A ESCOLA NOS TEMPOS DO ESTADO NOVO


Entrar numa sala de aulas dos tempos do Estado Novo era quase como entrar numa aventura do Harry Potter… só que, naquele tempo, a magia era outra e as regras eram muito mais apertadas.

As velhinhas carteiras de madeira, os mapas estrategicamente colocados no fundo das paredes, o velho quadro de ardósia, o crucifixo, as fotografias do Presidente do Conselho e a secretária da professora, com os seus apetrechos em cima — entre os quais a famosa régua — faziam parte daquele cenário que ficou gravado na memória de muitos de nós.

Os grandes mapas de Angola e Moçambique, assim como o de Portugal Continental e Insular, chamavam imediatamente a atenção pelo seu tamanho e pelos pormenores que continham.

Mas havia outro objeto que também chamava a atenção… embora pelos piores motivos: a palmatória.

Para quem não sabe, era uma peça circular de madeira, com um cabo e cinco furos, daí o seu nome popular. Era utilizada para dar as famosas “palmatoadas” nas mãos dos alunos que erravam respostas ou se portavam mal. Muitas vezes ficava à vista, em cima da mesa, como uma espécie de aviso permanente: ali, era para cumprir as regras!

A entrada na sala de aula fazia-se em silêncio e com respeito. Só nos sentávamos quando a professora desse autorização. Não era permitido falar e, para pedir autorização para fazê-lo, levantava-se o dedo.

Até um simples olhar para trás ou para o lado podia ser considerado uma falta de respeito.

A disciplina era por demais evidente. Quem não respeitasse as regras impostas podia ficar de castigo, virado para a parede, usar umas “orelhas de burro” ou levar umas boas reguadas.

A tabuada, por exemplo, tinha de estar na ponta da língua. Errar significava, muitas vezes, sentir a régua na palma da mão.

Os castigos variavam de escola para escola e de professor para professor. Eu, pessoalmente, só tenho a dizer bem da minha professora, Dona Rosa, e poucos castigos me recordo de ter recebido. Mas outros amigos meus, noutras escolas, contam histórias bem diferentes e lembram-se de muitas vezes terem sido castigados.

Também era obrigatório o caderno de duas linhas, que servia para aperfeiçoarmos a letra. E, nessa questão, reconheço que era uma verdadeira mais-valia: obrigava-nos a escrever com cuidado e ajudava-nos a melhorar a caligrafia.

Mas não era apenas a tabuada que tínhamos de decorar.

Havia os rios e os seus afluentes, as serras, os caminhos de ferro, as capitais de distrito… tudo tinha de ser aprendido e, muitas vezes, repetido sem pestanejar.

E as idas ao quadro?

Essas eram capazes de nos fazer entrar em pânico!

Sabíamos que não podíamos falhar. Quanto muito, tínhamos de errar o mínimo possível. E, enquanto procurávamos a resposta certa, a régua parecia estar ali mesmo ao nosso lado… quase como se estivesse a sorrir para nós.

E se Portugal Continental já nos dava muito que estudar, imagine-se quando entrava em cena o então chamado Império Colonial Português.

Aprendíamos uma visão do território português que ia muito para além do continente, incluindo Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Macau e Timor. Memorizávamos rios, portos, climas e produções, como o café e o algodão.

Havia, porém, coisas de que eu gostava particularmente: as gravuras que ilustravam os textos e as lições que ainda hoje permanecem na nossa memória.

Quem não se lembra de “O Regresso do Ceifeiro”, “A Lenda do Milagre das Rosas”, “Barca à Vela” ou “O Velho, o Rapaz e o Burro”?

Bastava abrir aqueles livros para regressarmos imediatamente a outros tempos.

Nos recreios, os rapazes jogavam à bola, brincavam às apanhadas e inventavam os seus próprios divertimentos.

Não havia telemóveis, tablets, computadores ou videojogos.

Havia uma bola, um espaço para correr e, acima de tudo, imaginação.

No fim das aulas, lá íamos, em grupo ou sozinhos, de regresso a casa. Muitas vezes pelo caminho da brincadeira, debaixo de chuva ou de sol.

Havia colegas que percorriam quilómetros a pé para chegar à escola. Outros, depois das aulas, ainda tinham de ajudar os pais nos campos.

Era assim a escola dos meus tempos de menino.

Uma escola de regras, de disciplina, de dificuldades e de algumas durezas que hoje nos parecem tão distantes.

Mas, no meio de tantas adversidades, também encontrávamos tempo para sermos felizes.

Talvez porque éramos crianças.

Talvez porque precisávamos de muito pouco para sorrir.

Ou talvez porque, quando olhamos para trás, percebemos que algumas das melhores recordações da nossa vida nasceram precisamente nesses tempos simples.

Há memórias que o tempo não consegue apagar.

 Bom dia para todos nós🍀



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