CAMINHOS CRUZADOS Episódio 13 — A carta de Rita

Sofia permanecia em silêncio.
A carta tremia-lhe nas mãos.
Agora sabia.
Rita era a mulher que lhe tinha dado a vida.
E António sabia.
Durante vinte e cinco anos.
— Não consigo acreditar... — murmurou.
Francisco aproximou-se.
— Sofia, há mais coisas que precisas de saber.
Ela levantou os olhos.
— Mais?
Francisco assentiu.
— Encontrei outras cartas.
— Quantas?
— Quatro.
Sofia sentiu o coração apertar.
— E nunca as leste?
— Li a primeira. As outras estavam fechadas.
Francisco retirou-as de uma pequena pasta.
— A minha mãe escreveu-as todas no mesmo ano.
Sofia pegou na primeira.
O envelope estava dirigido a António.
Abriu-a.
“António, sei que vais cuidar dela como se fosse tua. É a única coisa que me dá alguma paz.”
Sofia começou a chorar.
Continuou a ler.
Rita explicava que não tinha condições para criar a filha e que tomara uma decisão que lhe partia o coração.
Mas havia uma frase que a fez parar:
“Um dia, quando ela for adulta, tens de lhe contar quem é o verdadeiro pai.”
Sofia levantou os olhos.
— O verdadeiro pai?
Francisco ficou tão surpreendido como ela.
— Então existe outro homem.
Sofia voltou à carta.
Mais abaixo, havia apenas uma inicial.
“P.”
— P...
Francisco pensou durante alguns segundos.
— Pode ser Paulo. Pedro. Ou qualquer outro nome.
Sofia abanou a cabeça.
— Não. A minha mãe conhecia o pai. Só não queria que António lhe dissesse quem ele era.
— Talvez exista uma razão.
Sofia fechou a carta.
— Vou descobrir.
Nessa tarde, Sofia ligou para Beatriz.
Desta vez foi Beatriz quem pediu:
— Não me perguntes mais nada pelo telefone.
— Então diz-me apenas uma coisa.
— O quê?
— O António é o meu pai?
Silêncio.
Sofia fechou os olhos.
A resposta não veio.
Mas o silêncio foi suficiente.
— Eu sabia...
Beatriz começou a chorar.
— Sofia, nós amámos-te como nossa filha desde o primeiro dia.
— Eu sei.
— Nunca quisemos fazer-te mal.
— Mas esconderam-me a minha própria história.
— Porque tínhamos medo de te perder.
Sofia sentiu as lágrimas correrem pelo rosto.
— Já me perderam, mãe.
Beatriz ficou sem palavras.
— Não porque deixei de vos amar — continuou Sofia. — Mas porque já não sei em quem posso confiar.
Desligou.
Mais tarde, Sofia encontrou Francisco junto ao Jardim do Lago.
Ele tinha consigo a última carta.
— Esta é diferente — disse.
— Porquê?
— Não é dirigida ao António.
Sofia pegou nela.
No envelope havia apenas duas palavras:
“Para Sofia.”
Ela ficou imóvel.
— A minha mãe escreveu isto para mim?
Francisco assentiu.
— Mas nunca chegou até ti.
Sofia abriu lentamente o envelope.
Leu a primeira linha.
E o mundo pareceu parar.
“Minha filha, se algum dia leres esta carta, significa que descobriste a verdade.”
Sofia levou a mão à boca.
Continuou a ler.
Mas antes de chegar ao fim, encontrou uma frase que a deixou completamente sem chão:
“O teu pai chama-se...”
A carta terminava ali.
A parte seguinte tinha sido arrancada.
Sofia olhou para Francisco, desesperada.
— Quem arrancou o resto?
Francisco ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— A minha mãe não foi.
Sofia sentiu um arrepio.
— Como sabes?
Francisco apontou para a carta.
— Porque esta carta foi encontrada na casa do teu pai.
Sofia ficou gelada.
António tinha guardado a carta durante vinte e cinco anos.
E alguém tinha arrancado precisamente a parte onde estava escrito o nome do seu verdadeiro pai.

Fim do Episódio 13



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