da primeira vez. Ela entregou-lhe o livro que estava a ler naquele dia.

— Fica com ele. Para continuares a escrever a nossa história na tua cabeça.

Xavi sorriu.

— Não vai ser só na cabeça.

Desta vez, quando as mãos se tocaram, não foi por acaso. E quando se despediram, houve um beijo — breve, inseguro, mas cheio de tudo o que não sabiam dizer.

Ela partiu no início de outubro.

Os dias passaram. O inverno chegou. A Covilhã ficou coberta de nevoeiro e frio. Xavi continuou a ir ao centro onde a esplanada do café MONTALTO era recolhida, e ao jardim com as arvores despidas de folhas. Mas já não procurava algo maior longe dali.

Porque tinha aprendido uma coisa: algumas pessoas não ficam para sempre no mesmo lugar, mas ficam para sempre dentro de nós.

E o sonho de menino transformou-se noutra coisa.

Não era viver uma grande história.

Era ter coragem de senti-la quando ela acontece.

(continua)…

Bom dia para todos nós🍀



FORÇA COVILHÃ!!!

🍀Hoje, todos os caminhos vão dar ao estádio José Santos Pinto.

Vamos equipa, Força Covilhã!!!

Bom domingo para todos nós💚



Muito obrigado pela vossa visita

Voltem sempre...