CAMINHOS CRUZADOS Episódio 11 — A pessoa que faltava

Sofia passou a noite a pensar na mensagem de António.
“Há uma pessoa que precisas de conhecer.”
Quem seria?
E por que razão o pai não lhe dizia simplesmente o nome?
Na manhã seguinte, voltou a casa de Maria da Luz.
Encontrou-a sentada junto à janela, com uma chávena de café nas mãos.
— Já estava à sua espera — disse Maria da Luz.
— O meu pai disse-me que a senhora sabe onde posso encontrar uma pessoa.
Maria da Luz levantou os olhos.
— Sei.
— Quem é?
A mulher ficou alguns segundos em silêncio.
— Chama-se Rita.
Sofia sentiu o coração parar.
— Rita?
— Sim.
— Mas o Francisco disse-me que a mãe dele morreu.
Maria da Luz baixou a voz.
— E morreu mesmo.
Sofia ficou confusa.
— Então como posso conhecê-la?
Maria da Luz levantou-se e abriu uma gaveta.
Retirou de lá um pequeno papel.
— Porque existe outra Rita.
Sofia franziu o sobrolho.
— Outra Rita?
— Uma mulher que conheceu a sua mãe... ou melhor, que conheceu a mulher que aparece naquela fotografia.
Sofia sentiu um arrepio.
— E onde está ela?
Maria da Luz entregou-lhe o papel.
Era uma morada.
— Vive fora da Covilhã. Mas ainda mantém contacto com algumas pessoas daqui.
Sofia guardou o papel.
— Sabe o que ela pode contar-me?
— Talvez muito.
— Ou talvez nada.
Maria da Luz olhou-a fixamente.
— Há pessoas que passam uma vida inteira a fugir do passado.
Sofia respondeu:
— Eu passei a minha vida inteira sem sequer saber que ele existia.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco.
Contou-lhe o que Maria da Luz tinha descoberto.
Ele ficou pensativo.
— Outra Rita...
— Sim.
— Talvez devêssemos ter cuidado.
— Porquê?
Francisco hesitou.
— Porque a minha mãe tinha muito medo de algumas pessoas.
Sofia aproximou-se.
— Que pessoas?
Francisco abanou a cabeça.
— Nunca consegui saber.
— E o teu pai?
Francisco desviou o olhar.
— Sobre o meu pai... há uma coisa que nunca te contei.
Sofia ficou atenta.
— O quê?
— Encontrei uma carta dele há alguns anos.
— E sabes quem ele é?
Francisco tirou o telemóvel do bolso.
— Não. Mas a carta tinha uma fotografia.
Mostrou-lha.
Sofia ficou imóvel.
O homem da fotografia era desconhecido para ela.
Mas no verso estava escrita uma data.
2001.
Sofia olhou para Francisco.
— Porque é que toda a gente parece ter fotografias de 2001?
Francisco não respondeu.
Nessa noite, em Lyon, António fechava uma mala.
Beatriz entrou no quarto.
— Está tudo pronto?
— Quase.
— António...
Ele parou.
— E se ela perguntar por mim?
— Desta vez não vamos mentir.
Beatriz respirou fundo.
— Prometes?
António aproximou-se dela.
— Prometo.
Beatriz abriu uma gaveta e retirou um pequeno envelope.
— Então leva isto.
António olhou para o envelope.
— Ainda o tens?
— Guardei-o durante vinte e cinco anos.
António ficou em silêncio.
— Está na altura de ela saber — disse Beatriz.
Na Covilhã, Sofia recebeu uma chamada.
Era Maria da Luz.
— Sofia?
— Sim?
— Acabei de me lembrar de uma coisa.
— O quê?
— Quando vi a fotografia pela primeira vez, não reparei num pormenor.
— Que pormenor?
A voz de Maria da Luz baixou.
— A mulher que segurava o bebé tinha uma aliança.
Sofia ficou pensativa.
— E então?
— Rita não era casada.
Silêncio.
Sofia sentiu um arrepio.
— Tem a certeza?
— Absoluta.
Sofia desligou lentamente.
Olhou para a fotografia.
Depois para o documento.
E finalmente para o nome que estava escrito no papel.
Rita.
Talvez aquela mulher não fosse a mãe.
Talvez fosse apenas alguém que sabia onde estava a verdadeira mãe de Sofia.
E, pela primeira vez, surgiu-lhe uma pergunta ainda mais assustadora:
Quem era o homem que tinha colocado aquela aliança no dedo de Rita?

Fim do Episódio 11.



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