🍂 19 DE MARÇO DE 1979 E O FIM DO CHEIRO A LANIFÍCIOS

Dia do Pai — infelizmente, tinha perdido o meu cinco anos antes. Era uma segunda-feira e estávamos a dois dias da Primavera. O dia nasceu soalheiro, mas com uma brisa fresca a descer da serra da Estrela. Quem conheceu a Covilhã nessa época sabe bem o frio que aquela brisa trazia, misturado com o cheiro típico dos lanifícios que flutuava no ar.

Nesse ano, várias fábricas históricas da Covilhã já tinham falido ou passado por reestruturações difíceis, gerando desemprego e instabilidade financeira na autarquia. Foi precisamente nessa altura que se começou a desenhar o Plano de Pormenor das Palmeiras e se tentou atrair novas indústrias para o Parque Industrial, procurando diversificar a economia local.

O ano de 1979 foi também um marco crucial para o futuro da cidade: o Instituto Politécnico da Covilhã (criado em 1973) mudou formalmente de estatuto e de nome para Instituto Universitário da Beira Interior. Foi o embrião daquela que viria a ser, em 1986, a Universidade da Beira Interior (UBI). Curiosamente, as instalações do instituto começaram a ocupar os edifícios desativados de antigas fábricas — como a prestigiada Real Fábrica de Panos, fundada pelo Marquês de Pombal. A chegada de jovens estudantes e docentes de todo o país começava a mudar a face e a mentalidade de uma terra tradicionalmente operária.

Nesse dia 19, saí de casa apressado com uma nota de vinte escudos no bolso. Para os mais novos terem uma ideia: com essa nota pagava-se o jornal e ainda sobrava dinheiro para dois cafés! Metade desse dinheiro era para comprar um novo jornal que ia pela primeira vez para as bancas: o Correio da Manhã. Ia com um pouco de receio daquilo que pudessem pensar daquela compra. O CM era considerado, por muitos, um jornal de direita reacionária e eu, um adolescente a caminho dos dezassete anos e frequentador da sede da UDP (que ficava por cima do Foto Estrela), sentia que aquilo era um risco para a minha reputação. Eram tempos de paixões políticas ao rubro, onde até o jornal que líamos definia quem éramos.

Fui direitinho ao quiosque do Leal, firme como um homem já feito. Comprei o jornal, com medo que esgotasse, e segui na mesma toada de homenzinho para ir beber um café ao Montalto. Na capa do jornal, destacava-se o título "Quem matou Salomão?", referente à novela O Astro, que parava o país na RTP1 e deixava as ruas desertas à noite, além da manchete principal: "Eanes arrefece a crise".
Dobrei o jornal em cima da mesa para não dar a entender aos amigos que o tinha comprado, guardando a leitura para mais tarde, no recato de casa. Confesso que, na altura, não gostei muito da apresentação gráfica, mas a verdade é que depressa se tornou no jornal mais vendido do país. Hoje é lido tanto pela esquerda como pela direita e, como todos sabem, expandiu-se para um canal televisivo e uma estação de rádio com a chancela CM.

Os anos passaram. A Covilhã é hoje uma linda cidade universitária, o CM continua a liderar as vendas, a UDP já não existe e Portugal deixou de estar a preto e branco para passar a ser a cores. Temos mais tecnologia, é certo, mas continuamos doentes no que respeita à saúde e às relações interpessoais. Trocámos as tertúlias nos cafés pelos ecrãs dos telemóveis.

O mundo pula e avança, e resta-nos acompanhá-lo para não perdermos o comboio do tempo.


Bom dia para todos nós!🍀



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