QUANDO UM DIA DE SOL BASTAVA PARA SER FELIZ

Houve um tempo em que bastava abrir a janela e ver o sol para saber que o dia ia ser bom.

Não existiam avisos amarelos, laranjas ou vermelhos. Não havia aplicações meteorológicas a dizer-nos se podíamos ou não sair de casa. Existiam apenas dias bons e dias maus. E, quando o sol aparecia, ninguém precisava de mais explicações.

Saíamos para a rua sem relógios nem telemóveis. O Jardim Público era um dos nossos reinos e qualquer pedaço de terreno servia para uma partida de futebol. Fosse no Campo das Festas, no Largo do Calvário ou noutro qualquer canto da cidade, lá estávamos nós, felizes, a correr atrás de uma bola, sem medo de rasgar as calças ou esfolar os joelhos.

Quando chegava o calor, pegávamos numa toalha, metíamo-la debaixo do braço e seguíamos a pé para a piscina dos Penedos Altos. Parecia uma aventura. Muitas vezes levávamos apenas duas sandes feitas em casa, mas sentíamo-nos donos do mundo. Passávamos ali o dia inteiro, entre mergulhos, gargalhadas e amizades que pareciam eternas.

Nas férias de Verão, em grupo, fazíamos o caminho para as Penhas da Saúde pelos atalhos que os mais velhos nos tinham ensinado. Hoje talvez pareça impensável, mas naquela altura a liberdade era o nosso maior património. Caminhávamos quilómetros sem nos queixarmos, porque o destino era sempre uma recompensa.

E depois veio a adolescência.

As tardes passadas na esplanada do Café MONTALTO tinham um encanto especial. Entre conversas, sonhos e uma imperial fresca, observávamos os gestos quase coreografados do polícia sinaleiro a orientar o trânsito à volta da placa. Parecia fazer parte da paisagem da cidade, como se sempre lá tivesse estado.

O Teatro Cine exibia os seus cartazes semanais, despertando curiosidades e conversas, enquanto a Tabacaria Hermínios era paragem obrigatória para quem queria comprar o jornal e saber das novidades.

Hoje temos mais tecnologia, mais informação e mais conforto. Sabemos a temperatura ao minuto, recebemos alertas para tudo e temos o mundo inteiro dentro de um telemóvel.

Mas, às vezes, dou por mim a pensar que éramos mais ricos quando tínhamos menos.

Porque houve um tempo em que um simples dia de sol bastava para nos fazer felizes.

E talvez essa tenha sido a maior riqueza de todas.

Bom dia para todos nós 🍀



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