Éramos muitos rapazes da freguesia. Outros moravam um pouco mais longe, mas não deixavam de aparecer para marcar o ponto. Naquele tempo, não precisávamos de telemóveis, grupos de WhatsApp ou mensagens a perguntar: «Então, apareces hoje?» Bastava saber que a malta ia para o jardim. E quem faltasse já sabia que, no dia seguinte, tinha de dar explicações!
Ali conversávamos, brincávamos, discutíamos, ríamos e jogávamos. Jogávamos de tudo um pouco, porque a imaginação não nos faltava e, quando não havia brinquedos, inventavam-se brincadeiras. Afinal, éramos miúdos com pouco dinheiro nos bolsos, mas com uma riqueza enorme na cabeça!
Uma das nossas grandes invenções eram os famosos «castelos». Formavam-se duas equipas: uns ficavam encarregados de defender o castelo, enquanto os outros tinham a difícil missão de o conquistar. Ganhava quem conseguisse atravessar a muralha sem ser tocado pelos defensores. Aquilo era uma espécie de guerra medieval, mas sem cavalos, sem armaduras e, felizmente, sem ninguém a cobrar bilhete para assistir! 😀
Também jogávamos à bola, mas ai daquele que mandasse a bola para cima da relva e o guarda desse conta! Estávamos feitos ao bife! A relva era para se ver, não para se pisar, e o senhor guarda não estava ali para brincar. Naquele tempo, um olhar mais sério chegava para nos pôr direitos. Hoje, alguns pais ainda tentam conseguir o mesmo com três avisos e um castigo!
E, quando o jardim já não chegava para as nossas aventuras, lá íamos nós jogar para o adro da igreja. Só havia um pequeno pormenor: tínhamos de andar de olho vivo e fugir do senhor padre, porque a nossa liberdade desportiva nem sempre coincidia com os seus momentos de sossego! Éramos uns artistas, mas também sabíamos quando era hora de desaparecer. 😀
Chegámos mesmo a organizar os «Jogos Olímpicos de São Francisco», uma aventura que já tive oportunidade de contar aqui numa das minhas crónicas. Não tínhamos estádios, medalhas de ouro nem cerimónias de abertura transmitidas pela televisão, mas tínhamos vontade, alegria e uma imaginação que não conhecia limites. E, se houvesse uma medalha para a traquinice, a nossa freguesia trazia certamente algumas para casa!
Mas falar do Jardim Público é, como já disse, falar da minha segunda casa. Era um jardim de uma beleza que poucas cidades se podiam orgulhar de ter.
Recordo os seus canteiros floridos, tão bem tratados, e destaco aquele que funcionava como um verdadeiro calendário. Era uma das atrações mais apreciadas pelos turistas que nos visitavam, sobretudo no inverno. A data estava ali assinalada entre flores, como se o próprio jardim gostasse de nos lembrar que o tempo passava, mesmo quando nós, ainda miúdos, nem dávamos por isso.
A relva apresentava-se sempre impecável, graças ao trabalho dedicado dos jardineiros, chefiados pelo senhor Napoleão. Durante o dia, havia sempre um guarda a vigiar, para que tudo se mantivesse em ordem. Naquele jardim, até uma folha fora do sítio parecia ter de apresentar justificação!
As entradas eram adornadas por uns arcos muito bem cuidados, e o lago, com os seus repuxos e peixinhos dourados, fazia as delícias dos mais pequenos. Ficávamos a olhar para aqueles peixinhos, fascinados, como se estivéssemos diante de um tesouro. E, se calhar, estávamos mesmo: só que, naquela idade, ainda não sabíamos que as coisas mais preciosas da vida não se compram nem se vendem.
Já não sou do tempo do coreto, mas vi fotografias que mostram como também ele dava encanto ao jardim. Imagino as pessoas reunidas à sua volta, as conversas, os passeios domingueiros e aquela vida tranquila de outros tempos, em que sair de casa para dar uma volta podia ser o melhor programa do dia.
E os bancos do passadiço junto à Pensão Avenida? Ah, esses merecem um capítulo à parte!
Eram o refúgio dos casais de namorados, que ali encontravam um cantinho para trocar olhares, palavras doces e algumas carícias. Claro que havia sempre o pequeno inconveniente chamado senhor guarda! Quando os namorados começavam a entusiasmar-se mais do que o regulamento permitia, lá aparecia ele para lhes dar um sermão e, se fosse preciso, missa cantada! 😀
Naquele tempo, namorar também era uma aventura. Não havia mensagens a toda a hora, corações virtuais ou chamadas de vídeo. Havia olhares discretos, mãos que se procuravam e aquele nervoso miudinho quando alguém passava por perto. E, às vezes, um simples encontro no jardim ficava guardado no coração para o resto da vida.
Existia também uma balança, onde muitos aproveitavam para verificar o peso, e bebedouros de água, que davam jeito a quem passeava ou se entretinha por ali. Eram pequenos pormenores que faziam parte do quotidiano e que hoje, quando os recordamos, ganham um significado especial.
E que dizer daquele parque infantil, que mais parecia um verdadeiro parque de diversões? Para nós, era um mundo inteiro! Cada brinquedo era uma aventura, cada corrida uma competição e cada gargalhada uma vitória. Não precisávamos de consolas, tablets ou brinquedos sofisticados. Bastava um espaço para brincar e amigos com quem partilhar a alegria.
Éramos felizes e, muitas vezes, nem sequer sabíamos que o éramos.
Hoje, quando olho para trás, sinto uma saudade imensa daquele jardim que fez parte da minha infância e adolescência. O Jardim Público continua a fazer parte da Covilhã, mas já não é o mesmo jardim que guardo na memória. O tempo passou, as coisas mudaram e aquele cenário que conhecíamos tão bem foi perdendo um pouco da alma que lhe dávamos.
Porque um jardim não é feito apenas de árvores, flores (que hoje não tem), bancos, caminhos ou lagos. É feito das pessoas que por lá passaram, das amizades que nasceram, dos primeiros amores, das brincadeiras que pareciam não ter fim e das vozes que um dia encheram aquele espaço de vida.
Quantos de nós não terão hoje cabelos brancos, filhos, netos e uma vida inteira de histórias para contar? Quantos daqueles rapazes de «São Xico» não estarão espalhados pelo mundo, alguns longe da Covilhã, outros talvez já ausentes para sempre? E quantos não dariam tudo para poder regressar, nem que fosse por uma hora, àquele tempo em que a maior preocupação era saber quem chegava primeiro ao jardim e quem tinha mandado a bola para cima da relva?
Se pudéssemos voltar atrás, talvez não mudássemos nada. Talvez quiséssemos apenas mais cinco minutos de brincadeira, mais uma conversa com aquele amigo, mais uma corrida pelo jardim, mais uma gargalhada que nos fizesse doer a barriga. E, quem sabe, mais uma chamada de atenção do senhor guarda, só para termos a certeza de que estávamos mesmo de volta!
Mas a vida não nos permite regressar ao passado. Permite-nos, isso sim, visitá-lo através das recordações, das fotografias e destas pequenas histórias que vamos partilhando, para que os mais novos conheçam o jardim que os mais velhos guardam no coração.
O nosso Jardim Público já não é o mesmo, mas continuará a ser sempre nosso. Porque há lugares que o tempo transforma, mas não consegue apagar da alma.
E, se um dia voltasse a sentar-me num daqueles bancos, fechasse os olhos e escutasse o silêncio, talvez ainda conseguisse ouvir, ao longe, as gargalhadas da malta de «São Xico», o barulho da bola, os gritos dos jogos dos castelos e alguém a chamar por mim para mais uma brincadeira.
Talvez, por breves instantes, voltasse a ter quinze ou dezasseis anos. Talvez voltasse a correr, sem dores nas pernas, sem preocupações na cabeça e sem saber que aqueles dias simples seriam, um dia, as maiores riquezas da minha vida.
E depois abriria os olhos.
O jardim estaria ali, mas nós já não seríamos aqueles rapazes. Muitos caminhos teriam mudado, muitos bancos guardariam outras histórias e algumas das pessoas que fizeram parte daquele mundo já só viveriam nas nossas lembranças.
E seria nesse instante que perceberia que não era apenas do jardim que tinha saudades. Era de mim, de nós, da nossa juventude e daquele tempo em que a vida parecia não ter pressa de passar.
O Jardim Público foi a nossa segunda casa. E há casas que nunca deixamos de visitar, mesmo quando já só conseguimos entrar nelas através da memória.
Um dia, quando também nós formos apenas uma recordação na vida de alguém, talvez outro rapaz passe por aquele jardim, sem imaginar quantas histórias ali ficaram guardadas. E talvez uma fotografia antiga, uma conversa ou uma crónica lhe mostre que, muito antes dele, houve uma geração de miúdos que fez daquele lugar o seu pequeno paraíso.
Porque as flores murcham, os bancos envelhecem, os jardins mudam e os anos não perdoam. Mas as recordações verdadeiras resistem a tudo isso.
E se hoje me perguntassem onde fui verdadeiramente feliz, talvez respondesse sem hesitar: no Jardim Público da Covilhã, junto à malta de São Xico, quando éramos jovens, tínhamos o mundo inteiro pela frente e ainda não sabíamos que estávamos a viver os dias de que um dia sentiríamos tantas saudades.
Um grande abraço a todos os que partilharam este jardim, esta cidade e este tempo connosco. Onde quer que estejam, espero que ainda guardem um bocadinho daquele jardim dentro do coração.
E, se ao lerem estas palavras sentirem os olhos molhados, não tenham vergonha. Às vezes, não são as lágrimas que nos fazem chorar… é a felicidade de termos vivido algo tão bonito que já não podemos abraçar outra vez.
Bom dia para todos nós 🍀

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