Pelas ruas, a cidade começava a ganhar o movimento habitual. Pessoas apressadas a caminho do trabalho, cafés a abrir portas e o ruído dos carros misturavam-se com os primeiros raios de sol.
Sofia olhou para o relógio antes de sair de casa.
Tinha 25 anos e trabalhava como enfermeira num hospital de Lyon. Gostava da profissão, apesar das exigências e das noites mal dormidas. Cuidar dos outros fazia parte da sua vida e, de certa forma, era aquilo que a fazia sentir-se útil.
Naquela manhã, porém, havia outra coisa a ocupar-lhe os pensamentos.
As férias.
— Finalmente! — disse Sofia, sorrindo enquanto fechava a mala. — Este ano preciso mesmo de descansar.
Na sala, António e Beatriz preparavam o pequeno-almoço.
— Já tens tudo pronto? — perguntou Beatriz.
— Acho que sim. Só falta meter algumas coisas no carro.
António levantou os olhos do café e sorriu.
— Covilhã outra vez...
Sofia riu.
— E que mal tem? É a minha terra. Tenho saudades.
Beatriz ficou alguns segundos em silêncio.
— Também eu...
Sofia não reparou na expressão da mãe.
Para ela, aquela viagem era apenas o regresso temporário a uma cidade que guardava algumas das melhores recordações da sua infância.
António e Beatriz tinham sido sempre o seu porto seguro. Tinham estado presentes nos momentos bons e nos momentos difíceis. Sofia nunca tivera razões para duvidar do amor daqueles dois.
E talvez por isso não compreendesse o estranho silêncio que, por vezes, surgia quando falavam dos primeiros anos da sua vida.
— Mãe?
— Sim?
— Estás bem?
Beatriz sorriu rapidamente.
— Estou, filha. Só estou a pensar que o tempo passa depressa demais.
Sofia aproximou-se e abraçou-a.
— Quando voltar, continuas a ter aqui a tua filha para te chatear.
Beatriz apertou-a contra si.
— Sempre.
Foi uma palavra simples.
Mas António, que observava as duas, baixou os olhos.
Havia coisas que não se diziam.
Havia perguntas que nunca tinham sido feitas.
E havia uma história enterrada há vinte e cinco anos que António e Beatriz tinham jurado nunca revelar.
Horas depois, Sofia entrou no carro.
Antes de partir, olhou uma última vez para a casa onde crescera.
Sentia-se feliz.
Não sabia que aquela viagem a Portugal iria mudar para sempre a sua vida.
A estrada parecia interminável, mas Sofia estava animada.
Pelo caminho, enviou uma mensagem a uma amiga na Covilhã:
“Amanhã estou aí. Temos de pôr a conversa em dia!”
Guardou o telemóvel e sorriu.
Não fazia ideia de que, dentro de poucos dias, uma conversa muito diferente iria acontecer.
Uma conversa que começaria por acaso.
Uma conversa que lhe faria uma pergunta para a qual nunca estivera preparada.
Quem era, afinal, Sofia?
Fim do Episódio 1.
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