A VELHINHA EN 18… QUANDO A VIAGEM ERA TÃO IMPORTANTE COMO O DESTINO

Houve um tempo em que sair da Covilhã não era apenas pegar no carro e chegar depressa. Era partir para uma aventura.

A velha EN 18 não era uma simples estrada. Era uma coleção de memórias, de paisagens, de cheiros, de conversas e de paragens que ficaram gravadas na vida de quem por ela passou.

A viagem começava na Covilhã, com a Serra da Estrela a despedir-se pelo espelho retrovisor, as curvas em direção ao Fundão, o imponente perfil de Alpedrinha, sempre ali, encostada à serra, como uma varanda sobre a Cova da Beira.

E quem não se lembra da obrigatória paragem no alto de Alpedrinha?
Não havia GPS nem aplicações a dizer onde comer. Havia experiência. Havia tradição. Havia aqueles restaurantes onde já se sabia que a comida era caseira, onde a sopa fumegava, o vinho era servido em jarro e o café era bebido sem pressa, porque ainda faltavam muitos quilómetros para o destino.

Muitas famílias nem sequer entravam em restaurantes.
Levavam a geleira, a toalha aos quadrados, o frango assado, as pataniscas, os ovos cozidos, a salada de tomate e o garrafão de água fresca. Bastava encontrar uma sombra à beira da estrada e ali nascia o melhor restaurante do mundo.
O almoço sabia melhor porque tinha paisagem.
E que paisagens!

Campos dourados, olivais intermináveis, sobreiros, pequenas aldeias, rebanhos a atravessar a estrada, cegonhas nos postes, tratores que obrigavam a reduzir a velocidade... e ninguém se importava.
A viagem fazia parte das férias.
Claro que havia também momentos... menos perfumados.

Quem passou pela Vila Velha de Ródão dificilmente esquece aquele cheiro intenso e nauseabundo que durante muitos anos invadia a estrada, vindo das fábricas de pasta de papel. Era quase um marco da viagem.
Bastava alguém dizer:
— "Já estamos em Ródão..."
Nem era preciso olhar para as placas.
O nariz tratava do assunto.

Depois vinham as Portas de Ródão, o Tejo, as fragas gigantescas, uma das paisagens naturais mais bonitas do país, e a estrada continuava a contar histórias.
Mais à frente esperavam localidades como Nisa, Portalegre, Estremoz, Évora ou tantas outras, dependendo do rumo escolhido. Cada quilómetro tinha identidade própria.

Hoje fazemos o mesmo percurso pela A23.
É rápida.
É confortável.
É segura.
E isso tem um valor enorme.
Ganhamos tempo. Muito tempo.
Mas perdemos qualquer coisa pelo caminho.
Perdemos a surpresa de descobrir uma terra sem estar planeado.
Perdemos os cafés de beira de estrada onde toda a gente se conhecia.
Perdemos as pequenas lojas, os restaurantes familiares, os miradouros improvisados.
Perdemos aquela sensação de que viajar era viver.

Hoje quase tudo acontece entre separadores centrais, túneis, viadutos e áreas de serviço, onde o café sabe ao mesmo em qualquer lugar.
Chega-se mais cedo.
Mas leva-se menos viagem na memória.

A velha EN 18 ensinava-nos que o destino era importante... mas que o caminho podia ser ainda melhor.
Talvez seja por isso que quem a percorreu nunca a esquece.
Porque algumas estradas não ligavam apenas cidades.
Ligavam pessoas.
Ligavam famílias.
Ligavam momentos felizes.

E essas... não aparecem em nenhum mapa.

Feliz domingo para todos nós 🍀



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