Tinham viajado durante horas, quase sem trocar uma palavra.
Beatriz olhava pela janela.
As ruas da cidade traziam-lhe memórias que julgava enterradas para sempre.
— Chegámos — disse António.
Beatriz respirou fundo.
— Depois de vinte e cinco anos...
Sofia estava à espera de Maria da Luz.
Quando viu o carro aproximar-se, sentiu o coração bater mais depressa.
António saiu primeiro.
Depois Beatriz.
Durante alguns segundos, ninguém falou.
Sofia olhou para eles.
Já não conseguia vê-los apenas como os pais que a tinham criado.
Eram também as pessoas que tinham escondido uma parte essencial da sua vida.
Beatriz aproximou-se.
— Sofia...
— Quero a verdade.
António baixou os olhos.
— Vais tê-la.
Sentaram-se os quatro.
António começou:
— Quando nasceste, a tua mãe chamava-se Rita. Era muito jovem e não tinha condições para te criar.
Sofia ouviu em silêncio.
— O teu pai era Paulo. Ele amava a Rita e queria ficar contigo. Mas houve uma discussão entre os dois. Rita decidiu entregar-te a nós.
— E o meu pai?
António respirou fundo.
— Rita disse-lhe que tinhas morrido pouco depois de nasceres.
Sofia ficou petrificada.
— Ela mentiu-lhe?
— Sim.
Beatriz começou a chorar.
— Nós sabíamos que eras filha deles. Mas prometemos a Rita que te criaríamos como nossa filha e que nunca te faltaria amor.
— E a carta?
António retirou do bolso um envelope.
— Guardei-a todos estes anos.
Entregou-a a Sofia.
— Porque não me deram isto antes?
António respondeu com lágrimas nos olhos:
— Porque tivemos medo. Medo de te perder.
Sofia abriu o envelope.
A carta estava completa.
E, finalmente, conseguiu ler o nome que tinha sido arrancado.
Paulo.
O seu pai.
— Onde está ele? — perguntou Sofia.
António apontou para Francisco.
— Foi ele quem conseguiu encontrá-lo.
Sofia olhou para Francisco, surpresa.
— Ele está em Coimbra — explicou.
— Está vivo?
— Sim.
Sofia levou as mãos ao rosto.
Durante vinte e cinco anos imaginara que nunca conheceria os seus pais biológicos.
Agora sabia que o pai estava vivo.
Mas havia ainda uma última coisa que precisava de saber.
— E a Rita?
Beatriz segurou-lhe a mão.
— A Rita morreu há alguns anos.
Sofia baixou os olhos.
Não podia conhecê-la.
Não podia abraçá-la.
Não podia perguntar-lhe por que razão a entregara.
Mas podia finalmente compreender.
Rita não a abandonara por falta de amor.
Tinha-a entregado porque acreditava que António e Beatriz lhe poderiam dar aquilo que ela não conseguia.
Dois dias depois, Sofia chegou a Coimbra.
À porta da Universidade, parou por alguns segundos.
A cidade estava cheia de estudantes, vozes e movimento.
Mas para Sofia tudo parecia silencioso.
Francisco apontou para um homem que se aproximava lentamente.
Era Paulo.
Parou diante dela.
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
— Sofia?
Ela não conseguiu responder.
Paulo aproximou-se.
— És igual à tua mãe quando sorrias.
Sofia chorou.
— Eu passei a vida a pensar que não tinha pai.
— E eu passei a vida a pensar que tinha perdido uma filha.
Abraçaram-se.
Um abraço de vinte e cinco anos.
Mais tarde, sentados junto ao Mondego, Sofia perguntou:
— Porque nunca procuraste por mim?
Paulo olhou para a água.
— Procurei. Durante anos.
— Então porque desististe?
— Porque me disseram que tinhas morrido.
Sofia segurou-lhe a mão.
— Eu estou aqui.
Paulo sorriu entre lágrimas.
— Agora sei.
De regresso à Covilhã, Sofia subiu até ao Bairro da Biquinha.
A cidade estendia-se diante dos seus olhos.
Pensou em tudo o que tinha acontecido desde o dia em que chegara de França.
Tinha perdido certezas.
Descobrira mentiras.
Encontrara a verdade.
E, pelo caminho, encontrara também pessoas que passaram a fazer parte da sua vida.
Cláudia aproximou-se.
— Então, acabou?
Sofia sorriu.
— Não.
— Não?
Sofia olhou para a Serra da Estrela.
— A procura acabou. Agora começa outra coisa.
— O quê?
Sofia respirou fundo.
— A minha vida.
Francisco aproximou-se e abraçou-a.
— E vais voltar para França?
Sofia olhou para ele.
— Ainda não sei.
Nesse instante, o telemóvel tocou.
Era Paulo.
Sofia sorriu.
Pela primeira vez, o nome “pai” deixou de ser apenas uma palavra.
Era alguém.
Era uma história.
Era parte dela.
Sofia guardou o telemóvel no bolso e olhou uma última vez para a cidade onde tudo tinha começado.
Durante vinte e cinco anos, Sofia viveu sem saber de onde vinha.
Foi preciso regressar à terra natal para descobrir que, por vezes, os caminhos mais difíceis são precisamente aqueles que nos conduzem até nós próprios.
E assim terminou a história de Sofia.
Não com um ponto final.
Mas com um novo caminho.
CAMINHOS CRUZADOS — FIM
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