Talvez fosse a luz diferente dos finais de tarde, talvez as folhas que começavam a cair no Jardim Público, ou simplesmente aquela brisa fresca que descia da Serra da Estrela e nos fazia apertar o casaco antes de chegar a casa.
Era a Covilhã dos anos 80.
Uma cidade onde ainda havia tempo para quase tudo.
Ao fim da tarde, quando o sol começava a esconder-se atrás da Serra, o Jardim Público ganhava outra vida. Os bancos enchiam-se de conversas, os miúdos ainda brincavam por ali e nós, os mais novos, inventávamos motivos para andar de um lado para o outro.
Às vezes, o verdadeiro motivo era apenas encontrar alguém.
Um olhar.
Um sorriso.
Um namoro que começava quase sempre sem grandes palavras.
E quando a noite chegava, Nossa Senhora da Conceição era um dos lugares onde os corações mais jovens pareciam bater um pouco mais depressa.
Naqueles tempos, namorar era diferente.
Bastava caminhar lado a lado, trocar meia dúzia de palavras e, quando a coragem aparecia, talvez segurar uma mão.
E já era felicidade suficiente.
Depois havia as casas.
Casas simples, mas cheias de vida, onde o cheiro dos bolos caseiros anunciava que alguém tinha passado a tarde na cozinha.
A avó Maria fazia daqueles bolos que hoje parecem impossíveis de repetir.
Não precisavam de receitas sofisticadas, nem de ingredientes especiais.
Levavam farinha, ovos, açúcar, carinho e aquele segredo que todas as avós pareciam conhecer: fazer tudo com amor.
O bolo saía do forno ainda quente, e era quase impossível esperar que arrefecesse.
Lá fora, a noite ia tomando conta da cidade.
E que noites!
O céu da Covilhã parecia maior.
As estrelas brilhavam sobre as casas e, quando o frio apertava, ficávamos à porta ou à janela a olhar para cima, como se o céu fosse uma enorme televisão onde nunca acabava o programa.
Mais tarde, havia sempre tempo para um café.
A Leitaria Triunfo era um desses lugares onde se encontravam histórias, amigos, conhecidos e namorados.
Um café demorava mais tempo a beber naquela época.
Não porque fosse melhor...
Mas porque havia sempre alguém com quem conversar.
Falava-se da cidade, do futebol, do trabalho, dos amigos, dos namoros e, naturalmente, da vida dos outros — porque isso também fazia parte da vida.
Depois, cada um seguia o seu caminho.
As ruas ficavam mais silenciosas.
A brisa da Serra continuava a descer sobre a Covilhã e nós regressávamos a casa com as mãos nos bolsos, talvez com algum pensamento escondido no coração.
Hoje, tantos anos depois, percebemos que aqueles momentos aparentemente tão simples eram, afinal, os grandes momentos da nossa vida.
Não tínhamos grandes coisas.
Mas tínhamos tempo.
Tínhamos amigos.
Tínhamos família.
Tínhamos a avó Maria e os seus bolos acabados de sair do forno.
Tínhamos o Jardim Público, os cafés, os namoros junto de Nossa Senhora da Conceição, as noites estreladas e aquela Serra da Estrela sempre ali, silenciosa, a guardar a cidade.
E talvez seja por isso que, quando chega o Outono e sinto aquela primeira brisa fresca da Serra, por momentos volto a ser jovem.
Volto a ouvir os passos nas ruas.
Volto a sentir o cheiro dos bolos da avó Maria.
Volto a entrar na Leitaria Triunfo.
Volto ao Jardim Público.
E, por qualquer razão que nem eu sei explicar, olho para o céu à procura daquela estrela.
Talvez porque algumas cidades nunca ficam apenas na memória.
Ficam para sempre dentro de nós.
E a Covilhã é uma dessas cidades.
Bom dia para todos nós 🍀

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