Quem viveu a Covilhã dos anos 70 e 80 dificilmente se esquece dos sábados de manhã. Eram dias de verdadeira azáfama nas artérias centrais da cidade. A nossa Praça, como carinhosamente chamávamos ao Mercado Municipal, na Rua António Augusto de Aguiar, era o destino de muita gente que vinha da cidade, das aldeias e até de lugares bem distantes.
Logo pela madrugada, a Covilhã começava a despertar de uma maneira muito própria.
Eram cinco e meia da manhã e já as carrinhas, os tratores e todo o género de viaturas se encontravam estacionados junto aos passeios. Outros chegavam a pé, carregando sacas durante quilómetros, vindos das aldeias do concelho, trazendo consigo os produtos da terra e a esperança de fazer um bom negócio.
Àquela hora, as tabernas e os cafés das redondezas já tinham as portas abertas. Era preciso servir os vendedores, as quinteiras, as regateiras, os clientes e todos aqueles que, por uma razão ou por outra, faziam da Praça o centro das suas vidas.
O movimento crescia a cada minuto. As vozes cruzavam-se, as conversas multiplicavam-se e os pregões dos vendedores misturavam-se com o ruído dos passos e o vaivém das pessoas. Havia quem regateasse o preço de um molho de couves como se estivesse a negociar um grande negócio, quem procurasse a fruta mais bonita e quem aproveitasse o encontro para pôr a conversa em dia.
Porque a Praça não era apenas um mercado. Era também um lugar de encontros, de notícias e de convivência. Ali se sabia de tudo um pouco, muito antes de existirem as redes sociais!
O edifício tinha três pisos e cada um guardava as suas particularidades.
Lá em cima, no terraço, ficavam as famosas «tendas», onde se vendia roupa e toda a espécie de acessórios para a casa. Era uma espécie de feira dentro do próprio mercado, onde se podia encontrar quase sempre qualquer coisa útil, mesmo quando não se ia à procura de nada em especial.
Nos outros dois pisos, a variedade era enorme. Peixe fresco, carne, legumes, hortaliças e fruta enchiam as bancas de cor e abundância. Os cheiros misturavam-se, os vendedores anunciavam os seus produtos e os clientes percorriam os corredores, escolhendo o melhor que a terra e o mar tinham para oferecer.
E depois havia aquele pormenor que muitos ainda recordarão com um sorriso!
No centro do primeiro piso existia uma abertura redonda, à volta da qual alguns homens se debruçavam, aparentemente muito interessados no movimento do mercado… sobretudo no que se passava no piso inferior.
Estariam a fiscalizar a qualidade dos produtos? A observar o movimento comercial? Ou teriam outros interesses mais particulares?
Não vamos levantar suspeitas, mas que alguns pareciam bastante entretidos, lá isso pareciam! 😆
No piso inferior, num canto voltado para a Rua de Olivença, havia ainda uma zona reservada à venda de galinhas, ovos e outras espécies. Era mais um retrato de um tempo em que muitos produtos chegavam diretamente das mãos de quem os criava ou produzia.
Por todo o mercado circulavam os fiscais, bem uniformizados, de farda e boné a condizer. Percorriam os corredores, atentos ao que se passava, procurando manter a ordem no meio daquela enorme azáfama.
E gente era coisa que não faltava!
Por vezes, o movimento era tanto que os mais novos tinham de dar a mão aos pais ou aos avós, não fosse a multidão separá-los da família. Bastava distrairmo-nos por instantes para perdermos de vista quem nos acompanhava.
Lá fora, os autocarros chegavam carregados de passageiros. O terminal, situado junto às antigas instalações da PSP, era um ponto de passagem de muita gente que vinha fazer as suas compras. Entre os que chegavam, eram particularmente numerosos os provenientes da Aldeia do Carvalho.
Desciam com os seus sacos, cumprimentavam conhecidos e depressa se misturavam na multidão. Para muitos, aquela ida à Covilhã não era apenas uma necessidade: era também uma oportunidade para encontrar amigos, trocar novidades e sentir o pulsar da cidade.
E, à porta da Praça, havia sempre quem tivesse qualquer coisa para vender.
Pensos, pentes, caravelas, pinhões e até o famoso Borda d'Água, o almanaque que tantas famílias consultavam para saber os tempos das sementeiras, as fases da Lua e outras indicações úteis para a vida no campo.
Era uma montra de pequenos negócios, de gente trabalhadora e de uma economia feita de coisas simples, onde cada venda contava e cada moeda tinha o seu valor.
Eram outros tempos, meus amigos!
Não havia telemóveis, compras pela Internet nem mensagens a chegar a toda a hora. As notícias passavam de boca em boca, os encontros aconteciam naturalmente e, muitas vezes, uma ida à Praça demorava muito mais do que o previsto. Não por falta de tempo, mas porque havia sempre alguém para cumprimentar, uma conversa para continuar ou uma novidade para ouvir.
Hoje, quando passamos por aqueles lugares, talvez já não encontremos o mesmo bulício, as mesmas vozes ou aquela multidão que enchia as ruas aos sábados de manhã.
Mas quem viveu esses anos continua a ouvir tudo isso dentro de si.
Ainda conseguimos imaginar os pregões, os passos apressados, os autocarros a chegar, as sacas carregadas e os rostos de quem fazia da Praça uma parte importante da sua vida.
Porque há lugares que não desaparecem quando mudam. Ficam guardados na memória de quem os viveu.
E a nossa Praça era assim: um mercado de gente humilde e trabalhadora, de encontros inesperados, de histórias que começavam junto a uma banca e continuavam à porta de um café.
Talvez hoje já não se compre lá como antigamente. Talvez muita coisa tenha mudado. Mas, para quem guarda a Covilhã daqueles anos no coração, basta fechar os olhos para voltar a ser sábado de manhã.
E lá vamos nós, de mão dada com os nossos pais ou avós, no meio daquela multidão, sem imaginar que um dia sentiríamos tanta saudade de coisas tão simples.
Afinal, não era apenas a Praça que nos fazia falta. Era a Covilhã da nossa juventude. Era a nossa gente. Era uma parte de nós que ficou para sempre naqueles anos.
Bom dia para todos nós!🍀

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